Eu sonho. Sonho com vidas que jamais viverei, sonho com momentos que poderiam ter sido como nos sonhos, mas não foram, sonho com coisas que pretendo realizar e com outras completamente impossíveis, sonho com coisas que nada têm a ver comigo, sonho com desconhecidos e com conhecidos, em preto e branco e em colorido, linearmente ou não. Sonho acordada, sonho dormindo e sonho até quando não devia sonhar. Eu sonho. E eu já tive várias vidas por causa disso. Já sonhei com vidas muito diferentes da infernal que vivo. Mas só tem um sonho que nunca se esvai, apenas um que permanece não importa quantos anos passem o quanto a situação mude ou o quanto eu cresça.

Não sei da onde essa ideia surgiu, nem sei como descobri que essa coisa existia, mas lembro de gastar metade dos meus banhos não musicados planejando tudo minuciosamente. Da cor do vestido ao formato da unha. Da primeira letra do discurso ao último ponto final. Já treinei o sorriso, o andar – principalmente pra garantir que não cairia. Já montei a ficha técnica do meu filme e já me imaginei nas mais diversas posições nele. O meu sonho, é o mais clichê do mundo: ganhar um Oscar.

Eu não podia assistir à premiação, afinal era no domingo a noite, eu sempre tinha aula segunda de manhã. Então só sabia dos resultados no Jornal e na maioria das vezes não tinha visto a nenhum filme, mas tudo era tão bonito e gracioso que me encantava mais do que qualquer conto de fadas, afinal, era real. Uma vez comentando com meu primo a imensa vontade de assistir ao Oscar e a total impossibilidade de fazê-lo fez com que ele fosse doce o suficiente pra gravar em um VHS o Oscar inteiro, comentado pelo José Wilker e cheio de comerciais no meio. Fiz minha mãe fazer o vídeo cassete funcionar e passei a tarde inteira assistindo e achando um máximo. Desde então eu nunca mais perdi uma premiação. Virei aquela fã lunática que ao ver os indicados corre para ver todos os filmes, a fim de ter palpites concretos em todas as categorias. Sou aquela que morreu de rir com o Oscar que a Anne Hathaway apresentou e ficou super orgulhosa da Natalie Portman. Sou aquela que está se torturando até agora por só ter conseguido assistir a cinco filmes deste Oscar, desconsiderando as animações, claro. Mas também sou aquela que não quis fazer nada na noite de ontem porque precisava acompanhar a tudo detalhadamente. Em três canais ao vivo, comparando os comentários de todos os críticos para no fim descobrir que o mais condizente era, de fato, o José Wilker. Sou aquela que mesmo com a TV no volume cinco morreu de gritar abafando o barulho com uma almofada enquanto pulava desengonçadamente no sofá ao ver que Tarantino de fato tinha ganhado seu Oscar e que chorou por dentro quando viu a eterna princesa da Genóvia linda agradecendo aos céus pelo seu. Aquela que achou bizarríssimo Harry Potter e Bella Swan juntos e que ficou com pena da queda da Jennifer Lawrance, embora acredite que ela não merecia ganhar pelo filme que ganhou. Mas, principalmente, sou aquela que sonha.

Fevereiro sempre é um dos auges do meu ano por causa da premiação e este ano não foi diferente. Nem sei como consegui acordar pra aula hoje, mas eu fui. Fui feliz porque dois dos meus ídolos tinham ganhado, fui feliz porque não conseguia deixar de imaginar a felicidade de cada uma daquelas pessoas por ter ganhado uma estatueta daquelas. Fui feliz porque aquele é o maior sonho da minha vida. Tem gente que sonha em casar, em ser presidente ou médica e eu já sonhei com tudo isso, mas, mais que tudo, sonhei com meu Oscar. Por muito tempo. E eu nunca vou deixar de sonhar. Hoje sei que não sei atuar, não vou concorrer a essas categorias, mas existem várias outras. Várias outras, quem sabe um dia?

Na hora do almoço eu, meu pai e minha mãe, estávamos comentando sobre o prêmio, eu contando os detalhes para os dois que foram dormir logo no início e então disse que era meu maior sonho e eles, como os melhores pais do mundo que são me falaram que seria maravilhoso se eu ganhasse e ainda me deram dicas e apoio para de fato investir nisso. Enquanto a maioria dos pais riria da minha cara, eles falaram que eu jamais posso desistir, se é realmente o que eu quero, disseram que eu devo tentar. Eu amo tanto eles por isso. Tanto. Eles apoiam absolutamente tudo que eu diga que quero fazer e apoiam de verdade, não só com palavras levianas, eles dão ideias, se empenham junto quando é preciso, fazem-se sempre presentes. Eles sempre estão presentes. Sempre tentando provar que sou livre, mesmo não me chamando Django. E eu não sei se de fato vou passar a minha vida inteira lutando pra ganhar alguma categoria do Oscar, mas sei que se eu fizer eles me apoiarão. Não importa onde estejam. E é por isso, caros leitores, que quando for eu com um vestido maravilhoso rindo daquelas piadas bizarras e babando ovo pela maravilhosidade dos meus ídolos, quando eu estiver lá, com meu vestido e unhas maravilhosos, a primeira frase que falarei ao pegar a estatueta será “Mãe, pai, é por vocês” em português mesmo, que é pra eles me entenderem. Em seguida agradecerei ao mundo inteiro, mas eles por primeiro. Porque enquanto a maioria dos vencedores diz que seus maridos e esposas são o centro do mundo e a luz do viver, a minha luz e o meu centro sempre será a minha família. E eu sempre vou agradecê-los por jamais tentar domar a sonhadora existente em mim e por sempre lutarem para que eu possa ver apenas o lado bom da vida.

0 thoughts on “Sonhadora

  1. May, que lindo isso! Eu amo Oscar. Mas sou poser, não entendo nada de filme, nem de moda, mas nessa noite, finjo que entendo de tudo e sou capaz de torcer fervorosamente por filmes que nunca assisti. E eu sonho. Sonho em, na próxima vida, nascer no meio desse glamour e subir buscar uma estatueta dessa, tremendo ao fazer um discurso. Que lindo você ter fé que isso pode acontecer ainda nessa vida! Te dou todas as forças do mundo.. Se você for concorrer como diretora, ou como melhor filme, quero ser a atriz. Sí pra ir junto, num vestido maravilhoso, sentir um pouco dessa magia toda.. Pode ser deslumbramento, futilidade, podem falar o que for. Pra mim é um conto de fadas real!
    Beijo! <3

  2. Você, como sempre, conseguindo falar das coisas que todo mundo fala, mas de um jeito que ninguém mais consegue falar. Achei o seu post muito mais que um texto sobre o Oscar – porque realmente ele é. É um texto de alma, de gente que se identifica com a vontade de ser vencedor, mesmo. Mas apesar de saber que você teve o seu momento especial sozinha, ainda queria você palpitando nas premiações ontem com a gente!
    Beijo.

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