Puzzle

Se minha vida tem um lema é o do não sufocamento. Nem é algo que inventei ou que me forcei a crer em, simplesmente aconteceu. Morar em quatro cidades diferentes até os dez anos e estudar em oito escolas diferentes até os doze fez de mim uma pessoa efêmera. Daquelas que passa pela vida das pessoas, mas raramente permanece.

Não sou de estabelecer laços fortes com os outros, sempre que vejo que me entreguei demais vou logo me afastando. A ideia de que alguém além de mim vai ter mais controle sobre a minha vida ou o meu ser do que eu mesma me angustia. E sim, eu sei que não tenho controle sob muitos aspectos da minha vida, seja porque devo obedecer à uma constituição, ou pelo simples fato de ter pais e morar com eles. Sempre gpstei de pensar como quiser e de poder agir por conta própria.

Minhas amizades mais duradouras contam agora sete anos e eu realmente não sei como ainda sou amiga de tais pessoas, a gente cresceu tanto, mudou tanto, mas passou por tanto junto que alcançamos um status quo de conhecimento mútuo e compreensão incapaz de desaparecer. Só que uma não manda na outra, não influi em nada na vida da outra, a gente conversa sobre o que quer quando quer e se vê quando dá, sabendo sempre que quando precisarmos a outra estará ali, sabendo que a gente se ama.

Acho que essa é a diferença: saber que se ama.

Porque quando a gente sabe que ama alguém não precisa ficar dizendo isso toda hora ou marcando presença na vida da pessoa o tempo inteiro, quando a gente tem uma importância mútua a relação torna-se tão necessária que o rompimento é praticamente impensável.

Eu sinto falta de me importar com pessoas novas. De conseguir imaginar um futuro distante em que nós estaremos comprando sabão em pó no supermercado e discutindo qual marca é mais eficaz.

Meus laços afetivos andam muito fracos. Não consigo mais criar um elo duradouro e eficaz. Começo tudo prevendo como será o fim e encaminho as ações para que esse fim de fato ocorra.

Por mais feliz e realizada que eu esteja com o efêmero, sinto falta da sensação de eternidade, do preenchimento que ela causa. Tudo anda muito superficial e eu me conheço o suficiente pra saber que uma hora o raso me cansa e quando não consigo mergulhar, simplesmente procuro outras águas. Sei que, querendo ou não, a história termina com eu reclamando por não saber me relacionar com pessoas.

Não consigo ser sincera ou permissiva. Não consigo abrir-me e permitir que os outros conheçam o meu todo. Apresento pequenas partes de mim para as pessoas e ninguém consegue juntar minhas peças. Sou um quebra-cabeça insolúvel. E sustentar todas essas máscaras me cansa as vezes. E eu queria que alguém me solucionasse e mostrasse a saída para este grande labirinto em que me encontro.

Outras vezes eu penso no quão legal deve ser a normalidade. Os anseios comuns. O desejar um namorado que vire seu marido e te dê filhos, um emprego de sucesso e uma casa de campo com cachorros no quintal e um belo jardim. Mas não consigo me imaginar presa a pessoas, empregos ou qualquer coisa. Sou aquele filho que cresce, vira pássaro, quer voar e não se contenta com uma gaiola, mesmo que seja grande.

Não quero uma vida comum, não quero ter pensar na minha vida, planejá-la, quero apenas deixá-la acontecer, dia após dia, como uma grande odisseia.

Prevejo anos de anseios, angústias, questionamentos, decepções, buscas, aceitações e peças e mais peças espalhadas em lugares indevidos à espera de alguém que se digne a juntá-las sem que se assuste demasiadamente.

Por que é que as pessoas não simplesmente dançam?

Cansada dessa vida repleta de gente séria demais que não sabe aproveitar a efemeridade das coisas.

Sendo gente.

