Quando Não há Esquecimento

Há avôs que ensinam os netos a pescar, outros os ensinam a jogar futebol e outros ainda a jogar cartas. Há avôs que são lembrados por várias dessas coisas e outras não ditas também e há avôs como o meu.

Vovô morava numa casa enorme, no interior do Maranhão – ou seja, num calor infernal constante – e todos os dias acordava na hora que o Sol amanhecia – e lá isso é por volta das 5h da manhã – para regar as plantas de seu quintal. Ele as regava várias vezes por dia e eu ajudava em muitas delas, morrendo de orgulho por pegar o regador da maneira correta. Lembro do vovô escalando o imenso pé de juçara para pegar as frutas lá em cima para que eles pudessem comer. Lembro das tentativas de casas na árvore no pé de Manga, que sempre fracassavam por causa das formigas e sempre tinham que ter uma escada porque eu não sabia escalar a árvore. Lembro dele nos ajudando a fazer uma cabana de tijolos enquanto ria e dizia que aquilo era apenas “musculoração”. Lembro da gente arranjar qualquer desculpa para ir ao mercadinho só para que ele nos desse dinheiro e pudéssemos gastar com filmes. Lembro dele lavando a caixa d’água com a nossa ajuda e de quando ele foi visitar minha casa no interior de SP. Lembro dele na praia fazendo biquinho pra tomar água de coco e rindo do jeito que mamãe entrava no mar e de quando ele morou conosco e morria de frio e reclamava das minhas mãos frias. Eu lembro de muitas coisas quando paro para pensar em meu avô, mas lembro de uma delas com maior ênfase: Ele fazia tapetes de retalhos.

Quando vovô ficou idoso e já não podia capinar campos ou construir casas pois seu coração não aguentava, minha tia, prendada como só ela, resolveu ensiná-lo a fazer tapetes com tiras de retalhos. Desde então, sempre que eu o via era em seu serviço. A gente comprava malhas e lá ia ele medir milimetricamente, riscar e cortar sem o menor errinho e quando a gente comprava os retalhos já prontos ele fazia a mesma coisa, tudo tinha que sair perfeito! Então lhe davam a tela e ele começava  a pensar em como faria o tapete e de repente começava e um tempo depois estava pronto. Lindo e pronto. Porque vovô era desses homens criativos. As vezes minha mãe pedia para eu ajudá-lo, o máximo que ele deixou fazer foi cortar as tiras – mas revisou tudo depois, claro – e uma vez eu insisti tanto que ele resolveu me ensinar a fazer tapetes, não que já não soubesse de tanto vê-lo, mas aprender com ele ensinando foi uma coisa fantástica. Eu me diverti horrores e sempre que tinha tempo oferecia-me para ajudá-lo, nem sempre ele deixava, mas quando deixava eu pulava de felicidade. O mais engraçado é que absolutamente sempre que eu resolvia fazer ele depois desmanchava e refazia porque eu “tinha feito na ordem errada”. Ah. Vovô era uma piada. Ele passava o dia inteiro naquilo e ai de quem quisesse lhe interromper, mesmo que fosse para tomar água. A última coisa que ele me disse, quando já estava agonizando na cama foi “cadê minha agulha? Preciso da minha agulha!” e eu saí correndo pra pedir pra minha mãe e ela disse que seria perigoso dá-la a ele naquelas condições, então eu dei meu dedo e ele quase o quebrou pois achava que era a agulha. Ah vovô. Como ele era engraçado. Nunca vou me esquecer da vez que ele estava de boca aberta fazendo tapetes, porque ele sempre os fazia com a boca aberta, e minha mãe perguntou a razão daquilo… ele respondeu que era para “tomar um arzinho na língua”. Eu quase morri de rir. Vovô era fantástico.

