Quase tive uma Rory

Resolvi interromper toda a correria da minha vida para compartilhar que sonhei que tinha ganho um poodle. E passei o resto do dia com um mol de tristeza a cada momento que me lembrava do sonho.

Não me deixavam ficar com meu poodle e tive que doá-la antes mesmo de decidir qual seria o nome. Queria que o nome fosse Rory, mas depois achei que precisava de algo mais criativo. É que eu sempre acho que posso fazer melhor do que o que estou fazendo. Fingiremos que o nome dela era Rory.

Preciso contar que era a poodle mais linda que já vi na vida. Ela era bem pequena e fofa e não granhia quando eu apertava e amassava daquele jeito invasivo e doentio que eu adoro fazer. Ela parecia gostar de mim.

Nas poucas horas em que ficou na minha casa, fiz um cercado no meu quarto parecido com o dos Rugrats e deixei ela no quentinho, com comida, água e jornal. Já que o nome era Rory, ela podia gostar de ler! Mentira, era só pra fazer xixi mesmo.

Ela olhava para mim com uma carinha horrível, de quem implorava para não ter que ir embora e meu coração sofria por dentro com a ideia de ter que deixar ela ir. Meu pai tinha sido bem enfático, ou ela ia embora ou eu iria junto com ela. Cogitei optar pela segunda coisa, mas não havia condições para tal.

Liguei para os familiares e amigos que tinham casa, perguntei se ela podia ficar lá pra sempre. Disse que pagaria todas as despesas e iria visitar sempre que possível, só não podia dar um lar pra ela, mas quando eu fosse morar sozinha pegaria. Ninguém aceitou.

Eu acho que esse foi um dos sonhos mais agoniantes da minha vida. Minha família brigando. A coitada da Rory olhando pra mim como se estivesse implorando pela própria vida. Eu sem fazer ideia do que fazer e morrendo de vontade de pegar ela e ir pro mundo, enquanto chorava desesperadamente.

É claro que, no sonho, acabei encontrando uma casa para ela. Ela era linda e glamour puro, lógico que alguém ia querer. O interfone tocou e era a Tetê dizendo que ia levar pros novos donos e que eu podia ir junto pra ficar mais tranquila. Fomos o caminho inteiro xingando o meu pai, enquanto meu coração doía.

Acordei, não tinha Rory.

E percebi que sou incapaz de entender como as pessoas conseguem abandonar animais por aí. No meu sonho quem me deu a poodle sumiu, que nem gente que engravida a mulher e deixa ela cuidando do filho sozinha. Minhas únicas opções eram cuidar dela ou doá-la e toda hora ia alguém no meu quarto perguntar porque eu não largava na esquina. Como é que alguém consegue largar um bicho fofo na esquina? Mas conseguem, né. Tem gente que larga criança na lixeira, veja bem.

Outra coisa engraçada que descobri é que toda a vontade de ter filhos – só pra ver qual a pira de ter uma parada crescendo na sua barriga e depois a coisa sair de você e você cuidar e chamar de filho ao invés de lombriga-que-parece-comigo (sempre achei gravidez uma coisa curiosa), sumiu. Tenho muito mais vontade de ter uma Rory do que uma criança me pentelhando. Achei bem curioso observar isso em mim. Bem curioso mesmo.

É claro que a minha ideia interpretativa do sonho é completamente diferente, mas nada disso interessa. A não ser a frase máxima: nunca abandonem um bichinho. Assim, nunca. Sempre vai ter alguém pra amá-lo.

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