Sendo Eu

Nunca fui uma garota com auto estima invejável. Nunca gostei de tirar fotos de mim mesma, de me maquiar ou me vestir com roupas que considerava bonita. Nunca concebi a ideia de que muita gente se esforçava ao máximo pra ficar bonita porque queria chamar atenção de alguém. Sempre quis chamar atenção pelo que penso e falo, pelo que sou e não pelo que pareço e por isso sempre busquei parecer pouco, para só quem dignasse a me conhecer soubesse de verdade com quem estava lidando.

Com nove anos eu vi uma menina com aparelho dentário e achei lindo e estiloso, perguntei para a minha mãe como faria para entortar os meus dentes para usar aparelho, ela disse que eu não deveria fazer isso, mas que para entortar os dentes bastava ficar forçando a língua nos espaços entre dentes e eu fazia isso todos os dias. Precisava de um aparelho porque eu achava aquilo lindo. Com catorze anos eu consegui o meu e o carrego até hoje, todo mês a dentista diz que estamos perto de terminar o tratamento, mas o fim nunca vem. Cada mês que passa eu fico mais ansiosa para ver meu sorriso, saber como é ter um, tendo em vista que não me lembro. Toda vez que eu falo isso para as pessoas elas dizem “está com alguém em mente e acha que o aparelho vai atrapalhar?” só que não, eu quase nunca tenho alguém em mente, eu só tenho vontade de saber como é passar a língua no seu dente, passar fio dental sem obstáculos, nunca nem penso no que as pessoas podem achar disso.

Não é fácil ser assim e eu não fui sempre assim e nem sei como comecei. Lembro-me de ter nove anos e pintar minhas unhas de verde e ser chamada de cafona e continuar só para irritar quem me chamava de cafona, mas de parar quando minha avó disse que aquilo não a agradava. Lembro-me de ter quinze anos e querer morrer porque eu não tinha o cabelo que as pessoas achavam bonito, porque eu era baixa demais e magra demais e torta demais e usava óculos E aparelho, além de estudar bastante. E de passar horas torturando-me por causa das notas por acreditar que eu só tinha amigos porque elas eram altas. Lembro-me de ser uma pessoa miserável com quinze anos. Terrível mesmo. E então minhas memórias somem e eu só consigo lembrar do agora, ou do que podemos chamar de passado recente.

Não sou a pessoa mais segura do mundo, mas aprendi a nunca deixar de fazer o que eu quero só porque talvez isso choque alguém. Meus cabelos são coloridos e chamativos e quando as pessoas na rua o xingam ou me olham estranho e fazem perguntas bizarras eu rio ou pelo menos sorrio e continuo em frente, como se nada tivesse acontecido. Tento ser educada e responder o nome da tinta todas as mil vezes que perguntam, assim como fazia anos atrás com os meus esmaltes. Aprendi a não ter vergonha de andar por aí com camisetas que eu faço ou roupas que as pessoas dizem não combinar, a estudar menos e ter ciência de que se gostam de mim pelas minhas notas são idiotas. Eu aprendi a me valorizar mais como pessoa, aprendi que eu posso parecer legal, diferente e interessante ao invés de simplesmente ser assim. E eu não faço essas coisas para chamar atenção, é simplesmente o meu jeito, é parte de mim, da minha releitura do universo e eu acho isso fantástico.

Tenho achado fantástica essa coisa de gostar de mim mesma. De passar cremes no cabelo e usar maquiagem quando vou a festas, tirar mil fotos de mim mesma fazendo caretas engraçadas, de até cogitar a possibilidade de comprar brincos e de usar anéis de vez em quando. Tenho gostado de usar salto as vezes e andar de vestido rodopiando sob o vento. Tenho gostado mais de mim, com menos culpa, sem aquela ideia malvada de que estou virando uma super egocêntrica que não aguenta as pessoas. Eu aguento as pessoas e como aprendi a gostar de mim aprendi a gostar mais delas, a tolerá-las melhor. Consigo lidar melhor com pessoas, conversar com desconhecidos, parecer legal, tirar a cara de tédio e até sorrir as vezes. E eu não faço ideia do que aconteceu para que eu chegasse aqui, mas na verdade creio que não importe porque eu cheguei e está bom demais.

