Sempre esteve ali, mas eu não via.

Meu nome é Mayra, tenho dezoito anos e moro em Curitiba –  duas quadras da Rua XV de Novembro – há sete. Apesar da proximidade geográfica e das necessidades da vida urbana que me fizeram caminhar pelas quadras lotadas do calçadão diversas vezes durante todo este tempo, somente hoje, dia três de junho de dois mil e treze, eu realmente conheci aquele lugar. Não é que eu não saiba exatamente onde fica cada uma das lojas, a história da rua, as razões para ter um bondinho de leitura, prédios antigos e a chamada “boca maldita”. Não é que eu não saiba que a fila do sorvete do Mc Donalds vai estar lotada mesmo quando estiver zero grau e que sempre haverá um grupo de punks bebendo perto da fonte, em seguida um grupo de hippies fazendo artesanatos de arame e tentando vendê-los, estátuas vivas, o Plá, barracas de diversos movimentos sociais, caricaturistas e desenhistas, músicos, deficientes, bêbados, drogados, artistas de rua com performances incríveis, o Sombra, às vezes o Oil Man, a Emília e um grupo de velhinhos discutindo sobre política. Eu sei de tudo isso. Consigo dizer os lugares em que cada uma dessas coisas fica, mas eu nunca as tinha observado, visto ou experienciado da maneira como fiz hoje. Sempre fui mais uma na multidão. Mais uma das que tem uma vida para seguir em frente e que não apreciam a rua, simplesmente passam por ela. Sempre tentando bater meus próprios recordes – por enquanto o máximo que consegui foi 10min da Praça Osório até a Santos Andrade. Sempre fui mais uma das pessoas atarefadas que aproveitam o fato de ali não haver carros para andar mais rápido e também daquelas que recorre à honorável rua para qualquer tipo de compra emergencial. Eu nunca vivi a XV. Até hoje.

Hoje eu resolvi flanar. Fracassei. É impossível para mim cogitar a hipótese de simplesmente andar por uma rua sem um objetivo em mente, sem saber para onde estou indo e porquê. Eu não sei flanar, mesmo quando me esforço. E sabendo que seria impossível ficar tentando, impus um objetivo: experimentar. Então eu resolvi que dessa vez ia atravessar a rua em, no mínimo, meia hora. Decidi que ia prestar atenção em cada um dos prédios e, principalmente, em cada uma das pessoas. Que ia parar para responder qualquer um que viesse falar comigo, inclusive correndo o risco de ter que gastar meu dinheiro para cumprir essa promessa. O objetivo, claro, era conseguir fazer um bom relato depois. Tentar mensurar em palavras uma realidade complexa, algo que é sempre muito questionado e que tem poucas chances de ser feito com sucesso. Tentarei.

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Entrei na rua pela esquina com a Muricy e fui imediatamente tentando perceber as pessoas. Imitei o modo de caminhar de algumas, mas elas não perceberam. Deparei-me com três anões que não estavam juntos e muito provavelmente nem se conheciam, mas andavam perto um do outro. Vi duas senhorinhas de mãos dadas escolhendo coisas em uma loja e uma moça reclamando que o namorado ainda não fazia ideia do que lhe dar de presente. Vi três pessoas falando no celular, sendo que uma delas o fazia por bluetooth e assim parecia estar falando sozinha, e ela estava irritada. Havia um par de gentes estranha, ou seja, gente que eu imaginaria em qualquer lugar, menos na XV. Vi gente esnobe se assustando com a estátua viva e um entregador de água derrubando um galão cheio. Vi todas as pessoas da rua pararem o que estavam fazendo para encarar o menino que derrubou o galão, como se aquilo fosse um absurdo, um acidente urbano. Vi polícia e vi redes de televisão entrevistando pessoas. Vi um perfomista que estava se preparando para iniciar um espetáculo e tinha acabado de largar uma mão no chão e falar um monte de coisas incompreensíveis para ela. Uma punk veio até mim, entregar-me um zine e pedir uma contribuição para que ela vá a Porto Alegre fazer alguma coisa da qual não me recordo e eu dei algumas moedinhas. Em troca ganhei um lindo poema. Mais adiante conheci o Doende do Asfalto, um rapaz simpático que se ofereceu para fazer o meu nome em arames. Não me aguentei e comecei a conversar com ele, descobri que ele mora em um hotel e que o que ganha é suficiente para se manter. Ele viaja pela América Latina expondo sua arte e também para dentro do país. Ele era meio arredio, a cada frase que falava já ia logo dizendo algo como “relaxa, não aprendi isso na cadeia” ou “pode encostar em mim, eu não mordo” e eu tinha apenas perguntado onde ele havia aprendido sua arte e dado um aperto de mão. Mas ele era legal, disse para eu voltar lá porque ele quer fazer dreads no meu cabelo e falou coisas bonitas para mim, além de explicar o significado de cada uma das partes da arte que estava fazendo.

