Jogador Número 1 – Ernest Cline

Quem escreveu o livro?

          Ernest Cline nasceu no estado de Ohio, nos EUA, no dia 29 de março de 1972. Ele passou a maior parte da carreira escrevendo poemas despretensiosos, até se tornar roteirista. Seu principal filme até o momento é Fanboys, lançado em 2009. Jogador Número 1 foi o primeiro romance escrito pelo autor, que publicou recentemente o livro Armada. Com o título original de Ready Player Number One, o livro foi publicado em 2011 nos EUA e traduzido para o português por Carolina Caires Coelho e publicado pela Editora Leya em 2012. É possível encontrar o autor no twitter, sob o usuário @erniecline.

O que é interessante saber antes de ler?

        O livro se utiliza da cultura nerd/pop para contar a sua história. O recorte narrativo estabelecido é a década de 80. Dessa forma, a maior parte dos conteúdos citados no decorrer do livro foram produzidos no decorrer dos anos oitenta. Porém, há alguns casos em que as produções foram realizadas nas décadas de 60, 70 ou 90. O livro não menciona produções posteriores a isso.

             Apesar do extenso foco em narrativas externas e do fato de elas serem realmente importantes para a resolução do conflito interno, não é necessário ser expert na cultura nerd/pop para que a história faça sentido. A cada obra citada há uma pequena sinopse sobre o que se trata, uma pequena ambientação e contextualização do fato. Dessa forma, mesmo uma pessoa completamente distante do universo nerd consegue entender o fluxo da história. Porém, é claro que para quem já tem noções dessa ambientação a coisa vai ficar mais divertida.

          Outra dica pré-leitura que dou é para que você só comece o livro caso tenha tempo disponível para embarcar na viagem literária. Não é o tipo de livro que a gente consegue ler calmamente e em pequenas doses. Ele é empolgante o suficiente para que você não queira largá-lo, devido aos vários artifícios literários que utiliza e às inúmeras referências. 

          Pra quem gosta de adaptações cinematográficas, vale dizer que o Steven Spielberg está dirigindo o filme baseado no livro, que tem previsão de estreia para Dezembro de 2017. Como Cline é roteirista e o livro tem a cara do cinema, as expectativas para a adaptação são altas!

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

          O Jogador Número 1 é Wade Owen Watts, um garoto de 16 anos órfão de pai e mãe que habita uma pilha de traillers em uma cidade do interior dos Estados Unidos. A narrativa se passa em 2044, durante uma grande crise no fornecimento e produção de eletricidade na Terra. O local onde Wade mora é considerado uma “favela” para a narrativa, ou seja, um empilhamento de ferros velhos onde é possível viver quando não se tem dinheiro ou oportunidade para uma vida além disso. O mundo continua desigual, poluído, repleto de guerras e complicado. Por sorte, existe o OASIS.

          OASIS é um programa de simulação massiva, produzido pela empresa GSS, que foi criada por James Halliday. O programa é a melhor realidade virtual produzida até então e o acesso é gratuito e livre. Pense em um universo virtual, composto por diversos planetas, onde todas as coisas que existem em filmes, livros, músicas, seriados, desenhos animados e jogos podem se tornar reais. Cada pessoa pode criar um avatar no OASIS, este avatar pode ser de várias espécies e não precisa condizer com a sua aparência física real. Para acessar o programa basta utilizar um óculos simulador (uma versão mais desenvolvida dos óculos que temos atualmente) e, com o auxílio de luvas e roupas, todos os movimentos que você realiza no mundo real se tornam virtualmente reais e você pode viver uma vida fantástica, mesmo morando em uma pilha de traillers. É o que Wade tenta fazer, sob o codinome de Parzival.

          Mas a história não é sobre o Wade. Veja bem, a narrativa é contada sob o ponto de vista dele, que é o protagonista da história. Porém, a história é sobre a caçada ao ovo do Halliday. O que é isso? Bom, o criador do OASIS morreu e não tinha herdeiros. Ele era multibilionário e sua empresa era uma das mais cotadas no mercado da época. Se tinha uma pessoa que todos queriam ser, essa pessoa era James Halliday. Aí, quando ele morreu, deixou um enigma em seu programa, afirmando que quem o solucionasse receberia toda a sua fortuna e teria controle por sobre a empresa. Isso fez com que milhares de pessoas ao redor do mundo começassem a estudar o universo virtual do OASIS e todas as coisas relacionadas a Halliday, com o intuito de conseguir o prêmio. As coisas ficaram mais acirradas quando a empresa concorrente da GSS, a IOI, criou um grupo especializado de caça-ovos, destinados a conseguirem o prêmio antes de qualquer outra pessoa. A empresa tinha a pretensão de, após conquistar os direitos do OASIS, tornar o acesso pago e acrescentar propagandas patrocinadas em tudo que fosse possível. Isso era visto pelos usuários como restrição à sua liberdade e a única coisa em que todos os caça-ovos concordavam era que a IOI não poderia ganhar a caçada. 

          Wade, que foi criado dentro do universo do OASIS e que tinha uma vida muito complicada no mundo real, decidiu entrar de cabeça na caçada e fazer o que fosse necessário para conseguir o ovo. E isso nos é dito no prefácio da obra, então não é um spoiler: ele consegue. Após essa grande revelação, já no prefácio do livro, o decorrer da narrativa se restringe a mostrar como a caçada ocorreu. E é aí que somos apresentados a outros personagens incríveis.

