A vida humana é um vício” foi o que eu li por aí outro dia e me fez perceber que, de fato, todos nós somos cercados por vícios. Eu, por exemplo, já tive a fase de vício por esmaltes, na qual cheguei a passar um mês almoçando bolacha recheada para sobrar mais dinheiro para comprar mais vidrinhos. Tenho uma coleção enorme até hoje que quase não os uso e juro que algum dia eles vão vencer e estragar e eu vou olhar e ficar chateada por ter gasto tanto tempo e dinheiro com uma coisa tão banal. Quero dizer, sim, tenho vidros raros, tenho cores bonitas, tenho habilidade, mas não sinto mais o que eu sentia antes. Pintar a unha virou tão banal quanto tomar banho.

Aliás, isto me lembra da época em que eu era viciada em tomar banho. E me lembra também que depois que o vício fica muito intenso e a gente perde o tesão pela coisa ela fica tão banal e sem graça que dá até vontade de não ter que fazer. E me lembra também de todas as vezes que eu simplesmente não tomo banho. Por preguiça, por frio, por falta de vontade. Porque não me parece mais divertido. É a mesma razão para eu passar várias semanas sem cortar ou pintar as unhas. Se me dissessem anos atrás que isso me ocorreria eu jamais acreditaria.

Eu tenho um bom controle sobre a maioria dos meus vícios. Um bom auto controle, acredito. Quero dizer, quando vejo que algo está ficando intenso demais pulo fora. Quando vejo que estou me tornando dependente e que o nível de vontade aumenta em cada vez que entro em contato com a coisa, simplesmente paro de fazê-la. Foi assim que eu consegui parar de jogar Candy Crush Saga antes de chegar na fase 100. Claro que o fato de eu ter empacado influenciou bastante, mas chegou num ponto em que eu simplesmente não aguentava mais rir das minhas desventuras naquele jogo e eu comecei a pensar em todo o tempo desperdiçado ali e simplesmente parei. Nem bloqueei, as vezes apareço lá para dar vidas aos amigos, mas saí antes que ficasse muito dependente.

Então surge o vício em pessoas, que na verdade é chamado por alguns de “amor”. Eu deixei de acreditar em “amor” porque vivi algo semelhante ao que todos dizem ser isso e foi tão drástico e destruidor que decidi que jamais sentiria de novo. Por isso, toda vez que sinto algo semelhante vou logo chamando de vício. Mentira, nem chamo. Minha saída – e tem funcionado muito bem – foi justamente parar de dar nome às coisas. Sentimento a gente sente, não tem motivos para nomeá-los. É por isso que eu não tenho vergonha de sair dizendo que amo todo mundo, porque me transmitiu algo de positivo, já amo. É assim que funciona. Com o vício é diferente. Porque o vício nem sempre é bom. É aquela coisa arrebatadora e ardente que faz o coração pular e as veias ferverem e que nos deixa simplesmente com vontade. Vontade de fazer coisas que talvez nem achassemos ser capazes de. E eu vou lá e faço. Sem medo ou vergonha. Só que depois o vício aumenta e atinge o nível que eu sei que tornar-me-ei dependente por um bom tempo. Eu, que odeio sentir-me presa aos outros, afasto-me. E a abstinência é terrível.

Por isso existe o chocolate. Aquela substância criada pela divindade mais superior do universo das divindades, que é capaz de te acalmar, alegrar e compreender. Que está sempre do seu lado e que te consola dizendo que sim, você é forte o bastante pra desvincilhar-se de teus outros vícios. Só que mesmo assim, você precisa de mim. Do chocolate, no caso. Porque por mais livre que a gente queira ser, por mais que a gente batalhe por esse direito de poder fazer o que a gente quiser, sempre haverá algo que mensurará esta nossa liberdade de alguma forma. No meu caso é o chocolate. Porque até do Spotted e do Facebook eu consigo ficar livre. Até longe das minhas mais de 100 sms’s diárias, mas eu nunca, jamais, consigo ficar longe dele. Não importa a forma ou intensidade que se apresente, o que importa é que esteja lá. E ele sempre está. Porque o chocolate é onipresente, onisciente, oni tudo. É aquela coisa deliciosa que faz tua boca tremer, as bochechas formigarem, o cérebro surtar, coração disparar, calor aparecer e de repente você está lá, largado no mundo. Sofrendo com aquela efusão de maravilhas que nada além de cacau e açúcar poderiam te proporcionar. Você, ali, independente de sua idade, deitado na cama, com cara de morto, mas com a cabeça a mil por hora. Você ali, com vontade de sair pulando, cantando e dançando, sem nem lembrar do dia terrível que acabou de ter. Você ali agradecendo a todas as entidades cósmicas do universo por terem te proporcionado aquele momento maravilhoso de cacau derretendo na sua boca e molhando sua língua enquanto você a movimenta e saboreia e entra em êxtase. Você ali, entregue. Naquele momento em que toda sua existência resumir-se-ia a um pedaço de chocolate em sua língua. Naquele momento em que nada mais seria suficiente. Em que nada mais importa. Em que todas as pessoas, jogos, esmaltes, sites e cores que você tanto lutou para esquecer parecem meras sombras de uma realidade que não te pertece mais. Porque naquele momento, caros leitores, você não se sente infinita. Naquele momento você se sente única, realizada, feliz. Extremamente. Naqueles segundos de desejo extremo sendo realizado é como se sua vida de fato fizesse sentido e a partir dali você quer mais. Mais chocolate. Mais vida. Mais vícios. Mais alegrias. Mais momentos como aquele. Porque depois que você encontra o paraíso, é impossível contentar-se com o comum.