Há algum tempo eu vi um curta metragem  absolutamente genial que se passa num futuro distante em que as bonecas infláveis são mais versáteis. Assim sendo, um camarada vai lá e compra a sua. Só que elas não são vendidas por inteiro, mas sim em pedaços e o primeiro pedaço que ele compra, claro, é a região busto-abdômen. Berni, o camarada, diverte-se horrores com a tal parte, tendo em vista que ela não pensa, não se movimenta, está só ali disponível para “servi-lo” o tempo que for necessário. Mas ele não se contenta e quer mais. Trabalha como um condenado e aos poucos vai comprando as partes restantes para completar sua boneca. Por ser uma boneca, logicamente, Berni pode escolher as pernas que a deixam mais bonita, os braços que o agradam mais e assim pode personificar a mulher de seus sonhos. Até que ele resolve comprar a cabeça, a parte final. A mais cara, mais difícil de ser elaborada e também a que causa mais danos para o coitado Berni. Porque no segundo em que ele coloca a cabeça na boneca, ela se lembra de tudo que passou, da maneira como foi usada, de como sua vida foi péssima porque sempre foi limitada à servidão sexual para um babaca. Ela se lembra que ganhou braços só porque ele queria roupas passadas e que nunca fora algo além de um objeto. Então ela abandona Berni e ele fica chateadíssimo porque desperdiçou todo este tempo e dinheiro com uma boneca que fugiu.

Este filme tem menos de dez minutos, mas causou em mim pensamentos que vários dos filmes com mais de duas horas que eu já assisti jamais seriam capazes. Não consigo rever este curta sem me sentir mal. Angustiada, enojada, repulsiva. E não é porque eu ache que algum dia vão inventar uma boneca que seja capaz de substituir uma mulher. Porque nem tem como isso acontecer, porque mulher nunca foi e nunca será apenas um objeto. Sempre fomos mais do que isto. O que me incomoda no filme é pensar que mesmo não sendo bonecas, mesmo sendo de carne e osso, há mulheres que são tratadas e que vivem exatamente como a boneca do Berni. Há mulheres que são usadas para objetivos sexuais e para limpar a casa, como se só servissem pra isso. Mulheres que nunca podem abrir a boca, porque sequer passa na cabeça dos outros que ela pode ter algo a falar que não seja sobre futilidades. Há mulheres que ficam em casa para organizar a vida de seus maridos executivos e há mulheres que trabalham como condenadas para ganharem menos que estes tais executivos e quando chegam em casa ainda tem que arrumar tudo. Mulheres que acordam e dormem sofrendo, repletas de cosméticos em sua pele e de pensamentos absurdos sobre seu corpo e sua aparência em geral, porque elas não estão no padrão imbuido, porque elas vão morrer sozinhas. Porque elas são feias e, como o único papel da mulher é ser bonita, elas não merecem viver.

Eu cansei. Cansei de todos esses argumentos babacas. Cansei de ver gente que eu conheço e tenho muito apreço por entrando em relacionamentos completamente babacas apenas para cumprir um padrão pré-estabelecido por uma moral ultrapassada que nunca foi repensada. Cansei de ter que dar conselhos porque eu sei que ninguém vai seguir os meus conselhos, porque poucos são os que conseguem ser despreocupados com toda essa neura social que envolve mulheres, homens e relacionamentos. Eu cansei de voltar da faculdade e me deparar com gente na rua dizendo que estou “gostosa” ou entrar no facebook e ter que ouvir que “tal roupa te deixou uma delícia”. Cansei mais ainda de ouvir gente dizendo que eu me incomodo não com a palavra, mas com quem a disse. Porque, segundo estas pessoas, se fosse uma pessoa por quem eu tenho algum tipo de atração que viesse me dizer que estou “gostosa” eu não ia ligar. É claro que eu ligo! Porque é um absurdo que as pessoas achem que eu escolho as minhas roupas com o intuito de parecer algo para alguém. É um absurdo ainda maior acharem que só porque fico bonita com aquela roupa estou emanando sinais de “vamos nos agarrar”. É só uma roupa. É só um cabelo. Sou só eu. E eu não sou só essas coisas, embora seja também elas.

