Pressure

Recentemente entrei em contato com uma personagem genial que tinha como lema de vida o pensamento de que “tudo é mais feio quando visto de perto” e por alguns momentos acreditei nisso, mas logo a ideia se esvaiu em minha mente. Afinal, o que é “feio”? É ter algum defeito? Não cumprir aquele papel de perfeição que o mundo nos faz esperar de toda e qualquer coisa? É gerar alguma decepção e frustração? Se for assim é verdade. Tudo é feio quando visto de perto. De perto todas as nossas máscaras caem e a gente prova que não somos os super heróis ou super heroínas que demonstramos na maior parte do tempo. Eu sempre tive a filosofia de que não existe o “normal” porque ninguém realmente segue um padrão específico e semelhante, por mais que de longe todos nós possamos ser classificados pelas mais diversas categorias, quando vistos de perto somos apenas um reflexo de tudo aquilo que passamos em nossas vidas. Somos o que o mundo construiu, enquanto nós construíamos nosso próprio mundo.  Então sim. Todos nós somos feios vistos de perto. Todos somos anormais. E é por isso que somos tão belos e é por isso que ainda há algum sentido nessa coisa de “viver”.

Querendo ou não, a gente gosta de desvendar os universos alheios, de tentar entender como é que os outros enxergam o mundo. A gente vive julgando pessoas baseando-se em nossos próprios preceitos, mas com um pouquinho de esperteza que surge do além estamos nós percebendo que dentro da realidade daquela pessoa tudo que ela fez faz sentido pra ela e então a gente simplesmente perde os parâmetros para julgar e se vê obrigado a cuidar da própria vida, sem desmerecer a de ninguém, mesmo que não concordemos com muitas das coisas que os outros fazem. E isso nos torna mais lindos. Mesmo que sejamos feios quando visto de perto. Mesmo que sejamos feitos de papel.

Eu acredito que de fato temos uma imagem feita de papel, todos nós. A gente se constrói em uma via de mão dupla, sendo a primeira mão aquela que a gente mostra para toda e qualquer pessoa e a segunda aquela que a gente é no nosso íntimo e que só quem se aventura na arte de nos conhecer chega um pouco perto de desvendar, embora nem nós mesmos consigamos de fato perceber essa face da nossa própria construção.  A questão é saber aparar as arestas dessas duas vias e tentar interseccioná-las para que não viremos completos babacas duas caras que não são nada enquanto tentam ser absolutamente tudo.

A gente vive em um mundo onde o ethos social tem muito mais importância do que aquilo que realmente somos ou queremos ser. Vivemos em um universo em que ninguém se importa de fato com o que a gente pensa, ou poucas gentes o fazem. Lidamos diariamente com um punhado de gente que só está interessada em saber da nossa vida para que em seguida possa falar de sua própria, a fim de provar para si mesmo que sua vida não é assim tão ruim e ter a ilusão de estar sendo ouvida. Mal sabem as pessoas que pouquíssimos são os que de fato querem ouvi-las. Os outros só estão ali porque têm medo do silêncio. Porque não querem se sentir sozinhos. Porque acreditam na ilusão de que serem iludidos com verdades alheias que por muitas vezes são falsárias é melhor do que viver a própria vida. E nós ficamos aqui. Perdidos. Transformamo-nos em Manequins largados em vitrines de loja, prontos para sermos exibidos, mostrados, compartilhados e com barreiras infinitas para a arte de sermos ouvidos, compreendidos ou amados.

“We accept the love we think we deserve” disse Charlie em “The Perks of being a Wallflower” e depois de muito procurar por aí e de muito refletir eu finalmente descobri qual é o amor que eu acredito merecer. É aquele que não me super-estima ou sufoca, que entende minhas limitações físicas e psicológicas. Que sabe que reagirei abruptamente mal a elogios e coisas fofas porque me sinto inapta a ser amada, porque acredito que não sou uma boa pessoa, que não mereço tempo alheio desperdiçado comigo, que vou morrer logo e que deveria ser usada apenas para um par de risadas e nada mais. Eu acho que não mereço amor. E é por isso que me encanto por pessoas que não demonstram gostar de mim, mesmo eu sabendo que elas gostam. E é por isso que considero como incógnitas todas aquelas que eu gosto e vivem dizendo que por mim sentem apreço. E é por isso que eu surto. É por isso que eu nada sei.

Se sou tão papel assim, como é que consigo ter um pouco de senso de carne e osso de vez em quando? Como é que posso ser um objeto passível de receber sentimentos bons de terceiros se é sempre essa luta tão infernal para conseguir um pouco de apreço próprio?

tpobaw

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  1. Essa história de pessoas de papel me deixou meio irritada, porque eu não curti a Margo. Achei ela prepotente demais, proclamando uma falsa hipocrisia que ela não tem o mínimo peito pra sustentar. Pronto, falei, e ainda quero ver se posto a respeito, se eu conseguir terminar essa saga Rock in Rio até o fim do ano, porque tá difícil! HAHAHAHA
    Já essa quotes de Charlie, amo e amo. As pessoas realmente aceitam o amor que acham que merecem, e eu ainda não faço ideia de qual é o que eu mereço. E essa quote da foto.. ai! <3
    Beijos!

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