O tal do “Espírito Olímpico”

De onde vieram e o que são as Olimpíadas?

      A gente ouve muito por aí que as Olimpíadas vieram da Grécia Antiga, mas não entende muito bem. O fato é que desde cerca de 700 anos antes de Cristo, os representantes das cidades-estado gregas se reuniam para realizar competições de esportes diversos. Era uma coisa pequena e restrita ao país, que perdurou até entre 300 e 400 anos depois de Cristo. Depois disso, houve uma tentativa francesa, da época da Revolução, em reinstaurar os jogos, mas fracassou. Somente em 1896 as Olimpíadas tornaram a ocorrer, dessa vez, em proporções bem maiores. em 1890 fora fundado o Comitê Olímpico Internacional, pelo Barão Pierre de Coubertin, que desde então é responsável por organizar os jogos.

    Atualmente, os Jogos Olímpicos possuem vários desdobramentos. O primeiro deles é a divisão entre jogos de inverno e jogos de verão. Os de inverno contam com a participação dos mais diversos esportes que dependem da neve e do tempo frio para sua realização. Já os jogos de verão, contam com esportes que podem ser praticados independente da condição climática, e alguns que dependem do calor – como o vôlei de praia, e esportes aquáticos a céu aberto. Os jogos ocorrem sempre nos anos pares, de forma revezada. Assim sendo, há Olimpíadas de 2 em 2 anos, porém apenas de 4 em 4 ocorrem as da mesma categoria. As Olimpíadas de verão são maiores e mais populares que as de inverno.

      Há também as Paraolimpíadas, realizadas logo após os Jogos tradicionais. Elas contam com diversas categorias esportivas, restritas a atletas que possuem deficiência visual e física – os atletas com deficiência mental ou auditiva não podem competir. Há ainda os Jogos Olímpicos da Juventude, realizados com atletas adolescentes.

      Todas essas categorias são organizadas pelo mesmo comitê, com o auxílio de Comitês Olímpicos Nacionais e comissões organizadoras de cada especificidade dos Jogos Olímpicos.

    Há mais de 13 000 atletas envolvidos com as Olimpíadas e eles disputam em cerca de 33 modalidades diferentes, proporcionando uma média de 400 eventos esportivos. Neste ano, há 207 países participando dos Jogos Olímpicos, que estão sendo realizados no Rio de Janeiro, entre os dias 05 e 21 de agosto. 

Minha relação com os Jogos no Brasil

      Em 2007 foi realizado o primeiro grande evento esportivo no Brasil, o Pan-Americano. Eu tinha 12/13 anos na época e assisti a várias modalidades, torcendo bastante para o Thiago Pereira, na natação. Desde as Olimpíadas de Atenas, em 2004, que eu tinha percebido gostar bastante desses eventos que envolvem vários esportes. Eu nunca fui uma boa esportista, principalmente por causa da artrite, mas gosto bastante de assistir. Não gosto do fato de que o futebol masculino é superestimado e acaba sendo o único esporte que os brasileiros acompanham visceralmente. Principalmente porque eu nunca consegui gostar de futebol – apesar de saber o que é a regra do impedimento. Eu considero o campo muito grande para poucos jogadores e a partida longa demais. Raramente consigo assistir a um jogo inteiro. Então, sempre me deu uma angústia a existência da Copa do mundo e o patriotismo que ela despertava, porque futebol é chato e a Seleção brasileira desvia muita grana dos nossos impostos, pra financiar atletas que já recebem salários exorbitantes de seus próprios clubes. Enfim, não gosto e boicoto futebol há um bom tempo.