Vi mãe dando cigarro para uma filha criança. Gari limpando a calçada e sendo empurrado porque ele estava “atrapalhando a passagem”. Pai discutir com filha sobre que tipo de corte era aquele presente na roupa recém-comprada. Óticas entregando folhetos de propaganda. Leão Brasil gritando. Vi gente das mais diversas tribos urbanas, todos ali, convivendo no mesmo lugar. Vi apressados, desajeitados, elegantes, cafonas, gordos, magros, enfim, todo tipo de gente. Vi que mesmo vivendo em uma sociedade individualista, em que cada um conversa com gente que mora do outro lado do mundo, mas não conhece o próprio vizinho, que a alta tecnologia roubou o espaço da maior parte das relações afetivas e que o ar condicionado roubou o cheiro do ar puro na maior parte dos ambientes, ainda é possível saborear a rua. Ainda é possível sentir cheiros diferentes em cada passo, olhar coisas inesperadas e aprender o infinito com algo que sempre esteve ali.

No fim, concluí que mesmo sendo apenas mais uma na multidão, ao invés de eu apenas cumprir meu papel social posso sorrir e aproveitar o que a cidade tem a me oferecer. Posso pensar e sentir. Posso flanar mesmo não sendo desocupada. Posso causar estranhamento e estranhar-me com uma simples caminhada por uma rua próxima à minha casa. Eu posso tanta coisa. A gente pode tanta coisa. E mesmo assim desperdiçamos grande parte da nossa finita vida com atitudes mecanizadas que nos fazem ser quase meros autômatos.

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E foi assim, andando por um lugar que sempre esteve ali em um dia qualquer, que eu mudei a minha vida.

0 thoughts on “Sempre esteve ali, mas eu não via.

  1. Amei. Amei. Amei.
    Isso foi algum tipo de trabalho pra faculdade? Me lembrou uma vez que a professora pediu pra gente fazer uma análise etnológica, mas de um jeito bem principiante, só relatando as coisas.
    Amei muito, May!!!!!!!!

  2. May, que delícia de texto! Adoro esses objetivos que você cria, de coisas inusitadas pra fazer na sua vida! Um dia quero fazer uma dessas contigo! E eu queria muito um desses arames com meu nome, gente, achei o máximo! E aposto que eles também acharam o máximo essa garotinha de cabelo azul cheia de vontade de viver por ali.. <3

  3. Eu me inspiro em você não é à toa, né?
    Se tem uma coisa que eu queria era aprender a sair sem ter um objetivo específico. Até que eu sei andar e reparar na rua. Já aconteceu várias vezes de estar passando por um lugar familiar e de repente ter um surto e reparar naquela árvore que sempre esteve ali mas eu nunca vi. Mas eu queria conseguir ser antropológica assim, sair só pra ser testemunha, experimentar o mundo simplesmente.
    Da vez que um hippie fez meu nome no arame eu tava super feliz. Puxei vários assuntos. Até que ele me cobrou dois reais. E nem tinha toda a arte, era só meu nome num arame mesmo.
    Beijo! <3

  4. meu, eu juro, eu juro pra ti que eu tento não ler teus textos até o final, mas isso é impossível o_o cara, eu começo a ler e não paro mais, é como um livro muito bom que a gente não acha brecha pra marcar a página e ir tomar um café, um banho.
    eu fiquei apaixonada por esse texto que você escreveu, por cada linha e por cada detalhe. eu acho legal essa coisa de falar nome de rua porque me aproxima de lugares que eu nunca fui. é impressionante como a gente nota coisas de um jeito diferente do normal, quando para pra observá-las de verdade. eu observo pessoas indo e vindo no ônibus/ no carro/ a pé/ de bike/ de quatro/ rolando no chão/ enfim, e cara, muitas vezes ao meu ver parece que esses atos se tornaram tão normais nas vidas delas…
    deve ser por isso que eu tenho medo de me apegar a uma rotina. mas tô enfrentando esse medo! quero fazer coisas legais que não fechem meus olhos a ponto de me fazerem ir e vir maquinalmente.

    obs: se você fizer dread vai ficar mt legal!

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