O amor de Gerda, um texto sobre A Garota Dinamarquesa.

          A gente ouve falar sobre amor basicamente desde que nos entendemos por gente e na maior parte das vezes pensamos nele como uma coisa boa. Ruim é não amar ou não ser amado. O amor, em si, é algo bom, benéfico, feliz. Pessoas que amam são mais plenas, completas, realizadas, leves e tranquilas. E esse pensamento faz com que as pessoas entrem em relacionamentos sem pensar em todas as consequências possíveis. Faz com que uns prometam aos outros que ficarão juntos “na alegria, na tristeza, na saúde e na doença“, sem realmente pensar no que isto significa. E faz com que as pessoas só caiam na real sobre como amar é difícil, complicado e dolorido, quando as situações que colocam o sentimento à prova se fazem presente.

          Como agir quando alguém que você ama é agressivo com outra pessoa? Quando comete um crime? Como agir quando essa pessoa erra de uma forma que você não imaginou possível até então? Quando ela te decepciona? Te machuca física ou psicologicamente, mesmo sem perceber? Como se levantar e dizer “ei, você está ocupando o tempo da minha vida e eu realmente preciso ir embora agora. O mundo é gigante e cheio de coisas pra fazer, você vai encontrar seu caminho e eu o meu, tchau.” quando tudo o que você consegue pensar e sentir é que a outra pessoa está em um momento ruim e precisa de você?

          Será que a gente tem a noção do que é amar, se comprometer em um relacionamento e estar disposto a viver com outra pessoa desde o momento em que aceitamos nos relacionar com ela? Estamos dispostos a abster manias, gostos, desejos, anseios, sonhos, rotinas e criar outras manias, gostos, desejos, anseios, sonhos e rotinas?

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          A gente conseguiria ficar perto um do outro caso tudo fosse diferente? Caso ao invés de você ser mulher e ele homem, ele fosse mulher? Caso um dos dois perdesse todo o dinheiro ou, de repente, ficasse milionário? Conseguiriam ficar juntos caso um dos dois ficasse cego ou perdesse o emprego, mudasse radicalmente de aparência ou tivesse a maior chance profissional da vida, mas em outro país e ambos tivessem que se mudar? Ou não é possível se imaginar em nenhuma dessas situações?

          Eu costumo dizer que quando digo que amo alguém, é porque eu realmente sinto. E que para mim, o amor significa exatamente tudo isso aí: estar do lado da pessoa não importa o que esteja acontecendo. Eu consigo me imaginar largando a minha vida para ajudar alguém que eu ame e esteja precisando de mim. Consigo me imaginar (e as vezes já realizo) essa coisa de abster de minhas próprias vontades em prol das dos outros de vez em quando. Eu realmente me esforço pra entender o que se passa na cabeça das pessoas que eu amo e para me tornar uma pessoa amável, uma boa companhia, alguém legal de se estar perto, minimamente confiável e feliz. É claro que nem sempre eu consigo, é um esforço diário e eu vivo brigando e ficando brava com o universo inteiro, mas insisto em tentar. E tive a graça (ou o desprazer) de ainda não saber qual é o meu limite. Acho que todos nós temos um. Ninguém consegue se submeter e abster a tudo em prol de outra pessoa, ninguém é capaz de se anular tanto assim e continuar saudável e sã.

E é claro que todo esse pensamento insano sobre qual seria o meu limite no quesito amor surgiu após eu assistir a “A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl). O filme de 2015, que ainda não estreou nos cinemas do Brasil, é estrelado pelo Eddie Redmayne e pela Alicia Vikander e conta a história de Lili, uma mulher que nasceu homem e se casou com Gerda, mas depois se descobriu mulher e inicia um processo muito doloroso de transição. Porém, minha empatia maior não foi para com a história dolorosa, conflituosa e difícil de Lili, mas sim com a Gerda. Porque ela se casou com o amor da vida dela e o viu morrer e se transformar na Lili e ao invés de largar ele, ficar brava ou sei lá, ela ajuda a Lili a se entender. Ela continua ali e se transforma na melhor amiga do outro ego do seu marido. Com o tempo, ela consegue até captar que a Lili vai ter uma vida amorosa que não engloba ela e uma vida em geral que não engloba ela e ela tem que passar por todo o processo de entender que seu marido realmente morreu. E ela continua ali, do lado da Lili. E eu nunca tinha visto um amor tão intenso e tão real.

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          No decorrer do filme, fiquei imaginando o que aconteceria se a história fosse o oposto. Se a Gerda de repente se descobrisse Robert, será que o Einar (nome masculino da Lili) ficaria ao lado dela com a mesma presteza e benevolência que ela ficou na situação mostrada no filme? Eu não tenho como afirmar isso concretamente, mas arrisco dizer que sim. Arrisco dizer que a relação daquelas duas pessoas ali era realmente uma junção de almas, que ultrapassava toda a sanidade possível. Elas se aceitaram da forma que vieram ao mundo e lutaram para serem reconhecidas por seus trabalhos e para serem felizes da maneira que podiam.

          E o filme é baseado em uma história real, o que torna tudo ainda mais intenso. O roteiro foi inspirado em diários reais escritos pela Lili e, puxa, se mesmo em um filme contado sob o ponto de vista da Lili a gente consegue ter toda essa empatia pela história da Gerda, imagine como seria se fosse ela contando os fatos. Essas duas mulheres são incríveis e eu estou estasiada ao perceber que uma das melhores histórias de amor que eu vi retratadas no cinema não pertence ao “padrão heterossexual” que é comumente mostrado.

          Esse filme me fez repensar sobre o que eu já rotulei como “algo que senti“, sobre o que já formulei sobre amor e o que já pensei sobre relacionamentos. Foi tão intenso que não consegui chegar aqui e fazer uma resenha mais técnica ou alguma crítica insensível. Pelo contrário. Eu preciso agradecer ao universo por ter feito essa história acontecer e chegar até mim. Preciso agradecer a todas as pessoas que o universo me permitiu (e me permite) amar e preciso admitir que como humana em eterno aprendizado, mais uma vez ficou provado que tenho muito a aprender, crescer e tolerar. E que talvez assim eu consiga aprender a ser mais sincera com meus sentimentos e honesta comigo mesma. A Gerda é mais uma das minhas heroínas, e dessa vez nem é fictícia.

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