      Aí ter acesso a eventos esportivos que ultrapassam as barreiras do futebol é uma coisa bastante emocionante para mim. A partir desse Pan-Americano e da percepção de que eu realmente gostava desse tipo de evento, passei a assistir com mais ênfase às Olimpíadas. A abertura de Pequim, em 2008, foi a coisa mais bonita que eu havia visto até então. Eu não fazia ideia de que existiam tantas etnias na China, tantas tribos e línguas diferentes e ver toda a harmonia daquela apresentação me deixou bastante empolgada. Acompanhei o Brasil nos jogos, aprendi regras de esportes até então desconhecidos e percebi que eu não me importava mais se era o Brasil ou não, porque o esforço dos atletas havia passado a me encantar, independente de onde eles tenham vindo. Em 2012 eu acompanhei com menor ênfase aos jogos, mas achei a cerimônia de abertura bem mais fraca do que a Inglaterra poderia ter feito. Quando vi que teria Olimpíadas no Brasil, quis ser voluntária. Pensei no quão legal seria estar no Rio passando rodo na quadra de Vôlei, ou mantendo a arena de ginástica sempre organizada. Acabei não me atendo aos prazos e perdendo a oportunidade.

      Fiquei bem chateada quando vi que a crise política do país ia afetar as Olimpíadas. Eu entendo perfeitamente que não é o melhor momento para sediarmos os jogos, mas isso foi decidido há anos e não fazia sentido boicotar o evento agora. Não realizar as Olimpíadas seria jogar o esforço de 11 000 atletas no lixo, só porque nós não sabemos administrar o nosso dinheiro e somos péssimos eleitores. Eu fiquei descrente ao ver que a Vila Olímpica foi entregue sem ter sido terminada. Porque não faltou tempo ou dinheiro para que ela fosse. O que faltou foi responsabilidade e honestidade de construtoras irresponsáveis. Quando eu vi o nome da Odebrecht no meio, só fiquei mais chateada. Parece que o Brasil realmente prefere não aprender com os próprios erros.

      Eu torci para que a abertura dos jogos fosse bonita e inspiradora. E me decepcionei um pouco, graças aos inúmeros erros arqueológicos na parte de contar a história do povoamento do país. Fico bastante triste quando reduzem a povoação indígena – que comprovadamente tem mais de 8 000 anos – ao povo tupi guarani que ocupava as terras pré-cabralinas. Também não fico contente quando ouço falar que houve “escravização africana“, sem que fique claro de quais países e para atender quais interesses esses negros vieram. E acho que se a intenção era mostrar que o país é miscigenado, construído por imigrantes e através da supressão da natureza, faltaram vários outros imigrantes. E vários outros fatores. É muito bonito passarem a mensagem de sustentabilidade, mas é absurdamente incoerente com as práticas nacionais. Os últimos governos permitiram o desmatamento, criaram hidrelétricas em locais que destruíram não só etnias indígenas, como rios e vegetações inteiras. As grandes propriedades improdutivas seguem à rodo, a poluição das fábricas, o desastre de Mariana até hoje não foi solucionado. Para a realização das Olimpíadas uma onça foi morta, uma floresta foi desmatada e a Baía de Guanabara sequer foi totalmente limpa, sendo ainda considerada tóxica pela ANVISA. 

     Apesar dessas questões, gostei bastante da abertura. Utilizamos muito bem os recursos que tínhamos e fazer o 14 Bis voar foi incrível. Os jogos de luzes foram muito bem explorados, as atrações bem escolhidas e meu coração se encheu de orgulho ao ver Mc Sophia ao lado de Carol Conká sendo vistas por 5 bilhões de pessoas. Fiquei com bastante orgulho das artes brasileiras e da criatividade. Achei a “gambiarra” um ótimo ponto de partida e bastante bem explorada. Gostei de ver passistas do carnaval participando da festa. Senti falta de Chico Buarque e espero que ele não tenha participado por boicote ao Temer e, inclusive, achei incrível o fato de o presidente não ter sid mencionado em nenhum momento, fazer uma rápida aparição e receber vaias. Porém, eu esperava manifestações maiores em relação a isso. Mas entendo que as Olimpíadas tenham a premissa de serem politicamente neutras.

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      O aspecto de união que as Olimpíadas agregam ficou bastante evidente. Todos os países desfilaram, alguns com roupas tradicionais, outros portando a bandeira brasileira além da própria e todos visivelmente felizes. Há delegações com um ou dois atletas. Há delegações inteiramente femininas e outras inteiramente masculinas. Há pessoas de todas as etnias, religiões, línguas e construções sociais, históricas e políticas. E uma vez a cada quatro anos elas se unem, se abstendo de todas as diferenças, para praticar esportes. Eu acho isso sensacional! Toda vez que tem desfile de abertura, acompanho para ver quantos países eu sei o nome e quantos eu nunca tinha ouvido falar. Fico encantada com as vestimentas, principalmente as africanas, e a vontade de conhecer todos os países do mundo apenas aumenta. Quando a Olimpíada me proporciona histórias como a da equipe de Refugiados, a coisa fica ainda mais bonita. Eu nem sei mais colocar em palavras todo o sentimento que Rio 2016 está me causando. É claro que o desfile também ressalta desigualdades sociais, visto que dificilmente países pobres têm delegações de porte equivalente à dos Estados Unidos ou da China. Mas continua sendo incrível ver que, apesar das baixas condições, os atletas conseguiram a classificação e vieram.

      Certamente as Olimpíadas trazem e ressaltam uma série de problemas sociais, econômicos e políticos – não só do Brasil. Mas, ainda assim, é grandioso e sensacional que elas existam e sigam agregando tantas pessoas diversas em prol de um anseio comum. Esse evento acaba sendo a maior oportunidade de ver o mundo unido e em paz e isso deve, em absoluto, ser mantido, propagado e perpetrado.

     Tenho estado bastante ocupada, mas entre as ocupações arranjo tempo para ver algumas modalidades. Acompanho as notícias todos os dias e torço muito para que um dia a gente deixe de ser apenas o país do futebol e passe a ser o país dos esportes. Porque temos atletas incríveis nas mais diversas modalidades e todos eles precisam do mesmo valor que os jogadores de futebol têm. 

        Eu espero que as Olimpíadas continuem bonitas e emanando coisas boas e mensagens positivas para esse mundo que está cada vez mais nocivo. E espero que em breve eu consiga pensar em outras coisas, para voltar à programação normal por aqui.

Self Image 2016

          Eu já me senti um alien. Isso foi no ensino médio, onde eu era a personificação da chata “diferentona“. Acontece que o meio em que eu estava inserida era, de fato, bastante diferente de mim e isso fazia com que eu me sentisse uma pessoa de outro planeta. Tanto que em uma época, esse foi o nome do meu blog. Na faculdade eu percebi que não era tão diferente assim e comecei a criar raízes com alguns lugares e pessoas, o que foi bastante diferente para o modus operandi de até então. Então mudei o nome do blog para Ancoragem, porque era essa a sensação do momento. Percebi, porém, que o processo de ancorar-se à vida não é tão instantâneo e que eu vou ficar nessa por anos a fio ainda.

          De lá para cá não só meu espaço de escrita mudou de nome e foco, como eu também. E tudo isso foi incrível.

          Em 2016 me encontro recém formada, após ter conseguido terminar a faculdade em quatro anos – o que não é lá tão comum entre as pessoas do meu curso. Prestes a iniciar minha primeira pós graduação, em uma universidade que finalmente terá árvores para que eu fique sentada embaixo lendo. Passei pelo meu primeiro processo seletivo para um emprego incrível, mas tive que recusar por causa do meu tornozelo. Tive minha primeira cirurgia marcada para o próximo mês e consegui engrenar em uma ótima rotina literária.

          Já não consigo andar com a destreza que fazia há algum tempo. Usar salto ou dançar é praticamente impossível. Enquanto há alguns anos meu sonho de vida era ter um motorhome para conhecer o Brasil, a verdade é que agora com quatro horas de carro eu já estou mais enjoada do que o batman em um navio desgrenhado. Enquanto o sonho anterior era trabalhar em um lugar ao ar livre e dinâmico, embora eu continue odiando cubículos, preciso começar a me contentar de que não vou conseguir passar muito tempo da vida em pé e que o melhor é ficar sentada por uns tempos mesmo.

