As boas mulheres da China – Xinran

capa de as boas mulheres da China de Xinran

Quem escreveu o livro?

      Xinran é uma jornalista nascida em Pequim, no ano de 1958, que se mudou para a Inglaterra no ano de 1997, devido à impossibilidade de publicar seus relatos na China. Atualmente ela é colunista do jornal The Guardian e professora na School of Oriental and African Studies, da Universidade de Londres. Em 2004 ela fundou uma ONG, chamada “The Mother’s Bridge of Love“, que intenta auxiliar jovens chineses órfãos a entender as diferenças entre a China e o Ocidente. É mãe de Pan Pan e casou-se com um inglês, chamado Toby

A jornalista chinesa Xinran.
A jornalista chinesa Xinran.

O que é interessante saber antes de ler?

     A primeira coisa que deve-se ter em mente ao realizar a leitura desse livro é que a China é um país muito grande, um dos mais populosos do mundo e uma das civilizações mais antigas, que por muito tempo baseou sua ordem exclusivamente na tradição. Isso faz com que a história chinesa seja repleta de revoltas e contra-revoltas, com períodos de repressão e outros de liberdade. 

   A leitura não pode ser realizada sem uma contextualização sobre a China e sem o devido relativismo necessário para a compreensão de que a realidade chinesa é bastante diferente da nossa. Com essa noção, fica mais fácil de embarcar nas histórias sem comparar com o que elas seriam caso fossem passadas em países como o Brasil. O interessante é pensá-las enquanto produtos da cultura e sociedade chinesa e, portanto, cabíveis apenas nela. Paralelos dessas histórias são possíveis na nossa realidade, claramente, mas a intenção do livro é mostrar para o Ocidente uma face da mulher chinesa que costuma ser reprimida e apagada. Por essas razões, se a leitura for embebida de preconceito gratuito perante a cultura chinesa, não será produtiva.

    É interessante também ter em mente que os relatos que compõem o livro foram colhidos por cerca de dez anos, até por volta de 1997. Dessa forma, muito provavelmente a realidade atual da China já seja outra e as histórias das mulheres que vivem lá hoje sejam um tanto diferentes. Outro ponto importante é atentar-se para a contextualização que Xinran realiza em cada uma das histórias, para que a gente não caia na besteira de conhecer e pensar no passado com os olhos da atualidade.

      Se lido com curiosidade respeitosa e anseio por conhecer as entranhas de uma realidade chinesa, o livro mostra-se bastante produtivo e uma obra prima.

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

      Na década de 80 a jornalista Xinran conseguiu convencer sua produtora de rádio a permitir que ela realizasse um programa noturno diário que contasse ao povo chinês sobre as mulheres do país. Sua intenção era conversar ao vivo com ouvintes e expor as histórias mais interessantes. Além disso, algumas ouvintes deixavam recados em sua secretária eletrônica ou enviavam cartas e ela passava seus dias pesquisando e conversando com mulheres de diversas realidades, a fim de trazer discussões coerentes para o seu programa de rádio, que se chamava “Palavras na brisa noturna“.

Xinran no estúdio de
Xinran no estúdio de “Palavras da brisa Noturna”.

     As boas mulheres da China é, portanto, um conjunto de relatos colhidos durante a produção desse programa de rádio. Xinran não poderia publicá-los estando na China, podendo ser presa caso tentasse, por essa razão, o fez na Inglaterra. O livro conta com quinze relatos, sobre mulheres jovens, adultas, idosas, solteiras, casadas, crianças, modernas, tradicionais, divorciadas, viúvas, encarceradas em cadeias ou hospitais, e finaliza com um relato incrível sobre um grupo de mulheres que vivia em um povoado minúsculo.

