Onde foi parar?

Cresci com um pai ouvindo Raul Seixas 24h por dia enquanto minha mãe ligava o som na cozinha com Martinho da Vila para tentar competir. Meu irmão foi um interminável apaixonado por Metal e eu sempre jurei a mim mesma que seria a diferentosa da família, a Ovelha Negra. Sempre jurei que seria aquela que ia gostar das coisas da moda e ponto final. Então eu descobri que Ovelha Negra na verdade era uma música de uma senhora que canta desde que tinha cerca de dezenove anos e que é conhecida como a “Rainha do Rock Nacional”. Descobri que de Negra eu não tinha nada, ovelha talvez quem sabe, mas certamente sou da mesma laia que o resto da família. Foi assim que eu me apaixonei por Foo Fighters, CPM22, The Strokes e vários outros logo depois que Sandy&Junior resolveram se separar. Depois de Sandy&Junior acabei rendendo-me por inteiro a esse ritmo maravilhoso.

Os anos foram passando e eu descobri que as minhas bandas realmente favoritas ou não existiam mais porque tinham brigado ou porque algum membro fundamental fatalmente havia falecido e assim sendo eu sempre fui órfã de bandas preferidas vivas. Eu escuto coisas de trinta, vinte, dez anos atrás, mas infelizmente, tenho uma dificuldade incrível de gostar de bandas de hoje em dia, que estão criando ainda, que são novas, vivas e vibrantes o suficientes para lotarem um Maracanã inteiro de fãs alucinados. Não consigo ser fã alucinada de algo vivo. Isso me estressa. Muito. Porém, caros colegas, percebi que a dificuldade não está somente na minha pessoa. Ultimamente os shows lotadores de Maracanã são estrelados por alguém de outro país, os grande shows são de gente de outro país. Os festivais de música do Brasil são recheados por gente de outros países. Porque o Brasil basicamente só sabe fazer sertanejo, pagode, mpb (porque nem bossa nova sai mais), aquela coisa que restart faz e diz ser rock, está evoluindo no pop, o axé só funciona no carnaval, o funk só no Rio de Janeiro e o rock, bem… O rock nem existe.

Não estou desmerecendo as bandas atuais, não mesmo. A questão é que se a gente parar para ouvir algo atual deparamo-nos com coisas mais emotivas, lentas, com poucas guitarras, solos e gritaria, com pouca revolução na letra, com pouca essência roqueira, se é que isso existe. Nem Rita Lee faz mais rock. Outro dia, inclusive, surpreendi-me ao saber que Roberto Carlos ficou famoso por fazer rock, se o que ele faz atualmente ainda é considerado rock o povo daqui tem SÉRIOS problemas de identificação musical. Há uma exceção no ramo, que se perde diversas vezes e me irrita em inúmeras ocasiões, mas que as vezes ainda faz eu lembrar que talvez haja uma chance pro rock nacional, essa “esperança” é a Pitty. Pra mim é a única ainda roqueira aqui. Os caras do Fresno até tentaram, eu realmente gosto de algumas músicas deles, mas não acho que aquilo seja rock, pode ser qualquer outra coisa menos rock, assim como Nx0 e todas essas outras bandas que eu sequer sei o nome.

O que me irrita, porém, é que as pessoas que se dizem roqueiras na maioria das vezes nem parou pra pensar que existe um rock daqui, do nosso país. Que as terras verde-e-amarelas, mesmo que falhem nisso atualmente, um dia já souberam fazer rock’n roll e dos bons. Eu prefiro proclamar para o mundo que adoro bandas mortas e que choro por nunca poder ir a um show dos meus queridos do que viver sem sequer saber que eles existiram. O Brasil foi muito bom em rock e é isso que quero provar aqui. Fiz uma mixtape com 14 bandas e músicas que eu acho que representam o nosso rock. Faltaram VÁRIAS bandas/cantores e eu peço perdão por isso, porém se eu fosse colocar todos acabaria eternizando a lista. Vale ressaltar que eu fui a um show do Ultraje a Rigor ano passado e foi tão emocionante que eu nem sou capaz de descrever, ainda pretendo ver Pitty e Sepultura ao vivo e a cores e sempre chorarei por Cazuza, Legião, Mamonas, Raimundos e Raul.

