Oh! Admirável Mundo Novo!

Dentre os muitos livros lidos durante a minha pequena vidinha, esse certamente merece um lugar muito especial.

Admirável Mundo Novo foi publicado em 1932 e escrito por Aldous Huxley. 1932, mas extremamente atual. Deixem-me explicar a vocês:

Imaginem uma sociedade estável em que todos são absolutamente felizes. Esse é o “Mundo Novo” (ou “civilização”). Lá não existem relações afetivas entre as pessoas. Não existem “pais” e “mães” e muito  menos a noção de “família“. Todos são criados em laboratório, feitos em um monte de vidro com água. São fecundações de espermas e óvulos de desconhecidos. A sociedade é dividida em castas e cada uma delas tem sua função, sendo treinadas para cumprí-las com eficácia. Assim sendo, todos os membros passam por um longo treinamento antes de poderem realmente entrar na civilização. Enquanto dormem os auto-falantes tocam as lições que eles precisam decorar para a vida inteira. Eles aprendem dormindo. As coisas são repetidas tantas vezes que é impossível não sabê-las de cor.

Então as pessoas acordam e fazem aquilo que lhes foi determinado, sem nenhuma reação a isso. Quando há a possibilidade de algum sentimento aparecer, elas tomam “soma” que é uma droga que as mantém sempre submissas à sociedade. Ninguém pensa em fazer algo contra a civilização, porque todos gostam daquilo. Como não há conceito de sentimento, ou relações afetivas, todos são de todos e é mau visto quando uma mulher tem apenas um homem por uma semana inteira e vice-e-versa. Não há noção de infância também e ninguém nunca envelhece. A medicina é super desenvolvida então não existem doenças. No fim das contas, é uma sociedade boa, estável e feliz.

Então existe Bernard Marx, um cara que dizem ter caído álcool em seu tubo de “gestação”, por isso ele é meio deformado fisicamente. Bernard está saindo com Lenina, com uma certa frequência e a chama para fazer um passeio pela aldeia de nativos, que fica próximo dali. Bernard tinha recém começado a encontrar algumas falhas no sistema e não estava mais feliz ali, precisava de algo a mais, buscava coisas novas, por isso sugeriu conhecer a aldeia. Ao chegar lá eles encontram uma mulher que era civilizada, mas fatalmente engravidou e foi abandonada ali pelo “pai” da criança. (Para não engravidar as mulheres passavam por um tratamento maltusiano de hormônios e afins e essa mulher não participou de tal tratamento) Seu filho foi criado segundo as leis dos nativos, mas não era bem aceito, por ser loiro e branco. Ao ver dois civilizados adentrando na aldeia, a mulher fica feliz e conta a sua história na esperança de que a tirem dali, porque os nativos não gostam dela, porque ela tem um modo de vida completamente diferente. Então, Bernard descobriu que o tal “pai” do filho dela era o chefe dele, que estava pensando em mandá-lo para o exílio. Aproveitou e levou os dois para a civilização, para expor o chefe e continuar na sua vidinha boa.

Uma pausa para eu mostrar as referências: Bernard Marx vem de Karl Marx e Lenina refere-se a Lênin. Ambos contra o sistema e tentando mudar alguma coisa.

Voltando ao livro.