Mas não canso de tentar descobrir.

          Tenho tido dificuldades em expor minha vida particular para o grande público – algo que se reflete neste espaço. Enquanto há alguns anos esse era o palco principal de desabafos, agora eu desabafo apenas em pensamentos ou em conversas com amigos incríveis – que não vão embora com o passar dos anos, ainda bem. Continuo extremamente tagarela e com vontade de descobrir coisas novas, mas ainda tenho muitos pés atrás no universo gastronômico. Embora eu adore explorar coisas novas, preciso ter certeza de onde elas vieram e se estão bem limpinhas.

          Aprendi que sou uma pessoa canina e virei melhor amiga de uma labra-lata incrível. Tenho três tatuagens programadas para fazer assim que tiver dinheiro disponível. Continuo a gastar quase tudo que tenho em livros. Sou viciada em séries, mas já não tenho paciência de fazer download delas. Tenho baixa resistência para com vida social e me canso muito rápido do contato com pessoas.

Coisas em que eu acreditava – e agora não mais.

          No quesito pessoas, inclusive, acho que melhorei bastante. Aprendi a lidar melhor com a minha família, embora ainda ocorram pequenos choques. Em geral, nos damos bem. No quesito amizade, não posso reclamar, afinal sempre que preciso de companhia, sei exatamente a quem recorrer. E raramente elas me decepcionam. Além de tudo, tenho um namorado – algo que eu considerava impossível até uns dois anos. E a gente se supera e cresce a cada dia que passa juntos e eu aprendi a ficar tão feliz pelas conquistas de outra pessoa quanto fico com as minhas próprias. E isso é demais.

          Se antes eu tinha dúvidas sobre Deus, agora eu tenho certezas. Descobri que meu problema era de fato com o Deus cristão e com toda a vivência cristã, que não condiz com a sua teoria e isso realmente me incomoda. Encontrei na Umbanda uma resolução para a maior parte dos meus pés atrás, mas encontrei também vários outros e pude passar um bom tempo estudando e vivenciando esse universo completamente diferente daquele em que eu cresci. E achei sensacional.

          Por essas e outras, acredito estar fazendo um bom trabalho nessa coisa chamada “vida” e espero poder continuar com a oportunidade de seguir em frente neste processo por muitos outros anos. Afinal, o mundo continua grande e cheio de oportunidades. E elas continuam a me fascinar.

Recado para o universo

          A ideia inicial desse post é do Eric, no Youtube. Soube dela através da Milena e decidi que vou fazer isso anualmente.

          Pensando em dar mais vasão a outra das coisas que amo: escrever, decidi criar uma Newsletter. A intenção é tratar de coisas um pouco mais íntimas do que as que aparecem aqui, tudo narrado pela Amy e com uma mistura entre ficção e não-ficção. Será um exercício bacana para mim e os e-mails serão enviados quinzenalmente. É claro que todo mundo pode se inscrever e responder aos textos quando desejarem.

My Life On The Road – Gloria Steinem

          Gloria Steinem nasceu em Toledo, cidade pertencente ao estado de Ohio, nos Estados Unidos da América, no ano de 1934. Isso significa que atualmente ela tem oitenta e um anos de idade e é militante ativa do movimento feminista desde meados da década de 1950. Steinem tem uma imensa carreira de políticas sociais envolvendo o feminismo, atuando como palestrante e escritora do movimento.