Já narrei aqui a peripécia da saia longa que a minha mãe comprou e o fato é que eu sempre ouvi falar que as pessoas dos cursos de humanas usam e abusam de saias longas. Faço um curso de humanas e só vi uma menina que as usa, mas depois da peripécia da saia longa eu resolvi que iria para a faculdade com ela algum dia. Hoje eu acordei e estava muito calor e é muito raro aqui fazer calor suficiente para você cogitar sair de saia logo cedo, mesmo que seja uma saia comprida. Mas eu encarei. Vesti, morri de rir de mim mesma, lembrei de tudo que a saia significava e fui pra faculdade assim. Logicamente senti-me um palhaço ambulante, não importando se aquilo ficou ou não bom em mim. Não posso negar: saia longa é super confortável e é muito legal se sentir hippie andando por aí de saia e chinelos, porém, no entanto, todavia, eu quase caí incontáveis vezes de tanto quase tropeçar nas barras da minha própria saia. Pois é. Voltei pra casa e fiquei com preguiça de trocar de roupa. Lembrei que minha mãe havia pedido para eu buscar umas coisas para ela e resolvi que iria com a mesma saia, então fui até o guarda-roupa à procura de uma bolsa que não ficasse assim, tão horrorível e eis que eu encontrei a ideal.

Havia ido visitar meu avô como em todas as férias até então e resolvi que queria uma bolsa feita da mesma maneira que ele fazia tapetes. Não sabia quando usaria ou se usaria, mas eu queria. Mamãe aprovou a ideia e foi pedir para que ele fizesse, vovô que era um senhor muito democrático decidiu que se faria para uma neta haveria de fazer para todas. E foi assim que ele passou o mês inteiro fabricando as nossas bolsas, para depois minha mãe e minha tia darem a elas o formato de bolsas. Isso faz cerca de oito anos. Oito anos que eu tenho a bolsa feita pelo meu avô e a carrego em todas as minhas mudanças, sem medo ou vergonha, dizendo para minha mãe que aquele é o legado dele e eu devo honrar. Eu realmente acredito que toda essa história com retalhos seja o legado do meu avô. Acredito que essa bolsa seja uma das coisas mais vivas dele que eu tenho e eu nunca tive coragem de usá-la. Não por a achar feia, mas sim por ela simbolizar tantas coisas e ser tão chamativa que se torna difícil de combinar com outras peças mais comuns. Então hoje, eu que já estava me sentindo um palhaço ambulante com epifania de hippie que dormiu em woodstock resolvi que sairia nas ruas com a bolsa que meu avô fez. E querem saber de uma coisa? Eu me senti muito bem com isso, afinal, querendo ou não, é uma parte dele que continua comigo. Pra sempre. Porque tem gente que sempre continua vivo na nossa mente e, nesse sentido, Alasca Young, John Green e companhia que me perdoem, mas nesse sentido eu não acredito que haja esquecimento. Pelo menos não até eu morrer. Porque são minhas lembranças e elas continuaram vivas enquanto eu estiver.

8 ∞

Lembro-me de em meados de Maio de 2009 entrar na sala 308, em uma turma desconhecida para aquela que seria a maior aventura da minha vida até então. Havia me mudado para o Bom Jesus Centro em 2007 e estudei na mesma sala até esse dia. Era a turma 1 do colégio e eu tinha as melhores amigas do mundo nela, mas eu surtei, não sei porquê ou como, só lembro de ter surtado e acabei sendo transferida de turma com um pedido do meu psicólogo para a escola. Pois é.

A nova turma, porém, seria um poço de aventuras e novas descobertas, tendo em vista que eu realmente não conhecia ninguém. Era a 1 8 (gostaria de poder escrever primeira oitava da maneira convencional, mas meu teclado não faz aquele símbolo característico de números ordinários, portanto referir-me-ei às turmas utilizando-me apenas de números naturais, espero que não os encomode) e a primeira pessoa que foi falar comigo tempos depois tornou-se uma das minhas melhores amigas. Era a Giulia e junto com ela veio a Leila, depois agregando-se a Camila, a Camila Tatar e a Luciana – que só conversou comigo por causa da aula de inglês – . O fato é que em menos de um mês o meu medo por estar numa turma nova já tinha passado, acho que a energia deles possibilitava isso, automaticamente você se sentia parte da equipe e jurava estar ali desde sempre. Apaixonei-me por aquele grupo e jurei para mim mesma que só o abandonaria caso mudasse de escola.

O segundo ano chegou e lá estávamos nós na segunda oitava, dessa vez com a Luciana somente até a metade do ano, a Giovana desde o começo e tinha também a Marcelly, que foi para a minha sala só porque eu vivia falando bem dela. O fato é que a segunda oitava foi a melhor turma de segundo ano daquele colégio e eu acordava contente às seis da manhã todos os dias para passar mais um dia com aquelas pessoas maravilhosas, que me faziam tão bem.

O melhor ano do Ensino Médio, na melhor turma existente.

