Quando o Irã censura uma história de amor

          Aqui no Brasil nosso contato com literatura do Oriente, em especial do Oriente árabe, é escasso e complicado. São poucas as editoras que traduzem este tipo de livro e há pouca procura por eles no mercado, o que desencadeia em pouca oferta. Com raras exceções, como “O livro das mil e uma noites”, não conhecemos sobre a literatura do outro lado do mundo. Em nossas escolas nos é ensinado sobre a literatura Ocidental, assim sendo sabemos a trajetória da história da literatura e conhecemos os seus gêneros, mas, salvo exceções, não há exemplos de autores orientais. É como se o mundo inteiro se reduzisse àquilo que é produzido na Europa e na América. Só que no resto do mundo também há literatura, história, geografia e obras de arte em geral. E é muito bacana que a gente tenha a oportunidade de entrar em contato com essas coisas, pois passamos, inclusive, a nos entender melhor enquanto “Ocidente” (se é que ainda pode-se considerar que haja alguma unidade subentendida no termo).

          Tive acesso ao livro de Shahriar Mandanipour, publicado em 2009 pela editora Record, por um mero acaso. Nunca tinha ouvido falar, nem do autor, nem da história e o máximo que sabia sobre literatura iraniana era a história em quadrinhos Persépolis. Mas, como tenho estado muito interessada em desbravar lugares do mundo em que ainda não pude ir com minhas pernas através da literatura, resolvi comprar o livro. E me surpreendi.

          O autor se utiliza do pós-modernismo para compor a história, o que significa que ela é polifônica. Uma história polifônica é aquela em que a voz do próprio autor é trazida para o livro. Não é como nos livros em que há um narrador em terceira pessoa, mas ele é também ficcional. Com a polifonia, permite-se que o narrador em terceira pessoa seja o próprio autor do livro. Então há trechos como “não sei porque razão Dara agiu assim, ele ultrapassou a minha potencialidade como escritor” e outros como “Dara não queria fazer isso, mas sou eu quem escreve a história”. Esse artifício proporciona ao leitor uma dupla experiência, pois além de acompanhar a história de amor que é narrada no livro, é possível também acompanhar a história sobre como Mandanipour constrói o livro e os percalços que passa para conseguir sua publicação. Dessa forma, o livro fica potencialmente mais interessante.

          A história de amor apresentada é sobre Sara, uma jovem que tem cerca de 24 anos e estuda literatura em um país onde a maior parte dos livros é censurada, e Dara, que tem cerca de 30 anos, um passado que envolve perseguição política e é apaixonado por cinema, mesmo vivendo em um país onde todos os filmes que passam são previamente censurados. O narrador da história é o próprio autor, como já citado, e em seu núcleo há o sr. Petrovich, que é o chefe do departamento de censura do governo. Há outros personagens na história, mas o destaque vai para o anão que, de um jeito inusitado, permeia toda a narrativa.

          Repleto de cenas marcantes e entusiasmadas, mostrando um lado do Irã que dificilmente seria passado por governistas ou ainda pela mídia comum e apresentando com maestria uma história que aplica a polifonia, Shahriar Mandanipour nos mostra que a literatura contemporânea do Irã vai muito bem, obrigada. E nos incita a buscar outras de suas histórias que são incrivelmente malucas e originais.

          Transferi um pouco da minha experiência literária também para um vídeo. Espero que assistam e, se lerem o livro, me contem da experiência de vocês!

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