Chegando à civilização, Linda (a mãe do nativo) foi super mau recebida, porque ela era gorda e estava velha e tinha algumas doenças e isso não era bem visto. Além de que ela era mãe de alguém e isso era um completo absurdo. Por sua vez, John, o filho dela, foi super bem recebido, porque todos queriam saber como era um “selvagem”. Ficaram ao redor dele, tietando e querendo saber detalhes sobre seu modo inferior de ser. John, no entanto, se apaixonou por Lenina. Não conseguiu se adaptar ao novo lugar em que vivia, não aceitava tomar soma e depois de algum tempo passou a ficar em seu quarto na maior parte do tempo, enquanto lia os velhos livros de Shakeaspere, que já sabia de cor. Lenina também gostava do John, queria tê-lo. Foi até ele e se ofereceu completamente, ficou nua e disse para ele possuí-la. Ele bateu nela e fugiu. Achou um absurdo o que ela estava fazendo, não deveria ser daquele jeito, ele havia imaginado algo bem mais Shakeasperiano, mas ela simplesmente não conseguia entender isso. A mãe de John morreu. Ele foi até o hospital vê-la e enquanto chorava ao seu lado, as pessoas o achavam estranho por fazer aquilo. Todos eram ensinados a não sentir falta dos mortos. Se alguém morreu, é porque deveria morrer, não era mais útil. Ninguém chorava pelos mortos. Ele ficou possesso. Na hora da nova dosagem de soma que seria dada aos pacientes do hospital, ele pegou todos os frascos e jogou pela janela, enquanto gritava que aquelas pessoas deveriam querer a liberdade e o direito de serem realmente felizes ao invés de viverem se submetendo a todas essas besteiras. Bernard e Helmholtz (amigo de Bernard que está ajudando John a se inserir na civilização, mas acaba gostando das ideias de John e “mudando de lado”) estavam por perto e acabaram entrando na muvuca que se forma quando os pacientes vão agredir John por jogar fora a soma deles. A polícia chega e controla a situação. Prende os revoltosos que são levados a conversar com o Admnistrador do local, Mustapha Mond, este explica a cada um deles o papel de toda a civilização, como ela funciona, o que os torna superior e porque revoltosos como eles devem ser levados para longe. Bernard e Helmholtz acabam sendo levado para ilhas longínquas, onde estão outros revoltosos. Lá eles podem fazer tudo que quiserem e viver da maneira que consideram correta, mas nunca podem sair de lá e não há como sair de lá. John é obrigado a continuar na civilização, para servir de experimento à Mond.

Não vou contar o final do livro para não estragar. Agora contarei a vocês algumas das coisas que pensei quando terminei tão agradável leitura.

Acho que nossa sociedade se encaminha a passos cada vez mais largos para algo parecido com o descrito nesse livro. A falta de sentimentos vem reinando a cada dia mais e as pessoas se distanciam muito de tudo aquilo que as tornaria humanos. O que me deixou com mais raiva de mim mesma, é que na maior parte do livro eu acho o mundo novo muito bom, muito legal e bom de ser convivido e quando a Lenina vai na casa do John, me senti muito mau por achar que faria a mesma coisa se estivesse no lugar dela. Fiquei com raiva do John por ser tão preso a seu Shakeaspere e aos amores que jamais serão reais, ao invés de aproveitar aquilo que poderia ser real, mesmo que não fosse shakeasperiano. Ao mesmo tempo, fico com muita pena do John por ter que ser submetido a tudo aquilo, teria sido muito melhor continuar na aldeia de nativos. No fim, a relação deles é um retrato perfeito entre o racional e o sentimental e é incrível porque você acaba se identificando com os dois lados. O que me fez pensar mais ainda que estamos na fase de transição entre os dois mundos. Quando li as coisas que Mustapha Mond disse a eles, lá no fim do livro, parei para pensar e concluí que aqueles pensamentos regem a atual sociedade, quase que inteiramente. A gente está sendo dominado e manipulado e sequer estamos notando isso. Principalmente, o que me fez amar esse livro com todas as forças foi o conflito interno que ele me causou. Foram três meses tentando chegar a uma conclusão, afinal, sou uma selvagem ou uma dominada? E, porra… Sou uma dominada. Completamente. Sou exatamente como Bernard Marx. Gosta das ideias revolucionárias, mas não o suficiente para praticá-las. Tenho trocentas mil teorias, mas, infelizmente, se o Estado algum dia me dissesse que não posso tê-las, me desfaria delas. Isso fez com que minha auto estima caísse abruptamente, afinal, se nem eu sou autêntica, quem será?

Enfim, estamos em férias, vocês terão um bom tempo livre, leiam esse livro. Vale a pena. Muito. Muda completamente sua maneira de enxergar as coisas. Muito foda. Além de ter os diálogos e situações mais fodásticos do universo.

E se você já leu 1984 e gostou, vai gostar desse também. E se você já leu esse e não leu 1984, leia, porque George Orwell também era um cara esperto.

Obrigada querido Huxley.

P.S.1: Não há doentes, mas o hospital é necessário para fornecer soma a todos. As pessoas precisam de soma, porque é ele quem traz a sensação de felicidade que todos tanto amam. Quando as pessoas estão para morrer são internadas para um tratamento de soma, que as deixa tranquilas o suficiente para aceitarem o destino.
 
P.S.2: Era para eu ter escrito isso há MUITO tempo, mas sempre acho que vai ficar faltando algum detalhe, caso eu chegue a essa conclusão farei uma segunda parte para este post. Realmente amo esse livro.
 

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