Eu já pensei em ter uma dupla de bossa nova, pra ser o novo “Toquinho e Vinícius” porque acho que o Brasil realmente precisa reavivar a bossa nova, não dá pra inventar uma coisa TÃO legal e simplesmente jogá-la fora assim e também já pensei em arranjar uns amigos espertos e fazer uma banda de rock. O problema para os dois empreendimentos consiste no fato de que eu não tenho nenhum talento musical, mas se alguém algum dia fizer decentemente alguma dessas coisas, por favor me passe o trabalho que eu com certeza apreciarei. Quanto ao rock, eu acompanho o Trama Virtual que sempre expõe novas bandas e músicas e não desisti da minha busca infindável por um roquenrow brasileiro decente.

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Engenheiros do Havaí (eu sei que o certo é Havaii, mas gosto do acento) é de 1984 representa o rock gaúcho que sempre foi muito importante e decente e sempre desponta novos talentos fantásticos, como o Lucas do Fresno, por exemplo. A música escolhida trata de um tema interessante, tem uma batida agradável e é interessante pelo fato de criticar o pop e as pessoas pops em uma banda que é popular. Eles usam de críticas e ironias fantásticas, são maravilhosos.

Ultraje a Rigor é de 1981 e foi a primeira banda a obter um disco de platina para o rock nacional e o álbum “Nós Vamos Invadir sua Praia” foi considerado pela MTV em 2008 como o melhor álbum de Rock do país. “Inútil” não é minha música preferida da banda, mas eu gosto tanto do cd citado que não consigo eleger a preferida, acabou sendo esta porque a melodia me agrada bastante e a letra é de uma ironia incrível. Eles são capazes de nos fazer gritar em voz alta cada coisa… Roger é um gênio.

O primeiro disco do Houdini é de 2003, não sei de que ano é a banda pois não há quase nada sobre ela na internet. Não sei como a ouvi pela primeira vez, o fato é que era tão viciada em CPM que quando conheci Houdini não teve como não me apaixonar. O cd “Dia de Sorte” só tem músicas legais, nas letras não há apelo político, apenas histórias sendo cantadas mesmo.

Não sei o que comentar sobre Mamonas. Eu lembro de quando eles morreram, foi horrível. Eu tinha cerca de dois anos, mas lembro da imagem do mato com o avião no meio e a notícia de que eles haviam morrido. A gente tinha o cd em casa e sempre ouvia e cantava, eu e meu irmão. Absurdamente divertido. Só há poucos anos foi que entendi o que significava o nome da banda e achei fantástico. Eles eram ótimos porque sabiam fazer piada em forma de música e música legal, divertida mesmo. Não faziam só rock, mas vários ritmos, melodias e estilos e os shows deles deviam ser épicos. Sempre serei triste por não ter podido ver. Escolhi Robocop Gay porque acho ela irônica e hilária demais e os acho corajosos por terem feito uma música dessas – e todas as outras – sem a menor vergonha. Eles eram fantásticos. O legal é que a banda é de 1995 e eles moreram em 1996, durou apenas SETE MESES e todo mundo conhece, todo mundo já ouviu alguma música e enfim, eles venderam mais de TRÊS MILHÕES de cds em sete meses de banda! Ah gente, nem tem o que dizer. Basta.

falei sobre Raul por isso nem me alongarei muito na coisa, só comentarei a música. É uma mistura de uma música de Elvis Presley que ele ouvia e cantava quando era criança, enquanto dançava com “Asa Branca”, que é o hino do Nordeste. Essa música é muito legal porque mostra a capacidade incrível dele de misturar todas as coisas possíveis e ainda fazer músicas geniais, essencialmente rockeiras e divertidas. Raul foi um gênio. Ele era baiano e tocou de 1968 a 1989.

Sobre Cazuza eu confesso não saber muito. Assisti ao filme dele, mas fora o Daniel Oliveira não lembro de mais nada. Comecei a prestar atenção nele depois de ter visto uma peça teatral em que haviam acoplado várias músicas dele para uma espécie de homenagem. Eu não sei nada sobre ele como pessoa, nem sobre ele músico. Só que ele fazia parte do Barão Vermelho e depois começou na carreira solo. Todas as músicas que conheço dele são as famosas, não por desmerecimento, por preguiça mesmo. Se alguém fizesse uma mixtape chamada Cazuza com músicas importantes dele eu certamente me renderia. Carioca e cantor na década de 80/90. “Ideologia” é minha música preferida dele porque a letra é fantástica e o ritmo é muito legal, tem solos de guitarra incríveis e enfim, daquelas que a gente ouve gritando e “entrando na pira”.

