Que hoje eu passei batom azul…

Sherlock Holmes Museum – 221b Baker Street, London

(1/17)

Que eu sou dessas pessoas determinadas e que gosta de quebrar paradigmas creio que a maioria sabe. O negócio é que desde sempre eu gostei de ser diferente de algum modo, enquanto todo mundo lutava pra ser igual e seguir um padrão, lá estava eu. De bermuda masculina na primeira série, mochila de rodinhas na sexta, esmaltes fluorescentes aos oito anos, altamente purpurinados aos quinze, coloridérrimos dos treze aos quinze, antes de isso ser normal entre as pessoas. Com o cabelo comprido e a franja de dois dedos, com o cabelo Chanel e a franja ornando, com o cabelo repicado, o cabelo com mechas vermelhas, o cabelo com mechas roxas – que depois viraram loiras e em seguida uma lambança – o cabelo comprido e tradicional again, o radicalmente curto de novo, a Velma, o cabelo bonitinho, a mecha azul, que depois foi verde e roxa e laranja ( e futuramente azul-verde-laranja-roxa), o cabelo afrancesado e o cabelo curto de novo. Os óculos redondos nerdianos, os retangulares avassaladores, os Velmescos, os escuros da moda, os escuros grandes demais pro meu rosto e os pequenos demais também. As roupas multicoloridas, as pretas, as brancas. A época dos vestidos, a dos jeans, a das calças palhaço (que são dificílimas de serem encontradas), das leggings, das saias, dos shorts e das capris, das camisetas lisas, das estampadas, das feitas por mim. Dos All Stars diferentosos, da havaiana, da melissa, da sandália mais barata da loja, da sandália de velho, da sandália dos anos 90, das botas nada a ver comigo. Enfim, lá estava eu. Um dia, porém, contudo, todavia, um clique bateu na população e eles começaram a ser iguais a mim. Com as roupas que não combinam com quem se é ou a época em que se vive, assim como os cabelos, sapatos e afins. Os esmaltes coloridos viraram ultra moda e quem não aderiu a eles foi considerado bobo. As coisas antes esquisitas passaram a ser normal, não por minha causa, obviamente, mas para mim foi por minha causa. Tudo por minha causa. Como se eu fosse a melhor ditadora de moda do universo. Sendo que eu abomino a moda e por isso vivo a tentar fugir dela. Em uma das minhas complexas buscas pela individualidade, percebi que as mulheres só usam batons das mesmas cores: vermelhos, corais, beges, marrons, rosas. Algumas apostam numa coisa mais arroxeada e quando se vê uma de preto por aí é absurdo. Gosto de batons coloridos, desde sempre. Uma das minhas coisas preferidas nos palhaços, aliás, é justamente o fato de eles terem a boca colorida. Queria ter a minha boca colorida. Destinei-me a comprar, portanto, um batom colorido. Foram meses de odisseia, em que os únicos encontrados eram de marcas desconhecidas que poderiam ressecar meus lábios e certamente esse não era o intuito. Daí eu fui pra Londres e embora não tenha visto grandes coisas naquela cidade, visitei um bairro digno. Camden Town, o lugar em que – segundo uma das minhas leitoras – Amy Winehouse morou. O lugar mais legal da cidade, repleto de feiras populares com todas as coisas possíveis e todo tipo de gente possível e uma loja que vendia batons coloridos. Entre os laranjas, amarelos, roxos e verdes, optei pelo azul. Azul porque laranja parece com coral, amarelo ia me deixar com cara de hepática, roxo eu já vi por aqui, verde podia até ter sido, mas azul é mais legal. Saí da loja radiante com meu batom azul em mãos e o passei no outro dia, super empolgada. As pessoas olhavam para mim o tempo todo, rindo, tirando fotos e eu morria de rir delas, porque é engraçado ser ridículo. É engraçado imaginar que talvez daqui uns três anos os batons azuis sejam normais, assim como os esmaltes fluorescentes foram. Então eu não ligava. Senti-me radiante, eu e meu batom azul. Não deu outra, nas imediações da Faculdade de Moda de Londres dois estudantes me pararam, com uma câmera na mão pedindo uma entrevista para um trabalho e lá fui eu explicar porque raios estava usando um batom azul e um gorro de macaco. Porque eu tinha essa incrível necessidade em me sentir única e especial. Obviamente não consegui dizer isso, disse apenas as razões para ter usado aquilo naquele dia e desejei uma boa apresentação de trabalho. Tive que dar uma voltinha, deixar fazerem close e explicar exatamente o que era um macaco e onde ele vivia. Foi legal. Não me acho superior a ninguém por ter um batom azul, nem tive coragem de usá-lo por aqui ainda! Estou esperando uma oportunidade decente, na verdade, porque não dá pra desperdiçar uma oportunidade dessas indo pra faculdade. Não sou diferente de ninguém, nenhum de nós somos. Somos constituídos da mesma maneira, mas por possuirmos culturas diferentes nos achamos individuais e muitas vezes melhores que os outros. Apenas um bando bobo de humanos.

