Ode à Paella

Da primeira vez que comi camarão não me recordo. Lembro-me apenas de me entupir daquele crustáceo delicioso em várias das minhas idas e vindas ao Maranhão e também de decepcionar-me com o tamanho micro do mesmo na região próxima à minha casa, mas ainda assim, deliciar-me. Camarão virou meu fruto do mar favorito antes mesmo de eu experimentar qualquer outro.

Os tentáculos me pareciam nojentos, quebrar as cascas dos siris e carangueijos me pareciam complicados demais e chupar ostras era a coisa mais esquisita do universo. A vida se resumia aos bons camarões e suas mais variadas formas de preparo e aos peixes fritos – sua melhor forma. As idas à praia eram muito mais felizes depois da descoberta do camarão e a boca salivava – e saliva até hoje – ao simples pensar em uma refeição que o contenha.

Então fui a Barcelona. E aqui preciso comentar que, se Barcelona é meu lugar preferido no mundo (dentre todos os lugares que fui), grande parte do amor se dirige à comida. Eu tenho certeza que um dia irei à Itália e decretarei que a melhor comida do universo reside lá, mas por enquanto nada bate a comida Barcelonense.

Do café da manhã com o melhor chocolate quente da história, à janta com aquela carne di-vi-na. Nada era errado no quesito culinário. Os biscoitos e chocolates eram sensacionais, as coisas salgadas eram espantosamente divinas. Um prato de comida era barato e grande o suficiente para que eu e minha tia comêssemos e entre os melhores entretenimentos possíveis e as paisagens mais bonitas que a cidade podia oferecer, eu juro que a parte mais aguardada era a parte da comida.

Sempre digo que passei pouco tempo em Barcelona, porque não fui em um dos montes que queria, porque não pude entrar na água do mar, porque não explorei todos os museus possíveis e porque não comi o suficiente. E olha que eu comi mais do que havia comido a minha vida inteira.

A questão é que a gente é acostumado com certo nível de tempero e de diversidade de elementos em nossas refeições e lá esses temperos e diversidades são diferentes, múltiplos e sensacionais. Eu comi a coisa mais nojenta da minha vida (lesma gente, LES-MA) e vou dizer uma coisa: é bom. É MUITO bom. Principalmente quando depois dela vem aquele tacho de paella que você passou o dia inteiro criando uma imagem na cabeça e salivando desesperadamente enquanto o imaginava vindo em sua direção. Depois dos aperitivos estranhos, aquela paella repletas de frutos do mar que você sequer é capaz de identificar e que tem texturas muito esquisitas se mostra simplesmente maravilhosa. A melhor comida do mundo. A melhor comida da minha vida.

Ontem-hoje-amanhã, dias em que as famílias do país fazem bacalhau e os frutos do mar que puderem, tudo que consigo pensar é que nada será tão suficiente, suculento e absurdamente delicioso quanto aquela paella de outrora. E a cada prato de comida que vejo, a cada refeição que como e que considero boa me vem aquela sensação de “poderia ser melhor, poderia ser nível paella barcelonense”. Claro que comi paella aqui. Claro que me decepcionei. Claro que anseio visitar todos os países que desejo o mais rápido possível para ver se encontro algo mais gostoso e para poder repetir países o quanto antes. Claro que não perdoo saber que duas amigas foram para lá e uma delas não come frutos do mar, enquanto a outra não pôde ir a nenhum restaurante, porque sua família considera “desperdício de dinheiro” comer a comida local. Claro que nunca vou me conformar com quem se desloca até outro universo gastronômico incrível e continua no seu limitado mc Donalds. Não. Porque minha vida vale mais apena só por eu ter tido a chance de experimentar aquela coisa. Várias vezes. E eu realmente queria que todos tivessem essa mesma realização algum dia.

Dedico esse post ao documentário sobre H.P. Lovecraft, que ficou me mostrando polvos e me fazendo morrer de vontade de comer um.

3 thoughts on “Ode à Paella

  1. COMO ASSIM COMER COMIDA LOCAL É ESPERDÍCIO DE DINHEIRO? GENTE, ALOU, COMIDA!!!!!!!!
    Enfim, fiquei com tanta água da boca. Olhei pro frango que tô comendo com um certo nível de imaginação. Ele era camarão, paella, tudo. Mas não era, né. Já tenho um compromisso certo em Barcelona.
    Amei o “crustáceo delicioso” tanto quanto amo você e tanto quanto amo camarão. Beijo <3

  2. É engraçado eu ler teu post um dia depois de ter comido pela primeira vez na vida a tal paella. Só que era a paella campeira, com carne bovina e tal.
    Eu odiei! :((( Claro que a pessoa que cozinhou não fez o trabalho muito bem e se empolgou nos temperos, mas mesmo assim…achei ruim.
    Mas agora, depois do teu post, eu quero muito experimentar a verdadeira paella e ver qual é. Não sou muito fã de fruto do mar, só gosto de peixe e camarão, mas fiquei com vontade!
    E se não for pedir muito, bem que podia ser a paella barcelonense, né? hahaha
    Beijo!

  3. May, eu amo viajar e amo comer. Viajei super pouco, nunca fui pra fora, mas em todos os lugares que eu vou, comer é uma das partes mais importantes – e olha que eu sou bem chatinha com comida. Por exemplo, frutos do mar não são muito a minha praia (trocadilho não intencional porém apropriado), mas sempre que vou pro Nordeste eu me forço a comer peixe, camarão e tudo de mais local que tiver ali, porque acredito que faz parte da experiência, sabe? Gosto muito de ler sobre viagens e fico absurdamente indignada quando leio relatos de pessoas que passaram um mês fora de casa comendo fast food, gente! E nem é questão de preço, porque os locais tem que sobreviver de algum jeito e ninguém come no McDonalds todo dia, né? Comida é cultura, poxa.
    E eu nem sou a maior fã de paella do mundo, mas queria ir AGORA pra Barcelona comer essa aí que você contou <3

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