Oblómov – Ivan Gontcharóv

          Ganhei este livro no meu aniversário de 2014 e fiquei indignada ao perceber que nunca tinha escrito sobre, uma vez que foi uma leitura bastante importante na minha vida.

          Comecemos pela edição: capa dura e de tecido, um típico (e agora raro) CosacNaify. As folhas internas são finas, típicas de livros de colecionador e o acabamento é incrível, com direito a fitinha para marcar as páginas, que são muitas. O livro tem 733 páginas no total, sendo 690 de história (o resto é apresentação e sobre o autor e a obra).

          A história é narrada em terceira pessoa e repleta de diálogos. Os personagens principais são Oblómov, Stolz, Zakhar e a srta. Olga. O livro, como o nome diz, é sobre Oblómov. Ele é um senhor que mora em uma boa casa e tem um empregado chamado Zakhar, que faz absolutamente tudo por ele – desde compras a ajudá-lo a colocar as meias. Porém, ele acaba perdendo o direito de morar na casa em que residia, porque precisava resolver problemas burocráticos e sempre protelava. Aliás, a protelação é o maior problema do Oblómov e é sobre esse ponto que o livro se desdobra.

          Todos os dias ele acorda e tem ideias brilhantes de como resolver as questões de sua vida e ser uma pessoa ativa e independente, mas não consegue realizar nada sem planejar antes. Então despende grande parte do seu tempo planejando e desiste de realizar as tarefas, pois planejar o cansa. Desta forma, tudo o que ele precisa fazer é protelado e ele se afoga em dívidas e uma série de problemas burocráticos. Seu amigo Stolz vive tentando ajudá-lo, tenta inseri-lo em atividades sociais, fazer com que ele conheça pessoas e saia de casa, o obrigando a tirar seu robe de todo dia. Mas Oblomóv dificilmente se interessa pelas coisas e dificilmente consegue realizá-las. Até que ele se apaixona.

oblomov (1)

          No momento que a srta. Olga aparece na vida de Oblómov, nós achamos que vai acontecer alguma mudança. Ele não é o homem correto para ela, segundo a família dela, então precisa passar por uma série de provações para conquistar a confiança da família e a da própria Olga, que aos poucos se afeiçoa por ele. O romance é muito bem retratado, fofo de um jeito não pedante e consegue não ser meloso demais, mas sincero e real na medida certa. E a gente vê que Oblómov se esforça, mas é muito difícil mudar a forma como vive a vida e enxerga o mundo. A inserção do romance na narrativa é benéfica para ela, porque faz com que a gente saia do ritmo de “ai meu Deus, lá vai ele fazer coisa errada de novo” (definitivamente é um protagonista atrapalhado) e a gente enxerga as coisas indo para a frente.

          Ao final do livro, descobrimos que ele existe porque Stolz contou a história em detalhes para um amigo escritor, que a transformou em narrativa literária. Isso porque o próprio Stolz nomeou a mania irritante de Oblómov, de viver de planejamentos ao invés de ações, de “oblomovismo” e constatou que muitas pessoas viviam isso em diferentes graus, assim, escrever sobre parecia uma boa ideia de alertar as pessoas sobre as trágicas consequências deste tipo de escolha. Com isso, já sabemos que a história do Oblómov não é feliz, pelo contrário, ela é bastante reflexiva e pesada.

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          Para mim foi muito importante o contato com o livro, visto que sou uma dessas pessoas que planeja milimetricamente tudo que vai fazer e tem preguiça de realmente realizar. Na minha cabeça eu discuto, falo, penso e faço milhares de coisas, mas na vida real não é sempre que essa coragem e disposição batem à porta. Com o Oblómov eu percebi este defeito em mim de forma mais enfática e comecei a tentar mudar e melhorar, embora as vezes ainda seja complicado. Porém, todas as vezes que me vejo em casa, de camisola pelo terceiro dia seguido, lembro-me do Oblómov e trato de ir fazer alguma coisa da vida. Somos diferentes, eu não tenho um Zakhar para resolver os meus próprios perrengues, mas acabo protelando eles mesmo assim. Só que há situações e momentos na nossa vida que se a gente não levanta da cadeira e faz, as coisas não acontecem. E é toda a história do Oblómov que me fez perceber isso. E a da Olga também. Com eles eu aprendi que preciso ser mais Olga e menos Oblómov e desde que finalizei o livro, é o que venho tentado fazer.

          A literatura russa é bastante importante para mim, pois a profundidade narrativa sempre me causa reflexões e transformações na vida prática. Foi o que aconteceu com meu contato inicial com Tolstoi e, posteriormente, com Gontcharóv. Eu não sei o que acontece com os russos, mas a potencialidade deles é incrível. Ainda há muitos autores e histórias clássicas da literatura russa que me interessam e que um dia serão desvendadas por mim, mas, por hora, recomendo fortemente esta. A história pode parecer simples, mas é encantadora e realmente densa. Além de que o livro é lindo.

          Espero que com o fim da CosacNaify surjam outras editoras que tenham o mesmo cuidado com os livros e a tradução e que tragam para o português de forma bonita e delicada essas histórias clássicas de países longínquos e que muito podem nos ensinar.

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