Eles me chamavam de Velma, me xingavam e me bullinavam. Eu sabia que grande parte daquelas pessoas me odiava e me considerava um indivíduo mal, mas eu não ligava. Não conseguia ligar. Eles me transmitiam coisas tão boas que as más eram imperceptíveis. Em 2010 80% da sala tinha um apelido pejorativo, mas ninguém se importava! Eu sempre dizia que se você se importasse com zoação, não poderia comparecer ali. Éramos regidos por uma união muito forte, sabem? Daquele tipo em que tem cinquenta pessoas na sala e você já falou com todas pelo menos uma vez na vida, além do “bom dia” habitual. Foi um ano memorável. Fomos uma turma memorável.

Então chega 2011. Todos ansiosíssimos por serem Feras. Dessa vez estaríamos no topo da cadeia alimentar, ninguém nos chamaria de calouros, ou teria algum motivo para nos apelidar pejorativamente, seríamos os maiorais e adorávamos essa ideia. O ensalamento saiu e logo fomos nós felizes no dia 07/02 para a nossa primeira aula na 408, a terceira oitava. Ah… A terceira oitava.

O primeiro dia como Feras!

Ali, sem a nossa camiseta característica, invejosos de quem possuía o casaco “Fera”, tiramos a nossa primeira foto da turma, na aclamada aula de Literatura, aquela que foi a primeira aula do ano e em que ouvimos o nobre professor Marcelo Brum nos dizer “AAAAHHH SEGUNDA-FEIRA!” e todos caímos na gargalhada… Foram bons momentos. Memoráveis.

Confesso que no começo do ano ocorreram vários estranhamentos internos, devido ao fato de grande parte da turma ser proveniente da 2 8  e estar acostumado com a calmaria e nerdice que reinava aquele lugar. Deparamo-nos com gente nova, gente diferente, gente que gostava de conversar e de expor suas ideias e opiniões, gente que falava durante a aula. Gente estranha. Foi difícil essa adaptação. Em determinados momentos eu mesma fui ao coordenador disciplinar reclamar da turma, não apenas uma vez. Ultrapassaram-se os limites de “boa convivência“. Com o passar do tempo, porém, fomos nos acostumando com as características de um e de outro e logo estávamos quase na mesma união vivida em 2010. Admito que não chegamos nem perto, mas evoluímos bastante do começo do ano para cá, isso é um fato. É fato também que cada um ali começou a definir seus anseios, seus objetivos de vida e a partir disso mensurou as amizades e as escolhas que faria. Após as férias de Inverno parecia que tinhamos entrado em um novo ano. 2011 está sendo tão intenso que parece grande demais para caber em apenas 365 dias (220 letivos), parece que foram uns 500 já. Estávamos exaustos, ansiando pelas férias de Dezembro, não todos, pois há aqueles que rogam a Deus por um tempo a mais para estudarem. Não é o meu caso. O meu caso delimita-se a frequentar a escola apenas por frequentar. Perdi o gosto por aquilo. Em diversos momentos queria desistir, fugir, escafeder-me. Mamãe me dizia “Peça para mudar de sala de novo!” e eu dizia “Mas a minha sala é a melhor sala que tem! Não adianta eu mudar!” e foi assim que continuei ali. Na verdade, foi assim que todos continuamos ali, mesmo não gostando realmente do nosso modo de ser, nossa convivência era necessária.

Leonardo Campoy, nosso professor de sociologia, repetia em todas as quartas-feiras que a nossa turma era a turma dos “freaks“, segundo ele, ali tinha todo o tipo de gente, convivendo harmonicamente. Verdade. Todo tipo de gente MESMO. Acho que só deu certo porque era na escola, garanto que se fosse em outro lugar muitos teriam saído no tapa em diversos momentos. Éramos portanto a turma mais esquisita do terceiro ano, aquela de quem as pessoas tinham medo, mas que ao se aproximarem não conseguiam mais se afastar. Eu amava aquela turma.

Hoje ela foi embora.

Segunda-feira inicia-se o “Super Intensivo” e para que ele ocorra as turmas são reorganizadas, de acordo com as áreas dos cursos, ou seja, teremos um mês de aula lado a lado com nossos concorrentes. Não é tão tenso no meu caso, mas imaginem uma turma com 52 pessoas que querem medicina, um curso que tem 50 pessoas para cada vaga oferecida. Vai ser terrível. Eu não conseguiria sobreviver sob tal pressão. Não entendo porque a escola faz isso, mas ela faz e isso significa que hoje foi o meu último dia na 408, na 3 8, no meu Ensino Médio. E… nós fechamos com chave de ouro!

