Opinião Pessoal Sobre Um Problema de Todos

Ao contrário das pessoas comuns, não entrei na Universidade atrás de um diploma. Claro que quero um, mas não foi a razão principal para que eu me submetesse à chatíssima prova do vestibular. O que eu queria era mudar o mundo, torná-lo melhor, à minha maneira. Meu curso tem muito a ver com este fato, mas, principalmente, eu entrei na Universidade para aprender. Aprender sobre o mundo, sobre toda a sorte de coisas, expandir meus horizontes e agregar o máximo de conhecimento possível. Entrei para virar a melhor amiga de grandes filósofos e intelectuais, autores de textos complicadíssimos, mas extremamente maravilhosos.

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Já disse aqui uma vez e repito: eu nunca sonhei em ir para a Universidade. Na minha cabeça com dezessete anos eu já teria feito um filme pelo menos e já poderia viver da minha arte, ledo engano. Coagida pelo mundo inteiro a aceitar o fato de ir para a faculdade e a olhá-lo com esmero, passei 2011 inteiro fantasiando sobre aquele maravilhoso universo, onde haveria árvores para que eu estudasse embaixo e por ser de graça tudo seria mais fácil, não só na vida intelectual quanto na pessoal. Eu imaginava um lugar repleto de diversidade, com gente de todos os jeitos e classes sociais, porque sempre fui do tipo que além de querer aprender com livros gosta de aprender com gente. Achei que chegaria lá e teria meus problemas resolvidos, a vida encaminhada para uma melhoria nata e finalmente eu poderia ser feliz. Engano. Mais uma vez. Não digo que a universidade não é esse lugar maravilhoso que te faz achar-se o rei da cocada preta, porém, está muito longe de ser o lugar diverso que eu imaginava. A decepção começa pelo fato de não haver árvores no meu campus e assim sendo eu ser obrigada a estudar na biblioteca ou em casa e termina, tristemente, pelo fato de aquele ser um lugar de retração, não de expansão como eu havia imaginado. Pois não há a maior diversidade de gente, pois a predominância dos bem sucedidos financeiramente é um fato, pois ainda há preconceito, seja com os que usam drogas ou com os que não usam, mas também preconceitos raciais, sociais e de gênero. É um lugar tão triste quanto o resto do mundo, tão humano quanto. Nada de especial ou mágico. É onde o conhecimento letrado é o rei e quem não o detém merece ser escravizado. Onde as pessoas são julgadas pelas suas habilidades e onde julgam qualquer um de seus atos como atos políticos.

O cerne deste texto, no entanto, encontra-se no assunto do momento, a tal da greve. Como já foi dito, eu gosto de revoluções. Adoro participar de passeatas, movimentos e tenho coragem de dar a cara a tapa para fazer valer algo em que eu acredito. Todos os testes de personalidade que já fiz na vida dizem que eu sou “idealista” e talvez essa seja a razão. Sou amplamente revoltada com a falta de respeito e valor que o governo brasileiro dá à classe dos professores. Se eles não valorizam os que ensinam as coisas para as pessoas, como podem querer que valorizem o resto? É ridículo, porque a capacidade intelectual é a que tem mais valor nos dias atuais, onde não é mais necessário grande força para manipular uma máquina, mas sim inteligência para se construir novas máquinas. O descaso com a educação ocorre desde para com os pedagogos e professores de creches e primeiros níveis educacionais, como para os de ensino fundamental, médio e até superior. Se educação é um direito previsto na constituição para abranger toda a população, as condições para tal deveriam ser dadas. Afinal, é fácil dizer que existem escolas públicas e elas são lotadas então o governo já cumpriu seu trabalho, sendo que nem os professores universitários, que geralmente têm doutorado ou pós doutorado são bem remunerados. É triste, mas é fato que a remuneração tem o poder de mensurar a qualidade do trabalho, afinal quando a pessoa está fazendo um bom trabalho dá-se um aumento de salário a ela. A questão é que uma vez em que os professores universitários estão insatisfeitos com a sua condição eles acabam por não serem bons professores e assim seus alunos acabam por não serem bons profissionais. Tudo isso é bem generalizado e deve ser relativizado, óbvio, mas a intenção aqui é generalizar mesmo. Um estudante de Licenciatura que tem aula com alguém já insatisfeito com a arte de educar, formar-se-á com a insatisfação e a falta de motivação já em mente e assim sendo acabará por não ser eficaz em seu trabalho, educando de qualquer jeito seus alunos e assim tornando o fato um ciclo vicioso em que nunca haverão profissionais competentes e o principal: pessoas competentes. Resumindo, é como todos sabem: um país só pode ser realmente rico se sua educação for melhorada, pois não há melhor fonte de riqueza do que gente inteligente e não apenas no conhecimento acadêmico, mas inteligente por ser capaz de assimilar a maior forma de conhecimentos possíveis.

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Ano passado houve uma greve, pelo menos na minha universidade, e nela foi pedido para que o governo reestruturasse a carreira do profissional, além de uma diminuição na carga de trabalho para que desse mais tempo de preparar as aulas e continuar com suas pesquisas, caso fossem feitas. A deliberação do caso já deveria ter ocorrido, mas não foi e isso causou revolta nos educadores que anseiam por serem ouvidos. Além disso, há também o pedido por aumento de salário e outras coisas que legitimem a importância e o valor desse profissional para o completo funcionamento da sociedade. Cerca de trinta e nove instituições espalhadas por todo o país já aderiram ao movimento que está tomando proporções catastróficas e talvez seja o início da revolução educacional que esse país tanto precisa. Além da greve dos professores, há também a de todos os servidores públicos que também reivindicaram por aumento e não foram ouvidos e para auxiliar o movimento de todos, há o indicativo da greve estudantil, pauta que vem sendo discutida em várias universidades. A questão implantada por muita gente é do fato de que parar as aulas não significará nada sem grandes manifestações e pressão ao governo, que é o único com capacidade para resolver o problema. Eu concordo e é aqui que entra a minha crítica.