          Em My Life On The Road, livro publicado em 2015, Steinem conta um pouco da sua história nas estradas da militância feminista. Dessa forma, pode-se dizer que o livro é uma autobiografia ou um memorando da história de vida dessa mulher mais que batalhadora e que acompanhou o desenvolvimento do movimento feminista desde seu começo, até seu auge e sua reconstrução. A longa experiência da autora é o que faz do livro interessante e gostoso de ler, pois de fato você acompanha toda a história do movimento feminista, relatado por uma pessoa que tudo vivenciou. Somos muito sortudos em viver em um mundo onde a Steinem conseguiu publicar esse livro antes de sua morte. Digo isso pois, como apontado no próprio livro, muitas de suas amigas tinham esse anseio (ou outros semelhantes) e não conseguiram realizar. Infelizmente, porém, ainda não há tradução da obra para o português e, tão pouco, exemplares físicos facilmente encontráveis em nossas livrarias. Ainda bem que existem os ebooks.

          O livro é dividido em sete partes, precedidas de epígrafe, prelúdio e introdução. Na introdução, começamos a conhecer um pouco da base familiar de Steinem, que tinha uma família de viajantes. Seu pai adorava a estrada e conseguiu convencer sua mãe a viver por alguns anos em um trailer, onde ela e sua irmã recebiam educação caseira. Não deu muito certo e depois de se sentir negligenciada e silenciada por muitos anos, sua mãe finalmente conseguiu se libertar e divorciou-se de seu pai. A relação dela tanto com o pai como com a mãe foi um tanto complicada posterior a isso. Principalmente porque sua mãe ficou doente e ela foi a responsável por cuidar dela, o que é apontado por Steinem como ruim, pois na época ela era adolescente e queria ir para a faculdade e era impossibilitada pela situação familiar.

          Na primeira parte, chamada “My Father’s Footsteps” (Os passos do meu pai), a autora se redime um pouco em relação às críticas que tinha empreendido à sua família anteriormente. É um momento bastante importante do livro, pois ela mostra que apesar de as situações familiares desagradáveis serem constantes em sua vida, ajudaram a ela ser a pessoa que ela é agora. No decorrer de sua vida, inclusive, ela percebeu muitas semelhanças para com seu pai e seu instinto viajante e a forma como ela narra essa descoberta é bastante interessante e “fofinha“.

          Na segunda parte do livro ela fala sobre os “Talking Circles” (Círculos de fala), que são situações onde as pessoas começaram a se reunir para discutir o problema da desigualdade de gênero e propor soluções para tal. É o início da organização do movimento feminista nos Estados Unidos e o texto varia entre coisas que aconteciam na época, digressões da autora olhando hoje para esse passado e pinceladas sobre sua vida pessoal/familiar.  Na terceira parte, ela explica “Why I don’t drive” (Porque eu não dirijo). A razão é basicamente a de que é muito mais interessante pegar caronas ou transportes coletivos e poder conversar e conhecer pessoas diferentes e que você não entraria em contato de outra forma. Então ela narra algumas anedotas que exemplificam sua escolha – e elas são bem convincentes.

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          Na quarta parte ela fala sobre “One Big Campus” (Um grande campus), que é quando ela conta sobre o feminismo e sua relação para com a academia. Somado a isso, há anedotas sobre palestras oferecidas e vivenciadas por ela nas universidades norte-americanas e também um pouco da vivência de mulheres nesses campi universitários. Na quinta parte, ela fala sobre quando a política é pessoal (“When the Political is Personal“) e relata sua inserção no universo da política, como assistente de campanha e afins. Ela perpassa uma grande quantidade de campanhas políticas, com diversos candidatos e começa a perceber que precisa lutar pelo que acredita também naquele meio. O momento mais legal deste capítulo é quando há a discussão sobre qual candidato representaria o partido Democrata nas eleições de 2008: Hilary Clinton (possível primeira presidente mulher) ou Barack Obama (possível primeiro presidente negro). Essa discussão é bastante importante para deixar bem claro o tipo de feminismo que a autora segue e acredita: o interseccional e que acredita que a igualdade racial e a de gênero devem ser lutas em conjunto.