Fizemos um amigo secreto da turma, onde piadas internas foram utilizadas e a integração demonstrou ser real. Foi lindo de se ver. No final da aula tiramos a nossa última foto da turma e eu chorei desesperadamente ao ter que me despedir das minhas doces e amadas amigas, que nunca mais compartilharão aulas comigo. Sei que o terceiro ano ainda não acabou, mas a escola não vai mais ter graça longe da minha turma, as outras podem até ser legais, mas não serão a minha.

Sempre reclamei por não pertencer a lugar nenhum, mas ali você continuava a não pertencer a nada, ao mesmo tempo que pertencia a tudo e isso era belo! Os professores claramente gostavam de nos ensinar, contavam histórias “exclusivas” e nos divertiam, enquanto se divertiam. A gente se respeitava, brincava e brigava também. Éramos uma gigante família, família sim, porque mesmo que uns odiassem os outros, ajudariam estes caso fosse necessário, podem até dizer que não, mas eu sei que ajudariam.

Hoje Marcelo Brum entrou em nossa sala às 11:40 da manhã e disse “Pela última vez, bom dia terceira oitava” e todos gritaram em peso “Bom dia!“, não com a mesma força com que gritaram “LARANJA!” na aula de óptica do Berro em meados de Abril, mas forte o suficiente para causar aquela euforia imensa. Hoje eu tive vontade de ter braços do tamanho do mundo para abraçar aquele quadrado de concreto e impedir que ele se dissipasse quando o sinal tocasse. Mas o sinal tocou, meu sonho acabou. E eu chorava porque tudo foi lindo demais para ter sido real. Chorava porque estava abandonando aquilo que me fez levantar disposta a ir para a escola por três anos consecutivos. Chorava porque junto com aquela turma ia o meu Ensino Médio.

Sei que continuarei conversando com grande parte daquelas pessoas, sei que nunca esquecerei da grande maioria delas, sei que dentro de meses terei esquecido de alguns (mesmo achando isso trágico), mas sei também que nunca mais vai ser a mesma coisa. Podemos nos amar individualmente, mas a consciência de grupo terminou aqui. Não seremos mais reconhecidos por fazermos parte da turma 8, não seremos mais uma das melhores turmas da escola, não seremos mais nada, além de meros estudantes quaisquer. Talvez nossas turmas do super intensivo sejam legais, mas não serão legais o suficiente para competir com o que nós vivemos. Entre os Sambados e os Heavy Metals dos intervalos, o vídeo do polvo ou até mesmo o da Shakira e a música do Cine, cantada pelo Cristo que embalou o nosso primeiro ano. Nada será o mesmo. Agora somos um poço infinito de lembranças e recordações daqueles que foram os melhores momentos de nossas vidas.

Só queria agradecê-los por terem sido tão bons para comigo.

Amo-os e não há quem tire isso de mim.

Oito foi o número de nossa turma,

Oito foi a quantidade de meses que passamos juntos esse ano,

Oito será para sempre o nosso número, porque se o virarmos 90 graus obteremos o símbolo do infinito

Somos infinitamente felizes por termos estado juntos!

P.S.: Tive que postar um vídeo da nossa homenagem pros professores também, mas isso é só uma prévia! 😉

Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você.

Sinto sua falta, a cada dia que passa um pouco mais intensamente.

Falta de olhar em seus olhos, brincar com suas orelhas e acariciar suas mãos macias.

Falta de ouvir suas histórias, contar as minhas e rir de suas piadas.

Sinto falta de contar-lhe o que me aflinge e ouvir os mais sábios conselhos do universo.

Falta de abraçar-lhe e ouvir que me amas tanto quanto eu lhe amo.

Sinto falta de ouvir sua voz e sentir o seu cheiro todos os dias, em todos os lugares.

Sinto falta de você. Constante e intensamente. As vezes acho que isso acabará me matando.

Já não posso mais comer sem lembrar-me de suas habituais perguntas.

Não posso mais encostar minhas mãos frias em ninguém sem lembrar-me de suas reações.

Não posso mais dormir até tarde, sem esperar que você venha me acordar.

Não posso mais. Não consigo mais. Não quero mais.