  • Aech melhor amigo de Wade. Ele tem mais dinheiro no OASIS do que Wade e juntos eles jogam coisas antigas e conversam sobre a vida em geral e sobre novas pistas em relação à caçada. Porém, Wade não sabe quem é Aech na vida real, apesar de se conhecerem há um bom tempo. A revelação de sua identidade ocorre apenas no final do livro e é uma das partes mais surpreendentes e maravilhosas da história – seria muito bacana discutir as implicações disso, mas seria spoiler demais!
  • Art3mis – blogueira e caça-ovo, a garota tem um conhecimento acirrado sobre tudo que envolve a caçada e é uma das mais cotadas para conseguir encontrar o ovo. Seu blog é bem famoso no OASIS e Wade nutre uma paixão platônica por ela. Porém, a personagem não está na narrativa para ser uma paixão infantil do protagonista, ela é muito mais esperta do que ele e essencial para que a história se desenrole da forma que é.
  • Daito e Shoto – dois garotos japoneses que surgem no meio da narrativa após terem conquistado uma das três chaves necessárias para acessar o ovo. Apesar de não termos muitos detalhes sobre a vida deles, é bastante interessante o fato de que a partir de sua aparição vários fatores da cultura nerd japonesa tornam-se parte da narrativa também, fazendo com que ela se torne menos americocêntrica.
  • Ogden Morrow – Melhor amigo de Halliday, ajudou a construir o OASIS, mas acabaram brigando e ficando sem se falar. Durante a narrativa, o conhecemos como um avatar idoso e com mais poderes do que qualquer outro. Na vida real, é um idoso recluso, que vive na casa mais legal que já inventaram.

          O que torna a história muito mais legal do que uma simples caçada é, sem dúvida, a quantidade de referências à cultura nerd/pop e aos anos 80. As sacadas que a narrativa têm são bastante surpreendentes e a forma como essas obras aparecem é muito bem explicada e contextualizada, fazendo com que a história seja bastante crível e interessante.

E o que você achou do livro?

          Eu gostei muito da narrativa. É uma ficção científica realizada com uma linguagem jovem-adulta que é capaz de prender o leitor já no prefácio. A quantidade de pontos de virada que oferece mantém o ritmo de leitura e a curiosidade para saber como as coisas se desenrolaram. 

          É muito interessante lidar com um protagonista nerd, gordo e sem vida social. Principalmente porque no nosso mundo essas pessoas costumam ser excluídas e muito deprimidas e autopiedosas. É interessante colocá-las na posição de herói, que é o que elas realmente são, em todos os jogos que jogam durante suas vidas. É muito bacana a opção de trazer essas pessoas excluídas para a posição de “salvadores da humanidade”, porque isso mostra o quanto a nossa sociedade reprime e exclui essas pessoas não sociáveis e que gostam muito de tecnologia. O próprio Halliday do livro é um reflexo disso. Ele criou o maior programa de simulação existente porque aprendeu desde criança a se utilizar de artifícios tecnológicos e ficcionais para fugir de sua realidade nociva, com pais ruins. 

          O fato de uma pessoa que não recebe muitos créditos da sociedade em geral, por ser vista “de fora” como alguém “sem vida”, ser responsável justamente por melhorar a vida de todas as pessoas do mundo, em níveis exponenciais, é fantástico. Mostra que apesar de algumas habilidades não serem bem vistas pela sociedade atual, seguem sendo importantes e podem ser aproveitadas para algo positivo. Mostra que todas as pessoas têm potencialidade de fazer coisas incríveis, independente de onde elas estejam.

          Inclusive, a alegoria do avatar e do universo virtual do OASIS serve justamente para isso: equiparar as pessoas. Uma vez que dentro dessa realidade virtual, não importa quem você é fora dela, todos ali dentro podem ser o que quiserem. Wade, morando em uma pilha de traillers, pode frequentar os mesmos espaços e ter acesso aos mesmos conteúdos que os empresários da IOI, que tinham recursos ilimitados. É uma metáfora incrível sobre como a diferença de oportunidades realmente propaga a desigualdade social e quando a gente fornece as mesmas oportunidades para todos, as chances de sucesso aumentam. 

          Um ponto moralista do livro é o de que apesar de a realidade virtual ser completa, não fornece as vivências físicas que a realidade real é capaz e isso é mostrado como algo nocivo e penoso. Há um grande esforço narrativo para que, no fim das contas, Wade aprenda a viver um pouco no mundo real e não só no OASIS. Isso é um ponto complicado, porque a narrativa inteira mostra o contrário e a quebra de paradigma não é bem desenvolvida, de forma que o OASIS continua sendo bem mais atrativo que a realidade. É compreensível que a necessidade de afeto humano e físico exista e que, caso não suprida, torne a pessoa depressiva, porém, acredito que é uma questão de equilíbrio e que se afastar totalmente do virtual não seria adequado – ou possível. 

          Outro ponto complicado, é o papel de Art3mis, que começa sendo uma personagem fenomenal e de ampla agência e depois acaba sendo apagada. É compreensível que isso ocorra pela narrativa em primeira pessoa fornecida por Wade, mas é um pouco frustrante não saber mais sobre ela, que parece ser incrível. O mesmo pode ser dito sobre Aech, Daito, Shoto e os demais. Apesar disso, a história cumpre muito bem sua função e é notável a quantidade de pesquisa realizada por Cline para a produção do conteúdo. Porém, é igualmente perceptível que todos os personagens sabiam mais coisas do que o próprio autor. Aquele típico caso de quando o personagem ultrapassa a potencialidade do autor, apesar de ele ter feito um bom trabalho.

          Por fim, acredito que a leitura tenha mais pontos positivos do que negativos, e por isso a recomendo. Se alguém souber de uma lista com tudo que foi citado no livro e onde posso encontrar, agradeço!

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