Quando a Luz Acaba…

Fiquei sem luz por cinco horas justamente no dia em que tinha reservado para passar lendo os textos digitalizados para fazer um dos últimos trabalhos deste ano que teve três semestres letivos. Notebook sem bateria. Celular na assistência técnica. Li um pouco, como era esperado, mas logo resolvi me recolher em minha cama. As pessoas reclamam que eu durmo demais, mas elas não sabem que na verdade eu durmo bem pouco, as vezes que consigo passar de oito horas seguidas é porque o dia foi realmente cansativo. Na maior parte do tempo eu fico apenas deitada, recolhida com meu eu interior e pensando em coisas mirabolantes. É que a preguiça de sair e fazer algo é tanta e a margem para decepções tão grande que nada nunca é mais agradável do que ficar imaginando como seria conversar com pessoa x ou passar por tal aventura. Foi isso que eu fiz por cerca de cinco horas. Até que comecei a ficar revoltada, querer ligar para a empresa de eletricidade reclamando e dizendo que, por favor, eu moro no Centro, que tipo de cidade ruim é essa que o Centro fica sem luz por tanto tempo? Trabalhem, seus folgados. É claro que essa foi apenas mais uma das milhões de conversas que aconteceram na minha mente e não na realidade e em meio ao mar de pensamentos inacabáveis eu me lembrei da Eponine, de “Os Miseráveis” e toda a vida que ela vivia na mente dela. Odeio-me tanto por ser tão parecida. Lembrando da Eponine, fui procurar meu primeiro caderno da faculdade, sabia que tinha a música dela lá e eu precisava ficar entoando a mim mesma que sempre estaria “own my own”. Encontrei o caderno, cantei a música milhares de vezes e resolvi analisar o que estava escrito ali. Fiquei com saudades. De todas as páginas gastas com partidas de forca e de jogo da velha e de ligue os pontos. Saudades da guerra de letra de músicas e dos haikais trocados, dos desenhos recebidos e de todas as outras coisas que aquele caderno me lembra. Aí eu fui ver o que escrevia nas matérias e descobri que durante o primeiro ano eu escrevia horrores nas matérias, é até bonitinho. Aquela doce ilusão de que fazer faculdade vai te fazer capaz de enxergar o mundo positivamente.

Não foi sobre nada disso que vim falar.

Em meio ao meu mar de reflexões, lembrei das minhas férias na casa da minha avó e de como minha infância foi construída de um jeito totalmente diferente da de todas as crianças com as quais convivi. Lembrei que por volta dessa época a gente já estaria organizando as malas e se preparando mentalmente, por volta do dia 20 deveríamos estar em Brasília e chegar na casa da vovó no máximo dia 23. Três dias de viagem de carro. Mayra completamente inchada. Mário e seu violão, ou radinho de pilha, a gente cantando qualquer coisa e dormindo o resto do tempo inteiro, enquanto papai dirigia das 5h às 23h, com paradas estratégicas e super rápidas, na maioria das vezes no meio do mato (o que nem era ruim, era até mais higiênico e confortável que os tais “banheiros”), pra que a gente chegasse, buzinasse e vovó e vovô aparecessem na porta, abanando os bracinhos e gritando “Chegaram! Chegaram!”. Era sempre uma vitória muito grande chegar àquela terra longínqua da qual ninguém que eu conhecia havia ouvido falar.

Em meio ao semi-árido do Maranhão, em uma casa gigante e repleta de primos, com uma avó turrona e um avô fofinho e absolutamente nada para fazer. Era assim que eu passava todos os meses de Janeiro da minha infância. E eu era muito feliz.

O intuito deste texto, no entanto, é deixar uma versão escrita de algumas das histórias e situações que tanto me marcaram, porque a maneira pela qual eu enxergava coisas como natal, parar de chorar, ano novo e chuva eram completamente diferentes das de todas as outras crianças da minha escola. No natal todo mundo ganhava presentes do “papai noel”, em Grajaú não tinha isso. Primeiro porque era uma enorme sacanagem fazer alguém vestir aquela roupa em meio àquele calor, segundo porque era muita frescura. Natal era dia de Jesus. Era dia de ir naquela missa absurdamente gigante em que a história do nascimento de Cristo era contada por uma menina muito engraçada que a transformou em forró. A igreja inteira fazia o ritmo com as mãos, cantava e mexia os vestidos enquanto dava singelos passos de dança. Depois a gente voltava pra casa e comia aquela ceia que nunca tinha um Chester, era peru caipira mesmo, com a receita da Ana Maria Braga, que minha tia tanto gostava de fazer. Aí a gente ia pra perto da árvore de natal, que nunca era dessas de plástico e muito menos de verdade. Sempre era feita de materiais alternativos, lembro de uma que era de garrafa PET, achei o máximo. Anos depois Curitiba copiou minha tia e fez uma gigante com o mesmo modelo aqui perto de casa. Perto da árvore ficavam os presentes que a gente tinha ido comprar no R$1,99 ou coisas completamente zoadas. Tirávamos um papel com o nome de algum de nós, pegávamos um dos presentes e entregávamos. Nunca ganhei algo que eu trouxesse pra casa, mas foram os melhores natais da minha vida. E até hoje tenho que ouvir perguntas como “o que você fez quando soube que papai noel não existia?”, eu nunca achei que ele existisse, sempre soube que era São Nicolau distribuindo bicicletas. Natal era dia de Jesus.