Eu sinto a sua falta.

Sentirei em todos os dias de minha vida, espero aprender a lidar com isso.

Espero aprender a aceitar sua ausência.

Sei que você teria escolhido permanecer ao meu lado, mas o futuro a Deus pertence…

Era o que você sempre me dizia.

Então veja só, ainda lhe amo e não pretendo deixar de fazer isso.

És primordial em minha vida, parte da minha história.

Espero que estejas feliz, onde quer que estejas, porque eu estou e era isso que queria poder lhe contar hoje.

*O título desse texto é um trecho da música “Anjo Mais Velho” da banda “O Teatro Mágico”

Nostalgia.

Escutem isso enquanto leem.

E se você não curte um spoiller, don’t worry. Nada de spoillers por aqui.

Foi o que eu senti as 22h de ontem, quando a mãe da minha amiga passou aqui em casa para levar eu e mais uma amiga para a pré-estreia de Harry Potter.

Sim, esse assunto é banal para a maioria das pessoas, mas eu estaria sendo tosca se não comentasse sobre tal fato.

Ficamos duas horas esperando pelo filme, eu achava que tinha comprado ingressos para assistir em 2D, na última hora descubro que era para 3D, perfeito. Quer dizer, quase perfeito, porque nossos lugares eram bem separados, tendo em vista que eu demorei pra comprar os ingressos e tal. Mas logo ficou perfeito, porque roubaram os lugares das minhas amigas e tinha dois lugares vagos ao meu lado, então elas foram para lá e nós pudemos assistir ao tão esperado filme juntas. Eis que começa, mas não toca minha musiquinha preferida, um tanto frustrante, mas logo a frustração passou. O filme era PER-FEI-TO. Extremamente maravilhoso. Com todas as cenas que eu tinha imaginado, algumas muito melhores do que eu tinha imaginado. A grande decepção ocorreu no meio do filme, quando a cena que eu mais aguardava tornou-se completamente frustrante. Depois disso, o filme perdeu um pouco da graça. Mas hoje eu revi! Fomos na estreia do Imax, porque lá é tudo diferente e melhor e os efeitos foram AMAZING, sério. Senti como se eu estivesse voando. Foi lindo. Hoje consegui achar o filme inteiro lindo e maravilhoso, mesmo tendo faltado várias partes da história e tendo várias coisas modificadas. Sim, sou crítica o suficiente pra ficar achando defeitos em plena pré-estreia/estreia.

Mas não foi sobre isso que vim falar.

Nos dois dias, o filme terminou e eu fiquei lá na cadeira, olhando todas aquelas pessoas fantasiadas levantarem para ir embora. Lá, paradinha, olhando para as minhas amigas e dizendo “eu não quero levantar daqui, não quero ir embora, não quero.” Lógico que acabei indo embora, mas doeu. Muito.

Não tive a infância mágica que muitos de vocês tiveram. Mamãe não permitia que eu visse ou lesse os livros do bruxinho com uma cicatriz de raio na testa, porque ela dizia que bruxaria era ruim e não seria uma boa influência para a minha pessoa. Funcionou, até a gente se mudar para Curitiba. Lá na minha cidade, ninguém ligava para Harry Potter, mas aqui era tudo diferente. Na minha escola nova todo mundo só falava disso e eles se reuniram e a turma inteira foi na estreia do filme daquele ano e eu não fui, porque não gostava. Como poderia gostar de algo que nunca havia experimentado? Não gostava de Harry Potter e não fazia o menor esforço para gostar. Então comecei a fazer teatro e uma das meninas era completamente apaixonada por tal bruxinho. Ela falava dele todos os dias, tinha todas as revistas possíveis, os livros, filmes, tu-do. A conheci no ano que lançaram o último livro e quando ela terminou de lê-lo queria contar para alguém, ninguém queria ouvir, mas como eu não ia entender nada mesmo, deixei que ela me contasse. Depois disso, nunca mais ouvi falar sobre Harry Potter.