     Em cada um dos relatos Xinran aparece como narradora principal e as histórias são contadas como forma de entrevistas, com vários trechos entre aspas. Em um dos capítulos, a jornalista explora um pouco da história de sua própria família e também a dela. No decorrer dos relatos, o leitor é levado a conhecer a China em diversos momentos históricos diferentes, sendo obrigado a conhecer um pouco mais de sua história, principalmente no que diz respeito à revolução comunista liderada pelo presidente Mao Tse Tung e a abertura cultural, mais recente. 

      A realidade dessas mulheres é muito dura, fazendo com que o livro seja bastante denso, apesar de não ter tantas páginas. São 288 no total, a tradução é de Manuel Paulo Ferreira e a edição é da Companhia das Letras. Compre o livro aqui e ajude o Ancoragem a se manter.

E o que você achou do livro?

     Como futura antropóloga, considero muito interessante saber sobre o máximo de culturas e povos diferentes que me for possível. Tenho muita curiosidade sobre a China desde que vi a abertura das olimpíadas em 2008. As coisas aumentaram quando me tornei melhor amiga de uma brasileira, descendente de chineses e que morou lá durante a maior parte de sua vida. Nos meses em que estive no Paquistão, acabei morando com quatro chineses. Em todo esse meu contato com as pessoas desse país e com a curiosidade crescente, a certeza que eu tinha – e ainda tenho – é de que a China é um país muito diverso, muito próprio e completamente diferente de tudo que eu já vi. 

      Essa minha impressão inicial ficou ainda mais forte durante o curso Why we Post, onde dois antropólogos trabalharam em campos diferentes na China. Um estava em uma cidade industrial e outro em uma cidade camponesa. O curso era sobre a forma como as pessoas usavam tecnologia ao redor do mundo – e o quanto a tecnologia tinha transformado essas pessoas e povos. Foi incrível ver que dentro do mesmo país as variações eram tão grandes, não apenas por eles usarem softwares produzidos pelos chineses e que só existem e fazem sucesso por lá, mas por terem um uso próprio de acordo com o local e etnia que estavam/pertenciam. Eu acho o povo chinês absurdamente incrível.

      Deparei-me com esse livro por acaso em 2015, em um sebo de Curitiba. Tudo que sabia sobre ele é que havia pertencido a uma “Judith“, como diz a contracapa. Recentemente algo em mim disse que havia chegado a hora de realizar a leitura e eu embarquei. E não me arrependi. Demorei mais de um mês no livro, por falta de tempo e problemas com meu óculos, mas isso apenas intensificou a minha relação com ele. As histórias ali contadas mexeram comigo a ponto de aparecerem em alguns dos meus sonhos e a densidade dessas realidades fez com que eu me sentisse mais próxima delas e conseguisse entender um pouco melhor alguns hábitos dos chineses e descendentes com quem eu tenho contato.

      A delicadeza, riqueza nos detalhes e capacidade contextual de Xinran deixou a leitura ainda mais informativa, brilhante e interessante e o livro se tornou uma ótima companhia para os meus momentos livres. Terminei a leitura satisfeita e contente por ter aprendido um pouco mais sobre as mulheres chinesas. A vontade de visitar o país para conhecer e, talvez, estudar, cresceu e desapareceu inúmeras vezes durante a leitura. As impressões se misturaram com os relatos da minha amiga, que está na China nesse momento, e sofrendo um choque cultural que ela não imaginava ser possível e tudo que minha cabeça consegue pensar no momento é que a China é um lugar monumental e mágico, que merece mais atenção e conhecimento por parte de nós, ditos Ocidentais.

O Brasil antes dos brasileiros: A pré-história do nosso país – André Prous

Quem escreveu o livro?

           André Prous nasceu na França, é arqueólogo e professor do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Fez doutorado na Sorbonne e sua tese foi sobre a pré-história do litoral brasileiro. Já ministrou a disciplina Pré-História, para o curso de História da USP. Participou da missão de arqueologia que descobriu o esqueleto mais tarde batizado como Luzia. É especialista em povos caçadores e coletores e também já desenvolveu pesquisas sobre arte rupestre. Publicou cerca de cinco obras sobre o Brasil.

