Overdoses

Todo mundo tem suas alegrias egoístas, ou seja, coisas que para a maior parte das pessoas é banal e que para você tem um significado diferente, super especial. Às vezes essas alegrias são realmente egoístas e às vezes compartilhadas com uma ou poucas pessoas, mas o fato é que elas existem para todos.

Não sei como surgiu essa coisa, mas lembro do ano. Dois mil e oito. Todos os dias quando a aula terminava, eu e minha amiga íamos ao ponto de ônibus, ela pegaria o ônibus, eu estava apenas fazendo companhia. A gente conversava sobre coisas inusitadas e que jamais passariam pela nossa cabeça durante a aula e, inevitavelmente, acabávamos falando sobre comida, morríamos de fome e o ônibus dela não chegava nunca. Porém, em  um belo dia estávamos nós no ponto de ônibus e chegamos assim que um havia fechado as portas para ir embora, o detalhe é que quando ele saiu, laranjas começaram a rolar na rua. Sim, caros leitores. Laranjas, a fruta mesmo. Não sabemos de onde elas vieram, mas estávamos nós, bêbadas com o sono pós-aula, morrendo de fome e rindo alucinadamente de laranjas rolando no meio da rua. As pessoas que passavam podiam nos achar loucas, mas nós sabíamos que não éramos. O que poderia ser mais engraçado que aquela cena? Naquele momento a resposta era única: nada.

E foi aí que tudo começou.

Uma de nossas amigas desenhava e sempre ficava mais inspirada perto do Halloween, eu amava essa época porque era quando eu ganhava os desenhos mais legais do mundo e por isso ansiava por Outubro, o mês dos desenhos. Porém, além de desenhos Halloween significava outra coisa: doces. E foi nesse mesmo ano, dois mil e oito, que nós fizemos nossa festa do pijama de Halloween. Tínhamos catorze anos, mas isso não impediu que a gente pegasse um balde, fôssemos ao condomínio de uma de nossas amigas – onde há o costume de pedir doces para os vizinhos – e vestíssemos de preto (algumas com chapéus e outras coisas do tipo) e saíssemos pelas casas, após todas as crianças terem passado na da minha amiga e a gente ter entregado os doces. Fomos a todas as casas e pedimos doces em todas. Até nas mais assustadoras. Riram da nossa cara, nos negaram, queriam nos dar um saco de granola, mas enfim, chegamos às casas que de fato compram doces para essas ocasiões e, como éramos as últimas a passar, acabamos ganhando todas as sobras, isso significa caixas de chiclete inteiras e afins. Conseguimos encher o nosso balde com doces. Voltamos pra casa, tentamos dividir, comemos tudo que queríamos e passamos a noite morrendo de rir, sem conseguir fechar o olho por causa da quantidade de açúcar no sangue, louvando aos céus pela bendita alma que inventou o tal do Halloween e ficando chateadas pelo fato de ele não ser tão disseminado em nosso país.

Bons tempos.

Outubro também é o mês do dia das crianças, onde a gente ganha os presentes mais inusitados da nossa família e cria coragem pra levar os primos pequenos ao cinema. Onde todos querem voltar a ser criança só pra conseguir presente por mais um ano. E todo ano ouvir a mesma coisa da mãe “Esse é  seu último presente de dia das crianças!” enquanto pensa “até o ano que vem, né” porque sabe que mãe que é mãe só deixa de presentear se não puder, mas ainda assim vai te dar parabéns e chamar de “bebezão da mamãe”. Acontece. Foi nesse mês que, em dois mil e oito – só pra variar – minha amiga estava triste e eu resolvi dar a ela uma carta quilométrica que vinha escrevendo desde o início do ano. A maior carta da minha vida, repleta de inutilidades e que com certeza – se ela ainda tiver – leu apenas uma vez porque enrolar e desenrolar dá um trabalho danado.

Mas o fato é que, não sei ao certo o motivo, talvez a soma de todos esses fatores, talvez nada a ver com isso, mas Outubro tornou-se nossa alegria egoísta. Aquela coisa de que quando a gente olha no calendário solta um sorrisinho tímido, pra ninguém ver porque não saberíamos explicar, e pensamos uma na outra. Não sei até quando isso vai durar, uma vez que não faz o menor sentido, mas é divertido. É divertido ver que é primeiro de Outubro e pensar “Droga! Não vou poder dar um chocolate pra ela esse ano!”, porque mesmo em dois mil e nove, quando não estudávamos mais juntas, eu vi que o calendário marcou Outubro e quis ir correndo até ela para entregar, nem que fosse um Sonho de Valsa. E eu entreguei. Porque Outubro é o nosso mês. Nossa alegria egoísta. E eu juro pra vocês que não tem nada a ver com a Revolução de Outubro, Lênin e Trotsky que me desculpem, é puramente passional, puramente açucarado, puramente… Doce.

Hoje eu fui pra aula feliz, porque é Outubro, nem tem como ficar triste, e após ter descoberto que finalmente fui bem em uma prova desci nove andares para chegar à cantina, sabendo de toda a fila que enfrentaria, porque era Outubro. Eu precisava de um Lancy para homenagear esse mês abençoado. Precisava deixar a magia outubral inserir-se de vez em meu ser. Porque Outubro, meus caros, é um mês doce, um mês lindo e, acima de tudo, um mês feliz.

Espero que essa felicidade, egoísmo e sorrisinho besta durem um bom tempo ainda. Outubro merece. Merece tudo.

0 thoughts on “Overdoses

  1. May, eu também amo outubro! Minha mãe diz que é porque é o mês do meu aniversário, mas não acho que seja. É que outubro é lindo. É doce mesmo. Já começa no nome. Outubro te abraça, te faz sentir confortável.
    Que invejinha do seu Halloween. Nunca cheguei nem perto disso. Agora acho que Curitiba é praticamente os EUA.
    Corre na sua amiga pra dar um pirulitinho que seja. Beijo! <3

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