Um dia porém, estava eu em São Paulo, indo para o cinema com um grupo de amigos e descubro que íamos ver Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Tudo bem. Avisei que não ia entender nada, que nunca tinha visto nada, que só sabia quem era o Harry, o Rony e a Hermione e que ia ser um saco estar ao meu lado, mas eles não se importaram. Lá fomos nós. Quando estou na fila descubro que aquele era o fim de semana da estreia (ou era o dia da estreia? Não lembro mais…) e foi assim que eu vi Harry Potter pela primeira vez. Dias depois, estava na minha casa e meu irmão me convida para ir ao cinema com ele, eu aceito. Quando chego lá descubro que a namorada dele adora Harry Potter e estávamos indo assistir Harry Potter e o Enigma do Príncipe. De novo. O detalhe é que mesmo sem entender bulhufas eu chorei, entrei em pânico e fiquei tremendo. Tudo porque achei o Dumbledore extremamente fofo e fiquei aterrorizada com a cena de sua morte.

Meses depois estava eu em Fortaleza e minha prima estava me contando que gosta muito de Harry Potter. De novo o tal do Harry Potter. Disse para ela que nunca tinha assistido a todos os filmes, então ela foi na locadora e alugou todos eles e nós assistimos a todos, um seguido do outro. Quando Harry Potter e o Enigma do Príncipe havia acabado, fomos correndo para o Google pesquisar o que aconteceria no próximo filme. Precisávamos saber. E daí já era.

Estava na escola meses depois, contando para a minha amiga o quão frustrada eu estava por não saber direito o final de Harry Potter, quando ela me olha e diz “Você nunca leu os livros?” e eu respondo “não…” e eis que no outro dia ela aparece na escola com um livro de Harry Potter e a Pedra Filosofal, entrega na minha mão e diz “Eu tenho todos e vou te emprestar todos, você precisa lê-los.” Para quê.

Foi assim que passei o meu ano de 2010 inteiro lendo os livros do Harry Potter. Fugindo para seu mundo mágico a cada vez que o meu mundo real estava um lixo. Adentrando em Hogwarts em todos os momentos que julgava necessário. Passei a respirar o mundo da magia. Desde então, o mundo ficou completamente diferente. Desenvolvi uma capacidade bizarra de relacionar 99% das coisas com Harry Potter. E então descubro que o último filme ia estrear no final daquele ano. Surtei. Fiz uma camiseta para eu e minha amiga (a mesma que foi comigo na pré-estreia ontem e na estreia hoje e que aguenta me ouvir falar a respeito de tal série a maior parte do dia) e fomos para a pré-estreia. Foi maravilhoso. Dias depois descubro que ela vai fazer um intercâmbio e suplico para que ela esteja de volta para ver a pré-estreia do último filme comigo e, ela estava.

E… Puxa… Se eu aqui, pobre trouxa, que passou apenas um ano apaixonada pela série estou nesse estado, imagino como estão os corações de vocês, que tiveram a incrível oportunidade de crescer com o Harry por perto. Imagino como vocês se sentiram quando aquele filme terminou. Eu me senti assim:

E então estou aqui agora para agradecer. Quero agradecer à querida J.K. Rowling por ter nos proporcionado tantos momentos de aventura, magia e diversão e por ter nos ensinado que o amor vence tudo, supera tudo e é maior do que tudo e que as amizades verdadeiras suportam até as piores coisas. Quero agradecer ao elenco maravilhoso dos filmes, que perto dos livros são meros resumos, mas resumos lindos e expressamente importantes, mas, principalmente, quero agradecer aos meus amigos. Aqueles que me fizeram assistir Harry Potter pela primeira vez, aqueles que me emprestaram os livros e estiveram ao meu lado nos cinemas e a todos os que suportaram ouvir-me falar abundantemente a respeito dessa série que não é apenas uma série de livro, é um pedaço da história da minha vida. Quero agradecer a todas as pessoas que ouviram pacientemente minhas teorias Potterianas malucas, que eu pronunciava com um brilho incrível no olhar. Quero agradecer a todos vocês, que são capazes de deixar o meu mundinho um pouco mais mágico.

Obrigada Harry Potter, por me fazer chorar, rir, amar, temer, aventurar-me e até por criar um pouquinho de coragem em mim. Obrigada Rony Weasley por me ensinar a ser leal, manter sempre o bom humor e nunca desistir de seu amor. Obrigada Hermione Granger por me mostrar que estudar serve para alguma coisa e que é importante, por me ensinar a continuar ao lado de quem eu amo, não importa o que aconteça e não deixar de seguir o que eu acredito, mesmo que tudo tente me fazer desistir.