      O livro foi publicado no Brasil pela editora Jorge Zahar, em 2006. Tem 144 páginas, com algumas figuras e um glossário no final. É possível adquiri-lo em versão física ou e-book. 

O que é interessante saber antes de ler?

       Uma coisa bem importante de se ter noção antes de começar a leitura, é sobre o que é o Brasil. Da forma como conhecemos hoje, o Brasil começou a existir a partir de 1500, com a colonização europeia. Porém, antes disso já existiam habitantes nessas terras, os povos indígenas. Como esses indígenas chegaram aqui, quando, como se desenvolveram e porque foram dominados pelos europeus, são algumas das questões básicas abordadas por essa obra.

       Pré-história é tudo que acontece antes de haver registros históricos. Considerando que a história do Brasil começou a ser escrita, construída e divulgada a partir de 1500 e da colonização, tudo que ocorreu antes desse marco é considerado prévio à história, portanto, faz parte da pré-história. Assim sendo, falar sobre a pré-história do Brasil não é necessariamente discutir sobre a existência de neandertais ou homens da caverna, mas pode passar também por isso. O intuito principal é desvendar um pouco sobre a origem do povoamento nessas terras, para além da colonização. 

     Apesar de não aprendermos sobre isso na escola e de ser um estudo basante específico e um conhecimento que acaba pairando apenas sobre os estudantes de ciências humanas, não há amadorismo nas pesquisas arqueológicas realizadas no Brasil. Todos os dados apresentados em livros como esse foram extensamente pesquisados, por pessoas de diversos países e tradições teóricas. Não é possível ter certeza quando se trata de arqueologia, visto que não é uma ciência exata e depende de subjetividades e interpretações, porém, as hipóteses levantadas pela pesquisa arqueológica não surgem aleatoriamente. Dessa forma, a arqueologia é um campo de estudos sério e deve ser tão respeitado quanto os outros.

Esqueleto e reconstrução facial de Luzia, considerada a primeira brasileira. Pertence ao sítio de Lagoa Santa.

 

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

      O livro conta sobre as descobertas da arqueologia em relação à pré-história brasileira. É um livro com bastante informação técnica, mas escrito de forma branda e possível de ser compreendido por pessoas leigas. A introdução ambienta muito o leitor no campo de estudos da arqueologia e na discussão sobre a pré-história brasileira. A partir daí, o livro é dividido em 7 capítulos, que vão se aprofundando em cada uma das grandes Tradições arqueológicas encontradas no país. São discussões acerca de sítios arqueológicos encontrados em cada uma das regiões do país, com vestígios que datam de 10mil anos atrás. 

     Arte rupestre, desenvolvimento de agricultura, ferramentas, tipos de sepultamento, moradias e outras construções importantes, como os sambaquis, são apresentados. A ideia de natureza é desconstruída, apontando que nem a Amazônia é natural, visto que há muitos séculos pessoas são responsáveis por realocar e trazer novas espécies de vegetação.

Exemplo de ponta de flecha lascada, encontrada no Brasil.

     O livro termina de forma crítica, apontando a necessidade de uma consolidação dos estudos arqueológicos no Brasil. Diversos sítios ainda necessitam ser melhor explorados, principalmente os da Amazônia. Há escassez de formação universitária de arqueólogos, o que diminui a quantidade de pesquisadores e faz com que as grandes pesquisas sejam realizadas por pesquisadores de outros países, o que prejudica o desenvolvimento científico do Brasil.

E o que você achou do livro?

     Primeiramente, é um livro bastante interessante. Por ser um assunto não abordado no ensino básico, torna-se exótico e importante para a consolidação de um pensamento brasileiro. Saber um pouco mais sobre o povoamento e as origens de algumas manifestações culturais que persistem até hoje foi bastante interessante. 