Parar de chorar era outro causo… vovó se irritava porque eu odiava o leite de lá, que vinha direto da vaca e tinha um gosto muito forte, aí todo dia que eu tinha que tomar aquilo e em seguida algum dos meus remédios horríveis, surtava. Mayra com menos de cinco anos sentada, encolhida no quarto, chorando desesperadamente. Sua mãe já havia desistido do caso, Vovó não. “Faz essa menina parar de chorar no pé do meu ouvido” e minha mãe ia brigar comigo e eu chorava mais ainda. Aí ela, senhora Salomé com toda sua experiência nas costas, aparecia e dizia “tá vendo aquela rede ali?” (sempre tinha uma rede na minha frente) “se você não parar de chorar, vai vir uma índia te buscar e vai te transformar naquilo”. Hoje eu estudo índios com muita relutância e acho que grande parte disso deriva do fato de eu os achar geniais, mas, por favor, eles transformam crianças em rede. Quando vovó falava isso eu chorava sem nunca mais parar, até que a campainha tocava. O desespero batia, eu achava que ia morrer de tanto chorar, ela vinha repetir a história. Eu me obrigava a parar. Nunca quis virar rede. Nunca consegui chegar perto de um índio grajauense, mas mereço perdão porque já visitei uma tribo em São Paulo e nem fui esquisita.

Ano novo sempre foi uma data super sem graça. Em Grajaú não tem comemoração nenhuma e não tem horário de verão. Meus avós nunca ficavam acordados até a meia noite, então depois da missa gigante, a gente comia outra ceia ensinada pela Ana Maria Braga e ficava sentado no sofá esperando o show da Globo começar, a uma hora da manhã. Depois eu chegava em casa e ouvia histórias fantásticas sobre o tal “reveillon” e ficava indignada com a empolgação alheia.

Lembrei de tudo isso hoje, no entanto, por causa da chuva. Chuva em Grajaú era uma história à parte. Vovó morria de medo, então quando o céu fechava todo mundo retirava todas as roupas do varal, todos os eletrodomésticos da tomada e cobria todos os espelhos. Queria ter podido passar mais tempo conversando com minha vó sobre essas coisas. Na verdade acho que ia ser sensacional conversar com ela depois de saber o que era antropologia (se é que eu sei). Vovó recolhida em sua rede (ela nunca usou uma cama), toda coberta, rezando mil e um terços e alguém sempre ao lado dela tentando acalmá-la, em vão. Quando os trovões e relâmpagos começavam tudo piorava. E eu achava hilário, porque não entendia nada. Ficava sempre deitada esperando a chuva passar, só que ela raramente passava sem que a luz acabasse. E quando a luz acabava as coisas pioravam. Era um tal de todo mundo sair gritando “mermã, cadê as vela?” ou “minina, cuidado cus fio no chão” e então surgiam as lamparinas, algo que eu nunca vi em outro lugar sem ser a casa da minha avó, e quando a gente conseguia um pequeno local iluminado era sempre pra alguém enxergar um anfíbio que a gente chamava de “sapo”. Aí lascava tudo. Eu subia em alguma coisa e começava a gritar “ali”, “lá”, “acolá”, “vai, uh, quase!” enquanto minha mãe e minha tia corriam atrás dele com um pau de vassoura e um punhado de sal. Elas sempre encontravam o bicho, matavam ele e eu ficava triste porque o pobre tinha perdido a vida por causa dos meus gritos.

Eram bons tempos. Boas histórias. Coisas que eu nunca vou me conformar por não poder reviver. Coisas que eu lembro e imediatamente lembro da última vez em que estive lá e estava atrasada pra ir embora e vovó estava fazendo xixi e disse “entra aí, menina, preu te dar tchau” e eu nem sabia que ela ainda sabia quem eu era. Dei um beijo, fui embora e dias depois ela morreu, meu vô se mudou, venderam a casa da minha infância e eu nunca mais consegui cogitar a hipótese de pisar em terras maranhenses novamente. Porque não deve ter a menor graça sem eles.

One thought on “Quando a Luz Acaba…

  1. meu-deus-do-céu… esse final… nossa, me senti no final de um filme feliz que nos surpreende com uma última cena triste.
    nossa, Mayra, que saudade que eu tava de ler seus textos. esse foi um dos melhores, sem dúvidas. viajei totalmente aqui, à meia noite e dezoito, com os olhos pesados e a cabeça cheia de coisas. foi muito bom vir aqui hoje!

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