Então me deparo com uma boa música diversas vezes em dois dias seguidos. Não consigo tirar essa música da minha cabeça e fico me indagando qual seria a razão. Boba eu. Completamente. A razão é simplesmente porque eu sou assim, eu não ligo. Podem falar, eu não me importo, porque o que eu tenho de torta eu tenho de feliz. Porque eu não ligo para a roupa, o cabelo, a maquiagem ou a arrumação das unhas das pessoas. Não ligo nem pras minhas. Visto-me e arrumo-me da maneira que acho que convém, sem ficar pensando no que vão dizer de ruim, as vezes só quero que digam. Às vezes nem isso. E dá pra perceber nitidamente qual é a situação. Quando visto o casaco de arco-íris é porque quero chamar atenção e quando visto o preto é porque estou muito feliz com a minha invisibilidade costumeira. Em ambas as situações eu vou adorar um abraço bem dado e um sorriso sem razões óbvias. Em ambas as situações eu continuarei sendo exatamente a mesma pessoa, apenas com uma aparência diferente e no fim, as aparências realmente importam? Pra cantora dessa música provavelmente sim. Porque Mallu passou da garota com roupas esquisitas e cabelo curto pra hipster fofa com voz rouca que canta alegremente enquanto saltita e talvez isso tenha acarretado um grande salto em sua carreira, mas o fato é que se ela era capaz de fazer boas músicas antes, também o será agora e se cantava agradavelmente antes, o mesmo fará agora. Porque as aparências não mudam as pessoas, pelo menos em nada além do que nas aparências. E eu estaria mentindo descaradamente se dissesse que em cada canto eu vejo um lado bom, ou que tenho a alegria como um dom, porque no fim das contas eu sou só uma garota que nem sabe de nada e age simplesmente da maneira que tem vontade no dia em que tem e se eu acordo sem vontade de caçar por coisas boas, não as enxergarei em lugar algum e vice-versa. Não tenho a alegria como um dom, mas sou velha e louca. Sou destemida na maioria dos assuntos. Faço o que eu quero porque aprendi com a minha família que é tudo da lei. Não fui criada numa sociedade totalmente alternativa, mas sempre pude ser o que quisesse ser e por muito tempo aproveitei essa qualidade ao máximo. Quando fingia ser uma pessoa diferente a cada dia, igual ao amigo da Sam em “A Nova Cinderela”. Há tempos decidi ser apenas eu mesma, encaixando todas as minhas multiplicidades em uma única pessoa. As vezes falho. Muitas vezes falho. Mas quem não falha? Sobrecarrego-me e me perco enquanto acho que preciso dar conta do mundo inteiro, quando sequer consigo dar conta do meu próprio nariz, mas essa sou eu tentando. Sou eu vivendo. Um dia eu chego em algum lugar, ou não, mas isso será problema meu e somente meu.