Eu queria que o mundo entendesse que nós mulheres não temos a obrigação de parecer lindas e perfeitas e que se parecemos não é porque vocês quiseram e sim porque nós quisemos. Queria que entendessem que se estou bonita, ótimo, mas isso não te dá o direito de falar de mim como se eu fosse uma boneca que se aprumou para ser utilizada sexualmente. Queria que entendessem que eu tenho o direito de não querer casar virgem e de fazer o que quiser, quando quiser até neste aspecto da minha vida. Queria que entendessem que eu tenho voz, que eu penso, que não sou um objeto comparável com outros objetos. Queria que entendessem que não dá mais pra tratar questões sérias como o aborto baseando-se em princípios puramente religiosos. Queria que entendessem que mulher nenhuma é culpada por sofrer algum tipo de abuso, porque num mundo perfeito cometer abuso sequer passaria na cabeça dos homens. Queria que entendessem que gosto de exercer meu poder de escolha e minha liberdade e que não me sinto nenhum pouco obrigada a ser afável com gente que me irrita por ter atitudes babacas. Queria que entendessem que meu mundo perfeito seria um mundo em que eu pudesse andar com a roupa que me deixasse mais bonita por aí sem medo de que algo ruim me acontecesse por isso. Sem ter que forçar sorrisos amarelos para cada “elogio” ouvido. Queria que entendessem de uma vez por todas que o problema existente, a tal dominação do masculino sobre o feminino, já ultrapassou os limites do tempo espaço. Já passou da hora de acabar. Queria que entendessem que eu não aguento mais ver estes conceitos reproduzidos em cada um dos filmes, livros, seriados e relacionamentos que me deparo por aí. Queria que entendessem que eu sempre quis ser tudo na minha vida, mas nunca, jamais, sob hipótese alguma, submeter-me-ei a ser algo semelhante à boneca deste vídeo.

E desta vez nem é porque sou um alien, é porque sou mulher mesmo. Uma mulher que sonha em ser tratada como gente.

Sempre esteve ali, mas eu não via.

Meu nome é Mayra, tenho dezoito anos e moro em Curitiba –  duas quadras da Rua XV de Novembro – há sete. Apesar da proximidade geográfica e das necessidades da vida urbana que me fizeram caminhar pelas quadras lotadas do calçadão diversas vezes durante todo este tempo, somente hoje, dia três de junho de dois mil e treze, eu realmente conheci aquele lugar. Não é que eu não saiba exatamente onde fica cada uma das lojas, a história da rua, as razões para ter um bondinho de leitura, prédios antigos e a chamada “boca maldita”. Não é que eu não saiba que a fila do sorvete do Mc Donalds vai estar lotada mesmo quando estiver zero grau e que sempre haverá um grupo de punks bebendo perto da fonte, em seguida um grupo de hippies fazendo artesanatos de arame e tentando vendê-los, estátuas vivas, o Plá, barracas de diversos movimentos sociais, caricaturistas e desenhistas, músicos, deficientes, bêbados, drogados, artistas de rua com performances incríveis, o Sombra, às vezes o Oil Man, a Emília e um grupo de velhinhos discutindo sobre política. Eu sei de tudo isso. Consigo dizer os lugares em que cada uma dessas coisas fica, mas eu nunca as tinha observado, visto ou experienciado da maneira como fiz hoje. Sempre fui mais uma na multidão. Mais uma das que tem uma vida para seguir em frente e que não apreciam a rua, simplesmente passam por ela. Sempre tentando bater meus próprios recordes – por enquanto o máximo que consegui foi 10min da Praça Osório até a Santos Andrade. Sempre fui mais uma das pessoas atarefadas que aproveitam o fato de ali não haver carros para andar mais rápido e também daquelas que recorre à honorável rua para qualquer tipo de compra emergencial. Eu nunca vivi a XV. Até hoje.

Hoje eu resolvi flanar. Fracassei. É impossível para mim cogitar a hipótese de simplesmente andar por uma rua sem um objetivo em mente, sem saber para onde estou indo e porquê. Eu não sei flanar, mesmo quando me esforço. E sabendo que seria impossível ficar tentando, impus um objetivo: experimentar. Então eu resolvi que dessa vez ia atravessar a rua em, no mínimo, meia hora. Decidi que ia prestar atenção em cada um dos prédios e, principalmente, em cada uma das pessoas. Que ia parar para responder qualquer um que viesse falar comigo, inclusive correndo o risco de ter que gastar meu dinheiro para cumprir essa promessa. O objetivo, claro, era conseguir fazer um bom relato depois. Tentar mensurar em palavras uma realidade complexa, algo que é sempre muito questionado e que tem poucas chances de ser feito com sucesso. Tentarei.

