Quem faz a série?

     Stranger Things é mais uma série original da rede de streaming de vídeos Netflix,  teve sua estreia mundial realizada no dia 16 de julho de 2016, contando com oito episódios de 50 minutos, em média, cada. A segunda temporada está prevista para estreia em 2017.

     Criada por Matt e Ross Duffer (conhecidos como The Duffer Brothers), a série conta com um grande elenco. Winona Ryder é Joyce Byers, David Harbour é o Chief Jim Hopper, Finn Wolfhard é Mike Wheeler, Millie Bobby Brown é Eleven, Gaten Matarazzo é Dustin Henderson, Caleb McLaughlin é Lucas Sinclair e Noah Schnapp é Will Byers.

Sobre o que se trata?

      A história se passa na pacata cidade de Hawkings, nos EUA, em algum ano da década de 80. Nessa época, as crianças se reuniam para brincar de jogos de tabuleiro, como Dungeons & Dragons. As músicas eram ouvidas em LPs ou fitas k7, nas quais eram realizadas diversas mixtapes. As câmeras fotográficas se utilizavam de filmes, que necessitavam ser revelados para serem vistos. As roupas e cabelos eram bastante diferentes dos nossos, assim como os carros, cinemas e outros espaços da cidade. A Netflix conseguiu captar muito bem todo o ar da década de 80 e transpor para essa série, que conta a história do desaparecimento de Will Byers e da busca de sua mãe Joyce, seu irmão Jonathan e seus três melhores amigos (Mike, Dustin e Lucas) por ele, sempre auxiliados pelo Xerife da cidade.

     O que poderia ser uma simples história de suspense e procura, acaba se misturando com artifícios fantásticos, a partir da inserção da personagem Eleven. Ela, uma garota estranha, de poucas palavras e um tanto deslocada, tem poderes telepáticos, sendo capaz de mover algumas coisas e destruir outras, fazendo uso da mente. Eleven é encontrada por Mike, que lhe dá abrigo e insere ela no grupo que buscava por Will. Surpreendentemente, ela demonstra ter informações privilegiadas sobre o desaparecimento do garoto e formas de encontrá-lo. 

       A série conta também com um núcleo adolescente, composto por Nancy, irmã de Mike, seu namorado e amigos. 

O que eu achei dela?

     A série cumpre muito bem sua proposta de homenagear os anos 80. Músicas populares na época, estilo de vestimenta, objetos bastante utilizados, mas, principalmente, referências. Filmes e livros são o mote da série, que homenageia diversas das grandes obras populares na década de 80, com foco para as de Stephen King. No decorrer da narrativa, diversas dessas referências aparecem e outras são mencionadas pelos personagens. O personagem com mais insights nesse aspecto é Dustin.

      Não achei a série revolucionária, inovadora ou transformadora de vidas, como li em algumas resenhas que seria. Acabei me decepcionando com ela, por causa da extrema expectativa que o hype me fez criar. No fim das contas, Stranger Things não é tudo isso. É legal, cumpre bem sua função, mas não gerou em mim um efeito catártico a ponto de fazer com que eu aguarde ansiosamente pela próxima temporada. Assistirei quando estrear, mas não vou contar os dias para tal. E não gostei dessa sensação, visto que morro de vontade de participar de todos os hypes possíveis. Esse não foi para mim.

      Apesar disso, gostei bastante do núcleo infantil da série. Acredito que ela poderia se resumir apenas a ele. O núcleo adolescente foi cansativo, chato e irritante para mim. Não consegui engolir a existência de Nancy e suas atitudes completamente sem noção. Não consegui digerir a existência do Steve e muito menos a forma positiva como sua história termina ao fim da temporada. Jonathan me encheu de dó e é o único que entendo a razão e importância para a série. Enquanto Nancy e Mike eram a dupla de irmãos chata que todos sabem que existe, Jonathan era o irmão mais velho mais legal do mundo e a dor em perder o irmão, não ter pai, a mãe estar “ficando maluca” e ele não ser socialmente aceito é grande e identificável demais. Ele está ali para representar, junto com a Eleven, todos os outsiders incompreendidos e acho que o ator fez um ótimo trabalho, começando pela caracterização. Porém, o núcleo segue sendo meu menos preferido. 

      Outra coisa muito ruim na série são os adultos. Com exceção de Joyce e Jim, todos os outros que aparecem são verdadeiros inúteis e que deveriam ter o certificado de pais confiscado. A gente vê que Karen, a mãe de Mike e Nancy, se esforça para estar próxima dos filhos. Porém, ela é bastante repressiva para com eles e tem o hábito de entrar no quarto deles sem eles permitirem. Ainda assim, ela não sabe sobre muita das coisas dos filhos e é incapaz de perceber que há uma criança extra morando em seu porão. O marido dela, Ted Wheeler, é ainda mais displicente. É provável que ele desconheça a data de aniversário dos próprios filhos, quanto mais saber outras coisas sobre eles. Nem Ted nem Karen se importam de verdade com o desaparecimento do Will. Não se oferecem para ajudar Joyce, apenas se preocupam com os próprios filhos e não querem que o mesmo ocorra com eles. Ou seja, além de péssimos pais, são péssimos amigos.

      O desenho da narrativa da série é muito bom. A construção do desenrolar do problema é bem elaborada. No entanto, fiquei irritada com a falta de comunicação entre os núcleos. Se as crianças e Jonathan tivessem conversado com Joyce e ela tivesse trabalhado em conjunto com Jim desde o começo, as coisas seriam potencialmente mais diferentes, fáceis e indolores. Não gostei desse senso de orgulho entre os personagens, que queriam resolver tudo sozinhos para proteger uns aos outros e acabavam se colocando em riscos ainda maiores. 

Eleven sendo lacradora
Eleven sendo lacradora

      Eleven acaba sendo o grande nome da série, a meu ver. A personagem é complexa, tem muito a ser explorada, é muito bem interpretada e tem um enorme potencial narrativo. Inocente, mas ao mesmo tempo conhecedora de coisas que os outros não têm acesso, leal, corajosa e determinada, Eleven é a grande heroína da série, sem nem mesmo conhecer Will Byers e apesar de estar sendo perseguida por órgãos governamentais. Junto com ela, a personagem que mais me chamou a atenção na temporada foi Joyce, que passa de maluca desacreditada para a primeira a ter percebido o que realmente estava acontecendo. A parceria Joyce e Eleven merece mais detalhes e eu torço para que elas ainda sejam grandes amigas.

      Afinal de eu não ter ficado com vontade de contar os dias para a próxima temporada, é possível delinear alguns traços narrativos que ainda necessitam ser abordados. Acredito que o foco da próxima temporada será no retorno de Will e Eleven e prevejo que mais elementos da literatura de horror e fantasia serão inseridos. Espero que a Netflix e os irmãos Duffer sigam com o bom trabalho.

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