O ínicio, o fim e o Meio

A maioria de vocês passou a infância ouvindo Xuxa, Balão Mágico e seus semelhantes. Nunca tive um cd de nenhum deles. Minha infância foi sim norteada por Sandy & Junior e Chiquititas e desses eu tinha todos os CDs que saíam. As primeiras músicas que ouvi foram clássicas, pois minha mãe havia lido que música erudita acalmava os bebês. Eu dormia ouvindo Mozart, Bethoven ou algum outro da coleção de clássicos que ela comprou, no entanto, ao acordar deparava-me com uma balhureira sem fim, ressoando palavras que mesmo sendo na minha língua eu desconhecia. Volta e meia ouvia meu pai cantando e meu irmão vivia dizendo que odiava o dito cantor, como boa irmã mais nova, fui logo o odiando também. Desde que me entendo por gente, portanto, eu odeio Raul Seixas.

Sandy & Junior acabou, Chiquititas também. Nunca mais comprei um cd, pois nunca mais me apaixonei loucamente por uma banda a ponto de fazê-lo. É certo que no auge dos meus quinze anos, enquanto eu era toda emo, comprei os CDs do Simple Plan (shame on me) e um ultra legal do Panic! At the disco. Fim do ano passado comprei meu primeiro cd da Legião Urbana também, mas é só. Sou louca para ter todos os dos Beatles e pelo menos algum do Chico Buarque, depois que tiver completado minha coleção de Legião, claro. O fato é que com todas as nossas mudanças de cidade, meus CDs foram se perdendo e hoje só tenho os comprados depois de grande. No entanto, desde que me entendo por gente, a coleção do Raul Seixas está completa e nem um pouco intacta, tendo em vista que meu pai continua a ouvir sempre que pode. Todos os CDs, originais. Ele tem até hoje os ingressos dos shows ao qual compareceu e sabe a vida do cara inteirinha, mas eu sempre rejeitei isso, porque sempre odiei o cara. Até que meu irmão começasse a aceitá-lo. Não que eu seja influenciável, mas sou completamente influenciável pelo meu irmão.

Atualmente o cd do carro é do Raul Seixas e esse é pirata, mas só porque baixamos todas as músicas em MP3 pra caberem em um cd só e a gente pudesse ouvir o tempo todo. Hoje eu sei músicas dele, além das mega famosas. Consigo ouvi-lo tranquilamente e até entendo um pouco de sua poesia, talvez quando criança fosse apenas um monte de barulho justamente porque não tinha maturidade e conhecimento o suficiente para compreendê-lo.

Meu pai foi ao cinema comigo pela primeira vez há duas semanas e depois disso queria muito poder juntar a família inteira numa ida ao cinema. O filme do Raul estreou. Era a oportunidade perfeita! Combinamos com extrema antecedência, mas acabamos por nos atrapalhar e no fim das contas ele saiu de cartaz de quase todos os cinemas, quase, porque em um ele ainda está, em apenas um horário, mas está. Hoje eu fui ao cinema com a minha mãe, o meu pai, o meu irmão e a namorada dele. Como se já não estivesse extasiada o suficiente com a simples situação, o filme começou. O filme começou e eu descobri que Raul Santos Seixas não foi apenas um porra louca qualquer, ele era formado em filosofia e durante o documentário são entrevistados todos os seus parceiros (tanto musicais quanto românticos), um fã e um cara que inspirou ele a acreditar em certas coisas, fundando uma “Sociedade Alternativa” de fato. A história do cara é simplesmente genial! Fantástica de verdade! Ele foi o primeiro rockeiro de verdade do Brasil e não satisfeito teve a brilhante ideia de misturar o rock com vários outros ritmos, como nessa música aqui. Quando criança ouvia bastante Luiz Gonzaga e Elvis Presley e sabia decorado toda a performance do Elvis no filme dele. Ele começou a cantar quando era criança e teve várias bandas antes de se tornar o Raul Seixas de fato. Seu auge de carreira ocorreu durante a ditadura militar e enquanto todos os tropicalistas eram presos ou se exilavam pra fugir dos militares, ele fazia músicas tão inteligentes que passavam pela censura e ninguém notava o que de fato queriam dizer e assim ele não foi presto! É certo que os militares o fizeram morar nos EUA por alguns anos, mas segundo o filme, foi uma coisa pacífica. Ele teve cinco esposas e três filhas, embora sempre quisesse um filhO. Ver as companheiras dele falando sobre ele foi fantástico! Descobri um Raul Seixas homem, amoroso, cuidadoso para com suas filhas e esposas. Ele até escreveu músicas para algumas delas!

