O Silêncio da Noite

Houve uma ruptura no espaço tempo com causas desconhecidas ocorrida em algum período entre minha infância e atualidade no qual eu parei de gostar de telefone. Telefone, aquela coisa linda que começava a tocar e eu saía correndo para atender falando “Princesinha do papai, boa noite”, enquanto queria mesmo era que fosse meu tio do outro lado da linha. Eu sempre tive uma família gigante, que sempre nos ligava, mas nenhuma daquelas pessoas me interessava tanto quanto meu tio. Porque pra ele eu não falava que era a princesinha do papai, pra ele eu cantava, sobre o silêncio da noite.

A gente não tinha assunto, não conversava sobre nada. O intuito da ligação não era esse. Era apenas dividir um bom karaokê à distância entre duas pessoas que se amam. E era a primeira música “de gente grande” que eu sabia de cor e a gente cantava e gritava que “quando a gente ama é claro que a gente cuida” e eu não entendia nem um pouco do sentido da música, mas nada importava, porque sempre era noite e a gente quebrava o silêncio com nossa cantoria desafinada sobre o amor, que naquela época não podia ser melhor representado do que pela minha família.

Hoje estou aqui, sozinha, no silêncio da noite e faz meses que não falo com meu tio. Faz anos que não tenho uma conversa agradável ao telefone. Faz anos que substituí as palavras pelas letras e passei a abrir a boca apenas para falar besteiras e coisas sem sentido e encheções de linguiça. A única coisa que restou de tudo isso foi a música, a cantoria, que agora eu faço sozinha, já que ninguém quer compartilhá-la via telefone.

E eu continuo a deitar e a me perguntar antes de dormir, invariavelmente, sobre onde estará você agora. Mesmo que o “você” tenha mudado de rosto e de personificação inúmeras vezes ao longo deste tempo. Mesmo que o “você” por muitas vezes não tenha sido ninguém. Ou todo mundo. Ou qualquer um.  Porque não importa quanto tempo passe ou o quanto eu e o universo em que vivo mude, sempre estarei sozinha, no silêncio da noite, juntando o antes, o agora e o depois. Ah! E cantando Caetano, claro.

0 thoughts on “O Silêncio da Noite

  1. Oii May
    sinceramente, eu também não gosto de telefone. Só fiz uma ligação agora porque quero muito comer yakisoba, hahaha *-*
    Nunca tive essa relação com falar com os outros, nem familiares pelo telefone, nunca fui muito de falar por nenhum meio, de qualquer forma…
    Texto bonito.
    ;**

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