Por favor, não goste de arroz.

Podes gostar de massas, carnes bovinas, suínas, aviárias e até piscianas, além disso, goste muito de doces, todos os tipos de sobremesas, além de pão de queijo e um pouquinho de café, mas por favor, caro futuro marido, não goste de arroz.

Ínicio de texto um pouco estranho, eu sei, mas era exatamente assim que deveria ser.

Há uma semana meus pais viajaram e deixaram-me sozinha com o meu irmão em casa, com o detalhe que ele almoça fora e eu devo fazer minha própria comida, somente para mim. Nos primeiros dias, alimentei-me de uma comida deixada pela mamãe prontinha na geladeira, esperando apenas para ser esquentada, porém tal comida acabou ficando ruim e enjoativa, fazendo assim com que eu tivesse que explorar meus dons culinários que, bem… Não são tão memoráveis assim. Saí-me muito bem fazendo meus nuggets, isso porque deveria apenas colocá-los para assar, então me deparei com o grande desafio: o arroz. Na teoria era tudo muito fácil, já havia ouvido várias vezes todos os passos para o preparo do mesmo então sem maiores problemas, coloquei os ingredientes na panela e comecei a esperar que ficasse pronto, o detalhe é que eu gosto de mexer as coisas, quer dizer… A primeira comida que aprendi a fazer foi mingau e em resumo, eu deveria colocar as coisas na panela e ficar mexendo eternamente, depois disso veio o brigadeiro, minha especialidade. O segredo do brigadeiro está em mexê-lo direitinho, logo virei craque no preparo do mesmo, então me deparo com o bendito arroz. Aquele grãozinho branco que ficaria de molho na água até amolecer, mas meu instinto “mexa as coisas” não permitiu que eu o deixasse ali intacto, então decidi começar a mexer o arroz. Parei em pouco tempo, pois cheguei à conclusão de que aquilo não era necessário, tarde demais. A água do arroz secou e então concluí que estava pronto, coloquei no meu prato e comecei a comer, o detalhe é que aquilo não era arroz, era como um mingau de arroz, com todos os grãos grudadinhos ali, se eu fosse descendente de japonês, até o apreciaria, mas eu não sou e assim que terminei meu almoço cheguei à conclusão de que precisava me desfazer daquela pequena quantidade de gosma antes de ter que ingerí-la de novo, isso significa que meu lixo está lotado de arroz no momento. A lição aprendida com essa peripécia foi de que não sirvo para fazer arroz, então espero que nunca necessite ser extremamente hábil nesse preparo.