O que ele gostava mesmo era de quebrar os padrões estabelecidos, por isso fazia todas aquelas coisas inesperadas, como a música do Diabo, que no filme é explicada e é fantástica! E mesmo que eu seja chorona, confesso que é muito raro lágrimas realmente caírem de meus olhos durante algum filme. Eu fico chorosa, lacrimejando, mas não choro de verdade. Com Raul Seixas eu chorei. Porque fiquei tão envolvida com a história e estava com tanta vontade de sair correndo para um show dele que quando começaram a narrar sua decadência, seus problemas com o álcool, a cocaína e suas loucuras com éteres e outras coisas, fiquei realmente triste. Porque eu nunca vou entender a razão para que a vida da maioria das pessoas geniais acabe graças a elas mesmas, que acabam se matando em busca de uma paz interior e de uma vida realmente bem vivida. Eu fico triste, com pena, com vontade de voltar no tempo e salvar a eles todos, de mudar alguma coisa. Mas eu não tenho essa capacidade, então me limito a lamentar.

Lamento hoje por Raul Seixas, um cara genial, fantástico, que mudou a forma como a música era vista no país e trouxe uma endoculturação maravilhosa, proporcionou intercâmbios fantásticos, tocou com pessoas incríveis e acabou consigo mesmo, sendo digno de pena no fim de sua jornada. A coisa que me fez parar de chorar e ficar feliz de novo, foi ver como foi o seu velório e enterro. Tinha um MAR de gente por lá e foram os fãs que os levaram para a cova, foram eles que o velaram e transformaram seu velório no velório dos sonhos, pelo menos no dos meus sonhos.

Até hoje se faz uma passeata anual de fãs de Raul Seixas em São Paulo. Até hoje há fãs que o acompanharam enquanto vivo e aqueles que mesmo tendo nascido depois que ele já havia morrido, conservam em si um carinho e uma gratidão muito especial para este que foi o rei do rock do país, pelo menos até agora. E que nunca parem de gritar “Toca Raul”, porque ele é uma essência, uma vida que está espalhada por cada um de nós e que jamais morrerá de verdade.

Hoje eu agradeço ao Raul por ter inspirado o meu pai a sempre me dizer para não ter vergonha de ser uma metamorfose ambulante, de ser diferente. Para sempre tentar outra vez, para ser maluca e que eu podia fazer tudo que queria, pois seria tudo da lei e que não havia o menor problema em sonhar com uma sociedade alternativa. Entre tantas outras coisas que nortearam a minha vida desde sempre e só hoje fui notar que era graças a ele. E também agradeço a ambos por terem me feito aprender que a morte é o segredo da vida, não algo a ser temido.

É por isso que hoje eu grito, sem a menor vergonha e para que todos ouçam: VIVA O RAUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUL!!!!!!

“Um sonho sozinho é um sonho. Um sonho sonhado junto é realidade.” Raul Seixas

(Daqui)

0 thoughts on “O ínicio, o fim e o Meio

  1. Fiquei arrepiada porque comigo foi quase isso. Meu pai ouvia alucinadamente e eu rejeitava completamente o barulho e as frases sem noção que era o que entendia das músicas. Cazuza eu sempre amei, mas não conseguia deixar o Raul entrar. Aí vieram meus 14 anos, minhas amigas rockeiras, os discmans nas salas de aulas e a música que marcou minha oitava série foi “Vampiro Doidão” e eu entendi que aquele cara era legalzinho. Passei a ouvir sem reclamar quando meu pai colocava o tal do Raul. E aí conheci o Fabio e a família toda dele. E aí hoje eu ouço Raul sempre que posso, sei as músicas, e sei a importância dele pro nosso Rock que nem existe mais, quase. Toca Raul, May 🙂

  2. Mayrinha, sou meio indiferente ao Raul Seixas. Não conheço nada além das músicas mais famosas e sobre a história dele fiquei sabendo de forma mais aprofundada com esse seu post. Por enquanto ainda não fede nem cheia, mas imagino como deve ter sido legal pra você descobrir essa raíz que até então estava desconhecida 🙂

Comentários: