Sendo gente.

Há algum tempo eu vi um curta metragem  absolutamente genial que se passa num futuro distante em que as bonecas infláveis são mais versáteis. Assim sendo, um camarada vai lá e compra a sua. Só que elas não são vendidas por inteiro, mas sim em pedaços e o primeiro pedaço que ele compra, claro, é a região busto-abdômen. Berni, o camarada, diverte-se horrores com a tal parte, tendo em vista que ela não pensa, não se movimenta, está só ali disponível para “servi-lo” o tempo que for necessário. Mas ele não se contenta e quer mais. Trabalha como um condenado e aos poucos vai comprando as partes restantes para completar sua boneca. Por ser uma boneca, logicamente, Berni pode escolher as pernas que a deixam mais bonita, os braços que o agradam mais e assim pode personificar a mulher de seus sonhos. Até que ele resolve comprar a cabeça, a parte final. A mais cara, mais difícil de ser elaborada e também a que causa mais danos para o coitado Berni. Porque no segundo em que ele coloca a cabeça na boneca, ela se lembra de tudo que passou, da maneira como foi usada, de como sua vida foi péssima porque sempre foi limitada à servidão sexual para um babaca. Ela se lembra que ganhou braços só porque ele queria roupas passadas e que nunca fora algo além de um objeto. Então ela abandona Berni e ele fica chateadíssimo porque desperdiçou todo este tempo e dinheiro com uma boneca que fugiu.

Este filme tem menos de dez minutos, mas causou em mim pensamentos que vários dos filmes com mais de duas horas que eu já assisti jamais seriam capazes. Não consigo rever este curta sem me sentir mal. Angustiada, enojada, repulsiva. E não é porque eu ache que algum dia vão inventar uma boneca que seja capaz de substituir uma mulher. Porque nem tem como isso acontecer, porque mulher nunca foi e nunca será apenas um objeto. Sempre fomos mais do que isto. O que me incomoda no filme é pensar que mesmo não sendo bonecas, mesmo sendo de carne e osso, há mulheres que são tratadas e que vivem exatamente como a boneca do Berni. Há mulheres que são usadas para objetivos sexuais e para limpar a casa, como se só servissem pra isso. Mulheres que nunca podem abrir a boca, porque sequer passa na cabeça dos outros que ela pode ter algo a falar que não seja sobre futilidades. Há mulheres que ficam em casa para organizar a vida de seus maridos executivos e há mulheres que trabalham como condenadas para ganharem menos que estes tais executivos e quando chegam em casa ainda tem que arrumar tudo. Mulheres que acordam e dormem sofrendo, repletas de cosméticos em sua pele e de pensamentos absurdos sobre seu corpo e sua aparência em geral, porque elas não estão no padrão imbuido, porque elas vão morrer sozinhas. Porque elas são feias e, como o único papel da mulher é ser bonita, elas não merecem viver.

Eu cansei. Cansei de todos esses argumentos babacas. Cansei de ver gente que eu conheço e tenho muito apreço por entrando em relacionamentos completamente babacas apenas para cumprir um padrão pré-estabelecido por uma moral ultrapassada que nunca foi repensada. Cansei de ter que dar conselhos porque eu sei que ninguém vai seguir os meus conselhos, porque poucos são os que conseguem ser despreocupados com toda essa neura social que envolve mulheres, homens e relacionamentos. Eu cansei de voltar da faculdade e me deparar com gente na rua dizendo que estou “gostosa” ou entrar no facebook e ter que ouvir que “tal roupa te deixou uma delícia”. Cansei mais ainda de ouvir gente dizendo que eu me incomodo não com a palavra, mas com quem a disse. Porque, segundo estas pessoas, se fosse uma pessoa por quem eu tenho algum tipo de atração que viesse me dizer que estou “gostosa” eu não ia ligar. É claro que eu ligo! Porque é um absurdo que as pessoas achem que eu escolho as minhas roupas com o intuito de parecer algo para alguém. É um absurdo ainda maior acharem que só porque fico bonita com aquela roupa estou emanando sinais de “vamos nos agarrar”. É só uma roupa. É só um cabelo. Sou só eu. E eu não sou só essas coisas, embora seja também elas.

