Entendo que a sua infância tenha sido complicada e que descobrir-se bastardo depois de grande, já tendo tido uma péssima infância e desgostando de sua própria família deve ser realmente uma das piores coisas do mundo. Entendo que você tenha querido fugir, eu também quereria. Mas eu jamais teria a sua coragem. Nem um terço dela.

Sempre fui uma pessoa covarde, das mais covardes que já tive chance de conhecer. Mas confesso que desde que te conheci, há alguns anos, e tive a chance de entrar em contato com a sua história através de um livro e um filme, acabei me obrigando a ser um pouco mais corajosa em alguns aspectos. Olha o que você fez da sua vida, qualquer um dos meus problemas ou minhas rotas de fuga não será páreo a isso.

Você era um crente, Você acreditava piamente que ao ir para o Alasca não estaria apenas fugindo da vida que não te agradava, estaria vivendo de verdade. Você acreditava que aquilo era a vida. Que o mundo estava ali para ser explorado. E você simplesmente foi. Invejo a sua coragem, o seu desprendimento e sua incrível capacidade de acreditar. Tenho quase nada dessas três coisas e espelho-me em você desde que soube da sua existência.

O desfecho da sua história me dói tanto que eu nunca consegui mencioná-lo, nunca consegui explicar para alguém o desencadeamento de sentimentos que você causa em mim, porque eu nunca consegui entender. Você me causa uma dor psicológica, mas também física. Você faz com que toda a minha existência seja arrebatada, a cada vez que eu me lembro da sua.

Você não é como qualquer um desses que foge aleatoriamente. Você não fugiu. Você fugiu, mas para algo ainda mais desafiador, fugiu para descobrir o universo e a si. Fugiu para se encontrar, para voltar depois e saber exatamente como lidar com a vida. Revendo sua história hoje, imaginei o que Tyler Durden diria a seu respeito. Eu sempre tive a ideia de que vocês seriam bons amigos, de que você deveria ter levado “Clube da Luta” em sua viagem, porque sua batalha foi a mais fenomenal possível. Acho que você teria coragem de se alistar ao “Projeto Desordem e Destruição” e vocês construiriam uma história ainda mais legal.

E quando eu penso nisso, sofro um pouco mais. Porque Durden não existiu, mas você sim. E você fez algo que todo mundo já teve vontade de fazer e seu caso repercutiu, porque você não queria simplesmente explorar a natureza, você tinha toda uma ideologia que explicava isso. Todo um sentimento, um desamor, uma crença absurda no amor e na felicidade e uma utopia regada à Lord Byron. E você era de pele e osso. E sua história foi de verdade, não “baseada em fatos reais”, como os filmes de terror, que pegam um pouquinho da realidade e colocam esse título. Sua história é um fato real, claro que um pouco modificada porque não pudemos te entrevistar, mas ainda assim. E o fato de a gente poder ter acesso a uma história como essa, só faz com que nossa vida seja um pouco mais mesquinha, ao mesmo tempo que mais completa.

Sabe, Chris, eu queria ter sido sua amiga. Eu queria ter compartilhado um pouco de angústias e felicidades com você. Eu queria ter embarcado na sua ideia e ido ao  Alasca e morrido de nojo daquele bicho que você tentou matar. Eu queria ter rido e me divertido, enquanto tentava me encontrar dentro de mim mesma. Eu queria poder te abraçar e dizer que alguém te ama, porque todo mundo tem alguém sem ser os pais que o ama e, se no seu caso seus pais não te amavam, você tinha sua irmã, por exemplo. Você teria eu. E a gente ia ver sentido na felicidade, porque a gente ia compartilhar ela.

Você era tão desiludido com o ser humano quanto eu sou às vezes e por isso você quis distância de todos eles. Você ficava um pouco e ia embora, para não gerar sofrimento nem a eles nem a você mesmo. Você dizia que o mundo era lindo e tinha muitas fontes de felicidade além dos relacionamentos humanos e que a gente realmente podia ser completo se estivesse sozinho. E até você, no final de tudo isso, se rendeu à solidão e ao desamor e escreveu que “a felicidade só é real quando compartilhada”. E você fez eu refletir tanto sobre isso, por tanto tempo. Você fez mudanças tão bruscas na minha essência. E eu nunca vou poder dizer o quão grata eu sou por um dia você ter resolvido ir ao Alasca. Eu nunca vou poder te abraçar e dizer que o mundo vale apena se você estiver com as pessoas certas e nunca vou poder tentar fazer o mundo valer apena pra você.

Acho curioso quando as pessoas referem-se a você como um personagem de um filme ou de um livro, uma história, um nada. Você é tão mais do que isso. Você é uma das partes mais representativas da minha essência, é a conexão com o meu eu interior, é a quem eu recorro nos momentos em que estou perdida e por quem eu choro, não importa quantas vezes tenha contato com a história ou com a trilha sonora de seu filme. Eu nunca vou poder compartilhar minha felicidade com você, mas é graças a você que aprendi que devo compartilhá-la. Foi você que me ensinou que devo tentar amar algumas pessoas e estabelecer laços duradouros com elas. Você me ensinou que se um dia eu conseguir fazer as aventuras que sonho, devo ir acompanhada, não só pela segurança, mas para valer apena. Você me ensinou a ser gente, em aspectos que eu achei que jamais conseguiria.

Com muito carinho, Mayra

0 thoughts on “Querido Chris,

  1. Meu Deus, May, você fez meu coração disparar e agora estou só em lágrimas. Ai, como dói. Você soube colocar em palavras melhores que as minhas todo o sentimento que envolve a aura da existência do Chris. Eu poderia dizer que o amo, de tão intenso e forte e verdadeiro isso que sinto pela história dele e o fim da história realmente me arrebata do jeito que você falou.

    O Chris também mudou meu ser, meus pensamentos e penso em visitar o local no Alasca só para ver de perto, pra sentir a realidade daquilo, mas não pra viver da terra porque eu sou uma covarde de mão cheia.

    Ele mora na gente, May. Nós temos um fragmento do Chris pro resto da vida e tenho certeza que levaremos isso até o nosso último suspiro.

    ♥ A gente precisa ver esse filme juntas.

    Beijos <3

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