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Entrei na rua pela esquina com a Muricy e fui imediatamente tentando perceber as pessoas. Imitei o modo de caminhar de algumas, mas elas não perceberam. Deparei-me com três anões que não estavam juntos e muito provavelmente nem se conheciam, mas andavam perto um do outro. Vi duas senhorinhas de mãos dadas escolhendo coisas em uma loja e uma moça reclamando que o namorado ainda não fazia ideia do que lhe dar de presente. Vi três pessoas falando no celular, sendo que uma delas o fazia por bluetooth e assim parecia estar falando sozinha, e ela estava irritada. Havia um par de gentes estranha, ou seja, gente que eu imaginaria em qualquer lugar, menos na XV. Vi gente esnobe se assustando com a estátua viva e um entregador de água derrubando um galão cheio. Vi todas as pessoas da rua pararem o que estavam fazendo para encarar o menino que derrubou o galão, como se aquilo fosse um absurdo, um acidente urbano. Vi polícia e vi redes de televisão entrevistando pessoas. Vi um perfomista que estava se preparando para iniciar um espetáculo e tinha acabado de largar uma mão no chão e falar um monte de coisas incompreensíveis para ela. Uma punk veio até mim, entregar-me um zine e pedir uma contribuição para que ela vá a Porto Alegre fazer alguma coisa da qual não me recordo e eu dei algumas moedinhas. Em troca ganhei um lindo poema. Mais adiante conheci o Doende do Asfalto, um rapaz simpático que se ofereceu para fazer o meu nome em arames. Não me aguentei e comecei a conversar com ele, descobri que ele mora em um hotel e que o que ganha é suficiente para se manter. Ele viaja pela América Latina expondo sua arte e também para dentro do país. Ele era meio arredio, a cada frase que falava já ia logo dizendo algo como “relaxa, não aprendi isso na cadeia” ou “pode encostar em mim, eu não mordo” e eu tinha apenas perguntado onde ele havia aprendido sua arte e dado um aperto de mão. Mas ele era legal, disse para eu voltar lá porque ele quer fazer dreads no meu cabelo e falou coisas bonitas para mim, além de explicar o significado de cada uma das partes da arte que estava fazendo.

Vi mãe dando cigarro para uma filha criança. Gari limpando a calçada e sendo empurrado porque ele estava “atrapalhando a passagem”. Pai discutir com filha sobre que tipo de corte era aquele presente na roupa recém-comprada. Óticas entregando folhetos de propaganda. Leão Brasil gritando. Vi gente das mais diversas tribos urbanas, todos ali, convivendo no mesmo lugar. Vi apressados, desajeitados, elegantes, cafonas, gordos, magros, enfim, todo tipo de gente. Vi que mesmo vivendo em uma sociedade individualista, em que cada um conversa com gente que mora do outro lado do mundo, mas não conhece o próprio vizinho, que a alta tecnologia roubou o espaço da maior parte das relações afetivas e que o ar condicionado roubou o cheiro do ar puro na maior parte dos ambientes, ainda é possível saborear a rua. Ainda é possível sentir cheiros diferentes em cada passo, olhar coisas inesperadas e aprender o infinito com algo que sempre esteve ali.

No fim, concluí que mesmo sendo apenas mais uma na multidão, ao invés de eu apenas cumprir meu papel social posso sorrir e aproveitar o que a cidade tem a me oferecer. Posso pensar e sentir. Posso flanar mesmo não sendo desocupada. Posso causar estranhamento e estranhar-me com uma simples caminhada por uma rua próxima à minha casa. Eu posso tanta coisa. A gente pode tanta coisa. E mesmo assim desperdiçamos grande parte da nossa finita vida com atitudes mecanizadas que nos fazem ser quase meros autômatos.

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E foi assim, andando por um lugar que sempre esteve ali em um dia qualquer, que eu mudei a minha vida.

Finally December!

Dezembro é o terceiro melhor mês do ano, claro, porque o primeiro é o do meu aniversário e o segundo é Outubro. A Dezembro é reservado o terceiro lugar, a medalha de bronze do pódio, e simplesmente porque, além do maravilhoso cheiro de mágica que o natal emana em todos os lugares, Dezembro também emana finalizações, conclusões que encadeiam-se em… recomeços. E eu adoro recomeços, adoro mudanças, então, adoro Dezembro.

