O Teatro dos Sonhos

Não quero que você vá embora, mas não sei se quero que fique.

Nunca te dei a chave, mas você entrou mesmo assim. De supetão, sem nem precisar ser convidado. Entrou e me fez rir e deu chance para a minha impulsividade, que te adorou desde o primeiro instante.

Hipnotizou-me e magnetizou-me, chegando a ser um imã que me atraia de uma maneira impossível de resistir ou manter distância.

Fez-me gozar de uma alegria imensa em momentos inusitados, mas especialmente prazerosos e me fez ter coragem.

Você entrou e nem foi tão fundo, mas já fez uma bagunça enorme, mesmo sendo extremamente organizado.

Olho para as marcas que moram no meu corpo e gargalho. Mesmo sem querer, seu território está marcado.

Sinto cães farejadores aproximarem-se e sei que te encontrarão, não importa o quão bem se esconda e tenho vontade de gritar e dizer que há um alçapão por aqui em algum lugar, que eu te aceito e não vou deixar que te prendam.

Você mal passou da porta, mas eu já estou com vontade de te entregar a chave, não para obter o controle, mas pelo contrário, para garantir a liberdade.

Tenho vontade de provar que independente do que você tenha feito, sempre haverá um lugar aqui dentro para te abrigar e nem é porque és especial, é porque a casa é grande e vazia demais e eu preciso de um pouco de companhia às vezes.

Claro que o fato de eu gostar de você também influi nisso, tendo em vista que não é qualquer um que garante uma cópia desta chave.

Não é que eu precise ser escravizada ou alienada a um rol de ideologias que me são estranhas. Eu quero dividir as tarefas, oferecer o café e sentar enquanto escuto um pouco de todas essas coisas que nunca ouvi falar sobre. Não é que eu queria a polícia sempre te perseguindo para que assim você sempre corra até mim, mas eu quero que você venha a mim.

Você entrou de supetão, me fez rir e eu acabei te entregando a chave. Ficou um pouco, mas vai embora. Como aquela boa visita de férias que traz alegria, mas precisa seguir com a própria vida.

Eu acordo. Não te encontro mais em nenhum dos cômodos e há apenas uma chave em cima da escrivaninha, com um cartão avisando que um dia talvez você volte e eu sorrio. Como sorri no dia em que você apareceu na minha porta identificando-se.

Sorrio porque não preciso necessariamente da sua presença, só preciso que você saiba que pode se fazer presente sempre que quiser, pois será recebido com sorrisos. Sorrio porque vejo que aquela não é a chave que eu te dei, mas sim outra, de outra cor, de outra casa. Uma casa que eu nunca vou saber de quem é, porque não é este o intuito.

Você veio, entrou e foi embora. E eu aqui, aproveitando as novas visitas, os novos anseios, cheiros e vícios, sorrindo ao olhar para a chave que permanece em minha mesa e tentando lembrar-me de seu dono. E eu aqui, sentada nessa mesa de jantar, tomando minha xícara deste chá sem gosto enquanto termino o novo romance velho do meu autor favorito e sorrio.

Se um dia resolveres voltar, pode entrar de supetão, dessa vez você tem a chave. Pode sentar à mesa e confabular sobre o que vier em sua cabeça que já estou preparada para o maremoto de reflexões que surgirão daí. Pode acariciar meu gato e escolher um lugar para acomodar-se. Pode me abraçar e dizer que nunca mais vai embora, mas, por favor, vá. As visitas só são boas se forem curtas e se algo tiver que ser perpétuo, que seja o movimento, afinal, foi ele que nos uniu.

You met me at a very strange time in my life.

0 thoughts on “O Teatro dos Sonhos

  1. May, tô confusa. Não sei se você quer que ele volte ou se só quer seguir em frente… Talvez não seja pra saber. Mas, de qualquer forma, meu conselho seria seguir em frente. Ficar parada não te leva a lugar algum, e se for pra vocês se encontrarem de novo, vai ser pelo caminho. Sei lá.

    Teu texto me deixou confusa e com uma sensação de abandono. Espero que você não esteja se sentindo assim. Ou, se estiver, que passe logo.

    Beijos, minha querida.

  2. O amor é eterno enquanto dura.
    O mais interessante dessas experiências é que descobrimos que realmente há pessoas das quais possamos gostar.
    Mas não se iluda. Ou se iluda.
    Porque no fim acabamos sempre encontrando a verdadeiro valor das coisas que é a simplicidade das pessoas em querer ficar em nossas vidas.
    Curta a dor transformando-a em boas lembranças.
    Mas é claro que o sol, vai voltar outra vez. Pois a vida continua.

  3. Te disse que amei, e foi parar imediatamente no meu mural, mas sei que blogueiro gosta do comentário, então aqui estou eu pra falar, de novo, que amei, amei, amei!!
    Te amo!!

Comentários: