Possíveis futuros filhxs…

Gostaria de pedir-lhes desculpas. Desculpas por não ser o tipo comum de mãe. Por não ser uma pessoa “certinha” e que fica insistindo para que você sempre carregue um casaco. Eu sei que não foi assim que minha mãe me criou, mas é assim que cuido de vocês. Peço desculpas por não ter passado a minha vida inteira pensando no exemplo que viria a lhes dar e por tê-la vivido da maneira que eu considerei correta. Mentira. Não peço desculpas por nada. Eu é que sou a mãe aqui, afinal de contas.

E não, eu não fui às mais bombadas passeatas existentes no país por causa de vocês. Eu não fui pensando na maravilhosa história que isso seria para vocês no futuro ou no quanto vocês se orgulhariam da minha pessoa. Eu fui por minha causa. Fui porque acho o ônibus tão caro que prefiro ir a pé aos lugares. Fui pela mesma razão que fui a todas as outras passeatas que eu sempre fui, porque eu acreditava que era necessário. E sim, eu sei todos os hinos nacionais e sim eu gosto muito do meu país e sim, eu cantei algumas vezes, mas caí na real, porque, bem, eu não acho que nacionalismo exagerado dê bons frutos, se não deu até hoje não vejo razão para ser diferente. Não, queridxs filhxs, eu não acho errado invasões aos Palácios de Governo, mas sim, eu fico fula da vida quando vejo trabalhadores sendo prejudicados por manifestantes. Não, filhinhx queridx, eu não saí por aí gritando que acordei ou que saí do facebook, não sou boba, eu adoro dormir e sempre estarei dormindo para algo e eu não pretendo sair do facebook tão cedo. Não, mxx queridx e amadx filhx, eu não usei de uma manifestação com um fim específico – diminuir o preço do meu sagrado ônibus de cada dia, que eu nem uso, mas ainda assim acho caro pra caramba – pra pedir a paz mundial, o fim da corrupção ou o impeachment da presidente do meu país. Ok, confesso que eu xinguei o governador do meu estado e alguns jornalistas que desprezo. Confesso também que em diversos momentos eu tive vontade de entoar frases feministas porque não aguentava tanta besteira sendo dita. Confesso que tive vontade de matar Marcos Feliciano. Mais de uma vez. Mas sabe filhx, eu não matei. Eu participei de um protesto contra ele. E não deu em nada. E eu participei de protestos contra a corrupção. E não aconteceu nada. E eu fui a inúmeras marchas feministas. E ainda sou oprimida por ser mulher diariamente. Mas eu nunca deixei de ir, carx filhx. Porque pra mim é isso que importa: lutar pelo que a gente acredita independente do resultado. Esforçar-nos pelo que a gente acha necessário, mesmo que não adiante. Porque por mais que eu tente me desvencilhar, nunca vou conseguir abstrair a utopia de um mundo justo, bom e respeitável. Mesmo sabendo que é uma utopia. Talvez seja a utopia que me mova. E, bem, você nunca teve nada a ver com isso.

Eu não espero que vocês saiam pela escola felizes e orgulhosos da mãe que têm. Tão pouco espero que vocês morram de vergonha. A essa altura do campeonato vocês já sabem que eu não espero nada, porque é assim que eu sou. Não crio expectativas sobre nada além de gosto de chocolate. E eu não me importo com como vocês se sentem com o fato de eu ter tido cabelos coloridos, ter sempre feito o que achei que devia ser feito, ter sempre pensado em mim, gostado muito mais de mim do que da maioria das pessoas e não tido vergonha disso. Eu não quero saber se vocês concordam ou não com o meu passado, com a minha forma de encarar relacionamentos, ideias ou quaisquer outras coisas. Mas não, filhinhxs amadxs, eu não escondo nada disso de vocês. Porque vocês tem que saber exatamente a mãe que têm. E se um dia vocês vierem dizer a mim que preferem a mãe do coleguinha, porque ela mudou o país, casou virgem, nunca pintou o cabelo e nem ouviu punk eu vou apenas sorrir e dizer que, por mais que a gente queira às vezes, não dá pra mudar de mãe e que vocês vão ter que me engolir enquanto viverem. Mas eu espero que vocês tenham aprendido a lição: nunca deixem de acreditar no que vocês acreditam e nunca deixem de lutar por essas coisas. Não importa o que isso xs leve a fazer. Enquanto vocês forem autênticxs, eu terei orgulho de dizer que xs pari.

0 thoughts on “Possíveis futuros filhxs…

  1. Ai, Maymay, nem sem por onde começar a comentar.
    Primeiro gostaria de apontar um “erro” seu. Você não fez tudo isso por você, você fez tudo isso por nós. Você fez tudo isso por estar cansada de aguentar tanta merda diariamente. Você fez tudo isso porque sabe que não conseguiria aguentar a culpa de pelo menos nem ter tentado.

    Agora, não sei se cabe, mas um pouco sobre o momento que vivemos: eu tenho medo.