Pode falar não me importa, o que eu tenho de torta eu tenho de feliz. Eu vou cambaleando, de perna bamba e solta. Nem vem tirar meu sorriso com algum conselho, porque hoje eu passei batom azul vermelho. – Velha e Louca, Mallu Magalhães

0 thoughts on “Que hoje eu passei batom azul…

  1. Você arrasa demais, filhote! E ficou com a maior cara de mulher fatal com aquele batom azul!!!! Acho o máximo esse seu jeito de não se importar a mínima com isso, usar o que você quiser.. Eu sou extremamente fraca nesse quesito. Não inovo de jeito nenhum, espero alguém inventar a moda antes, hahaha.
    Beijo!!

  2. “Apenas um bando bobo de humanos.” -> sensacional.
    Eu acho o máximo o seu batom azul e gosto do seu estilo ainda mais depois desse post.
    Queria ser assim como você, ousada e forte o suficiente para desfilar por aí com todo a confiança. Eu não sou assim. Infelizmente insisto em ser apagadinha (cry). Mas pelo menos me recuso a ser mais uma escrava (ou uniformizada) da moda.
    Acho que as pessoas podem e devem ousar e mudar. Enquanto não dá pra trocar de vida, ficamos com a troca de roupa e estilos hahaha Pelo menos parece divertido.

  3. “Uma das minhas coisas preferidas nos palhaços, aliás, é justamente o fato de eles terem a boca colorida” Gente do céu, que fofa você é! Achei muito incrível o post, Mayrinha, de verdade. A sua coragem me deu um orgulho danado. Eu, assim como a Analu, não sou das que inova, não mesmo. Eu jamais seria incrível a ponto de usar um batom azul e um chapéu assim .___. (eu ri muito de você explicando o que é macaco pros gringos). Mas as unhas coloridas eu também já era adepta antes de fazerem sucesso =)
    A música da Mallu meio que virou um hino pra algumas mafiosas, né? Tô amando isso!
    Beijos!

  4. É preciso coragem para se assumir diferente e ao mesmo tempo igual. Porque todo mundo quer ser diferente, mas todos são iguais, né?
    Admiro, viu? E olha, é impressão minha ou as mafiosas estão aderindo a essa música? hahaha
    Outra coisinha: adorei demais esse batom azul! E vou te contar que nunca passei batom vermelho. Aliás, nem curto muito batom. hahah
    Beijo!

  5. Gente, que texto mais lindo!
    Que apaixonante você, May!
    Eu morro de preguiça dessa coisa de seguir moda e só uso o que me agrada, mas não sou de usar nada diferente, como você.
    Adorei sua atitude!
    Beijo

  6. Lindo, May! Vc conseguiu exprimir o sentimento de tds aqueles que não precisam e não querem seguir a maré da moda e dos costumes!
    Fico feliz que você não se importe com os outros a não ser consigo mesma! E que veja que aparências são só rótulos que os outros querem nos dar e que, no fundo, acabamos aceitando por falta de reflexão…!
    Adorei mesmo!
    Um beijo grande!
    Obs: porque minha carinha é de mau-humorada???! rsss

  7. Demais o post, Maymay! Ficou totalmente você! Sou apaixonada pelo seu jeitinho completamente você de ser, e acho demais que você não tá nem aí pro que os outros pensam. Acho lindo gente ousada não pelo prazer de ousar, mas porque é algo da personalidade delas. Fico pensando que não daria certo pra mim, porque eu ainda sou florzinha, eu curto batons laranjas e cor-de-rosas, sainha, blusa de renda, mas eu gosto, e se eu estivesse fazendo diferente só pela diferença (mas querendo usar babados) não seria legal. Me orgulho de você, sua flor!
    beijo

  8. Adorei seu batom azul! Sempre quis ter a coragem de fazer essas coisas. Quando era criança fazia, porque não temos medo, somos naturais, quando a gente cresce vem aquele receio das outras pessoas. E é tão legal ver que você não tem esse receio, que mesmo grande, ainda tem essa coisa viva em você! Tem mais é que ser cada vez mais você mesmo, May, sem se importar com nada 🙂
    Beijos!

Comentários: