Quase o Cheshire

Eu estava feliz. Feliz e plena como há muito não me sentia. Essa semana foi tão boa que chegou a ser surreal e ainda custo-me a crer que as coisas de fato aconteceram. Diversas vezes passo a crer que foram apenas reflexos da minha imaginação sempre fértil, mas daí eu me belisco, eu releio as mensagens lindas que recebi e todo o filme volta à minha mente até que eu passo a crer, por livre e espontânea vontade, que sim, tudo foi real.

Confesso que estou desanimada com essa história de greve e que minha criatividade voa para longe sem as aulas de antropologia e sociologia para impulsioná-la. Confesso que acho chata a parte de ensaios no teatro, me cansa e ao mesmo tempo tenho a consciência de que não posso faltar porque uma falta pode estragar tudo e nem de longe essa é minha intenção, ainda mais porque no fim das contas fiquei realmente empolgada com a história da minha nova peça, que estreia em Junho. Creio que tudo dará certo. Tive que mudar o horário da aula de francês para a tarde e isso foi completamente decepcionante porque a professora é lerda e só tem meninas na sala, meninas mais novas do que eu. Justo eu, a pessoa que sempre gosta de estar cercada por gente mais velha, inteligente e madura do que ela, que abomina os adolescentes chatos entre treze e dezesseis anos, sou obrigada a ficar rodeada por umas nove garotas com no máximo dezesseis anos, se alguma delas tiver mais, certamente tem mentalidade de dezesseis anos. Achei que tinha me livrado dessas besteiras de gente boba quando o ensino médio acabou, mas parece que nem todo lugar pode ser delicioso e repleto de gente interessante quanto o curso de ciências sociais. Em meio a todo o desânimo, porém, um sorriso se abriu, um sorriso não só com os dentes, mas também com olhos, braços e todo um corpo sorrindo. Quando já não via sentido em nada e estava prestes a refazer toda a aparência do meu blog novamente, na tentativa de voltar a amá-lo e a usá-lo, um sorriso aconteceu.

A vida é boa quando começa a sorrir para a gente, quando todas as pequenas coisas e os atos falhos que tanto nos entristecem de repente começam a fazer sentido, a nos alegrar. É tão bom ficar alegre, feliz. É tão bom ver quem a gente ama alegre e feliz. É tão bom quando as coisas dão certo, mesmo depois de muito sufoco e quase erro. É tão bom respirar novamente, acordar para a vida de novo. É tão bom viver. No entanto, ao mesmo tempo em que sinto toda essa leveza e alegria, desanimo-me novamente. É engraçada toda essa situação, toda essa confusão que me cerca. É engraçado essa coisa de precisar escrever, mesmo que por entrelinhas, para poder ao menos tentar resolver-se internamente. Vai que funciona? Vai que eu consigo? Nada melhor que tentar.

Então surge a aula de psicologia e o maravilhoso texto em que Tenessee Williams nos manda falar doce como a chuva. Precisávamos fazer uma leitura psicológica da obra, tentando desvendá-la. Obviamente não conseguimos concluí-la por inteiro, havia entrelinhas demais, significado demais, metáforas demais, subjetividade demais. Coisas demais. Tudo tão denso, profundo e ao mesmo tempo raso e banal que acabou por nos confundir mais ainda e em meio à imensa pira que nos envolvia, acabamos por nos identificar em algum momento, de algum modo. E eu saí daquela aula morrendo de vontade de ouvir Adele cantar que nada importava porque eu encontraria alguém como você, até que me lembrava que não tenho um “você” para espelhar o encontro do outro alguém. Até que lembrava que tudo que vivi até então foi apenas uma epopeia de fatos que no quesito romântico nada avançaram. E em meio a toda a densidade de pensamentos que me ocorriam no momento, bastava eu me lembrar daquele sorriso para sorrir junto. Para morrer de vontade de pegar o telefone e exigir que me deixassem falar contigo, mesmo sabendo que você não poderia me atender.

Há algum tempo decidi-me que dignar-me-ia a encontrar algo para amar, não importava o que fosse. Não imaginei que seria justo você o escolhido, você que sempre esteve ao meu lado e eu nunca fui capaz de ver pois encobria sua bondade com todos os seus defeitos e esquecia-me de pensar que valia apena tê-lo por perto. Todas as coisas ruins têm um lado bom no fim das contas, sempre me falaram isso e eu precisei esperar todo esse turbilhão acontecer para realmente me dar conta. Para me dar conta de tudo que andava perdendo por levar mais em conta as zilhões de lembranças e traumas vividos do que a realidade do hoje, do agora. Logo eu que decidi que neste ano tentaria viver mais o hoje… Tentar estou tentando, espero que agora eu já possa dizer que consegui. Espero ter conseguido.

Eu ainda vejo filmes românticos e choro no final por nunca ter vivido algo parecido. Ainda condeno os contos de fada por terem me feito crer que um dia encontraria alguém que me faria feliz e me faria sentir amada. Ainda condeno a mim mesma por ser tola o suficiente para acreditar em todas as bobas palavras que alguém me fala. Ainda caio, tropeço e levanto procurando o que espero encontrar. Ainda não tenho coragem de desistir de tudo o que me parece correto. Ainda tenho forças para crer que de fato um dia serei feliz o suficiente para que os motivos de me desanimarem não sejam capazes de fazê-lo. Ainda tenho coragem para dizer em alto e bom tom que eu me basto e não são meras picuinhas de garotinha inocente que me abalarão e acima de tudo, ainda tenho o bom senso para saber o que é certo, o que é errado e até onde os meus limites aguentam. Eu ainda quero ser feliz. Quero ser estonteantemente feliz, quero continuar aprendendo a cada segundo que passa com cada uma das coisas que passam. Eu ainda não desisti e hoje não creio que o farei, pois todas as vezes que pensar em fazê-lo, lembrar-me-ei de ti. Do teu sorriso, sorrindo para mim enquanto diz o meu nome e gargalhando ao me ouvir falar e ao conversar com a minha pessoa. Porque hoje, depois de todas as razões para chorar que você me causou, és simples e unicamente minha principal razão para sorrir e quanto a isso não há nada que eu possa fazer, a não ser acatar sua ordem e saltitar por aí.

E hoje mesmo que milhares de músicas me façam chorar porque a solidão me assola, lembrar-me-ei de ti. Lembrar-me-ei de ti enquanto ouvir Oasis no último volume caminhando para o teatro e quando simplesmente estiver estirada no sofá vendo um filme qualquer. Porque hoje eu sou gente como a Alice e você é o meu Cheshire Cat, que não cansa de me sorrir.

(Daqui)

0 thoughts on “Quase o Cheshire

  1. Ai, May, toda vez que eu leio um post seu sinto que você sambou na minha cara porque você escreve bem demais e eu fico querendo ser assim. Me identifiquei com muitas partes desse post, mesmo eu não tendo a sorte de ter um cheshire cat na minha vida.
    Ah, fiquei sem saber o que dizer.
    Beijo!

  2. *quando você é trollada e perde um comentário”
    Eu queria dizer que torci muito pra que tudo desse certo essa semana, e ainda bem que deu. Mas não quero pensar em você ficando triste porque acha que acreditou demais em contos de fadas. É claro que eles não são reais, mas essas teorias que andam tentando nos fazer engolir também são muito mentirosas. Andam dizendo qualquer besteira pra nos convencer a aceitar qualquer romance meia-boca. Nosso coração vai saber o que fazer.
    Pense no seu Cheshire se é isso que te faz bem e fique bem.
    Beijo! <3

  3. Ah, a lição que fica é que apesar de todos os pesares e aborrecimentos, sempre tem algo para animar a gente, alguma coisa que salva, um simples sorriso, hein?

    Eu me interessei pela peça, haha, apesar de não gostar de ler teatro, me interessei pelo título (julgo pelos títulos =~~)

    As coisas sempre acabam bem, May :*

Comentários: