Quando Não há Esquecimento

Há avôs que ensinam os netos a pescar, outros os ensinam a jogar futebol e outros ainda a jogar cartas. Há avôs que são lembrados por várias dessas coisas e outras não ditas também e há avôs como o meu.

Vovô morava numa casa enorme, no interior do Maranhão – ou seja, num calor infernal constante – e todos os dias acordava na hora que o Sol amanhecia – e lá isso é por volta das 5h da manhã – para regar as plantas de seu quintal. Ele as regava várias vezes por dia e eu ajudava em muitas delas, morrendo de orgulho por pegar o regador da maneira correta. Lembro do vovô escalando o imenso pé de juçara para pegar as frutas lá em cima para que eles pudessem comer. Lembro das tentativas de casas na árvore no pé de Manga, que sempre fracassavam por causa das formigas e sempre tinham que ter uma escada porque eu não sabia escalar a árvore. Lembro dele nos ajudando a fazer uma cabana de tijolos enquanto ria e dizia que aquilo era apenas “musculoração”. Lembro da gente arranjar qualquer desculpa para ir ao mercadinho só para que ele nos desse dinheiro e pudéssemos gastar com filmes. Lembro dele lavando a caixa d’água com a nossa ajuda e de quando ele foi visitar minha casa no interior de SP. Lembro dele na praia fazendo biquinho pra tomar água de coco e rindo do jeito que mamãe entrava no mar e de quando ele morou conosco e morria de frio e reclamava das minhas mãos frias. Eu lembro de muitas coisas quando paro para pensar em meu avô, mas lembro de uma delas com maior ênfase: Ele fazia tapetes de retalhos.

Quando vovô ficou idoso e já não podia capinar campos ou construir casas pois seu coração não aguentava, minha tia, prendada como só ela, resolveu ensiná-lo a fazer tapetes com tiras de retalhos. Desde então, sempre que eu o via era em seu serviço. A gente comprava malhas e lá ia ele medir milimetricamente, riscar e cortar sem o menor errinho e quando a gente comprava os retalhos já prontos ele fazia a mesma coisa, tudo tinha que sair perfeito! Então lhe davam a tela e ele começava  a pensar em como faria o tapete e de repente começava e um tempo depois estava pronto. Lindo e pronto. Porque vovô era desses homens criativos. As vezes minha mãe pedia para eu ajudá-lo, o máximo que ele deixou fazer foi cortar as tiras – mas revisou tudo depois, claro – e uma vez eu insisti tanto que ele resolveu me ensinar a fazer tapetes, não que já não soubesse de tanto vê-lo, mas aprender com ele ensinando foi uma coisa fantástica. Eu me diverti horrores e sempre que tinha tempo oferecia-me para ajudá-lo, nem sempre ele deixava, mas quando deixava eu pulava de felicidade. O mais engraçado é que absolutamente sempre que eu resolvia fazer ele depois desmanchava e refazia porque eu “tinha feito na ordem errada”. Ah. Vovô era uma piada. Ele passava o dia inteiro naquilo e ai de quem quisesse lhe interromper, mesmo que fosse para tomar água. A última coisa que ele me disse, quando já estava agonizando na cama foi “cadê minha agulha? Preciso da minha agulha!” e eu saí correndo pra pedir pra minha mãe e ela disse que seria perigoso dá-la a ele naquelas condições, então eu dei meu dedo e ele quase o quebrou pois achava que era a agulha. Ah vovô. Como ele era engraçado. Nunca vou me esquecer da vez que ele estava de boca aberta fazendo tapetes, porque ele sempre os fazia com a boca aberta, e minha mãe perguntou a razão daquilo… ele respondeu que era para “tomar um arzinho na língua”. Eu quase morri de rir. Vovô era fantástico.

Já narrei aqui a peripécia da saia longa que a minha mãe comprou e o fato é que eu sempre ouvi falar que as pessoas dos cursos de humanas usam e abusam de saias longas. Faço um curso de humanas e só vi uma menina que as usa, mas depois da peripécia da saia longa eu resolvi que iria para a faculdade com ela algum dia. Hoje eu acordei e estava muito calor e é muito raro aqui fazer calor suficiente para você cogitar sair de saia logo cedo, mesmo que seja uma saia comprida. Mas eu encarei. Vesti, morri de rir de mim mesma, lembrei de tudo que a saia significava e fui pra faculdade assim. Logicamente senti-me um palhaço ambulante, não importando se aquilo ficou ou não bom em mim. Não posso negar: saia longa é super confortável e é muito legal se sentir hippie andando por aí de saia e chinelos, porém, no entanto, todavia, eu quase caí incontáveis vezes de tanto quase tropeçar nas barras da minha própria saia. Pois é. Voltei pra casa e fiquei com preguiça de trocar de roupa. Lembrei que minha mãe havia pedido para eu buscar umas coisas para ela e resolvi que iria com a mesma saia, então fui até o guarda-roupa à procura de uma bolsa que não ficasse assim, tão horrorível e eis que eu encontrei a ideal.

Havia ido visitar meu avô como em todas as férias até então e resolvi que queria uma bolsa feita da mesma maneira que ele fazia tapetes. Não sabia quando usaria ou se usaria, mas eu queria. Mamãe aprovou a ideia e foi pedir para que ele fizesse, vovô que era um senhor muito democrático decidiu que se faria para uma neta haveria de fazer para todas. E foi assim que ele passou o mês inteiro fabricando as nossas bolsas, para depois minha mãe e minha tia darem a elas o formato de bolsas. Isso faz cerca de oito anos. Oito anos que eu tenho a bolsa feita pelo meu avô e a carrego em todas as minhas mudanças, sem medo ou vergonha, dizendo para minha mãe que aquele é o legado dele e eu devo honrar. Eu realmente acredito que toda essa história com retalhos seja o legado do meu avô. Acredito que essa bolsa seja uma das coisas mais vivas dele que eu tenho e eu nunca tive coragem de usá-la. Não por a achar feia, mas sim por ela simbolizar tantas coisas e ser tão chamativa que se torna difícil de combinar com outras peças mais comuns. Então hoje, eu que já estava me sentindo um palhaço ambulante com epifania de hippie que dormiu em woodstock resolvi que sairia nas ruas com a bolsa que meu avô fez. E querem saber de uma coisa? Eu me senti muito bem com isso, afinal, querendo ou não, é uma parte dele que continua comigo. Pra sempre. Porque tem gente que sempre continua vivo na nossa mente e, nesse sentido, Alasca Young, John Green e companhia que me perdoem, mas nesse sentido eu não acredito que haja esquecimento. Pelo menos não até eu morrer. Porque são minhas lembranças e elas continuaram vivas enquanto eu estiver.

0 thoughts on “Quando Não há Esquecimento

  1. Histórias de avós e avôs são sempre mágicas, adoro ler sobre elas! E adorei essa bolsa, é a sua cara! Você é meu filhote de arco-íris!! Te amo!

  2. May, que história mais linda. Fiquei emocionada aqui. Seu avô deve ter sido mesmo um cara massa, e pode ter certeza que você levou isso também de herança – além dessa bolsa, que é tão você que nem sei!

  3. meu avô foi provavelmente a pessoa mais importante da minha infância junto com a minha mãe, criando campeonatos de futebol comigo e brincando do que quer que estivesse disponível.
    depois eu cresci e descobri que ele trabalhava pra ditadura, mas mesmo assim, isso não afeta em nada a memória que eu tenho dele.

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