Pela Última Vez

Abraçamo-nos pela última vez. Calorosa e aconchegantemente, daqueles abraços que em poucos segundos se é capaz de saber exatamente o que se passa pelo coração do seu interlocutor. Abraçamo-nos espontaneamente, forte, doce, suave e bom. Exatamente como deveríamos fazer. Exatamente como sempre fazíamos.

Quem seria capaz de prever, porém que um dia os abraços terminariam? Logo nós, que nunca nos importamos para os pensamentos alheios e sempre acabávamos fazendo exatamente o que dignavamos certo em cada momento? Em poucos segundos tudo se desmoronou, terminou, findou-se. Depois daquele abraço nenhum outro fez, faria ou fará sentido. Acabou-se. Deixamos que fosse embora, não apenas o ato de se abraçar, mas tudo aquilo que ele agregava.

Recordo-me do primeiro enlace de braços aconchegante que tivemos, no dia em que nos conhecemos. Eu ali, comentando sobre alguma coisa da qual você se identificou e sentiu-se apto a enroscar-me com seus braços. Eu ali, parada, imóvel, assustada porque ninguém jamais havia me abraçado assim, sem motivo aparente. Foi algo único. Somando isso a seu olhar de ressaca – parecido com o da Capitu, mas um pouco menos oblíquo e dissimulado – foi impossível manter-me afastada por muito tempo. Dias depois estava lá novamente, rendida a seus abraços, sempre do tamanho e intensidade corretos, sempre calhando nos momentos certos. Sempre exato.

Naquela última vez, porém, toda a sensação de ar puro e libertador que outrora habitou meu ser quando meus olhos encontraram os seus já não existia mais. Estava eu ali, preparada para um abraço mecânico, sem sal, (exatamente igual a todos os outros que outras pessoas fornecem quando não possuem um motivo exclusivo para abraçar-se) e sou surpreendida com algo semelhante ao que um dia senti, surpreendida com lembranças boas, sentimentos bons e vontade de voltar ao tempo em que éramos naturais e confortáveis um com o outro, mesmo sendo estranhos e incomuns. No entanto, não fôra forte o suficiente para que eu voltasse no próximo dia. Havia passado. Não sei ao certo como, quando ou porquê, mas não estava mais lá. Aquele ser saltitante que precisava de um estímulo físico para continuar a saltitar por aí já tinha ido embora. Não fazia mais sentido. Vi-me cercada por algo construído por mim, mas que já não era suficiente ou apaerentemente correto e então me soltei. Abraçamo-nos pela última vez. A última vez que um simples abraço agregou tantas coisas.

Agora não há mais o que se fazer. Sempre que de um abraço eu precisar, certamente lembrarei daqueles, certamente aquele rosto e aqueles olhos virão em minha mente. Doces lembranças que por si só valem mais do que um abraço dado mecanicamente por um qualquer que tem a simples intenção de ver-me um pouco mais alegre. Ninguém conseguirá refazer aquilo. Estou condenada portanto a viver pelo resto de meus dias sentindo falta de algo que jamais terei novamente, procurando em todos os abraços um pouquinho daquela essência. Enganando-me ao pensar que outra pessoa poderá preencher o vazio um dia deixado. Inutilmente.

Abraçamo-nos pela última vez e foi bom enquanto durou e durou o tempo exato para tornar-se inesquecível.

Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão. – Carlos Drummond de Andrade

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    1. Nem dói… Isso foi apenas uma constatação, sei lá, algo que eu precisava escrever sobre. Não dói, mas obrigada por se oferecer a me dar um bom abraço, porque os seus são ótimos! 🙂

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