Reflexões Carnavalescas

Hoje é sexta-feira 13, mas as pessoas mal lembraram disso, porque é fim de semana de carnaval. Sendo fim de semana de carnaval, a sexta-feira 13 passa de “maldita” pra “sexta de carnaval”, o que, tecnicamente é uma grande evolução. Principalmente por ser a sexta-feira que precede um dos feriados mais longos do ano e que costuma ser sucesso entre a galera. Eu nunca fui a uma festa de carnaval, mas simplesmente porque não gosto de multidão, sol, bebedeira, batuques e afins. Nada contra a comemoração em si. Até que outro dia aconteceu algo que me fez refletir e começar a ter pés atrás com o carnaval.

Não estou falando do fato de as mulheres se vestirem com poucas roupas e dançarem se exibindo. Isso não é problema. O problema está em achar que é um problema. E em achar que por dançarem assim, elas estão disponíveis. Ou, pior, por decidirem expor seu corpo são vadias e víboras. Por mais lindas, torneadas, bem maquiadas e com fantasias incríveis que essas mulheres estejam, elas continuam a ser mulheres. Tão gente quanto qualquer outra. Nem melhor nem pior. Elas provavelmente só querem se divertir e, bom, é chato pra caramba ter que ficar aguentando gente colocando regra na nossa vida quando tudo que a gente quer é dançar horrores.

As mulheres que não vão para dançar, mas sim para beber com os amigos e amigas, se fantasiar, gritar as músicas e semelhantes, também merecem respeito. Independente do grau de sobriedade delas, ainda continuam sendo mulheres. Pessoas. Como todas as outras. E, como pessoas, elas continuam tendo direitos básicos como o de, por exemplo, negar um beijo ou um apelo sexual. Não é porque a mulher está no carnaval que ela está disponível. Não é porque ela está bêbada e dançando ao seu lado que tem a obrigação de ficar com você. Não continua sendo não. E sempre vai ser não. Se insistir demais, vira nunca. Nenhuma mulher é obrigada a agradar outrem caso não queira.

Mas, bom, essas coisas são óbvias. Tão óbvias que é até chato ficar pensando que é realmente necessário lembrar e conscientizar as pessoas. É ruim pensar que há uma considerável quantidade de meninas que são estupradas, mal tratadas e desrespeitadas durante festas como o carnaval, simplesmente por perderem seu estatuto de “pessoa” ao resolverem se divertir tanto quanto e como homens.  O que me fez querer escrever este texto, foi refletir sobre outras práticas carnavalescas que são tão absurdas quanto o desrespeito às mulheres, mas passam ainda mais desapercebido e são ainda mais naturalizadas.

Como é o caso de se travestir. Essa semana eu tive que lidar com inúmeros machões postando fotos em suas redes sociais com roupas femininas. As legendas eram pejorativas e falavam deles mesmos como se fossem mulheres. Eu não sei de onde essa prática foi tirada, mas grande parte das fantasias masculinas de carnaval tende a ser vestir-se de mulher. Por quê? Inicialmente pensei isso como um problema para as mulheres, no sentido de que poderia significar que é engraçado ser mulher, ou que os homens são tão superiores, que quando vão se fingir de outra pessoa, precisa ser uma mulher. Pra poder rir. Como se ser mulher fosse palhaçada. Mas depois eu percebi que o problema nem é com as mulheres. Parei para pensar em como devem se sentir as pessoas travestis e transsexuais em época de carnaval. Como deve ser ver a sua luta de todo dia banalizada e ridicularizada por machões que em todos os outros dias do ano as criticam e depredam. Como deve ser horrível ter que lidar com gente achando que é engraçado e que é palhaçada se vestir de outro sexo, quando aquilo é a sua vida. Isso ultrapassa o nível de pejorativo e passa a ser ofensivo. Absurdamente ofensivo.