        O viés apresentado pelo autor é muito bacana, porque tenta se limitar aos vestígios encontrados e deixa sempre muito claro o que é hipótese e de onde essas hipóteses surgiram. Dessa forma, o livro consegue dar um bom panorama sobre a área de arqueologia e sobre a origem dos povos indígenas ameríndios. Acompanhar a leitura é ter a oportunidade de mergulhar em um passado mais profundo do que nos é esperado, visto que é possível imaginar como, de fato, as coisas aconteciam por aqui antes da chegada dos portugueses. 

         Mitos como os de que apenas as costas brasileiras eram habitadas ou que os indígenas eram bárbaros, preguiçosos ou simplesmente bonzinhos, vão se tornando cada vez mais irreais. O leitor passa a ter clareza de um percurso histórico e cultural muito importante para entender um pouco mais da atualidade e todas essas coisas, a meu ver, deveriam ser obrigatórias para todos os estudantes. Afinal, já está mais do que na hora de ser um conhecimento comum o de que já existia um Brasil antes de Portugal chegar aqui e uma América antes de Colombo. A colonização acabou sendo extremamente importante para o aumento populacional e inserção de tecnologias mais avançadas, mas não é por isso que devemos ignorar o que veio antes. E esse livro é uma ótima oportunidade de conhecer mais sobre.

Por que o “He for She” me representa

          Sou recém formada em ciências sociais pela UFPR. Pouco antes da metade do meu curso, tive que escolher entre fazer licenciatura ou bacharelado. Uma vez tendo escolhido o bacharelado, tive que escolher entre as linhas de sociologia, antropologia ou ciência política. Escolhi antropologia, pois se existisse uma graduação inteira só disso aqui em Curitiba, era nisso que gostaria de ser formada.

         Dentre as várias responsabilidades do trabalho do antropólogo, a que sempre mais me chamou a atenção foi a de mediador. Vejo o antropólogo como aquele que é capaz de trazer para o universo acadêmico, burocrático e midiático os problemas vividos por minorias marginalizadas e esquecidas, que ninguém reconhece a existência. Uma vez que o trabalho antropológico se consolida indo ao encontro destas pessoas e modos de vida e comprando várias de suas brigas, vejo como de sua responsabilidade trazer visibilidade para os problemas sociais e propor soluções para eles.

          Mas é claro que o antropólogo não pode fazer nada disso sem reconhecer o seu local de fala. Isto é, fica mais fácil falar sobre as dificuldades de ser um aborígene australiano hoje em dia quando se está em um Congresso bem renomado na Europa. Porém, há diferenças entre pesquisar os aborígenes australianos e militar por eles, auxiliando-os na resolução de seus problemas sociais. Muitos antropólogos acreditam que a militância atrapalha a objetividade etnográfica e torna o trabalho obsoleto, eu, por outro lado, acho completamente sem sentido se aprofundar em questões alheias se você não está disposto a fazer nada por elas. É claro que há uma enorme diferença entre eu, pesquisador, falando sobre os aborígenes australianos e um próprio aborígene falando sobre si. Porém, o meu discurso pode atingir locais que o dele não atingiria. E cabe a mim ampliar a potencialidade da fala dele, mostrando a importância de dar voz a quem não tem.

          Uma pensadora que trata muito bem do assunto é Gayatri Spivak. Como teórica crítica indiana que trabalha na Columbia University (Estados Unidos), ela publicou um livro chamado “Pode o subalterno falar?” (que é bem curtinho e tem tradução para o português), onde discute sobre a possibilidade de fala de subalternos – não apenas na academia. Ela ressalta muito (a falta do) o caráter militante dos pensadores e se coloca em comparação com eles. Como mulher e indiana, sua voz demorou muito mais para ser ouvida do que a de muitos homens europeus que vieram antes dela e apesar de agora ela conseguir ser ouvida, há ainda uma série de assuntos sobre os quais gostaria de tratar e que são silenciados e uma série de pessoas que gostaria de ajudar e não tem a oportunidade. Spivak ressalta muito a necessidade e as virtudes de um mediador, mas também aponta os perigos de uma mediação que silencia a voz do nativo (que é o terror de todo o antropólogo) e nos deixa a eterna dúvida sobre a real possibilidade de o subalterno ser ouvido.

