Quereres

Queria saber o que há de tão fatídico nesse universo em que se encontra essa pessoa que acabo por chamar de “eu”. Queria saber o que faz com que a grama de todo mundo seja mais verde do que a minha e que até uma formiga consiga apreender um pouco de felicidade maior do que o pouco que eu acato para mim. Queria entender como é que as pessoas se satisfazem com tão pouco ou com nada e como é que algumas se deixam cegar tão fielmente por ideologias baratas. Queria entender como é que tem gente que consegue sair por aí e ser quem tá com vontade e falar com quem quer e ser absolutamente segura de sua existência. Queria ser como essas pessoas que acordam todo dia seguindo um plano utópico de futuro traçado desde que nasceu, no qual vai estudar, trabalhar, casar e depois morrer. Queria conseguir me contentar com todas as coisas que a modernidade diz que a gente tem que se contentar com. Queria ter alguma dessas disfunções modernas que acabam por aumentar sua popularidade, mas é claro que só chego perto das disfunções destrutivas e que afastam pessoas. Queria conseguir não afastar pessoas. Queria conseguir me contentar com elas serem do jeito que são, sem esperar mais do que isso. Queria poder dormir sabendo que todo o amor que distribuo às pessoas que considero aptas a tal, me é retribuído de alguma forma. Porque muito amor mata a gente tanto quanto amor nenhum. Porque amor deveria ser a coisa mais recíproca do universo. Porque deveria ser proibido que eu e tantas outras pessoas fossem dormir após mais uma desilusão, a cada santo dia. Porque o universo é tenebroso, porque a gente não tem planos ou tem, mas eles nunca se cumprem. Porque você vai dormir e quando acordar os professores vão ter apanhado na rua enquanto estavam apenas lutando por um salário melhor, porque trabalham como condenados em uma coisa super importante e recebem menos da metade do que deveriam. E de repente o mundo se infesta de seres humanos pérfidos, cruéis e mesquinhos, que na sua idealização infantil deveriam simplesmente não existir e você começa a assistir ficções científicas e rezar para que, de alguma forma, algum daqueles super heróis apareça ou alguma daquelas distopias vire realidade, porque em um mundo tão cruel, é melhor que o cume da crueldade chegue logo, para que depois as coisas voltem a ficar mais brandas. Eu queria que nossa vida seguisse um roteiro pré-estabelecido, como se fosse um filme. Queria que a gente pudesse errar e não se sentisse absurdamente terrível por isso. Queria que julgássemos menos e fôssemos menos julgados. Queria que soubéssemos respeitar e tolerar. Queria que a gente conseguisse lidar melhor com as coisas que não giram ao nosso redor. E queria que a gente lidasse melhor com as que giram também. Queria que todo mundo tivesse um mar infindável de boas lembranças, a ponto de ser difícil escolher caso seja necessário fazer um patrono. Queria que todas as famílias fossem estáveis e que a gente realmente pudesse recorrer a elas caso nada desse certo. Queria que a lenda do amor fosse real, para que o romantismo também fosse e fizesse um pouco de sentido. Queria que as pessoas fossem mais coerentes com aquilo que acreditam, ao invés de inventar novas crenças somente para se encaixar em padrões alternativos. Queria que as pessoas conseguissem desprender-se umas das outras quando fosse necessário, sem que ficasse um clima de ressentimento pairando no ar. Queria que o mundo fosse bom, que nem na música do John Lennon. Perfeito não, perfeição cansa, mas eu queria que ele fosse lidável. Queria que a gente simplesmente soubesse como contornar com cada uma das situações e sentimentos que nos aparecem e que nunca ocorresse nenhuma injustiça e que ninguém se sentisse tão sozinho e miserável como eu me sinto na maior parte dos meus dias.

Que essa chuva lave um pouco do meu desespero, carência, pedantismo e dramatização. Que se misture com minhas lágrimas que não cansam de esparramar-se e fundem uma pessoa mais bem preparada para encarar esse universo real, que não é perfeito, não é bom, não é lidável, mas é o que temos pra hoje. 

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