          A sexta parte fala sobre o surrealismo na vida cotidiana (“Surrealism in Everyday Life”) e é justificada pelo fato de o movimento surrealista querer combater o racionalismo, trazendo o abstrato e a imaginação de volta ao foco do universo. Ela começa então a apontar situações onde isso é necessário para que o movimento feminista se reinvente e persista e mostra como a vida do dia-a-dia é muito mais surrealista do que racional. Na sétima parte, “What One Was Can be Again” (O que foi uma vez, pode voltar a ser), Steinem faz uma digressão sobre as transformações do movimento e compara isso com as transformações ocorridas na vida das mulheres indígenas da região após o contato com a dita “civilização”. Muitos dos povos indígenas da região seguiam o sistema matrilinear de divisão de tarefas, heranças e afins, que foi substituído pelo patrilinear após o contato com os brancos. Steinem visa mostrar ao leitor que, se uma vez a igualdade funcionou, pode voltar a funcionar.

          O livro termina com uma parte chamada “Coming Home” (Voltando para Casa), em que ela fala basicamente sobre como é ruim ter acompanhado a morte de quase todas as suas amigas militantes e perceber que ainda se está viva. E como ao mesmo tempo isso é bom, pois ela ainda tem vez e voz. Ela conclui o texto explicando o que quis dizer com cada uma das partes e relatando uma história bem tocante de uma de suas amigas.

          A leitura é bastante fluida, porque a história dela é empolgante e muito vivaz. As partes até são compridas, mas há várias subdivisões no decorrer delas, o que auxilia na fluidez da leitura. O livro foi o primeiro do clube literário feminista liderado pela Emma Watson, que proporá um livro por mês sobre o tema. Infelizmente, é esperado que grande parte dos livros não tenham tradução para o português. De qualquer forma, farei vídeos e textos falando sobre as leituras e o que aprendi com elas.

          O vídeo sobre este livro pode ser visto aqui:

The Hateful Eight – Quentin Tarantino

            Tarantino é um dos meus diretores/roteiristas de cinema preferidos de todos os tempos. Claro que não o conheci em seu início de carreira, mas assim que tive a chance, assisti a todos os seus filmes vezes o suficiente para decorar os meus preferidos: Pulp Fiction e Kill Bill. Os filmes dele são tão importantes pra mim que meu primeiro artigo científico foi justamente sobre um deles: Django Unchained. Para este, inclusive, tive o orgulho de ver Tarantino ganhar um Oscar como melhor roteiro adaptado, o que, é claro, tiete como sou, achei mais do que merecido.

            The Hateful Eight (Os oito odiados) tem esse nome por ser, justamente, o oitavo filme escrito e dirigido por Tarantino. Além disso, o nome é devido ao fato de o filme ser sobre oito personagens presos em uma cabana em um dia de nevasca muito intensa. Até o momento, o filme ganhou um Globo de Ouro por melhor música original, esta produzida por Ennio Morricone, famoso compositor italiano que faz muitas músicas eruditas. Para este filme, Morricone produziu cerca de cinquenta minutos inéditos em música, o que o fez, claramente, merecer o prêmio recebido.

            Infelizmente, porém, no discurso de recebimento, ele não pôde comparecer, sendo Tarantino o responsável pelo discurso. Porém, ele foi bastante infeliz em sua fala, dando o entender que a música de Morricone era “música de verdade” e colocando-a em oposição à “música do gueto“. A forma como a frase foi colocada foi bastante pejorativa e causou desgosto nos atores negros que compareceram ao evento. O mais curioso da situação é que o filme em questão é o segundo produzido por Tarantino e protagonizado por negros. Particularmente, acredito que tenha sido apenas um deslize de expressão, causado por um racismo enrustido e inconsciente que aparece em situações como esta, onde a cultura negra ainda tende a ser considerada “inferior” à branca e “erudita” o que, para quem conhece minimamente sobre a cultura africana, sabe que é balela. Porém, saber disso conscientemente e reproduzir até em atos inconscientes é complicado. Ou seja, é muito provável que Tarantino tenha apenas cometido o que a psicanálise chama de “ato falho“, mas não cabe a nós discutir a índole dele no que diz respeito ao seu comprometimento – ou não – perante a inclusão racial em seu país. Porém, o fato de ele trazer protagonistas negros para seus filmes é um sinal bom o suficiente para não ser ignorado.