Quando só o mediador fala, será que o subalterno é realmente escutado?

          A meu ver, a proposta da ONU Mulher denominada “He for She” e que tem como embaixadora a atriz Emma Watson corresponde muito com esta discussão. A proposta é que os homens entendam a necessidade do feminismo e percebam o quanto suas próprias vidas são negativamente afetadas pelo fato de viverem em uma sociedade patriarcal e machista. Com esse entendimento e a devida reflexão sobre como se as coisas são ruins para eles, para as mulheres são muito piores, a ideia é que estes homens se tornem agentes de mudança, através da mediação. Vulgo, que eles sejam pró-feminismo de fato.

          Não acredito que homens possam ser feministas justamente por a questão do “mal mediador“, que eu falei que a Spivak discute. Se o movimento que busca pela igualdade de um gênero que está sempre sendo visto como o “segundo” (como bem aponta Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo“) não for encabeçado por ele, não faz sentido. Porém, o fato de as mulheres estarem dirigindo a luta pela igualdade não impede que os homens as acompanhem na carona do carro. E, a meu ver, é essa a proposta do “He for She“. Como a própria Emma Watson ressalta em seu discurso, não é possível lutar pela igualdade se apenas metade do mundo está disposta a construí-la. O risco de um feminismo que exclui os homens é de virar tão autoritário e excludente quanto o próprio machismo e não é isso que a gente quer.

          A ideia apresentada pela ONU é justamente de tornar os homens bons mediadores do processo. Ou seja, se um homem é pró-feminismo e escuta uma piada machista vinda de seus amigos, ao invés de rir vai explicar porque está errado. Ele não vai ser escroto com outras mulheres e não vai, por conta própria, propagar a opressão e o silenciamento – hoje generalizados. Ele vai se esforçar para que em suas atitudes as mulheres sejam respeitadas e para propagar, com bom senso, a mensagem de que independente do gênero, raça, religião ou orientação sexual, as pessoas devem ser tratadas socialmente igual. Ele vai indicar a amiga bem sucedida para ocupar o cargo de sua empresa que acabou de ficar disponível. Vai ler livros de autoras femininas e procurar filmes dirigidos e protagonizados por elas. Ele vai aprender a valorizar as mulheres tanto quanto valoriza os homens, indo muito além de aparências físicas ou outras mesquinharias.

          O feminismo que eu acredito é assim mesmo: repleto de mediadores. Nos locais em que há mulheres que querem falar, elas podem e devem. Nos locais em que elas não estão presentes, mas há homens pró-feminismo, eles precisam falar também. Nos locais onde há mulheres negras falando sobre sua situação, as brancas devem ouvir e aprender. E quando não houverem negras por perto, elas têm que mediar a luta delas. O mesmo quando se tratar de mulheres gordas, lésbicas, transexuais, deficientes físicas ou mentais e ainda as de diferentes religiões. O feminismo não existe para excluir ou seccionar mulheres, pelo contrário, a ideia é agregar todas elas – e não apenas elas. Sabem a música em que o John Lennon pede pra gente imaginar um mundo igualitário e gostoso de se viver? É por esse mundo que o feminismo luta.

          Ninguém tem que roubar o protagonismo ou a voz de ninguém, mas todo mundo tem que ter empatia e sororidade, comprar a briga da colega e falar por ela em toda discussão que levantam algo contra ela. Não temos que ser mulheres fortes apenas no que diz respeito às nossas dores e sofrimentos. Pelo contrário, temos que nos levantar e lutar juntas pelo bem de todas nós. Para que um dia a gente deixe de ser o “segundo sexo” e vire um sexo tão bom, completo e auto-suficiente quanto o masculino. Porque na prática a gente sempre foi tão importante quanto, só nunca tivemos esse reconhecimento. E é por isso que lutamos.