“Eu me amo, eu me amo… Não posso mais viver sem mim” Ultrage a Rigor – Eu me Amo

0 thoughts on “Sendo Eu

  1. Você amadureceu, minha flor. Quando a gente amadurece a gente passa a se gostar mais, a se entender mais, a se permitir mais. Tenho muito orgulho de ler e ver esse crescimento todo. Com o tempo a gente sempre percebe que o que vale mesmo é estar de bem com seu próprio EU. Beijão!!

  2. Acho que fomos o oposto quando éramos mais novas! Rs. Até o colegial, eu fui o tipo de garota que só quer fazer parte. Não tinha coragem de continuar com um comportamento que as pessoas desaprovassem e passava horas chateada quando alguém ria de mim por qualquer motivo. Infelizmente, na escola que estudei, nunca teve uma garota assim, que não se importasse que todos insultassem seu esmalte verde (e até achasse graça em provocar!) para, quem sabe, eu poder me espelhar um pouquinho. Assim, foi só no colegial que me toquei. Não importava o quanto me esforçasse para fazer parte de grupinho x ou y, não ia adiantar, eu gostava de ler, de estudar matemática, de jogar videogame e não era bem o que se esperava de uma garota na minha idade. No meu colégio, para ser incluída, vc precisava pintar o cabelo de loiro, ouvir Britney Spears, gostar de esportes e ter um namorado na faculdade (ou, no mínimo, em uma série maior que a sua). Foi no colegial que conheci um pequeno grupinho de outsiders. Éramos em 4 e nos unimos “contra” o colégio inteiro. Tinhamos nossos próprios costumes, nossos próprios gostos, separados dos demais. E foi incrível. Graças àquela época, hoje em dia sou muito mais confiante e minha auto estima é bem menos abalável. No mais, acho que sempre fui vaidosa, nunca associei à fultilidade e sim à se cuidar, faz o bem para si mesma. Faz muito bem em se amar! =)

  3. boa sorte no seu crescimento, May!
    me identifiquei muito com seu texto, mesmo tendo alguns anos a mais que vc! creio que aprender a se amar seja difícil, mas um aprendizado que fica pra vida inteira! mesmo assim é engraçado como esse aprendizado flutua, como com a matemática, antes do vestibular damos enorme importância pra alcançarmos o objetivo de passar… depois ele se esvai, até ser requerido novamente…
    bom, pelo menos é o que eu percebi com as minha andanças na vida… mas seria bom que não flutuasse… eu adoraria me amar tanto a ponto de não me decepcionar tanto com as pessoas e que fosse eu que permanecesse nessa história toda…
    enfim!
    amo vc, menina do cabelo colorido!

  4. Quando se começa a sentir orgulho da pessoa se é, o mundo inteiro muda, né?
    Eu tô tentando me amar também, mas tenho cá os meus problemas que atrapalham tudo! hahaha
    Que bom que você já deixou essa época para trás. E que continue sempre.
    ;**

  5. E se você quer saber, sempre achei você o máximo por tudo isso aí também! Uma pequenininha cheia de personalidade, que na primeira aula do teatro dançava sem vergonha nenhuma na hora que a Gabi mandava, enquanto eu dava passinhos minúsculos e de olhos fechados pra não ver ninguém olhando pra mim. Eu to com saudade de te abraçar!
    Te amo!
    Beijo!

  6. me identifiquei com seu texto. Primeiro porque eu to de saco cheio do aparelho, pra começar.(minha dentista ta me enrolando tbm)
    E depois porque eu tbm sofria esse tipo de bulling. Antigamente eu amava esmalte amarelo, e as pessoas me chamavam de louca. Hoje em dia é fogo, todo mundo usa, até quem me olhava feio.

  7. Que texto maravilhoso!
    Uma das boas coisas de crescer é que a gente amadurece. Apesar de toda a dificuldade, a gente passa a se aceitar melhor.

  8. Na minha apresentação do blog, tem a seguinte frase, que casa muito bem com o su momento atual (que espero que seja duradouro) “Não estou aqui para que gostem de mim. Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho.” Martha Medeiros. Li com satisfação seu texto, Maymay. Não há nada mais bonito do que nos amar!

  9. Mayra do céu, então eu só posso gritar, em letras enormes: APROVEITA! Há quem passe a vida sem se amar um tiquinho e que delícia que você está se descobrindo e amando aos montes. Super acredito que quando a gente se abre assim pra vida, a vida começa a ser ainda melhor conosco!

    Beijoca

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