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            O protagonista negro em questão, é o Major Marquis Warren, interpretado por Samuel L. Jackson (que já trabalhou com Tarantino em Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill, Bastardos Inglórios e Django Livre). Warren é um caçador de recompensas que perde seu cavalo em meio a uma nevasca, pois ele morre de frio. O caçador carregava três corpos que valeriam uma recompensa de $8mil e estava à procura de uma carona até a cidade mais próxima, para poder receber o dinheiro. Porém ele é negro e isso faz com que não seja fácil conseguir carona, ainda mais quando se carrega três corpos mortos. Por sorte, ele encontra com John Ruth, interpretado por Kurt Russel (que nunca tinha trabalhado com Tarantino) e que também é um caçador de recompensas. Ruth estava levando para a cidade mais próxima uma prisioneira chamada Daisy, porém, ele não levava prisioneiros mortos, pois gostava de vê-los sendo enforcados. Dessa forma, Daisy viajava algemada a ele.

            Ruth topa dar carona a Warren, pois o reconhece de um jantar em comum e também pela fama de Warren, por ter sido um negro que se tornou Major após uma série de lutas contra os brancos na Guerra Civil americana (que também é palco narrativo para Django Livre). Daisy Domergue é interpretada por Jennifer Jason Leigh (também trabalhando com Tarantino pela primeira vez) e é a antagonista do filme, sendo uma personagem forte, complexa e importante. Não se sabe porque há uma recompensa para sua cabeça, porém, ela vale $10mil. Ainda no decorrer do caminho, os três se encontram com mais um passante, que também perdeu seu cavalo para a nevasca e estava por busca de carona. Este porém, é o rapaz que está prestes a se tornar xerife na cidade próxima à região. Logo, para que os caçadores de recompensa recebam seu dinheiro, ele precisa estar na cidade. Com isso, ele consegue convencer Ruth a lhe dar uma carona. Porém, para Chris Mannis, interpretado por Walton Goggins, não é confortável viajar ao lado de um negro, o que gera desavenças.

            O destino inicial é um armarinho da região, gerido por Minnie e Sweet Dave, que recebem pessoas em situações tensas, como a nevasca em questão. Como nos próximos dois dias seria difícil viajar, eles pensam em se hospedar por lá e então seguirem para a cidade destino. E é aí que a história do filme começa para valer e se desenrola de um jeito hilário e trágico, que só Tarantino sabe fazer.

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            O filme é classificação 18 anos, o que pode ser explicado pela quantidade de sangue e também por uma cena de nudez explícita, vulgo, uma das mais engraçadas do filme. O filme é tão inusitado que é impossível não rir e o tradicional banho de sangue (marca registrada de Tarantino) não deixa a desejar, muito pelo contrário.

            Quem conhece e acompanha Tarantino, sabe que seus filmes são sempre divididos em capítulos, são repletos de sangue, muito violentos e irreais. E é exatamente esse o espírito da coisa: pegar histórias sérias e mostrar que o exagero cinematográfico pode torná-las engraçadas. As trilhas sonoras e os elencos selecionados são um show à parte. De John Travolta à Leonardo DiCaprio, vi atores muito diversos fazendo coisas incríveis e bem diferentes com o que usualmente faziam. Além de tudo, seus filmes tentam trazer à tona questões um tanto apagadas pela sociedade norte-americana e reacender feridas que os mais conservadores da região vivem tentando esconder. Há ainda uma grande participação de atores negros em papéis importantes, além de mulheres protagonistas (Kill Bill é praticamente inteiro sobre mulheres fortes).

          Resumindo: apesar de ele ter diversas falhas, é inegável que seus filmes são bons e incomodam Hollywood. A ponto de o título de “Os Oito Odiados” ser uma referência direta aos oito filmes de Tarantino: frequentemente odiados pelos críticos. Eu, que adoro polêmicas, não podia ficar de fora desta.

