Sabão

Estava na primeira série com minha mochila de rodinhas da Barbie e minha garrafa de água vermelha brilhante. Todo mundo me pedia água, mas minha mãe me ensinou a não compartilhar porque as pessoas podiam ter doenças na boca e eu poderia pegar, só que a professora insistia em dizer que isso significava que eu era egoísta e eu ficava com um impasse terrível, entre obedecer minha mãe e obedecer a professora.

Para resolver a questão, passei a colocar uma colher de café de sabão em pó na minha garrafa de água. Todos os dias. O gosto era esquisito, dava uma sensação estranha, mas o objetivo era sanado: as pessoas pediam água, eu dava, elas achavam a água ruim e paravam de pedir. A professora não me achava egoísta e eu não pegava doenças, porque tinha sabão na água então ela estava limpa.

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Com oito anos decidi fazer meu próprio perfume para as bonecas, então peguei o recipiente vazio de enxaguante bucal e coloquei água, sabão em pó e um pouquinho do meu perfume. Mexi bem e deixei no banheiro, para passar nas bonecas depois que as banhasse.

Eis que meu irmão convida sete amigos para dormirem na nossa casa, e eu detestava aqueles amigos, porque eles eram grandes, barulhentos, porcos e deixavam um monte de louça suja para eu enxugar depois.

Eles foram escovar os dentes, fizeram fila e depois da escovação resolveram usar enxaguante bucal. Meu irmão disse para usarem o meu, porque ele queria economizar o dele. E eles usaram. E eu ri como se não houvesse amanhã.

Então chegou a vez do único amigo do meu irmão que eu gostava e eu fui correndo e tirei da mão dele o recipiente, dizendo que aquilo era o perfume das minha bonecas. Peguei o vidro e saí correndo pro meu quarto e me escondi embaixo da cama até eles irem embora.

E eu levei uma bronca enfadonha do meu irmão que estava possesso por eu ter feito isso com os amigos dele e da minha mãe que achou um absurdo eu ter sabido e não ter feito nada pra parar e dias depois estávamos nós morrendo de rir da cena que fora, de fato, deveras engraçada.

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Tenho dezenove anos e resolvi fazer pipoca porque meu dia foi ruim, o chocolate acabou e eu precisava relaxar de algum jeito. Pipoca feita, colocada no balde de sempre e eu sentada no sofá vendo a novela mais ruim do universo só porque meus pais assistem e eu adoro rir de coisas muito mal feitas.

Mãe diz que comeu uma pipoca com gosto esquisito e eu replico dizendo que é uma bobagem, porque está uma delícia. E continuo a comer. Ela para. Eu continuo e não paro nunca. Daí eu sinto. O velho gosto do sabão em pó. É claro que eu sei como é esse gosto e eu rio sozinha relembrando das minhas peripécias com tal substância e continuo a comer pensando que tomei muita água com esse gosto na vida, não seriam umas pipocas que me fariam mal.

Eu ri e contei pros meus pais das minhas peripécias com o sabão e disse que aquilo estava com gosto de sabão e começamos a tentar descobrir o motivo para estar com aquele gosto, porque o pacote de milho estava vedado, o óleo está normal e o sal está branco, então não fazia sentido. Inspecionamos a panela, perfeitas condições e meu pai teve a epifania mais óbvia possível: era o balde.

Então mamãe lembrou-se que ele recentemente fora usado para deixar sei lá o que de molho e que não deviam ter lavado direito e eu parei pra observar e vi uns grãos azuis ali no meio, enquanto a boca estava num estágio de quase espumamento e a mente pensava em como raios eu conseguia tomar água com aquele gosto tenebroso.

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Hoje mais do que nunca eu acho que sou um alien.

Meu interior tá brancão, rs

0 thoughts on “Sabão

  1. hahaha, mayra, que texto divertido! sem dúvida colocar sabão em pó na garrafinha de água só para não compartilhá-la é coisa de alien, e deu uma bela crônica. parabéns!

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