O longe e o perto

Ficar longe é perceber tudo que te incomodava quando estava perto. Estar perto é perceber que é impossível transformar-se no longe. Estar longe é transformar-se em algo que você nem sabia que conseguiria e estar perto é voltar para o exato estágio anterior subitamente. Provavelmente nem tão subitamente assim, uma vez que algo deve ter desencadeado todas as sinapses outrora gravadas na memória e os neurônios, cansados e impacientes, voltaram a funcionar exatamente da mesma maneira.

Estar longe é permitir-se e acreditar. É tentar e provar para si mesma que consegue. Estar perto é se sentir eternamente acorrentada a coisas que não parecem dissolúveis. Estar longe é ficar acordada e comer chocolate só porque é bom. Estar perto é passar o dia inteiro com vontade de dormir, como a personagem de Murakami, só para fugir de toda a existência que as vezes se torna tão impossível de lidar e se empanturrar de chocolate para ver se a sensação de “paixão” que ele traz ainda te deixa viva, acordada e com vontade de algo.

Estar longe é viver e perto é apenas sobreviver. É uma condenação feita a si mesma e por você própria de que a estagnação é a única saída, o que te impede de simplesmente tentar ser diferente. A culpa, velha amiga que raramente abandona, retorna em intensidades redobradas e o medo de decepcionar as poucas pessoas que lhe importam se transforma em uma necessidade abrupta de mantê-las longe. Os toques são esquisitos. A inquietude e a necessidade de chutar e socar e morder nunca é saciada.

Alguns dizem ser loucura, outros dizem ser inconstância, outros ainda dizem que não “cresci”, há os que indiquem medicamentos ou ilicitudes e há aqueles que chamam isso de vida. Eu ainda não sei. E talvez eu nunca descubra. Sem escolha, sigo.

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