Pronto, falei.

Estou com vontade de me apaixonar.

A gente passa dias e dias da nossa vida concluindo inúmeras coisas distintas impulsionados por um monte de gente aleatória e acabamos por perder a capacidade de pensar por conta própria e concluir coisas por nós mesmos. Há muito tempo eu não paro, centralizo minhas energias e escrevo em algum lugar tudo que estou sentindo, para tentar me compreender. Eu costumava fazer isso muitas vezes ao longo da minha vida, mas perdi essa capacidade. Desisti de mim e aceitei o fato de me importar mais com o que mostrar para os outros sobre mim do que em engrandecer aquilo que de fato me constrói. Eu não sei mais o que me constrói. As vezes eu olho no espelho e fico plenamente irritada por ter cabelos coloridos, porque aquilo não tem nada a ver comigo e porque não faz sentido que eu tenha tido tanta vontade de ser assim. Eu tento lembrar os motivos e simplesmente não consigo, mas não consigo acordar e virar uma pessoa de cabelo preto porque isso falaria menos ainda à respeito de mim e simplesmente não faz sentido que eu me importe tanto com o que eu digo à respeito de mim enquanto não estou falando nada. Mas eu me importo.

Saí do facebook sexta-feira com o intuito de voltar somente quando considerar a rede social dispensável em minha vida. Eu sei que não conseguirei ficar longe por muito tempo, mas espero que seja tempo suficiente para eu aprender a aproveitar o tempo que me resta e torná-lo produtivo. Eu espero poder olhar mais nos olhos das pessoas ao invés de ter que ficar intepretando se suas frases são ou não irônicas, porque eu sou péssima nesse tipo de interpretação quando a gente não consegue ouvir a voz. Eu passei cinco anos naquele ambiente e desperdicei muito tempo da minha vida lá. Eu desaprendi a pensar enquanto estive lá. Desaprendi a ponderar aquilo que seria importante ou útil de ser compartilhado com aquilo que eu achava super legal e queria perpetuar de algum modo. Desaprendi a pensar antes de falar ou agir. Desaprendi a sentir, porque ali era tudo tão simples que a gente nem precisava sentir nada. Bastava clicar um botão que automaticamente éramos amigos, nem havia sentido em tentar sermos de fato. E eu não fui. Nem de um milionésimo das pessoas que estavam ali descritas como meus “amigos”. Porque tornei-me uma pessoa péssima o suficiente para agir futilmente, de acordo com o que as aparências demonstravam. Sendo falsa. Agindo conforme a música que tocava no momento.

Um barco solitário em um oceano completamente desconhecido. Essa fui eu. Ali, contando todos os meus segredos para pessoas que contam todos os seus segredos para outros desconhecidos e que jamais se olham e conversam e jamais sentem e jamais pensam um no outro ou se permitem entrelaçar os laços de algum modo. Todos conectados, mas ninguém interligado. E eu comecei a me sentir sozinha, porque de fato eu estava sozinha. Trancada no meu quarto, a vida inteira. Em meio a quatro paredes, uma garota, seu computador em seu colo e uma cadeira que já tem o formato exato das suas costas e a deixa apenas mais doída a cada dia que passa. E eu não quero ser assim. Eu não fui feita pra ser assim. Eu sou hiperativa, eu pulo, canto, danço, remexo e falo abundantemente e, ai meu Deus! Eu esqueci como se conversa! Eu não sei mais olhar para uma pessoa e passar horas e horas falando porque eu tenho na minha cabeça que já falei tudo que poderia falar em redes sociais e não há mais nada a acrescentar, então eu devia ficar apenas calada e esperar o momento de voltar pra casa para escrever em redes sociais sobre os momentos que eu deveria estar compartilhando ao vivo. Porque aqueles momentos não importavam mais, mas sim os comentários nas fotos e nos status e as curtidas e compartilhamentos e toda a repercussão.

Eu sempre fugi de relacionamentos porque acho que nada deve ser pra sempre e quando duas pessoas começam a compartilhar tempo demais e coisas demais uma sobre a outra, elas acabam por se cansar e ficarem insuportáveis. Fujo de relacionamentos porque os vejo como fadados a terminar e eu sou preguiçosa demais para começar algo que eu ache que vai terminar. Aí eu lembro da minha mãe dizendo todo dia pra mim que eu preciso me apaixonar e das minhas tias desejando muitos “namorados” nos meus aniversários e das minhas amigas que resolveram começar a namorar no mesmo ano, inusitadamente. E olho ao redor e descubro que eu nem tenho chance de conseguir isso algum dia. E nem é só porque passei a vida inteira fugindo e não tenho em mente um conceito positivo de “namoro” formado. Não. É porque eu passei tanto tempo tentando construir um “eu” internético que acabei por esquecer de construir o meu eu real. E eu jamais conseguiria cogitar a hipótese de me relacionar com alguém sabendo que sou uma completa bagunça e que nem sei quem eu sou de fato.

Então eu acordei essa semana em meio ao emaranhado de livros, seriados e filmes que a distância do facebook têm me feito entrar em contato com. Em meio à toda solidão que eu me vi imediatamente dentro, porque sem facebook é como se todos os outros barcos do oceano tivessem afundado e as águas tivessem resolvido ficar tão paradas que é capaz de haver uma inundação de dengue e ainda assim ninguém vai te dizer oi. Em meio às reflexões geradas, às crises de abstinência, à depressão e à vontade de apagar esses cinco anos que eu desperdicei em uma porcaria viciante que me dá vontade de reativar a cada minuto que eu encosto nesse computador, eu descobri que sou muito mais igual ao resto do mundo do que eu imaginava. Descobri que eu tenho vontade de me apaixonar e de ter um namorado pra ir ao cinema comigo e rir dos filmes ruins. Eu tenho vontade de ter alguém com quem eu possa de fato conversar com, olho no olho, sem ter vontade de chorar, só se for de tanto rir. Mesmo que isso me sufoque. Mesmo que depois de duas semanas eu esteja completamente arrependida e querendo voltar às mentiras da rede social azul. Mesmo que eu perceba que nem é grande coisa e que eu não deveria ter pensado nessa hipótese. E eu acho que se demorei tanto tempo da vida pra perceber que tenho essa vontade, demorarei um bom tempo para aceitá-la dentro de mim. No momento estou apenas assustada, me sentindo um lixo solitário largado ao leu e morrendo de uma vontade abrupta de voltar ao facebook para olhar o Spotted e conversar com determinadas pessoas.

{Daqueles textos que dóem a alma e causam arrepios ao ser escritos e que antes de postar você repensa mil vezes porque acha assustador demais sentir algo assim}

0 thoughts on “Pronto, falei.

  1. Li seu texto aqui do meu celular e senti sua dor daqui. Olha, não se sinta mal por você querer o que na verdade todo mundo quer. Isso não te faz menos especial ou pior do que ninguém. Fique feliz por você ter conseguido admitir pra si mesma e pra todos que te leem aqui o que você realmente quer. E mais ainda por ter descoberto isso ainda tão nova… tem gente que passa uma vida inteira tentando ser algo só pra agradar ou desagradar aos outros. Agrade a si mesma, antes de tudo.
    Um beijo

  2. Ps: eu fiquei um tempo longe do facebook pra curar algumas dores e foi a melhor coisa que fiz. Voltei, mas com outros olhos. Nunca fui de ficar perdendo tanto tempo assim lá, porque já tinha passado por essa experiência com o orkut.
    Outro beijo

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