Eu poderia passar o dia aqui agradecendo e eu realmente tenho vontade de fazer isso, porque eu sei que não está acabando, nunca vai acabar. Harry Potter sempre estará aqui comigo. Mas sinto como se eles estivessem um pouco mais distantes agora… Não quero parar de escrever sobre eles porque não quero que eles vão para muito longe. Quero mantê-los ao meu lado, o máximo possível. Porque em todos os momentos que ninguém me aguentava mais, eu fugia para Hogwarts com eles e tudo estava bem de novo. Sinto nostalgia agora, acho até que posso dizer que eu amo vocês. Por mais fútil e ridículo que isso possa parecer. Amo, porque me ensinaram muitas coisas e agradeço, porque é o máximo que posso fazer.

Agora silencio-me enquanto aguardo a sua volta.

1 – E se alguém sonha em me dar um presente caro algum dia, comecem a juntar dinheiro para pagar minha passagem para Londres, porque assim que o set de gravação virar um museu eu necessito visitá-lo.
2 – E, só pra constar, sempre que algum de meus amigos estiver precisando de uma companhia para algo relacionado a Harry Potter, estarei aqui.

Coisas que só o tempo faz…

Estava fazendo uma “limpa” no meu quarto e resolvi rasgar todos os papéis inúteis que certamente haveriam pelo caminho, me deparei então com meus cadernos da oitava série (2008), do primeiro ano (2009) e do segundo ano (2010)  e resolvi rasgar todas as folhas usadas, todas as provas, tudo. Mas tenho mania de escrever nas divisórias, escrever coisas sobre mim, escola, amigos, qualquer coisa que vier na cabeça e foi assim que comecei a perceber uma gigante diferença entre os três anos.

Em 2008 “Preciso tirar 8,5 na média final de matemática, se não serei oficialmente burra na matéria. Vocês podem achar que sou dura demais comigo mesma, mas pra mim quem tira menos de 8,5 na média FINAL é definitivamente burro na matéria.” – média final – 8,7

Em 2009 “GEENNTEEE Preciso de 4,8 pra passar em matemática e só falta um bimestre! Socorro!!!” – média final – 6,2

Em 2010 “PQP tô no último bimestre e preciso de ~~6,8~~ pra passar de ano em matemática!! Totalmente ferrada!!! HELPP!!” -média final – 5,8

Okeis, depois da recuperação subiu pra 7,8, mas mesmassim.

Em 2008 eu era “burra” em 2 de 10 matérias.

Em 2009 em 8 de 13 matérias.

Em 2010 em 9 de 13 matérias.

Em 2008 eu tinha hora cronometrada no pc, fazia as tarefas de casa, estudava muito para as provas e tinha aflição só de imaginar que ficaria em alguma recuperação algum dia.

Em 2009 eu só fazia as tarefas quando tava afim, estudava só pras provas que gostava ou quando tava muito ferrada, dormia em várias aulas e achava recuperação digno de mim.

Em 2010 acho que só fiz tarefa de casa uma vez e olha lá. Quando valia nota, eu copiava as tarefas. Não estudei pra nenhuma prova, até me ferrar o suficiente para ser obrigada a fazer isso, tava pouco me lixando pras minhas notas, desde que eu passasse de ano. Sabia o livro de história praticamente inteiro de cor. Passava o dia inteiro no computador, fazendo sabe-se lá o que e quando não estava no computador estava dormindo. Uma completa vagabunda. Achei um absurdo ter ficado de recuperação final, pois “não mereci”.

Em 2008 “Gosto mais das minhas amigas do que da minha família!”

Em 2009 “Amigas? Tenho amigas? Acho que não.” -muda de sala-

Em 2010 “Quem precisa de amigas na escola quando se tem a minha família e o teatro?”

Descrição de mim em 2008 “Sou muito estranha e assustadora, falo demais e sem pensar, por isso as vezes sou grossa e ofendo pessoas que não merecem. Me irrito facilmente, por qualquer coisa e em qualquer lugar, quando estou irritada tendo a bater nas pessoas, mesmo que elas não tenham nada a ver com a minha irritação. Belisco também! E dizem que dói! Bom… Estou tentando parar de fazer essas coisas, mas sempre faço e só depois me dou conta que falhei de novo, ainda bem que tenho amigas que me ajudam a não ser mais assim, porque deve ser legal ser uma pessoa legal! Também tenho algumas qualidades,  sou legal, divertida, confiável e surpreendente! Admiro pessoas sinceras e que sabem guardar segredos. Sou viciada em comer chocolate e ver filmes. Sou extremamente fresca com comidas e só tomo água, não gosto das coisas, mas nunca as experimentei.”