Hoje as coisas foram um pouco melhores, resolvi fazer macarrão. Essa foi a primeira comida que eu resolvi tentar fazer, então já peguei o jeito de fazê-la. Além do macarrão ainda fiz um molho branco que ficou delicioso, foi um almoço memorável e é uma pena que ninguém tenha estado por aqui para prová-lo. A lição aprendida com esse fato e com toda essa coisa de “semana sem pais” foi de que eu não tenho a menor vocação para guiar a minha vida sozinha e isso foi um tremendo baque, porque desde os 13 anos planejo minunciosamente o dia em que abandonarei meu lar, em busca a uma vida autônoma. Percebi que eu tenho 17 anos e sou incapaz de manter toda a louça lavada, a casa limpa, tudo organizado e até de fazer a própria comida. Fiquei com muita vergonha disso, tendo em vista que enquanto estou aqui sendo super-protegida, há pessoas com a mesma idade casadas e com um par de filhos nas costas. Percebi que apesar de tudo sou extrema e realmente ligada à minha família, principalmente à minha mãe. Quando eu viajo e tenho que deixá-la aqui não há grandes problemas, mas quando é o contrário que ocorre, dói um bocado. Mamãe parou de trabalhar quando eu tinha apenas três anos e desde então ela fica comigo o dia inteiro, me ajudando a fazer todas as coisas e fazendo companhia em todos os momentos que estou nessa casa, é extremamente sem graça voltar da escola e não ter ela para conversar comigo, ouvir todas as minhas histórias e deixar minhas pregas vocais trabalharem. O problema é que além de toda essa carência que a falta dela automaticamente acarreta, há ainda todos esses trabalhos domésticos a serem feitos. Mamãe sempre diz trabalhar muito nessa casa e sempre está super cansada, as vezes até estressada e durante a minha vida inteira eu apenas olhava e dizia “Pare de ser tão dramática” e agora que estou aqui sozinha, teoricamente tendo que fazer todas as coisas que ela faz todos os dias e eu sequer percebo, descobri que são realmente trabalhos muito cansativos, chatos e até mesmo estressantes. Finalmente entendi que a vida dela não é tão fácil assim e isso fez até com que eu começasse a cogitar a hipótese de ser um pouco menos cruel. Ao mesmo tempo, fico irritada com isso, porque se eu não sei fazer arroz, ou fico cansada só por ter que lavar a louça três vezes ao dia, arrumar as camas, manter a sala em ordem e cuidar das roupas é porque ela nunca realmente permitiu que eu fizesse tais coisas. Quer dizer, desde sempre ela tem um cuidado extremo comigo, porque tenho várias doenças “de velho” e isso significa que não posso fazer esforços físicos e tal, mas ainda acho que ela tinha que ter deixado as minhas roupas no chão ao invés de guardá-las no guarda-roupas, assim eu seria obrigada a fazer isso e a valorizaria um pouco mais. Sei lá, toda essa coisa de ficar uma semana jogada ao relento me fez repensar grande parte do meu modo de comportamento dentro dessa casa, me fez dar valor à minha mãe, muito mais do que eu sempre dei, se é que isso é possível.

Então, o que fica para o futuro é que não posso me casar com alguém que goste muito de arroz e que não posso super-proteger meus filhos demais e para o futuro próximo fica o fato de que se eu não passar no vestibular no final desse ano, preciso de um semestre num intercâmbio, nem que seja na casa de um parente, só para aumentar um pouco a minha noção de vida e realidade, porque se (Deus me livre) alguma coisa ruim acontecer à minha mãe, ficarei completamente perdida no mundo e isso certamente não é bom.

Quanto a você, se gostas de bolos e brigadeiro, seja bem vindo ao meu universo gastronômico e, se for corajoso, ofereça-se para provar alguma de minhas “delícias“.

0 thoughts on “Por favor, não goste de arroz.

  1. Olha. A minha mãe sempre trabalhou muito e eu sempre tive que me virar na casa, porque desde que eu me entendo por gente ela sempre me colocou pra fazer tudo, menos lavar a roupa. Fato é que hoje eu moro sozinha e cuido de tudo, muito especialmente da parte culinária da coisa. E se aos 12 anos eu chorava de desespero de ter que limpar a casa, hoje eu acho que foi muito bom pra mim porque sei me virar totalmente com tudo. Meu conselho pra você: apesar das suas doenças de velha e dos cuidados da sua mãe, aproveite que ela está aí, presente, com você, todos os dias e tente aprender com ela pelo menos os dotes culinários! É tão bom fazer uma comidinha que a gente vai gostar de comer!

    Beijo

  2. May, AMEI o título. Amo títulos assim, criativos. Eu comecei a ler pensando que você ia dizer que abominava quem gostava de arroz porque gostar de arroz é comum demais, e já me imaginei gritando na caixa de comentários que eu AMO arroz, e daí? Mas aí você explicou, e eu achei muito engraçado. Acontece que aqui o caso não se aplica, porque se for assim, meu pobre marido não pode gostar de nada, porque eu como cozinheira sou uma excelente atriz. HAHAHAHA.
    Beijos!

    1. Pow teu marido pode gostar de doce de leite ninho, okeis?
      Eu JAMAIS falaria mau de quem come arroz, porque fico doida quando não o tenho em minhas refeições, mas fico pê da vida com o fato de não conseguir preparar o meu próprio, poxa! Preciso aprender! hihihi

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