O Amor em Forma Redonda

Não sei quando foi a primeira vez que experimentei, mas garanto que devo ter gostado logo de início. É a especialidade culinária da minha mãe que mesmo sendo Nordestina deixava minha avó mineira pra lá de satisfeita. Lembro-me de ter  menos de cinco anos e sair com meu cofre de hello kitty na mão acompanhada do meu irmão que andava com uma bacia repleta de sacos lotados deles rumo a todos os vizinhos do prédio, porque era nossa forma de obter uma renda extra. A gente vendia pão de queijo porta a porta e todos compravam porque nos achavam fofos e porque era bom demais.

Eu ao lado da minha mãe, com uma fralda para não cair cabelo na massa, aprendendo o passo a passo e comendo um pedaço de cada etapa. Porque pão de queijo é capaz de ser bom na parte que é só polvilho escaldado, na parte que mistura o queijo e os ovos e está a ponto de ser enrolado e depois de enrolado também, quando assa então. Nem se fala. Enrolar pão de queijo era uma das coisas mais divertidas da minha infância. Tentar achar o tamanho ideal e colocá-los na forma de maneira que tivessem espaço para crescer sem esmagar os outros. E quando o tamanho não estava bom, eu fazia igual ao brigadeiro e comia rapidinho antes de pular pra próxima bolinha! Porque não há nada mais divertido do que fazer pão de queijo ao lado da minha mãe.

A gente mudava de cidade e a fábrica não parava, minha mãe chegou até a ensinar uma de nossas ex-empregadas a amassá-los no lugar dela, pois o braço dela estava adoecido devido a tanta massa produzida. E a moça fazia, não ficava aquela brastemp, mas dava pro gasto. E a gente nunca parou. Em uma de nossas cidades, além de ir pessoas basicamente desconhecidas em casa só pra comer pão de queijo, criaram até uma comunidade do orkut homenageando aquela coisa deliciosa. Então veio o forno elétrico e nunca mais mamãe conseguiu atingir o nível de perfeição, a não ser quando trazem o queijo de Minas e ela resolve assar no fogão. Enquanto isso fico sofrendo ao pensar que meu momento de ser a assadeira de pão de queijo da família está próximo e com a ciência de que eu necessito honrar o nome, afinal o que é bom precisa ser mantido e eternizado. E como esse tempo não chega, tenho que saciar minha vontade em outros meios.

Ou vocês pensam que após basicamente quinze anos ingerindo altas doses de pães de queijo dá pra sobreviver sem eles por muito tempo? Eu digo que não. É fato que muitas das minhas amigas vêm aqui em casa só porque quando tem visita tem pão de queijo e nessas ocasiões eu consigo desvincilhar-me de minha vontade, mas como ultimamente tem sido cada vez mais difícil vir alguém me visitar, resta-me comprar minha delícia em lugares aleatórios.

Na minha ex-escola a cantina era careira e o salgado mais barato era nada mais nada menos que o pão de queijo, o detalhe, porém, é que além de ser o mais barato era o mais gostoso. Eu não conseguia resistir a ele e só o deixava de lado quando tinha croissant de chocolate à minha espera, porque eu sou absurdamente viciada em pão de queijo, mas croissant de chocolate não é aquela coisa que a gente come todo dia. Quase todo dia eu comia pão de queijo. Aprendi que gosto dos pães que vendem na “casa do pão de queijo” e consigo suprir minha vontade com aquele pão de queijo congelado – meia boca.

Então surge a cantina do teatro e eu sou fresca pra comer e nunca experimentei um salgado além de coxinha e pão de queijo, mas vem muito frango na coxinha e pão de queijo não tem recheio, por isso é perfeito, então, resumindo, na cantina do teatro eu só peço pão de queijo. Exceto quando há croissant de chocolate, como já foi explicado. A coisa é tão automática que eu nem falo nada, basta chegar na frente da Mira pra ela já ir tirando um pão de queijo e me entregando. E olha que eu nem sou muito fã de queijo, só gosto em pão de queijo e em lasanha, queijo ralado no macarrão ou pastel de queijo e afins me dão arrepio, porque fica uma camada muito espessa de gordura e tal. Bolinha de queijo eu té engulo, mas eu sempre formo fios de queijo e faço meleca, então prefiro o bom e velho pão de queijo. Sempre preferirei.

Eu sempre quis ir pra Minas, porque minha vó nasceu lá e minha vó era fantástica, mas depois que a tia do meu pai veio nos visitar e trouxe um pouco dos pães de queijo deles a vontade apertou ainda mais. Porque pão de queijo é a comida mais brasileira que existe, quiçá até mais brasileira que arroz com feijão preto. Porque eu nunca ouvi falar de outro país que tenha. É uma iguaria nossa. Só nossa. E eu fico tão feliz quando sei que há algo tão bom que foi inventado bem aqui! Sei que o Brasil é enorme e eu não conheço grande parte, mas recentemente concluí que Minas é a Itália do Brasil. Porque a Itália até é bonita e tal, mas o que me dá vontade de conhecer não é o Vaticano, a Capela Sistina e a Fontana di Trevi, mas sim os deliciosos restaurantes e quer saber? Com Minas é a mesma coisa. Porque lá pode ser a terra do doce de leite e sei lá o que, mas acima de toda e qualquer coisa, lá é a terra do pão de queijo e não há amor mais redondo e delicioso que este!

E que explodam essas casas chinesas de Curitiba que fazem pão de queijo no liquidificador, colocam em formas de empada e assam a massa depois de a terem pré-fritado. Se querem estragar alguma coisa, estraguem algo que já é ruim, pois fazer isso com o ouro em forma de comida deve ser pecado e dos mais graves!

Aaaaahhh Pão de Queijo!

 

 

 

0 thoughts on “O Amor em Forma Redonda

  1. Gente! Mal eu sabia que minha humilde sugestão de post teria tanta história por trás! Adorei, e estou morrendo de vontade! O dia que rolar essa delícia na sua casa, traga pra mim!!! <3

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