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Para uma universidade declarar greve não precisa de 100% de adesão, os professores podem continuar dando aulas se dignarem necessário e os alunos devem comparecer a elas caso não queiram reprovar por faltas. Não há problema nenhum, tendo em vista que nenhum profissional é obrigado a aderir à greve feita por sua classe e nenhum estudante é obrigado a perder aulas, assim como nenhum estudante está agindo ilegalmente por querê-las. A única maneira que o professor pode ser considerado ilegal no ato de dar aulas é em caso de greve estudantil protocolada, em que nenhum aluno pode levar falta, mesmo que ele esteja em Las Vegas fazendo coisas completamente nada a ver com a causa abordada, porque ninguém é obrigado a aderir a causa alguma, ninguém é obrigado a nada. Cada um age de acordo com sua consciência e tenta ficar bem consigo mesmo, na maioria das vezes não se importando com o problema alheio. Particularmente acho descaso dos alunos que não se importam com a causa dos professores, assim como acho ridículo quando os professores, alunos ou qualquer pessoa relacionada com a greve indo viajar para aproveitar o tempo sem trabalho/aula. Seguindo a minha consciência pessoal e a minha vontade por voltar à rotina escolar o mais rápido possível, obviamente ajudarei no que me couber e for necessário. No entanto, quando um professor está dando aula e não há greve estudantil, independente da razão pelo qual ele esteja dando aula ou a razão pela qual eu não queira participar da mesma, devo esforçar-me a comparecer. Porém, a partir do momento que uma greve estudantil é implantada, é de minha obrigação participar dela. Não que seja de obrigação de todos, mas considero como uma obrigação minha, porque eu apoio a causa, eu concordo com as pautas, eu estudo para ser professora e acima de tudo: eu planejo deixar um mundo mais vivível para os meus futuros filhos. A “solução” que vem sendo discutida é a suspensão do calendário escolar, que eu discordo. Pois o objetivo de greve é paralisar algo que não deveria estar sendo paralisados, para assim chamar atenção do chefe que se sentirá pressionado a fazer algo. Quando se suspende o calendário é como se fossem dadas férias coletivas a todos e assim perde-se o propósito de greve e aí sim todos têm o mais absoluto direito de ir para a praia e curtir a vida até que a greve termine. Perde todo o sentido, todo o efeito e ainda atrapalha tudo. Porque se a greve durar um mês, o que vai acontecer é que perderemos as férias do meio do ano, se durar mais OU teremos que repor as aulas nos contra-turnos, ou atrasar-se-á o inicio do próximo semestre letivo, culminando num atraso das férias de fim de ano e num verdadeiro caos para nós, estudantes folgados e acostumados com os quatro meses anuais de férias. Porém, independente de toda e qualquer coisa, já vou logo avisando que prefiro atrasar a conquista pelo diploma e pelo conhecimento, mas garantir que os professores sejam mais bem vistos do que continuar com o mundo da maneira em que se encontra. Mas assim: se quiseram começar com a greve, que lutem até atingirem de fato seus objetivos. Porque atrasar o calendário inteiro em vão é tremendamente desnecessário.

E talvez essa greve não mude o mundo, talvez não mude nada, mas eu prefiro orgulhar-me de uma classe trabalhadora que lutou do que de uma que ficou calada aceitando todo tipo de desconsideração possível. Que o Brasil passe a dar o valor necessário aos professores, que os professores lutem de fato por suas causas e que os alunos parem de pensar em seu próprio umbigo pelo menos por algum tempo e resolvam abster-se de suas vidas pelo bem maior, afinal, mesmo sem aula ainda há milhares de livros e de exercícios a serem resolvidos, basta que a gente queira.

Gostaria de concluir isso aqui esclarecendo que as posições tomadas perante à greve e à situação dos professores nada têm a ver com a minha posição política perante ao mundo ou perante a nada, eu só acho que quando alguém quer mudar algo, deve fazer o que for necessário para garantir que a mudança ocorra, tendo em vista que a única coisa que cai do céu é chuva.

0 thoughts on “Opinião Pessoal Sobre Um Problema de Todos

  1. Eu sempre morro de orgulho de você, mas acho incrível quando você fala sobre a faculdade, ou faz posts assim como uma opinião tão estruturadinha. É que eu ainda acho que com esse seu tamanho e carinha de neném, você é incrível, menina!

  2. Já viu o tanto de greve que tá no Brasil? Além dessa, o transporte também não anda. Em Minas e aqui na minha cidade, Salvador. Sem educação, nada se resolve. E não vem só de berço, mas também da escola.
    Adorei o seu texto. Beijo.

  3. Quê isso, Mayra, quê isso?!
    Adorei o seu texto, embora eu deva admitir que sou mais do gênero que senta no sofá de casa e espera passar. Já fui muito idealista, mas isso diminui quando eu comecei a estudar para o vestibular e acabou totalmente quando entrei na faculdade. Mas talvez isso tenha a ver com o meu mau-humor, de modo geral, para com o meu curso. Não sei.
    Enfim, lute pelo o que você acredita. É o que mais importa nessa vida.

    Bjs!

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