Em 2009 “Sou muito estranha e assustadora. Ninguém no mundo me entende, parece que sou uma alienígena jogada aqui para algum tipo de experiência. Sou uma droga com sentimentos, não sei o que eles significam. Não tenho amigas, sou completamente sozinha. Sou irritante e irritável. Bato em quem me provoca, mas na maioria das vezes reprimo minha raiva e desconto em mim mesma. Qualidades? Gostaria de saber se tenho alguma, mas não tem ninguém para me falar. Admiro pessoas felizes e que são amadas. Sou viciada em comer chocolate e ficar na internet boiando. Sou fresca com comidas, mas acho que um dia isso passará.”

Em 2010 “Sou absolutamente normal. Igual a todos os idiotas jogados aqui na Terra. Tá, talvez eu tenha algumas individualidades, mas garanto que são poucas. Tenho poucos amigos, mas eles bastam. Estou quase conseguindo entender os sentimentos, mas acho legal a dúvida que eles causam na gente. Nunca bato em ninguém, só encosto nas pessoas depois que as conheço por um bom tempo e se eu bato nelas não é por raiva, é por impulso, mas nunca dói. Sou nutrida de força interior, mas exteriormente sou uma magrela fraca que não consegue nem carregar a mochila sem ficar corcunda. Admiro pessoas realizadas e que são apaixonadas pelo que fazem. Sou viciada em Tumblr, Twitter, Harry Potter, MSN, chocolate e algumas pessoas. Não me preocupo nem um pouco com a minha alimentação, se sobrevivi até agora assim, sobreviverei por muito tempo ainda.”

Em 2008 eu ia ao psicólogo porque… me achava burra e ficava muito brava comigo quando tirava 9,0 ao invés de 10,0.

Em 2009 porque queria morrer a qualquer custo, não importava quem fosse o assassino ou a arma utilizada.

Em 2010… Não fui ao psicólogo.

Em 2008 “Eu AMO a escola!!! Queria morar aqui se pudesse! É tudo tão perfeito e maravilhoso nessa escola! Fins de semana e férias são um SACO! Por que eles existem?”

Em 2009 “Odeio a maldita escola. Pra que tenho que ir até lá? Não podia estudar em casa e ir lá só fazer as provas? Escola é tão chato. Todas aquelas pessoas que se odeiam e odeiam estar lá, fingindo estarem felizes e enganando a si mesmas, com a intenção de aprender algo, sendo que na verdade só decoram as coisas para ir bem nas provas. Pra que ir bem nas provas? São apenas números! Fodam-se os números. Para que estudar todas aquelas coisas inúteis? PRA QUE? Queria simplesmente poder não ir pra escola.”

Em 2010 “Adoro a escola! Minha turma é HILÁRIA! Eu posso estar extremamente triste, que eles conseguem me fazer feliz! Mesmo aprendendo um bocado de coisas inúteis, é divertido ir pra lá. Mesmo não tendo os melhores amigos do mundo lá, é legal conhecer pessoas novas e usufruir do convívio social que a escola proporciona. As notas são apenas números e o sistema de avaliação é extremamente precário então… É só não ligar pra ele e fazer uma auto-avaliação sempre. Aprenda tudo que achar necessário e divirta-se nas outras aulas! Odeio as férias, porque me sinto sozinha e sem graça, mas me canso quanto chega na metade do semestre. Acho que as férias poderiam ser mais curtas e mais frequentes! Sei lá, duas semanas por bimestre, talvez… Enfim.”

Matérias preferidas em 2008: Matemática e História

Em 2009: Filosofia e Geografia.

Em 2010: História, Sociologia, Geografia e Química.

Se essas três Mayras se encontrassem, certamente haveria discussão. Como é possível haver coisas tão diferentes em tão pouco tempo? Como é possível que a gente mude tanto, mesmo sem se esforçar para isso?

Vocês acham que eu regredi ou evoluí?

O tempo é surpreendente, não é mesmo? Quem diria que aquela nerdizinha retardada de 2008 viraria essa rebelde folgada que vos fala hoje? Nós nunca sabemos o que está para acontecer, por isso apenas devemos nos esforçar para fazer o melhor possível. Devemos viver da melhor maneira possível.

O que me aguarda em 2011?