CPM22 é de São Paulo e surgiu em 1995 eles cantam hardcore e suas músicas são inspiradas em sentimentos, mas não são emotivas como as do emocore. Eles mantêm a guitarra/bateria/baixo muito vivos e continuam cantando animadamente gritando. As letras contam histórias de vida e a “Tarde de Outubro” era minha preferida na minha infância, acho linda e maravilhosa e sempre recorro a ela quando sinto que estou entrando na fossa, mesmo com Adele e emocore no mundo, porque nada espanta uma fossa melhor que CPM.

Skank é mineiro e surgiu em 1991 cantando rock e depois mudando para diversas coisas. Não gosto muito da banda, mas há várias exceções, logicamente. “É proibido Fumar” foi escrita e cantada pela primeira vez por Roberto Carlos, só que eu não consigo gostar da voz dele, nem de quando ele era novo. Então optei pela versão do Skank mesmo. Essa música é importante pro rock nacional por ter sido uma das primeiras, mas nessa versão tem uns instrumentos esquisitos, acho que falta guitarra, enfim.

Hardneja Sertacore é gaúcha e canta clássicos do sertanejo em ritmo de hard core, acho ela maravilhosa porque eu adoro clássicos do sertanejo, as letras são lindas, só o ritmo que é meloso demais, só que quando todas as metáforas são misturadas com guitarra/bateria/baixo e tom de hard core tudo fica melhor! Acho fantástico. Tenho todo o cd no computador e volta e meia estou escutando que o fio de cabelo comprido ficou grudado no suor e que o moço dormiu no bando da praça etc e tal.

Ira! é paulista também, de 1981 e viveu os tempos de ouro do rock nacional emplacando vários sucessos. “Teorema” é uma música linda que foi gravada por Legião, mas que eu tenho quase certeza que foi escrita pela galera do Ira! mesmo. As letras deles são maravilhosas, o vocal também e o ritmo é aquela coisa gostosinha.

Meninos e Meninas é uma música com temática gay em pleno ano de 1989. Legião Urbana é assim, adora sambar na cara da sociedade, fez isso de 1982 a 1996, parando somente porque Renato Russo morreu. É a minha banda brasileira preferida, não consigo escrever muito sobre porque eu vou logo me inflando de sentimentos e suspiros e inevitavelmente choro. É sentimento demais por aqui, meu povo. Escolhi essa música por ser lá do começo, dum dos meus discos preferidos, ter uma melodia maravilhosa e a letra ser absolutamente divina. O mundo precisava que Legião fosse eterna. Se tem uma morte que eu nunca vou entender é a do Renato, se tem uma doença que eu nunca vou entender é a do Renato. E eu morro de orgulho de dizer que sou Brasiliense por causa deles, porque eles se juntaram lá, porque eles falam da cidade em várias músicas e ah. Legião.

Aí está a outra brasiliense da história, porque a terra do sertanejo um dia foi a terra do rock. Raimundos é de 1987 e misturou rock com todas as coisas possíveis, fez músicas épicas que ficaram na boca do povo por muito tempo e que são famosas inclusive hoje em dia. Eles ainda se apresentam, mas Rodolfo – divo – saiu da banda pra virar protestante e agora canta música gospel e isso é tão cômico que eu não tenho saco pra formação atual da banda e as pessoas que foram no show disseram que nem vale apena porque não é a mesma coisa e tal. “Me Lambe” é aquela música que eu sei de cor desde que me entendo por gente sabe-se lá como, que eu adoro ouvir enquanto estou tomando banho pra fingir que o shampoo é o microfone e cantar endoidecidamente. Fantástico.

Pitty é mais uma prova de que Bahia não é só axé, ela entrou no mundo do rock em 2003 e se tornou sucesso nacional desde seu início, creio eu. Já me decepcionei horrores com ela, mas acho que o último disco voltou um pouco pra essência, gosto bastante. Essa música acho legal porque o título lembra meu livro preferido “Admirável Mundo Novo” e a letra é muito muito muito legal, daquelas rock de verdade. Adoro quando mulheres resolvem abalar as estruturas rockeiras do mundo, porque a gente também consegue. Joan Jett e Janis Joplim são mais que provas disso.