Eu queria que o mundo entendesse que nós mulheres não temos a obrigação de parecer lindas e perfeitas e que se parecemos não é porque vocês quiseram e sim porque nós quisemos. Queria que entendessem que se estou bonita, ótimo, mas isso não te dá o direito de falar de mim como se eu fosse uma boneca que se aprumou para ser utilizada sexualmente. Queria que entendessem que eu tenho o direito de não querer casar virgem e de fazer o que quiser, quando quiser até neste aspecto da minha vida. Queria que entendessem que eu tenho voz, que eu penso, que não sou um objeto comparável com outros objetos. Queria que entendessem que não dá mais pra tratar questões sérias como o aborto baseando-se em princípios puramente religiosos. Queria que entendessem que mulher nenhuma é culpada por sofrer algum tipo de abuso, porque num mundo perfeito cometer abuso sequer passaria na cabeça dos homens. Queria que entendessem que gosto de exercer meu poder de escolha e minha liberdade e que não me sinto nenhum pouco obrigada a ser afável com gente que me irrita por ter atitudes babacas. Queria que entendessem que meu mundo perfeito seria um mundo em que eu pudesse andar com a roupa que me deixasse mais bonita por aí sem medo de que algo ruim me acontecesse por isso. Sem ter que forçar sorrisos amarelos para cada “elogio” ouvido. Queria que entendessem de uma vez por todas que o problema existente, a tal dominação do masculino sobre o feminino, já ultrapassou os limites do tempo espaço. Já passou da hora de acabar. Queria que entendessem que eu não aguento mais ver estes conceitos reproduzidos em cada um dos filmes, livros, seriados e relacionamentos que me deparo por aí. Queria que entendessem que eu sempre quis ser tudo na minha vida, mas nunca, jamais, sob hipótese alguma, submeter-me-ei a ser algo semelhante à boneca deste vídeo.

E desta vez nem é porque sou um alien, é porque sou mulher mesmo. Uma mulher que sonha em ser tratada como gente.

0 thoughts on “Sendo gente.

  1. Amei o texto, maymay.
    E que curta incrível. Assisti e fiquei aflita também, mas achei super genial.
    Eu não me dava conta que esse mundo tá repleto de babacas até compartilhar o texto da Aline, mas acabei deletando porque a urubuzada quis me dar lição de morar e eu não tenho suporte (nem paciência) pra aguentar isso.

    Pessoas que não fazem parte do que é SER MULHER nunca vão entender profundamente o que acontece com a gente. Eu defendo todo os direitos das feministas e aplico apenas alguns a mim porque acho que vem tudo de criação, sei lá. Meus pais nunca foram super conservadores, mas também não foram liberais demais e eu vivo bem nesse equilíbrio com ideias de respeito que aplico a mim mesma.

    Fato é que: cada uma deve fazer o que acha bom pra si. E acho que o resto do mundo tem que aprender a lidar com isso.

    Beijocas, sua linda <3

  2. Por um mundo com mais mulheres reconhecendo que são vítimas de machismo todos os dias. Por um mundo com mais mulheres lutando juntas e por uma só causa. Por um mundo com mais mulheres como você. Só assim o mundo pode vir a ser um lugar habitável sem grandes danos.

    <3

  3. May, eu penso que nós mulheres temos o mundo em nossas mãos. Penso que podemos ser o que quisermos e fazer o quisermos na hora, no lugar e no dia que quisermos e por pensar assim, que acredito, que mulheres que sofrem abusos, que se deixam ser tratadas de forma desrespeitosa, que se deixam ser submissas o fazem por que querem. Muitas mulheres ainda tem uma idéia muito retrograde da vida e enquanto existem mulheres que apanham, que se deixam “escravizar” seja pelo trabalho, pelo marido e pelos filhos, enquanto existirem mulheres assim, sempre vai ter um babaca que vai achar ok te chamar de gostosa só por que sua saia está um pouco mais curta. Isso tem mesmo que mudar!
    Beijos!

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