          Um dos frutos muito legais de um feminismo bem refletido, pensado e trabalhado é poder observar entrevistas como a que segue, onde Emma Watson conversa com Malala Yousafzai e as duas se respeitam e constroem. É poder observar as palestras da Chimamanda Ngozi Adichie. É poder ler os textos das incríveis mulheres brasileiras. É poder observar negras ganhando prêmios e sendo protagonistas. É ver crescimento de discussão, reflexão e repertório. E tudo isso depende única e exclusivamente de cada uma de nós.

BEDA #16 A eterna questão.

Sempre quis saber se pessoas que estudam engenharia elétrica as vezes estão em um lugar e ao invés de prestar atenção na conversa ou afins fica pensando em como o circuito elétrico foi ali montado. Da mesma forma fico pensando se os futuros economistas e administradores dão atenção a cada centavo gasto. Ou se os futuros médicos e fisioterapeutas sentam corretamente e se esforçam para manter o corpo saudável. Também penso se os futuros letristas têm mini-surtos ao ver frases escritas erradas, e se os futuros publicitários estão sempre pensando em como transformar fatos da vida em boas propagandas. Se os futuros jornalistas estão sempre tentando fazer tudo virar notícia ou ainda se os futuros advogados enxergam fatos jurídicos em todos os passos do dia-a-dia. Ou se chatos são apenas aqueles que fazem antropologia.

Estudar o comportamento humano e tentar entender diferenças, semelhanças  e formas de construção de significações diferenciadas a partir de fatos comuns, levando em conta a subjetividade, mas também as influências do sócio-cultural para a construção daquilo que denominamos individualidade – que pouco tem de individual, faz de mim insuportável. Conhecer um pouco mais sobre as práticas dos indivíduos, as ideologias que os movem e as hipocrisias que eles praticam, somando com a falta de vontade em obter conhecimento e lógicas de raciocínio coerentes, fazem a descrença na humanidade ser cada vez maior. Conversas que antes seriam agradáveis geram mais e mais decepção e ao lembrar que também estou imbuída de todas as incoerências construtoras da humanidade, fazem a decepção ser quase infinita.

A antropologia é deprimente. É malvada. É maligna. Porque de tão sensacional que é perceber que mesmo não querendo acabamos por ser farinhas do mesmo saco, a ideia imbricada de que não deveríamos ser do mesmo saco torna essa percepção angustiante. E, aos poucos, faz com que as verdades que você acredita e que te constituem sejam maiores do que o seu senso de relatividade e o mundo pareça inferior e idiota simplesmente por não compartilhar as mesmas verdades que você. Os preconceitos deixam de ser os comuns e passam a ser preconceitos-antropológicos. E cada comentário que se contraponha àquilo que lhe é estabelecido como verdade, dói a alma e só dá vontade de sacudir a pessoa e dizer o quanto ela é burra. As percepções, que deveriam ampliar-se, restringem-se. E as concepções de certo e errado acabam por sendo mais duras do que deveriam. Uma moralidade diferenciada, mas permanente. Talvez a lembrança de que até os antropólogos são gente.

A vontade de ter vontade de fazer coisas que pessoas comuns têm vontade ou de não se magoar com piadas malvadas ou “burrices” descabidas, é absurda. Pois com toda essa inversão de pensamento comum, o nosso social acaba minando cada vez um pouco mais. Como antropólogos, passamos a ver o resto do mundo como nossos nativos e desistimos aos poucos de tentar entender se aproximar de verdade das pessoas, com a concepção de que não é nosso papel mudá-las. E talvez não o seja em momentos de pesquisa científica, mas nos momentos do dia-a-dia, com as pessoas que a gente ama, isso não deveria parecer tão incômodo. Aos poucos sinto-me como aqueles atores que não conseguem chegar em casa e esquecer o personagem e passam todo o tempo de ensaios, gravações e/ou apresentações com toda aquela construção dentro de si.