São dezoito anos viciada em algo que eu nem sei como é feito. Dezoito anos em que eu como muito. Dezoito anos em que desenvolvi habilidades incríveis de aproveitar as sensações chocólatras por uma quantidade de tempo prolongado e com uma intensidade mais bem rentável. Foram anos e anos de luta externa para me desvincilhar de tudo isso. Anos e anos de luta interna também. Foram influências de diversos lugares da minha mente dizendo para que eu parasse. Para que eu conseguisse comprar uma barra de chocolate e fazê-la durar por mais de dez minutos. E eu consegui. Enfiei-me em minha própria reabilitação, batalhei com minhas próprias patas e fiquei uma semana sem comer nada que contivesse cacau. E eu quase morri. A tristeza inundou o meu ser, a vida ficou tão sem graça. Eu pensava em comer e logo desistia porque qual é a graça de comer salgado quando não tem nada que envolva chocolate para te alegrar no final? Emagreci tudo que engordei a vida inteira com meus quilos e quilos da melhor substância do mundo. Irritei-me. Desisti.

Porque na vida a gente pode se privar de muitas coisas, mas a gente sempre lutou pra ser livre. Eu sempre lutei pra ser livre. E é com a minha liberdade de escolha que decido ficar com o chocolate. O melhor dos meus vícios já experimentados até agora. O único que nunca me decepcionou. Bem vindo à minha vida novamente e, por favor, desta vez não permita que eu te expulse. Porque se eu preciso de algo para apoiar a minha existência em, que eu possa escolher uma coisa gostosa.

0 thoughts on “Rehab.

  1. Até que em fim voltou os textos bons. Não que os outros eram ruins, mas este voltou a ter uma essência de um olhar simples.
    Mas isso é minha opinião somente. Eu gosto dos seus textos quando eles falam de detalhes. Sem preguiça.
    Outro que gostei mas não deixei mensagem foi aquele que você andou na rua até chegar em outro lugar e passou a prestar atenção das pessoas.
    Poxa, realmente me encantei com ele também.
    Alguns casos em minha vida ou de pessoas próximas a mim sobre vícios:

    Vício de emprego: Um pai de um amigo meu morreu de tristeza por ter perdido o emprego e não ter conseguido encontrar mais algum isso após nascer uma filhinha dele. Incrível mas é verdade. Eu me recordo bem, pois eu ia na cada do meu amigo e via o pai dele.

    Vício de Tabaco: Conhecí uma outra pressoa que morreu porque deixou de fumar. A pessoa gostava tanto e o corpo estava tão acostumado que quando ele parou de fumar, morreu.

    Vício de amigos: Conhecí uma pessoa que se matou porque vendeu o bar onde era dono e depois quis comprar de volta, mas não conseguiu. A pessoa ficou tão triste por não ter mais aquele canto com as pessoas (clientes) que o animavam que acabou se matando.

    Vício bom é o vício de sempre querer mudar. Mudar de Mudar!

    Abraços,

  2. Ai que vontade de te apertar!!!! A gente é muito gêmea. Chocolate é o meu maior vício, aqui na redação todo mundo me vê e já pergunta se eu já comi o meu chocolate de cada dia. E eu não consigo abrir mão. Eu sei que deveria diminuir a dose, mas não consigo. Te amoooo e obrigada por escrever coisas geniais!

  3. eu sei como é essa coisa por esmaltes.
    nunca fui de comprar um monte de uma vez, mas eu não resisto quando acho cores legais.
    quando eu tava trabalhando, no dia do pagamento eu sempre levava um esmalte, já que trabalhava numa farmácia que vendia perfumaria. tinha dias que eu até reservava o que eu ia comprar no final do mês, pra ce ter uma ideia.

    mas sei que vícios são como algemas, sabe? a gente se prende e é difícil de sair.
    eu tenho uma relação mais ou menos assim com o The Sims. tô aqui pensando se devo ou não instalar novamente no computador, mesmo sabendo que eu não consigo parar de jogar e que, mtas vezes, vivo mais a vida dos personagens do que a minha própria vida.
    quando eu to viciada nesse jogo meu assunto é só ele e isso me torna uma pessoa muito-muito-muito chata.
    “nossa, cê precisa ver, hoje ele me pediu em casamento, mas eu neguei, porque o vizinho da casa verde já tinha me beijado. aí eu já tava pensando em ter um bebê com ele, mas sabe como é, tem que rolar uma interação primeiro e tals”.
    imagina eu falando isso pro meu namorado. é. tô falando, o caso é sério.

    vamos ver se eu resisto à tentação de instalar!

    http://www.pe-dri-nha.blogspot.com

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