O fim da minha infância.

Nunca fui consumista ou algo parecido com isso, pelo contrário, meu guarda-roupa é essencialmente o mesmo desde que me entendo por gente. Ontem foi dia de arrumar o bendito guarda-roupas, lá fui eu.

O detalhe é que eu adoro o dia de arrumar o guarda-roupa. Quer dizer, sou super desorganizada e talz, mas quando resolvo me organizar, libero todo o meu TOC, portanto, o dia de arrumação é sagrado. Ninguém pode estar por perto, por isso espero todos dormirem para iniciá-la, assim passo a madrugada inteira fazendo uma das coisas mais divertidas do mundo: arrumando.

Bom, tenho 17 anos agora e ultimamente comecei a reparar nas minhas roupas, a maioria delas estão comigo desde os 7 anos. Enquanto todo mundo fica chorando porque Harry Potter é o fim da infância delas, a minha ainda não tinha terminado, porque tinha as minhas roupas. Não consigo imaginar meu guarda-roupas sem elas, aliás. Mas ontem resolvi experimentar todas as roupas e estava absolutamente decidida a doar todas as que estavam apertadas em algum lugar, as que estavam velhas demais e as que eu não usava frequentemente.

Estava tudo muito bem, até chegar na gaveta dos shorts, em que eu percebi que somente dois dos meus seis shorts ainda serviam em mim. Vocês não fazem ideia de como eu surtei nesse momento. Quer dizer… Estou ficando uma bola aos poucos!!! Doei quatro shorts! Entendem a gravidade da situação? Mas tudo bem, respirei e fui pra próxima gaveta, a das camisetas. Foi a parte mais difícil da tal “arrumação”, porque eu não sou apegada a praticamente nada, mas havia umas camisetas ali que significavam tanto para mim que eu mau conseguia cogitar a possibilidade de me desfazer delas. Então eu as vestia e ficava ali querendo esticá-las, querendo que coubessem. As vestia e ficava pensando em maneiras de torná-las menos velhas e em quais ocasiões poderia voltar a usá-las. Tinha umas que estavam tão desgastadas, mas que eram tão minhas que nem tive coragem de vestí-las. Peguei-as e já coloquei no montinho de roupas para doar. Foi muito doído o momento em que decidi me desfazer daquelas camisetas que haviam sido a minha segunda pele por um bom tempo. Não esperava isso de mim, me senti tão idiota, mas ah… tão vazia.

O fato é que eu acordei hoje (depois de ter ido dormir as 5 da manhã) morrendo de vontade de ganhar “um dia de princesa”, sabem, igual àqueles do programa do gugu e do netinho (não sei se ainda existe isso, mas na minha época existia e era legal) em que você ganhava um cartão com sei lá quantos reais e podia ir a várias lojas gastá-los com roupas, sapatos e afins. Eu nunca tinha sentido tal vontade antes, nunca tinha sentido vontade de comprar coisa alguma, por isso meu guarda-roupas é basicamente o mesmo desde sempre, exceto pelas peças que ganho de aniversário das minhas tias e aquelas roupas usadas que minha família não quer mais e acaba parando comigo, nunca gostei de comprar roupas porque as minhas eram perfeitas, mas ah… Está tudo muito vazio agora.

Sinto que, como não tenho um cartão de crédito para sair e renovar meu guarda-roupas agora mesmo, passarei por uma tenebrosa fase de “falta de identidade”, onde usarei roupas que nada dizem a meu respeito e isso vai ser muito triste. Estou triste também pelo fato de ter deixado para fazer essa arrumação tão próximo do dia de voltar para a escola, impedindo assim que sobrasse tempo para eu fazer as minhas camisetas (porque sim, minhas camisetas precisam necessariamente significar/dizer algo a meu respeito, se não não me considero digna de usá-las). Então, declaro oficialmente uma época “sem identidade” na minha vida. Se você me vir a partir de agora, saiba que possivelmente não estarei sendo muito autêntica, tendo em vista que ajo de acordo com o que visto, mas tentarei continuar nos meus eixos, mesmo sem as minhas tão adoradas roupas. Aprenderei a sobreviver sem elas e a me adaptar às novas. “Novas”, porque na verdade sobraram as que anteriormente eram consideradas “legaizinhas”, mas agora são as “super legais”, pois é.

Agora, para embarcar na minha onda de querer comprar roupas novas (não que eu saiba que tipo de roupas comprar, não que haja um tipo de roupas que me defina, sou do tipo jeans e camiseta mesmo, mas agora pararei de usar jeans *em busca de uma nova calça-mãe* então me restam apenas as camisetas, porque casacos eu ainda tenho vários [mas logicamente uso sempre os mesmos, né]) apresentarei a vocês o novo “sapato-tema” da minha vida, o sapato oxford. Nunca tinha sentido nada de especial por sapatos, embora ame os meus all-star. Sempre achei meio loucas as mulheres que diziam que precisavam ter sapato tal, mas puxa… Eu estou absolutamente necessitada de um sapato oxford. Não existe coisa mais linda, elegante, linda e absolutamente linda, do que esse sapato, mas não encontro um legal nessa cidade e isso está me irritando muito. Então fica aí o recado: Papai Noel, se eu for uma menina boazinha até o final do ano, por favor me envie um sapato oxford, por favor, eu te imploro. É.

Sapato Oxford

Ok, já escrevi demais sobre esse assunto consideravelmente tosco. Podem me apedrejar agora, eu deixo. Só precisava registrar a primeira crise “mulherzinha” da minha vida e queria mostrar para vocês o quanto sou apegada às minhas coisas e o quão difícil é para mim deixá-las ir embora, não gosto de ver as coisas sumindo, prefiro eu mesma sumir primeiro, dói menos, sei lá. Sim, sou altamente egoísta, perdoem-me.

O fato é, hm… Deem uma limpa no seu guarda-roupa frequentemente, em meio a trocentas roupas que você não usa, há aquelas que você não larga, tentem diminuir a quantidade de roupas que vocês possuem, não há necessidade de se ter tanta coisa, enquanto você tem muito há um montão de gente que não tem nada e é legal compartilhar as coisas com quem realmente necessita (a família da minha diarista que agradece a todas as minhas limpas de guarda-roupa).

A lição aprendida é: tomara que meu marido ou quem quer que venha a morar comigo no futuro, goste de ponchos, porque eu posso ficar sem roupa alguma, mas não largo meu poncho azul por nada no mundo e ninguém nunca vai me convencer do contrário.

No fim, Tyler Durden estava certo quando disse “The things you own, end up owning you” – Sad, but true.

Acho que agora serei obrigada a “crescer” 🙁 (Aliás, obrigada aos meus genes por terem me feito ser pequena, assim me sentirei criança eternamente e não ficarei tão chata, é.)

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