Star Wars: Marcas da Guerra – Chuck Wendig

Quem escreveu o livro?

          Chuck Wendig nasceu nos Estados Unidos e além de ser autor de livros e HQs, é roteirista, designer de games e blogueiro. Ele se formou em inglês e estudos sobre religião na Universidade da Pensilvânia em 1998. Nascido no estado da Pensilvânia, ainda reside lá, com sua esposa, filho e cachorros. Já publicou diversos livros, mas se tornou internacionalmente conhecido após a publicação de Marcas da Guerra (Aftermath, no original), pertencente à saga Star Wars. Você pode seguir ele no Twitter: @ChuckWendig

O que é interessante saber antes de ler?

          Marcas da Guerra foi publicado em 2015, no Brasil pela editora Aleph, com o intuito de ser um “prelúdio” para o filme O Despertar da Força, que estreou em Dezembro do mesmo ano. O livro é o primeiro de uma trilogia, que ainda não terminou de ser escrita e publicada, mas há a estimativa que isso ocorra em breve. Antes de passarmos para a narrativa propriamente dita, é interessante demarcar alguns pontos.

  • Quando Star Wars foi vendido para a Disney, toda a produção de fãs que havia sido realizada até então foi considerada não-canônica. Dessa forma, a produção não precisa contar com o que foi escrito pelos fãs até então, retomando apenas o que aconteceu no último filme. Todos esses escritos, que contam a história do universo antes da história dos filmes e também depois dela, recebeu o selo de legends e continuou a ser publicado e vendido.
  • Marcas da Guerra faz parte do nicho de publicações autorizadas pela Disney, o que significa que sua história tem relação com os filmes que virão a ser produzidos. 

          A história de Marcas da Guerra, portanto, se passa entre os acontecimentos do sexto filme da saga (O Retorno do Jedi, de 1983) e o sétimo (O Despertar da Força, de 2015). Para quem acompanha os filmes, é perceptível a quantidade de tempo que passou entre um e o outro, não em tempo de produção, mas na história. Enquanto no sexto filme Luke e Leia eram jovens e tinham acabado de se descobrir filhos de Darth Vader, Luke era um recém Jedi e destruir o Império era a única ideia possível, no sétimo filme tudo isso já passou e vemos o surgimento de um novo Império. Marcas da Guerra acontece assim que o sexto filme termina. A Nova República acaba de ser anunciada, a Estrela da Morte foi destruída e o livro mostra o que acontece depois.

          Isso é um ponto inicialmente interessante, pois nos filmes o protagonismo é muito centrado para Luke e sua trupe. Em Marcas da Guerra, temos a oportunidade de conhecer outros habitantes da galáxia. Outros planetas, outras espécies alienígenas, outras táticas de guerra e, enfim, universos completamente diferentes do mostrado no filme, mas que ao mesmo tempo pertence a ele. 

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

          A premissa da história é mostrar o limbo que existe entre a proclamação do fim de uma guerra e seu fim de fato. Apesar de a Nova República ter se sobressaído perante o Império, ter matado Palpatine e Darth Vader e ter conseguido assumir o controle, o exército imperial não acredita nisso tão facilmente. A morte de Palpatine é colocada em dúvida e muitos generais seguem com os planos prévios do Império, em dominar e controlar a galáxia. Da mesma forma, há soldados da ex-Aliança-Rebelde-agora-Nova-República que não acreditam no fim da guerra, enquanto outros acham que já podem aproveitar a vitória. É um clima de grande incerteza, onde as lealdades e moralidades são postas à prova e os indivíduos se sentem perdidos.

          Em meio a esse ambiente, somos apresentados aos personagens da história. De um lado temos os Imperiais, liderados por Rae Sloane. Ela é uma almirante de pele negra, que tenta controlar o planeta de Akiva. O planeta sempre teve a presença de imperiais, mas eles nunca tentaram tomar o controle diretamente, pois tinham o controle do líder nativo de lá – o Sártrapa. Porém, com a crise política é necessário que essas alianças sejam reformuladas e Rae se reúne com outros grandes nomes do Império no palácio principal da capital do planeta,  a fim de delinear os próximos passos que serão seguidos, para que os imperiais retornem ao poder. Logo em seguida, somos apresentados ao capitão Wedge Antilles, da Nova República, que pretende se infiltrar em Akiva e, especialmente, neste palácio, para averiguar o que está acontecendo. 

          No outro núcleo da história, temos Norra, ex-soldada da ex-Aliança-Rebelde-agora-Nova-República. Ela teve que deixar seu planeta para ajudar a salvar a galáxia, porém, além do planeta, acabou abandonando seu filho, Temmin. Norra resolve retornar à Akiva após a vitória da Nova República para resgatar o filho e levá-lo a um lugar melhor. Porém, Temmin não é mais um garoto e no tempo em que a mãe esteve fora ele construiu uma loja de artefatos tecnológicos, montou o próprio droid de combate e levava a vida de forma empolgante. Seu droid de combate, chamado senhor Ossudo, foi feito a partir de sucatas de droids que ele encontrou por aí e, além de um design único, o droid também demonstra ser leal a seu criador, fazendo com que a relação deles seja a de amizade. Norra deixou Temmin sob os cuidados de sua irmã, que é mais velha que ela e casada com outra mulher. Porém, Temmin acaba se demonstrando independente e recusa muitos dos cuidados oferecidos por sua tia.

