Pelo Direito de Andar Por Aí.

(Daqui)

Dizem que assim que nascemos somos livres para ir e vir para onde bem entendemos. Sabemos que na prática as coisas não funcionam assim, tendo em vista que se você for menor de idade não pode ir a uma balada e coisas do tipo. Porém, a vida complica quando você simplesmente não pode ir. Nem vir. Quer dizer, na verdade você pode, mas precisa se submeter a diversas situações constrangedoras. Escrevo esse texto porque estou cansada dessas coisas, minha gente. Porque gostaria de poder caminhar à luz do dia, saltitando e falando sozinha em inglês – como sempre faço – sem precisar acelerar o passo ao ver um homem se aproximando. Vamos combinar que eu não sou uma musa grega, não sou de parar o trânsito e qualquer coisa assim. Nem é menosprezo, é apenas a realidade. Também não sou do tipo que anda com roupas justíssimas, curtas ou decotadas. Nunca uso maquiagem, meu cabelo é sempre de qualquer jeito e só me viram de salto quem compareceu a festas ou às minhas peças de teatro. Sou uma garota normal, que prefere uma calça+camiseta+all star do que qualquer coisa que poderia chamar atenção de alguém. O que me irrita é que mesmo assim, mesmo sendo comum, sem sal e nada de apetecedor, é impossível eu andar na rua sem passar por uma situação constrangedora. Achava que o problema estava comigo, que minha falta de simetria e jeito bizarro de andar é que eram os responsáveis por isso, mas andei confabulando sobre o assunto e descobri que muitas meninas passam pelas mesmas coisas e é um absurdo.

É terrível você estar correndo desesperadamente pra chegar a um lugar e se deparar com um cara esquisito – porque eles sempre são esquisitos – dizendo “oi coisa fofa”, “ô lá em casa” e similares. Pior ainda é quando eles buzinam e falam algo. Ou quando buzinam, falam algo e fazem caras nojentas. E eu fico olhando com a cara mais de “wtf” do mundo, resmungando comigo mesma e acelerando o passo, morrendo de medo. Não é legal ter que andar por aí o tempo todo com medo. Porque é claro que eu tenho medo! Vai que um dia um desses caras esquisitos resolve que estou dando mole pra ele e me agarra pelo braço, me enfia no carro e me leva sabe-se lá pra onde? Pode acontecer e eu realmente não quero que aconteça.

E talvez aconteçam coisas semelhantes com os garotos, principalmente na minha rua – repleta de meretrizes. Meretrizes não medem idade e vivem perguntando se você está afim de fazer um “pograma” e as vezes elas têm a audácia de chamar de “fazer amor” mesmo. Sei que isso ocorre, mas DUVIDO que ocorra todos os dias com os mesmos meninos. Duvido que eles andem por qualquer lugar e passem por situações assim o tempo todo. Duvido que tenha mulheres que os enconchem nos ônibus lotados e garanto que se elas fizerem isso será por necessidade. Não como os homens que enconcham simplesmente por enconchar. E tem alguns que ainda se mexem enquanto fazem isso. É nojento. Desagradável. Triste. Deplorável. Desumano. Irritante. Abusivo. E eu poderia usar mil e um adjetivos aqui e não teria terminado de expressar tudo que sinto em relação a tal fato.

Pior que quando eu falo coisas assim dizem que se fossem caras bonitos que fizessem conosco não reclamaríamos. Lógico que reclamaríamos! Assédio é assédio, não importa a aparência de quem o cometa. E digo ainda que justamente por caras bonitos e agradáveis não dizerem essas coisas pra gente é que a gente se assusta e irrita tanto quando esses escrotos da rua fazem. PELO AMOR DE DEUS! Estamos no século XXI, já passou da hora dos homens entenderem que não somos só peito e bunda. Que não nascemos para servi-los, nem intelectual nem sexualmente. É hora de entenderem que somos tão seres humanos quanto eles e merecemos tanto respeito quanto. É hora de entenderem que assédio é crime e que há várias leis que nos protegem por aí. É hora de entenderem que a gente vai sim pra faculdade e que andamos sim sozinhas e livres por aí, que não precisamos de supervisão e permissão o tempo todo. É hora de entenderem que também somos gente, por favor.

