O Lado Negro

(3/17)

(Daqui)

O mundo é dos ousados, para ser alguém, e não apenas mais um, você precisa fazer a diferença. Tento fazer isso com a minha aparência, mas aparência é o que menos importa e por isso falho. Para fazer a diferença você precisa tentar ser o que ninguém é, ir além, mergulhar a fundo nas coisas e fazer tudo valer apena, sendo único e mágico. Você precisa de sensualidade, jogo de cintura e uma cabeça super aberta. Aceitar propostas e ser capaz de fazer as suas também. Ser criativo e nunca desistir, não importa o quanto queiram que você o faça. É isso que acontece em “Cisne Negro”. Natalie Portman representa uma bailarina esforçadíssima que está há tempos na academia e ninguém dá bola, até que resolvem readaptar o clássico “Lago dos Cisnes” e ela coloca na cabeça que precisa ser a personagem principal. Para isso Nina ensaia dia e noite o máximo que pode e consegue o papel, mas o diretor a considera crua demais para tal, perfeita para fazer o “Cisne Branco”, mas como o intuito da readaptação é fazer com que uma única bailarina seja os dois personagens principais, explorando ao máximo suas qualidades, ela não é suficiente. Ao saber disso Nina batalha ainda mais, treina ainda mais e consegue atingir uma precisão invejável em seus movimentos, mas dança não é apenas movimento e sim sentimento e é isso que lhe falta. Ela precisa transmitir paixão, acreditar em cada um dos passos e não apenas fazê-los roboticamente. Ela precisa ser atriz também, representar um papel. Então ela tenta. Ele manda ela se masturbar, ela o faz, ela sai a noite, faz tudo o que jamais se imaginou fazendo para tentar atingir o nível do papel. Ela não tem mais vida, a vida dela se torna sua apresentação e isso toma conta dela, o personagem toma conta dela e ela acaba tendo o mesmo fim que ele. Esse filme não foi mais um, ele fez a diferença. Foi ousado. Ousadíssimo eu diria. É o meu favorito de 2011 e me transmite uma carga emocional incontável, porque eu tento ser artista e tenho os mesmos defeitos que a Nina. Nunca sou suficiente, nunca consigo me entregar às coisas e muito menos envolver-me por inteiro. É tudo superficial, falta um mergulho submarinesco ali. Quando eu digo que tudo é superficial realmente quero dizer tudo. Desde relacionamentos até minhas produções escritas. Nunca consigo atingir o íntimo das pessoas, acho que nunca consegui atingir sequer o meu íntimo. Mas eu tento. Tento meio que sabendo que fracassarei, mas tento. Só que chega uma hora que eu surto, a ponto de sequer querer pensar na coisa de novo. Estou assim com o teatro nesse momento, é difícil de admitir isso porque eu amo profundamente tudo aquilo, mas é necessário que eu admita para que possa tentar melhorar a situação. O fato é que eu tenho medo de ir lá e fazer tudo errado, de ser a pior da turma e estragar a peça de todos, de reprovar ou de simplesmente perceber que não sou boa o suficiente, que não nasci para aquilo. Se eu não tiver nascido praquilo, não faço a menor ideia de para o que foi então. O fato é que tenho um psicológico e autoestima muito frágeis e me abalo com qualquer coisa e a partir do momento que percebo que meus esforços estão sendo em vão e que continuo não sendo boa o suficiente, não adianta, eu surto. Mas eu não posso surtar. Não quero surtar. Bem, esse texto não está sendo escrito com o intuito de ser um texto reclamão e chato, pelo contrário. É pra ser um texto avassalador, reestruturador e eu vou encaminhá-lo para isso em breve. Começarei dizendo que sou como a Nina no início do filme, pura, inocente, superprotegida, mas que ama todas essas carcterísticas. Abomino a ideia de beber, fumar e de ver um casal se beijando com língua fico com um nojo tremendo. Não gosto de pensar nessas coisas que dão prazer, acho que prazer na maioria das vezes é um sentimento errado e vão que não deve ser o foco de nossas vidas. Por isso sempre abominei as piadas sexuais dos