    O movimento começou lindo, foi maravilhoso ver tanta gente reagindo (e não digo acordando, porque acordando é o caralho, tem muito movimento social que tá na ativa há um bocado de tempo por aí), mas a partir do momento em que “”””começamos”””” a lutar por tudo, contra a corrupção, pela paz mundial, pela água, pelo fogo, pela camada de ozônio, a coisa começou a perder o sentido.

    Estou tentando enxergar tudo como um espaço de politização, mas está ficando cada vez mais difícil acreditar num movimento que tenta abafar a voz que representa os oprimidos (ALÔ, GALERA, OS PARTIDINHOS “ESQUERDÓIDES” TÃO À FRENTE DOS MOVIMENTOS SOCIAIS HÁ ANOSEANOSEANOS).

    Fico com medo do movimento que prefere gritar “SEM PARTIDO” a gritar por ideais reais e palpáveis. Acontece que ainda vivemos numa democracia representativa e, enquanto isso acontecer, ora, vejam só: DEPENDEREMOS DE PARTIDOS QUE NOS REPRESENTEM!!!!!!! Isso sem contar o caráter fascista que a coisa toda assume.

    Mas pra não dizerem que estou falando groselha, uma outra observação importante: isso tudo não significa que eu sou complacente com a corrupção, que eu não quero uma reforma política ou que eu defenda os nossos atuais governantes. Isso tudo significa que se não tivermos objetivos muito bem definidos, claros e trabalharmos com “metas” ou “etapas”, a coisa toda não vai funcionar e continuaremos servindo se massa de manobra da DIREITA DOMINANTE que se apropriou do discurso e se infiltrou, transformando o “gigante recém-acordado” num grande fascista opressor.

    Espero que eu não tenha falado demais, <3

  2. Você escreveu exatamente um tipo de pensamento que eu estava tentando colocar no papel. A gente vai às ruas com objetivos coletivos, embora egoístas. Dá para entender? Queremos passe livre porque o transporte, além de caro, é uma porcaria. E um monte de gente vai pelo mesmo motivo. E quando vemos, uma nação foi mudada, os objetivos foram alcançados e os nossos filhos e netos tem um futuro melhor por conta do que fazemos hoje.
    Você deu um novo sentido à palavra “evolução”.
    Abraços!

  3. “Fui porque acho o ônibus tão caro que prefiro ir a pé aos lugares”

    eu também não preciso pegar ônibus todos os dias, mas achei interessante ir, mesmo no começo dos protestos quando o assunto principal era o preço desse transporte público. eu prefiro ir andando, mesmo que seja cansativo às vezes e, quando meu pai deixa a bike aqui em casa, uso também.

    “Não, queridxs filhxs, eu não acho errado invasões aos Palácios de Governo, mas sim, eu fico fula da vida quando vejo trabalhadores sendo prejudicados por manifestantes.”
    exatamente o que eu venho sublinhando há dias: quebra a prefeitura, mas não, cara, não quebra a lojinha do tio zezinho que tem 3 filhos pra criar e é cidadão assim como você. acho que o que me brochou um pouco nesses últimos dias foi ver que tem gente aproveitando as passeatas pra assaltar/tocá o terrô/quebrar tudo… isso me desmotivou um pouco, mas espero que a gente não perca a força pra continuar lutando.

    essa coisa de querer mudar o mundo/o país/ a escolinha/ a casa etc foi algo que eu sempre pensei. essa coisa de dizer que ‘o gigante acordou’ não significa que de uma hora pra outra toda a galera resolveu sair pra manifestar, mas sim que muitos deles sempre pensaram nisso mas nunca tiveram motivação o suficiente pra fazer o que tão fazendo. e isso me orgulha e foi justamente por isso que eu me motivei a ir nas manifestações.

    ”Porque pra mim é isso que importa: lutar pelo que a gente acredita independente do resultado. ”
    foi isso que eu disse pra uma aluna minha que perguntou ‘até quando a gente vai sair às ruas pra lutar pelos nossos direitos’. naquele momento eu refleti porque até então não tinha pensado nisso, de tão eufórica que eu tava, mas respondi que não importa até quando vai ter protesto: até quando tiver, quando eu puder, irei.
    o mesmo foi em relação aos resultados. um amigo-irmão que tá cobrindo as manifestações chegou pra mim e perguntou ‘manie, cê acha mesmo que vai mudar alguma coisa?’ e eu respondi que não era vidente pra saber se o brasil ia mudar, mas que pela primeira vez minha esperança ganhou pernas e braços e ficou mais forte, fazendo com que eu botasse muita fé que vai dar certo.
    hoje lutamos pelo ônibus e mts cidades conseguiram evitar o aumento/abaixar os preços. isso não foi uma vitória? não era isso que reivindicamos? então! que isso sirva pra continuarmos indo às ruas, não pra mostrar pros futuros filhos que fomos revolucionários como os vovôs que lutaram nas guerras mundiais, mas sim pra sentir que nossa presença ali faz muita diferença.
    e que outros motivos venham pra lutarmos a favor ou contra, porque se vivemos numa democracia (tão desejada no passado) temos o direito de dizer se tâmo ou não gostando do que o governo tá fazendo por nós. e se vivemos em uma, que seja feita a nossa vontade.

    teu textos, como sempre, me inspirando!

    http://www.pe-dri-nha.blogspot.com

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