O fato de eu nunca ter parado para pensar nisso, me deixou ainda mais chateada. Perceber que involuntariamente omito a luta de uma classe inteira. Se o viés do travestir-se fosse no sentido de empoderar as pessoas trans, seria sensacional. Se todos os homens se travestissem com a consciência de que existem pessoas que fazem isso porque não se identificam com o gênero que seu órgão sexual propõe, o movimento ganharia uma enorme visibilidade. O travestir-se seria sinônimo de respeito. Seria aquela coisa de “não sou travesti, mas fiz isso por um dia, percebi o perrengue e vou te ajudar na luta por uma vida com direitos humanos garantidos”. Mas não. Claro que não. Isso só aconteceria no mundo utópico da Mayra. No mundo real, as pessoas não entendem porque travestis e transsexuais precisam de auxílio financeiro do governo. Não entendem que são tão pessoas quanto eu, você e qualquer outro. Não entendem que merecem tanto respeito quanto qualquer um de nós e que o fato de serem um pouco diferentes não os desmerece, pelo contrário, os valoriza. Montar-se de drag queen é uma arte. É sensacional. As pessoas que fazem isso e que têm peito para sair nas ruas e enfrentar tudo que uma mudança de sexo demanda, são fenômenos de coragem. Nós, cis e héteros, não temos noção da dimensão da situação. Não temos direito de sair por aí banalizando como se fosse palhaçada. Como diz o ditado: você acha que travesti é bagunça? Bom, não é.

Outra questão, que me deixou tão indignada quanto, foi o fato de eu saber que existe um bloco de carnaval intitulado “bloco das empregadas domésticas”, onde as pessoas colocam aquela tosca malha de náylon marrom escura, para se fingirem de negros, vestem-se de domésticos e saem por aí “festejando”. Sério, que tipo de festa é isso? Como se não bastasse, blocos de carnaval colocam em seus trios elétricos pessoas com a mesma malha de náylon marrom. E isso em diversas cidades do Brasil. Uma valorização à negritude? Reconhecimento de que o samba deve muito aos batuques afro? Não. Racismo e depredação de classe. Desde quando virou engraçado e divertido ser negro? Por acaso você, branco, cis, hétero, pessoa do trio elétrico ou do bloco de carnaval, se vestiria com essa mesma roupa no dia-a-dia para tentar fazer alguma das suas atividades? Ou você se esquivaria das filas, ônibus e avenidas quando visse um negro por perto? Você esconderia sua bolsa e fecharia o vidro do seu carro? Falaria que as cotas raciais são uma prática tosca e que “o brasileiro é racista, mas eu não”? Ah, faça-me o favor.  Ser negro não é engraçado. Não é triste. Não é diferente de ser branco, amarelo ou vermelho. É apenas uma cor de pele. Ela não define caráter e não define classe social. E se define, é justamente por causa dessa cultura racista que insiste em ser disseminada. Li um texto muito interessante sobre esse assunto, de alguém que sabe argumentar muito melhor do que eu, embora isso não diminua a minha indignação.

Enfim… Com toda a questão social que o carnaval levanta, todo o poder que a festa poderia ter e que é dispensado e trocado por letras tão opressivas quanto aquelas que a gente escuta no resto do ano inteiro, lamento que a propaganda de conscientização de maior sucesso seja a que previne o xixi na rua. Não que eu concorde com xixi na rua, mas acho que sexo desprotegido, violência à mulher, reprodução de preconceitos e estímulo à opressão são um pouquinho piores.

3 thoughts on “Reflexões Carnavalescas

  1. AI QUE SAUDADE DAQUI (fogos de artifício, katy perry canta ao fundo)
    eu faria um comentário enorme, mas sério, só tenho a agradecer por essa leitura incrível que eu fiz antes de dormir.
    é confortante (?) ver que existem pessoas que pensam como eu.
    existem as diferenças, divergência de opiniões, a liberdade de expressão, mas aqui não estamos discutindo sobre 50 tons de cinza ou o bolo de cenoura da minha vó; estamos falando de uma realidade que não merece opiniões… merece gente que, assim como você, enxerga ela tal como ela é.

    você precisa fazer esses textos em forma de vídeo (não deixe de escrever, mas ia ser legal ver você debatendo temas assim!)

    http://www.pe-dri-nha.blogspot.com

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