Sepultura surgiu em 1984 e sobrevive até hoje, com uma formação completamente diferente, mas mesmo assim. Eles são a prova de que é possível fazer heavy metal sendo brasileiro, minha crítica consiste no fato de eles não cantarem em português, já dizia Renato Russo que se a gente mora no Brasil e fala português é importante levar isso pra música também, mesmo que eles sejam ótimos em cantorias em inglês e tal. Acho muito legal o álbum em que eles misturam heavy metal com músicas indígenas e adorei a apresentação deles no Rock in Rio do ano passado. Essa música aí pode ser considerada o “bonus track” da história, porque não queria que tivesse algo inteiramente em inglês aqui, mas achei que seria ridículo fingir que Sepultura simplesmente não existe, porque eles existem e são fantásticos. A banda foi formada em Minas Gerais, mas hoje em dia não tem nenhum de seus criadores no elenco e não sei de onde eles dizem ser, mas o cantor nem é brasileiro mais… Absurdo.

Eu sei que o dia do Rock foi semana passada, mas meu calendário é outro. Finjamos que hoje é dia de São Róqui e festejemos!

por mais guitarras e menos pandeiros!

0 thoughts on “Onde foi parar?

  1. Nhay, May, que sincronia essa nossa, hein? Acabo de postar sobre Rock, chego aqui e me deparo com o quê? Rock m/ Issaê.
    Mas comentando o teu texto, menina, eu tenho uma dificuldade enorme de achar alguma coisa brasileira que valha a pena gastar o ouvido, sabe? A dificuldade é tanta, que ultimamente, só tenho ouvido bandas internacionais.
    Sua lista ficou ótima, gosto de quase tudo, menos de Hardneja Sertacore que eu nunca tinha ouvido falar, mas já me diverti só com o nome ;DD
    Beijo.

  2. Mayroca, nunca tinha parado pra pensar que hoje realmente não existe rock no Brasil, ao menos não como já existiu na época dos nossos pais, por exemplo.
    Fiquei bem triste com esse pensamento, bem triste mesmo. E eu achei essa mixtape TÃO a sua cara.
    Vou matutar eternamente tentando me lembrar de um rock nacional e atual e se lembrar venho aqui te contar.
    Beijos

  3. “gostar apenas do que é moda” não rola. totalmente nocivo e impossível quando se possui um cérebro.
    eu não consigo gostar de praticamente nada que exista hoje em dia. só dos 60/70, em extrema maioria.
    dos brasileiros que você citou, gosto de alguns, detesto outros. raul era gênio, mutantes é sensacional. mas tenho colapsos nervosos de desgosto se ouvir cpm 22 ou pitty, por exemplo.

  4. Só tem coisa boa aí no seu post. Não tem nada que eu não goste ou seja fã há tempo, mesmo que eu já não escute tanto Skank, por exemplo. São bandas que marcam pelas letras e melodias não só uma geração, mas todos aqueles que se arriscam a escutá-las uma vez. Adorei. 🙂

    Beijos!

  5. Eu e meu pai estávamos falando sobre isso um dia desses, que o Brasil está pobre em relação à bandas e artistas atuais. Meu pai me contou que antigamente tinham programas de tv e rádio que estavam sempre lançado artistas, que tinham muito mais músicas brasileiras que faziam sucesso e que ele não vê isso hoje em dia. Num país que já teve Tom Jobim, Cazuza, Renato Russo e etc, é triste pensar que hoje em dia não se tem um grupo que arraste quarteirões com músicas de qualidade, mas como muitos dizem, será que não é um retrato da sociedade em que vivemos hoje?

    Eu também adoro rock e gosto muito de Mamonas, Cazuza, CPM.. a Pitty é foda demais, já tive o prazer de ir num show dela, é do caramba! Também adoro Legião Urbana e acho o Renato Russo um gênio! É dificil dizer uma música preferida, mas eu adoro Ainda é Cedo, faço o que você disse que faz com Me Lambe kkkkk Vou baixar sua mixtape porque tem algumas bandas que eu não conheço muito e é sempre bom parar pra conhecer bandas de rock não é mesmo? ainda mais se forem brasileiras e boas como você diz que são!

  6. Maymay, acho rock nacional muito você. Mais até do que heavy metal e tal.
    Não sou a mais entendida no assunto, então não sei como anda a cena atual. Mas curti sua mixtape. É daquele tipo em que a gente conhece as músicas de ouvir em todos os lugares, da infância, da pré-adolescência, mas nem se dá conta.
    Acho tão importante que isso exista. É só mais um argumento pra usar contra esses chatos que insistem em blasfemar contra a cultura nacional com piadinhas infames do tipo “blablabla na Inglaterra o Paul tocou na abertura das Olimpíadas. Quem vai ser aqui no BR, Michel Teló”. Acho tão blé. O cara surgiu há cinco minutos e já fica todo mundo agindo como se nada de bom nunca tivesse existido. Tá aí a prova.
    Beijo! <3

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