            Segue o trailer:

DIY: Panner 2016

         Daí que eu sou daquelas pessoas que todo ano compra uma agenda e nunca usa, mas não desiste da esperança de usar. Eis que o Google inventou a agenda que sincroniza no celular, computador e ainda envia aviso no e-mail toda vez que tem compromisso. Aí ele atualiza a agenda e permite que eu crie to do lists, pronto, problemas resolvidos!

         Só que eu resolvi que tenho duas metas essenciais para este ano: a primeira delas é levar a sério o meu site/canal do youtube e a segunda é passar no mestrado, que terá seleção no final do ano. E precisava me planejar decentemente para tal, a agenda do Google não estava sendo suficiente. Principalmente porque preciso organizar leituras e quando escreverei/gravarei e ainda conseguir conciliar isso com os outros afazeres da vida – afinal, ainda não sou diva a ponto de viver só fazendo o que gosto.

         Então eu baixei um planner digital para me ajudar a organizar as coisas aqui do Ancoragem, lá no Sernaiotto, mas acabei não utilizando muito até o momento, por necessitar que eu digite no computador/celular e eu gostar de escrever à mão quando tenho ideias e resolvo fazer planos. Logo, por mais que seja um ótimo planner, não me foi útil.

         Eis que, conversando com uma amiga, descubro que há vários arquivos na internet com planners para serem impressos e que a gente pode montar o nosso próprio, com apenas aquilo que vamos usar, do jeito que quisermos montar!!! Ela fez um para ela e me mandou as fotos e ficou muito profissional e lindo, então pesquisei alguns arquivos e consegui os que ela tinha utilizado e decidi que faria um para mim!

         As categorias que escolhi colocar no meu foram as mais básicas:

  • Calendário do ano inteiro
  • Calendário mensal – com espaço para anotações
  • Ficha para controle financeiro
  • Calendário semanal – com espaço para anotações

         Realizei o trabalho de forma inteiramente artesanal, ao contrário da minha amiga, visto que não objetivava um resultado tão profissional quanto ela. As duas possibilidades são viáveis, bem vindas e ficam lindas. Então, deixe a criatividade falar mais alto e faça do jeito que te agradar mais! Vou mostrar agora como fiz o meu.

         Material usado:

  • Papel Vergê A4 Branco
  • Papel A4 Colorido (gramatura 120g/m²)
  • Estilete
  • Furador
  • Fita
  • Impressora

Passo 1: Cortando os papéis

         Após decidir quais as categorias você quer adicionar em seu planner e ter em mente a quantidade de folhas que vai necessitar, começamos os trabalhos, cortando os papéis ao meio, de acordo com a quantidade desejada.

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Cortei um exemplar e o utilizei como base para os outros. Coloquei ele no centro e utilizei a régua para deixar a base forte. Risquei com estilete o papel e depois destaquei as duas partes.

         O resultado foi esse:

As folhas não ficam milimetricamente do mesmo tamanho e é perceptível que foram destacadas de algum lugar. Se você deseja algo mais profissional, sugiro que use guilhotina.

         Depois, é necessário repetir o mesmo procedimento com os papéis coloridos.

Passo 2: Impressão dos materiais

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Imprima todas as categorias desejadas, na forma como achar melhor (só a frente, frente e verso, você decide) e monte seu planner, colocando na ordem desejada o material impresso.

Passo 3: Encadernando manualmente

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Com um furador, realize a quantidade desejadas de furos. Tenha o cuidado para que eles sejam iguais em todas as folhas.

 

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Perpasse com uma fita (ou linha) todos os furos realizados, de forma a costurar todas as folhas. Faça um arremate final.

         Pronto! Agora você já pode usar o seu planner!

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Esse é o meu planner! A maior parte dos arquivos veio daqui. Os arquivos que consegui com a minha amiga, não sei a fonte.