Torno-me cada dia mais chata, menos paciente e resistente a ideias diferentes em níveis que considero, mesmo sem admitir, inferiores. Com a imanente concepção de evolucionismo presente mesmo que disfarçada. A percepção dessa transformação interna com ligações diretas e complicadas na realidade fazem com que a vontade de recolher-me em meu canto e conviver/conversar com a menor quantidade de gente possível seja maior. O complexo de inferioridade inverte-se e a superioridade faz com que não seguidores da minha linha de raciocínio sejam olhados pejorativamente. Aproximo-me das minhas sombras e distancio-me do self e das percepções de meu inconsciente. A cada dia, mascarada pela ideologia antropológica, torno-me menos eu e mais nada. E a angústia, aumentada por fatores sazonais e de mês – afinal, ninguém suporta agosto, fazem com que a aparência externa aproxime-se mais com a do monstro das minhas próprias trevas.

Sou. Não sou. E do meu majestoso pedestal de conhecedora de comportamentos e práticas falaciosas, julgo. Rio. E sou a pessoa insuportável e ridícula que sempre julguei enquanto fico mais próxima do não-ser. Porque mil anos podem se passar, mas há questões que são eternas.

To be, or not to be, that is the question—
Whether ‘tis Nobler in the mind to suffer
The Slings and Arrows of outrageous Fortune,
Or to take Arms against a Sea of troubles,
And by opposing end them? To die, to sleep—
No more; and by a sleep, to say we end
The Heart-ache, and the thousand Natural shocks
That Flesh is heir to? ‘Tis a consummation
Devoutly to be wished. To die, to sleep,
To sleep, perchance to Dream; Aye, there’s the rub,
For in that sleep of death, what dreams may come,
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause. There’s the respect
That makes Calamity of so long life:
For who would bear the Whips and Scorns of time,
The Oppressor’s wrong, the proud man’s Contumely,
The pangs of despised Love, the Law’s delay,
The insolence of Office, and the Spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his Quietus make
With a bare Bodkin? Who would these Fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscovered Country, from whose bourn
No Traveler returns, Puzzles the will,
And makes us rather bear those ills we have,
Than fly to others that we know not of.
Thus Conscience does make Cowards of us all,
And thus the Native hue of Resolution
Is sicklied o’er, with the pale cast of Thought,
And enterprises of great pitch and moment,
With this regard their Currents turn awry,
And lose the name of Action. Soft you now,
The fair Ophelia. Nymph, in all thy Orisons
Be thou all my sins remembered.

– William Shakeaspere

É Claro que eu Tenho um Trabalho pra Fazer

Não sei se vocês sabem (e se não sabem, deveriam saber) que sou a maior das procrastinadoras que já pisou na Terra. Considerando isso, devo informar que preciso entregar amanhã a primeira parte de uma etnografia – exercício que está sendo feito durante todo o semestre para a disciplina de Antropologia Urbana. É claro que a minha vontade de começar a escrever é nula, considerando que sei muito bem a dor de parto que é produzir algo que eu considere minimamente legível. Exceto quando se trata deste espaço (razão pela qual gosto tanto dele e uso e abuso). Aqui eu falo o que eu quero, quando quero, do jeito que eu quero e se você não gostou é só apertar o x e nunca mais voltar. Nos meus trabalhos eu tenho que me adaptar aos métodos dos professores e de todo um sistema já imposto (um sistema-fato-social, talvez). E, como é de se notar, eu sou uma lástima quando o assunto é cumprir regras. Assim, acho irrelevante comentar a dificuldade absurda que é seguir os padrões em alguma coisa – ainda mais quando se trata de escrita.

Considerando toda a epistemologia existencial que me cerca e não se distancia, venho por meio deste afirmar que uma das minhas novas teorias é a de que todo texto é uma etnografia. Faz uns dois anos, lá quando li “A Culpa É das Estrelas”, percebi que livros são nada além do ponto de vista de algum autor e que se fossem escrito sob a perspectiva de qualquer outro personagem, seriam completamente diferentes. Da mesma maneira, um livro com a mesma história e plot, mas escrito por outro autor também não seria igual. É claro que eu já tinha pensado isso lá na oitava série, quando li Dom Casmurro e concluí que não dava para julgar a Capitu sem ouvir a versão dela da história. A questão é que nós sempre estamos presos a apenas um ponto de vita e uma perspectiva.

Talvez seja inútil considerar que lendo um texto da Veja sobre assunto x e um da revista Piauí sobre o mesmo assunto você estará entrando em contato com perspectivas que se opõem/se complementam. Talvez elas nem possuam a mesma base epistêmica no fim das contas, pertencendo a categorias diferentes e como eu aprendi – se é que aprendi alguma coisa – categorias diferentes são incomparáveis (tendo a acreditar que tudo o seja).  A elucidação em questão é: talvez textos sejam incomparáveis. Talvez a gente seja absurdamente malvado em considerar que autor tal é ruim porque escreveu tal coisa, vai ver foi só um dia ruim, com palavras mal colocadas e na verdade ele seja uma pessoa incrível. Talvez não seja possível julgar as pessoas pelo que elas escrevem e, se for parar para pensar, é disso que se trata toda a base da minha futura profissão.

Primeiro a gente fala sobre um determinado grupo de pessoas. Sob o nosso olhar. A nossa perspectiva já infectada pela nossa cultura (tão vã quanto a ideia de um jornalismo neutro é a de que é possível abster-se de sua própria cultura no exercício de tentar elucidar a do outro). Depois a gente escreve tudo aquilo que depreendemos desse nosso olhar, já infectado, inventado e de certa maneira falso. Depois a gente pega aquilo que a gente observou, depreendeu e escreveu e relaciona com outras coisas que outros autores já escreveram sobre fatores semelhantes àqueles que nós encontramos. Tais escritas, por sua vez, já infectadas pela perspectiva unilinear daquele autor utilizado. No máximo o nosso texto se torna um jogo de cintura entre perspectivas diferentes de pessoas que intentam o mesmo fim, mas como saberemos que a interpretação que fizemos da perspectiva daquele autor estava correta?

Do mesmo modo que não sou capaz de inferir que Machado de Assis escreveu Dom Casmurro com a certeza absoluta de que Capitu era fiel e Bentinho insano, não posso sair por aí afirmando que autor x, por ter escrito frase y, quis dar-se a entender z. A interpretação, por si só, é algo muito subjetivo, que também envolve o meu próprio modo de enxergar as coisas. É por isso que eu acho absurdo o fato de alguns professores darem notas ruins para interpretações/relações textuais, quem são eles para dizer que penso errado, só porque penso diferente de um padrão estabelecido sabe-se lá por quem e que eles decidiram seguir?

Acho que se o sistema castra o nosso pensamento, não conseguimos produzir coisas inovadoras – que é justamente o que o sistema quer que façamos. Logo, eu não sei o que fazer. As vezes penso em escrever o óbvio. As vezes penso em ficar em casa dormindo. As vezes penso em rir da cara da humanidade e escrever que é muito mais inteligente que a povoação tenha ocorrido na época da Pangeia enquanto eles podiam caminhar entre os continentes do que depois, quando tinham que esperar a água baixar para passar da China pro Alasca. A minha lógica está errada? Prove-me. Ou reprove-me. Infelizmente, a burocracia ainda me domina.

Pois é, tem uma barra numa página branca que insiste em piscar querendo dizer “preencha-me”, já consciente da armadilha da cilada iminente. Eu realmente adoro estudar.

P.S.: Gravei um vídeo novo!