Eu não quero ser coisa fofa, ir à casa de alguém desconhecido e muito menos receber um sorriso banguela e amarelo, vindo de alguém com um litro de pinga do lado. Não quero viver por aí com medo do que pode acontecer comigo simplesmente pelo fato de eu ser mulher e quero menos ainda restringir a minha liberdade por causa dessas pessoas sem noção que nos tratam como objetos. E podem argumentar dizendo que sou feminista demais e que o mundo não é tão assim que eu digo que ele é assim sim e que se eu colocar uma câmera escondida em mim e sair por aí posso provar muito bem o jeito que ele é. E talvez isso seja mesmo feminismo. Talvez não, é. Não porque eu acho que as mulheres são superiores, não somos. Mas somos tão gente quanto os homens, merecemos tanto respeito quanto e a mesmíssima liberdade também. A sociedade patriarcal deveria ter ficado lá na Grécia. Era pra sermos livres e autônomos. Por que não somos? Porque não adianta as leis evoluírem se a educação do povo não o faz. Não adianta nada sermos uma “sociedade modelo” se o nosso povo tem as mesmas noções desde 1800. Não adianta nada tentar mudar o mundo se não melhorar nem um pouquinho a educação. E a educação desse país é deplorável. Nem digo no nível de ensino, é no nível de educação mesmo. O ensinamento de valores é decadente e cada vez nasce mais dessas pessoas estúpidas que agem como ogros ao invés de serem seres sociáveis e gentis, como deveriam.

E talvez vocês desconsiderem esse texto ou o achem bobo, mas não aguentava mais guardar isso aqui dentro e queria ter o poder de fazer todos os homens por quem passo ouvirem para pararem de falar o tanto de merda que falam pra mim. Eu só quero poder ir e vir pra onde eu quiser. Só quero poder usar as roupas que quiser e ser quem quiser. E se algumas mulheres andam com roupas justas e decotadas é porque se sentem melhor assim e elas também devem ser respeitadas. Todos devemos. Não importa a nossa maneira de ser. Se eu não gosto de ouvir essas porcarias, garanto que muitas dessas de roupa justa também não gostam e as que gostam é porque são tão machistas e bestas quanto quem as assedia. Pronto falei.

0 thoughts on “Pelo Direito de Andar Por Aí.

  1. Hum… O que dizer? Não sofro com isso. Acho que eu poderia contar as vezes que alguém fez esse tipo de assédio e que eu reparei. As raras vezes que aconteceu, eu simplesmente ignoro. Claro que eu tomo cuidado quando eu saio na rua, principalmente a noite ou em lugares que eu não conheço, mas não diria que eu tenho medo. Tenho cautela. E também tenho confiança o bastante pra me defender caso aconteça alguma coisa.
    Quanto à sociedade machista… Não há o que dizer MESMO. Falamos sobre isso na aula de hoje, e acho que dá pra se dizer que é um dogma, né? E as pessoas são acomodadas demais pra querer mudar.
    Tomara que você consiga se sentir mais segura, depois desse desabafo. =/
    Agora, não é porque é mulher, homem ou alien que tem que facilitar. Não viva em paranóia, mas algumas precauções de segurança são sempre bem-vindas.

  2. Concordo totalmente, Amy. Voce disse exatamente o que eu sempre pensei. Homens acham que as mulheres gostam disso, mas não. É horrível andar na rua com alguém mexendo contigo, é desagradável e desconfortante. Enfim, muito bom o texto. Disse tudo.

  3. Caramba, May, ADOREI! Eu super concordo! Hoje mesmo, voltando pra casa, passou uma van e homem que tava no banco do carona botou a mão pra fora, acenou pra mim, piscou e fez uma cara repugnante. Eu, sinceramente, odeio. Odeio quando sou elogiada, odeio o mesmo tanto quando sou criticada, no estilo: “tá precisando malhar, hein?”.
    E, olha, sobre esses caras bonitos que fazem esse tipo de coisa, só preciso dizer isso: perdem toda a beleza. De verdade. É triste.
    Por que as pessoas não conseguem simplesmente serem normais? Não sei se você notou o mesmo, mas uma das coisas mais fascinantes na Europa, pelo menos em Londres, é que não rolam dessas. Se o cara te achar bonita, ele vai ser sutil, puxar papo quando você estiver sentada num banco na praça ou no bar, mas nunca te encarar de forma nojenta na rua, muito menos gritar algo sem noção. Ele, no máximo, vai sorrir pra você. Pelo menos, foi o que eu percebi. E, vou te dizer, até gostei. Muito!
    Os homens deveriam ser mais assim… humpft. Brasileiros, grow up!

    Beijos, May.

  4. Ai May, que RAIVA que eu tenho disso, sério. Muito. Cheguei a me estressar com o verão, porque eu ia bem de boa com minhas blusinhas regatinhas de renda pra auto escola, e no meio do caminho tem umas construções, e QUE ÓDIO. Os caras passavam OLHANDO pro meu peito e falavam: Nossa, que saúde.
    Meu, saúde mental. Uma parada que falta neles.
    Que ódio.

  5. May, tirou as palavras dos meus dedos! Já faz é tempo que eu ando na rua com a cabeça completamente e outro mundo, pra não ter que aturar esse comportamento. O pior é que os caras que fazem essas coisas se acham o máximo por fazer isso. E eu me pergunto: o que tem uma pessoa dessas na cabeça? Mas não, nós não gostamos disso, e temos todo o direito de não gostar, porque é degradante, peloamor de deus. Eu tenho uma amiga que bota a boca no trombone quando acontece isso, eu nem olho na cara, continuo andando como se não existisse.

    Beijos

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