Protestos de Meia Tigela

Karl Marx um belo dia terminou um Manifesto com a frase que posteriormente ficou famosa, o tal do “proletários do mundo, uni-vos”. Com essa nova tendência internética eu volta e meia imagino sr. barbudo com uma plaquinha escrito “#somostodosproletarios”.

Achava que essa mania do “somos todos” alguma coisa rondava apenas as pessoas do meu curso que, na falta de criatividade para nomes de coletivos, chapas e semelhantes, elegem um objetivo comum e emolduram “somos todxs” tal coisa. Claro que eu já fui dessas, quando em meu áureo tempo de recém descobrir o que era feminismo inventar uma página do facebook chamada “somos todxs princesas” (não me perguntem o sentido, que nem mais lembro).  Não vim aqui discutir a minha incapacidade de seguir uma ideologia até que a morte nos separe ou o fato de eu abominar a ideia de me prender a alguma coisa pelo resto da minha existência, só vim dizer que tenho achado tudo isso muito engraçado.

A ideia de tio Marx era popularizar a tal crise do capitalismo e a necessidade de mudança do paradigma, em que os proletários fariam uma revolução e tomariam o poder. A ideia foi popularizada, ampliada e por várias vezes – a meu ver – desvirtuada. Todas as coisas viram paradigmas subalternos que precisam ser maximizados e a velocidade com a qual os protestos virtuais baseados em hashtags e fotografias aumenta exponencialmente. De repente uma grande massa tira uma foto levantando uma bandeira e defendendo-a com unhas e dentes, mas sem ter o mínimo conhecimento daquilo que motivou a existência de tal movimento.

Hashtags são hasteadas diariamente em nome de causas que surgem a partir de um modismo de tal existência e, se por um lado isso faz com que os movimentos ganhem maior visibilidade – devido ao maior alcance da informação – também faz com que seja mais facilmente desligitimizado. Quando Marx queria proletários unidos não imaginou que eles fossem à luta porque viram alguém bacana indo e quiseram entrar na moda. Ele propunha que os proletários se unissem justamente para criarem uma consciência de classe, ou seja, um compartilhamento de ideias comuns que os colocassem à parte de todos os problemas e os motivasse a lutar por sua resolução. Seria uma revolução com um objetivo a ser atingido – a tomada do poder. Não apenas para dizer que algo foi feito, que “tentamos”.

Parte da minha desilusão para com movimentos sociais em geral e para essas manifestações de meia tigela (desculpem a chatice e falta de tolerância, confesso que tentei entender o mote dessas coisas e como não consegui, resolvi decidir que não concordo e pronto – afinal, acho que ainda posso ter opinião) é justamente a falta de foco. Preocupam-se demais nas fotos que postarão nas redes sociais dizendo que foram a tal manifesto e de menos com o impacto real que aquilo terá para a concretização da causa. Busca-se uma foto bonita, bom ângulo, boa maquiagem e um cartaz bem feito e tempos depois ninguém mais lembra que a manifestação ocorreu, porque ocorreu e o que ela causou. Qual a relevância de fazê-las então? Parecer bonito e politizado?

Longe de mim desmerecer os movimentos sociais, que lutam para a ampliação do conhecimento sobre sua causa e também de adeptos à sua luta. Só acho que antes de inventarem novas hashtags, novos protestos online e offline e antes de sair por aí defendendo essas coisas, deve-se saber o mínimo sobre elas (talvez as pessoas devessem utilizar os próprios movimentos sociais para obter esse conhecimento da causa).

Aliás, ano passado houve um fuzuê danado por causa do aumento da passagem de ônibus. A da cidade não aumentou, mas a passagem da região metropolitana de Curitiba passou de R$2,70 para R$4,50 neste mês, assim mesmo: de um dia para o outro. Alguém foi protestar sobre isso? Estão fazendo campanhas para não reeleger o governador, obrigar que o preço volte ao normal ou qualquer coisa assim? Ainda temos muito o que crescer nessa história de lutar pelo direito do outro e não só pelo meu. Aliás, temos muito a crescer em consciência política no geral.

2 thoughts on “Protestos de Meia Tigela

  1. (Sobre o post anterior pq ainda não li esse)
    May, eu não sei se já te disse mas não é toda hora que eu entro aqui no seu blog. E não porque eu não gosto dele, mas justamente pelo contrário. As vezes eu sinto que tenho que estar com a concentração à altura pra poder te acompanhar e entrar em você… muita gente já me disse que eu sou transparente nos meus textos, mas a verdade é que essa é a característica que mais encontro nos seus.
    Eu sei muito bem o que é viver nessa agonia e não saber sair dela. É como pedir desesperadamente que alguém nos tire da solidão, mas fechar os olhos para cada mão que se estende para nos erguer. Eu acho que são fases que pessoas muito sensíveis passam e apesar de ficar triste, pois bem sei o quanto é ruim estar assim, há uma parte de mim que fica um pouco mais tranquila por saber que existem outras pessoas no mundo como eu.
    Em um mundo onde todo mundo valoriza ser passarinho, é um pouco difícil ser raíz.

    Beijinhos

  2. Olá Mayra!
    Acredito que alguns “movimentos” atuais são efêmeros justamente devido à superficialidade das pessoas que os aderem. Como você mesmo levantou a questão, parece que as pessoas querem mais é se promoverem em redes sociais do que realmente lutar por aquilo que fingem apoiar. Vide o resultado dos protestos em que o tal gigante havia acordado: nada, a não ser as passagens continuarem aumentado absurdamente e ninguém faz nada quanto a isso porque vc ganha mais likes postando uma foto com a hashtag #somostodosmacacos.

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