          Entretanto, como Temmin fazia negócios com qualquer um que precisasse de seus produtos, acabou se metendo em uma enrascada com o maior gângster da região, Surat. Ele começa a perseguir o garoto e quer tirar sua vida, acusando-o de ter roubado uma arma que lhe pertencia. Por causa dessa confusão, Temmin acaba conhecendo a caçadora de recompensas Jas e o ex-imperial Sinjir. Juntos, e com a ajuda de Norra, eles conseguem escapar das garras de Surat e acabam se tornando uma equipe – visto que Norra, Jas e Sinjir tinham o objetivo de chegar ao palácio principal. É a partir desse ponto que se desenrolam os fatos principais da história e é aqui que paro de contar o que aconteceu, a fim de não estragar a experiência de leitura de vocês.

          Finalizo com o adendo de que além da história principal, que envolve os núcleos apresentados, há diversos interlúdios. Eles são divididos na edição brasileira por uma folha de rosto preta e consistem em histórias curtas e completamente desconexas da história original. Esses interlúdios servem para mostrar o que estava acontecendo ao mesmo tempo, mas em outros lugares da galáxia e com outros personagens que também participaram da guerra. São bastante interessantes para esse caráter de que o livro narra a história de um todo e não apenas de personagens isolados, afinal Star Wars é um enorme universo.

E o que você achou do livro?

          Pra mim o que chamou mais atenção não foi o fato de a guerra ter recém acabado e as pessoas estarem meio sem saber o que fazer da vida ou que rumo seguir. O que mais me chamou a atenção foi a relação entre Norra e Temmin. A mãe abandonou o filho e isso gerou uma mágoa enorme no garoto, então grande parte do drama da narrativa está na tentativa de Norra de reconquistar o amor do filho. Nisso, um trecho do livro me chamou bastante atenção, por ser facilmente relacionável com a minha vida – e a de todo mundo que está tentando sair da barra da saia da mãe.

           Os impasses sentidos por Norra e por Temmin são muito verdadeiros e muito fáceis de encontrar no mundo além da literatura e isso é uma coisa muito interessante de se encontrar em um livro de ficção científica, visto que, à primeira vista, o gênero seria o que menos se remete à realidade atual. Logo, apesar de a história se passar muitos anos no passado e em uma galáxia muito muito distante, você encontra coisas lá que também estão aqui.

          Outro ponto louvável da narrativa é a representatividade. Para além do fato de Rae Sloane, a antagonista da história, ser negra, temos um casal lésbico (a irmã de Norra e sua esposa) e um ex-imperial gay. Essas coisas rompem muitos paradigmas, principalmente na ficção científica. Apesar do gênero ser marcado por extrapolar o real e atual, com especulações sobre o futuro, tais especulações costumam ficar em âmbito científico, evitando questões sociais como o racismo, o empoderamento feminino e as diferentes formas de se relacionar. Star Wars têm se demonstrado interessante por colocar essas coisas em questão, não apenas com Marcas da Guerra, mas com o próprio O Despertar da Força, que traz em seu trio principal um negro, uma mulher e um latino. Essa é uma forma muito inteligente de gerar identificação entre a nossa sociedade e realidades atuais para com essa realidade especulativa passada. Ao mesmo tempo em que reforça a ideia de que o ódio gerado por essas diferenças é inútil, visto que elas não são tratadas como problemáticas dentro da narrativa. Isso é um ganho muito grande, especialmente pelo fato de os fãs de ficção científica serem conhecidos pelo seu conservadorismo. Uma série do porte de Star Wars trazer essas pautas de forma natural diz muito sobre a sociedade que queremos construir.

          Por fim, é importante lembrar que Star Wars não é exatamente uma obra de ficção científica, mas sim uma Ópera Espacial, que é um subgênero da SF, conhecido como soft science fiction e que agrega tramas que tendem a ser fantásticos, sem um rigor científico absoluto. Outra denominação possível para a saga é como fantasia no espaço, visto que ela não gira em torno de um tema científico, como as ficções científicas comuns, e se passa no passado, ao contrário de Star Trek, por exemplo. Por essa razão, não há problema que nos filmes as explosões espaciais gerem sons ou que nos livros, desenhos e demais produções algumas coisas sejam cientificamente impossíveis. 

          Demarco também que essa foi a primeira vez que li algo desse gênero e me surpreendi bastante, positivamente. Não gosto muito de filmes, desenhos e jogos cujo foco seja batalha espacial (peço perdão aos fãs de Space Invaders). Eu fico rapidamente entediada e com dor de cabeça. De batalhas, gosto de ver as que usam espadas, arcos e flechas ou artes marciais. Quando as cenas de enfrentamento envolvem tiros ou naves espaciais, fico bastante entediada. Star Wars tem palco pra esses dois tipos de batalha, visto que os sabres de luz funcionam um tanto quanto espadas e que ser Jedi é basicamente ser expert em várias artes marciais e ainda dominar a força (que é um tipo de magia, por que não?). Ao mesmo tempo, tem espaço pras guerras com as naves e para os tiros. Ou seja: luta para todos os gostos

          O meu ponto é que no livro isso fica diferente e até as batalhas com naves se tornam interessantes, porque você precisa imaginar elas acontecendo e isso é mais legal do que simplesmente ver. Por outro lado, ao ler essas batalhas sua cabeça já formula um filme/desenho/jogo com a batalha e você cai numa redundância absurda. Eu já não sei se não gosto das batalhas com nave ou se as acho essenciais, veja bem. Tudo isso porque as experimentei sob um outro ponto de vista. 

          Além disso, é fantástico ter um contato mais detalhado com esse tipo de obra, porque a gente quebra aquele preconceito babaca de que a história inteira é composta apenas por essas batalhas de naves espaciais. Há uma densidade política, relacional e narrativa imensas dentro de um livro desses. Sem contar a representatividade. Foi uma experiência realmente produtiva e eu espero poder ler o restante da trilogia, para saber o que acontece com as outras partes da história. 

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