professores de terceiro ano e nunca entendi os meninos que perdem as madrugadas vendo filmes pornôs porque eu simplesmente não vejo razões para isso. Sou poética, do tipo que acredita em amor verdadeiro e não consegue aceitar a ideia de sair beijando desconhecidos só porque sente carência. Não consigo entender pessoas que se relacionam amorosamente sem estarem apaixonadas e muito menos as que agem como se fossem simples animais sexuais. É legal ser assim as vezes, embora muitos digam que é careta. No entanto, as vezes é exagerado e se torna um estado ilusório, porque o mundo não é esse conto de fadas todo e ficar procurando um amor verdadeiro talvez não leve em nada, além de uma casa cheia de gatos aos 60 anos. Explorar-me pode ser bom. Só não é preciso atingir o outro extremo, como a Nina no final do filme. Afinal tem coisas que não precisam ser empíricas para serem reais, basta que a gente use bons princípios lógicos e exploremos bem a nossa imaginação, como os filósofos que raramente testaram suas teorias e mesmo assim elas se provaram corretas em diversas ocasiões. O segredo é tentar, é se doar ao invés de se prender. Outro dia ouvi que sou muito contida e por isso não consigo fazer as coisas passionalmente e isso é uma tremenda verdade. Passo muito tempo pensando nas coisas que eu não posso ou devo sentir, retendo-as dentro de mim e talvez seja essa a razão para toda essa ingenuidade idiota. A questão é que os meus dezoito anos estão chegando e a hora de crescer, no sentido “maturidade” da palavra, chegou e eu não posso deixá-la passar. Há noções que precisam de uma vez entrar em minha cabeça, resoluções que precisam ser examinadas e realizadas. Está na hora de mais ação e menos teorias. Está na hora de me jogar e encontrar o meu lado negro. Porque todos têm que ter um lado negro, nem que seja por um pequeno momento. Tenho tentado vorazmente atingir esse feito e as vezes avanço bastante, mas em seguida minha mente começa a trabalhar para a regressão e eu volto a achar tudo errado e a querer ser certinha de novo. É que ser certinha é legal, mas não proporciona uma visão completa da vida e eu quero ter uma visão completa das coisas. Então eu preciso deixar esses meus conceitos do século XIX pra lá e ingressar de fato no mundo do século XXI, será que eu consigo? Será que eu consigo extinguir tudo que sempre fui, em prol de uma nova experiência de vida? Será que é realmente isso que eu quero ou só passei a achar que era de tanto ouvir falar? Questionamentos retóricos que só servem para me confundir ainda mais. No fim, acordarei intrinsecamente a mesma de hoje, até o fim dos dias. Porque no fundo esse tipo de mudança simplesmente me atormenta. Seria bom se tudo fosse fácil e menos incerto, mas como não é continuo aqui, sendo um alien. Espero que alguém me aceite um dia.

(daqui)

0 thoughts on “O Lado Negro

  1. Eu amei esse filme também, ele só não foi o melhor de 2011 porque teve Harry Potter e as relíquias da morte parte II, hahaha.
    E sabe que eu ouvi isso da Marisa na avaliação individual do Submarino, que ela deu opinião apenas de uma pessoa que só tinha me visto em cena uma vez na vida? Ela disse que eu pareci o tipo de atriz que é preocupada, que estuda, que sabe de cada passo que dá no palco, que sabe de cada passo que os outros estão no palco, que seguro os pilares e resolvo os problemas cênicos de qualquer um que errar mas que, por me preocupar muito com isso, eu esqueço de colocar sentimentos. Imagina meu desespero. Mas logo ela mesma se rebateu dizendo que depois dessa apresentação o George e a Airen foram falar pra ela não me levar em consideração por aquilo, porque eu estava num dia ruim. Aí fiquei mais tranquila, porque né, a Airen me conhece.
    E eu te desejo mais tranquilidade interior, porque, você sabe: O inferno não são os outros. Somos nós mesmos. 😉
    Te amo, e te aceito do jeito que você é. Exatamente assim.

Comentários: