Reciprocidade

Aí está uma das regras sociais mais irritantes dentre as existentes. É aquela coisa de fazer uma visita e não poder negar a xícara de café, mesmo que você já tenha tomado café. Lembro-me de um episódio de Gilmore Girls, em que era thanksgiving e as Lorelai deveriam comparecer em três ceias. Por mais que elas fossem gulosas e tivessem ficado o dia inteiro sem comer para se preparar, certamente ir em três ceias foi um pé no saco. Mas é o tipo de coisa que a gente não pode dizer não. Do mesmo jeito que não podemos dizer não para o café do fim de visita ou o “onde você mora? eu te dou uma carona”. A tal da falta de educação é uma noção tão horrível, porque, sinceramente, acho que seria de muito melhor grado que eu pudesse dizer “não precisa da carona, vai pra casa, eu vou de ônibus, a pé, camelo, táxi, não importa, você pode ir”, só que não. Sinto-me sempre coagida a dizer “mas não vai sair da sua rota?” e a pessoa responde “de maneira nenhuma” e lá vamos nós, independente se a casa dela é do outro lado da cidade. Por pura convenção social.

No natal a questão da reciprocidade fica mais intensa e eu sempre sou levada a me lembrar de Sheldon Cooper. Não sou uma fã devota de The Big Bang Theory, mas quando ligo a tv e está passando eu assisto. Em um episódio a Penny deu um presente pro Sheldon, um guardanapo com a saliva de um dos ídolos mor dele, ou algo do tipo e ele automaticamente surtou. Porque quando a gente ganha um presente automaticamente estima-se que a gente dê um presente tão bom quanto como forma de agradecimento. É assim que funcionam as festas de aniversário, a páscoa e todas as outras datas comemorativas em que se dá presentes. E é por isso que eu me irrito com eles.

A pressão de ter que escolher um presente para a pessoa x, mas que seja condizente com a última coisa que você ganhou dela, para não gerar nenhum tipo de desconforto é algo que realmente me incomoda. Por diversas vezes eu ando por aí e encontro coisas baratas e que são a cara de alguém que eu conheço, mas não compro, porque sei que se eu comprar a pessoa vai se sentir obrigada a me retribuir de alguma forma e eu realmente não quero isso. Talvez seja coisa da baixa auto estima, mas imaginar que eu gero um anseio de retribuição em alguém me angustia. Raramente eu dou presentes ou faço quaisquer outras coisas pensando no que vou receber com isso e eu não sei se é porque a maioria das pessoas faz tudo pensando no que vai ganhar com aquilo, mas acabo por me sentir desconfortável. É como se parecesse que estou sendo legal e solícita só porque espero ganhar algo legal no dia do meu aniversário ou qualquer coisa do tipo e isso jamais aconteceria, mesmo porque, pra ser sincera, por mais que ganhar presentes caros e pomposos seja legal, eu costumo me lembrar mais daqueles singelos e quase inexistentes do que dos mais relevantes.

Aliás, isso é uma coisa que sempre irrita a minha mãe, pessoa que não sabe ficar sem oferecer comida quando alguém vem em nossa casa, mas que abomina a obrigatoriedade de dar e receber presentes em determinados dias do ano. Mamãe é espontânea, deu vontade de comprar e de presentar, que assim seja. E sempre depois das datas comemorativas, quando ela me pergunta o que eu ganhei de quem, esqueço-me do que ela me deu. E ela sempre fica brava. A obrigatoriedade acaba por demarcar algum tipo de território, você olha pro presente e automaticamente lembra de quem deu, já pensando em como vai retribuir a pessoa como for a hora. Quando o presente é da minha mãe eu não preciso pensar nisso, porque qualquer forma de afeto é retribuição para os padrões dela. Talvez seja a coisa em que nós somos mais parecidas. Talvez eu tenha aprendido isso com ela. Essa coisa de que é muito mais importante fazer-se presente do que distribuir presentes.

É por isso que eu sou contra presentes de natal. Veja bem, adoro brincar de amigo secreto, acho super saudável e super divertido, porque ao invés de você retribuir para quem te presenteou, você retribui para um terceiro, transformando em um círculo de presentes e fazendo todo mundo feliz, sem que seja necessário ficar pensando em como dar um presente à altura daquele outro. Fora isso, presentes de natal são só dor de cabeça. Eles não fazem o menor sentido, primeiro porque quem está nascendo é Jesus e por mais que ele esteja dentro de cada um de nós, isso não me torna hábil a ganhar um presente. Sem contar que ele morreu e, sei lá, minha avó permanece em mim e eu não ganho presente no dia do aniversário dela. São Nicolau, o primeiro “papai noel” entregava presentes para pessoas que não tinham as coisas e nesse caso, acho o natal super legal. Acho que é esse o tal do ~~espírito natalino~~ que as propagandas da coca-cola tanto falam. E, sinceramente, sempre achei mais divertida a parte em que a gente pegava nossos brinquedos que não usávamos e íamos doar para as crianças carentes do que quando algum familiar se vestia de papai noel e me dava alguma coisa. Não que ganhar presentes seja algo ruim, mas me sinto tão idiota em criar um laço de reciprocidade baseando-se em um presente sem sentido que abstenho-me da brincadeira e fico com mandar mensagens, cartas e cartões.

Se são raras as pessoas capazes de me fazer comprar um presente de aniversário sem ser por obrigação causada por “puts, mas eu ganhei presente, tenho que dar”, nem preciso comentar sobre o natal. Um dia, talvez, se eu for rica e desocupada saia por aí a comprar presentes dignos de retribuir cada uma das coisas fantásticas que eu vivo recebendo. Por enquanto, contentem-se com eu ser legal com vocês e se nem isso eu for, bem, acho que vocês estão presenteando a pessoa errada.

One thought on “Reciprocidade

  1. Nossa, May, nunca tinha pensado pelo lado da reciprocidade. Eu gosto de retribuir presentes, sim, mas pra mim sempre foi um gesto de carinho, não uma obrigação. E eu também nunca pensei em equivalência nem nada, meu objetivo é fazer o melhor que eu puder e achar algo que a pessoa goste. Assim é bem mais legal, né? Bjos.

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