Semana passada propus um meme de fim de ano e hoje é o primeiro dia que posto algo nele. Preciso confessar que tenho uma to do list de posts e a cada dia que passa ela fica maior, mas eu não tenho tido tempo ou paciência para vir aqui e concretizar em uma tela em branco tudo aquilo que minha cabeça passou horas e horas planejando. Só que eu gosto de cumprir o que eu prometo e, só por isso, criei coragem para vir escrever isso hoje. Porque dois mil e doze começou bom e, bem, ele tem que terminar assim. Começou bom porque no dia 04/01 eu descobri que havia passado no vestibular, atingido o objetivo que uma sociedade, mais que isso, uma cultura, tinha implantado em minha mente desde que me entendo por gente. E eu sou grata por isso. Grata por ter, pela primeira vez na vida, provado a mim mesma que sou sim capaz de fazer algo que os outros esperam que eu faça, mesmo que eu não veja sentido ou importância naquilo e que, sim, é possível passar nessa provinha superestimada sem se esforçar muito, desde que você queira muito. E eu quis. Eu quis muito. Com todas as forças. Porque muito mais do que ir para um lugar aprender uma profissão, eu queria ir para um outro lugar, com pessoas melhores e mais legais, que fossem capazes de pensar mais parecido comigo e com o que eu concordo e, bem, o vestibular me proporcionou isso, a aprovação me proporcionou isso, a faculdade me proporciona isso todos os dias. Seria uma completa burrice não agradecer por isso ter ocorrido.

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Se tem outra coisa que eu tenho que agradecer que ocorreu neste ano foi o episódio de Maio. Tenho que agradecer – e muito – por todos os resultados positivos que vieram a nós em forma de um sofrimento tão grande e intenso. Porque é difícil, muito difícil, a gente fraqueja, chora, acha que os céus nos odeiam e que sequer deveríamos ter nascido, mas a verdade é que todo sofrimento proporciona coisas boas de alguma maneira. Todo sofrimento gera um saldo positivo e eu não poderia estar mais grata pelo enorme saldo positivo que o maior sofrimento da minha vida causou. Foi o maior sofrimento, mas gerou a maior alegria. A realização do maior e mais intenso sonho que eu já tive na vida, o sonho que me fez ser capaz de ajoelhar-me todas as noites implorando para o papai do céu realizar. Ele realizou. Ele sempre realiza, eu é que demoro pra perceber porque fico com esses ceticismos bestas. Mas a verdade é que em momentos de sofrimento profundo percebemos que ele está lá, não nos abandonou, mesmo que a gente tenha implorado um milhão de vezes para que ele o faça, mesmo que a gente o tenha negado diversas vezes, ele está sempre lá e ele sempre, sempre, sempre faz o que é melhor para nós. Obrigada.

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Por fim, preciso agradecer por ter finalmente pintado o meu cabelo. Quem me conhece sabe o quanto eu esperei e sonhei com isso, o quanto eu quis isso, o quanto eu falava pra todo mundo que eu acabava de conhecer que um dia pintaria meu cabelo de todas as cores. Esse ano eu tive diversos tipos de felicidade diferentes, desencadeadas por coisas diferentes, mas, com certeza, uma das melhores sensações de todas foi sair do salão, cabelo ao vento, ele batendo na minha cara e eu percebendo a cada segundo que não, ele nào era mais marrom, ele era roxo. E ver a cara de todas as pessoas que passavam por mim olhando como se eu fosse um monstro. E eu não me senti estranha ou anormal, nào me senti da mesma maneira que me sentiria caso andasse com um pinico na cabeça, eu me senti feliz, me senti eu, só consigo descrever dizendo que me senti INFINITA, porque foi isso. Porque aquela cor, aquele ato, aquele dinheiro, significaram para mim infimamente mais do que qualquer um poderia imaginar simplesmente passando por mim na rua. Foi mágico. E nem foi em Dezembro!

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Eu sabia que 2012 ia ser mágico pela maneira como 2011 tinha acabado, eu encerrei vários ciclos e de quebra tive o melhor fim de ano da minha vida, tirando a parte da chatíssima missa de três horas, claro. O fato é que estava tão badalada a minha vida no momento que sequer pensei em planos para o futuro, só que, no começo de 2011 eu fiz um curso de orientação vocacional e a tarefa final era escrever uma carta para você receber dali a um ano e eu o fiz. E recebi minha carta esse ano. E ela era repleta de pretensões para o meu eu do futuro. Segundo a carta, eu sou uma pessoa chata que planeja o bem dos outros, ou seja, queria que minha mãe estivesse bem, que meu irmão estivesse feliz, que meu pai estivesse mais satisfeito consigo mesmo, mas não deixei de planejar uns amigos de universidade interessantes e de imaginar que estaria muito mais rica com o dinheiro economizado da escola particular, fazendo curso de francês, alemão, guitarra e teatro. Digo ainda que começarei a trabalhar em Julho, nem que seja sendo manicure. Enfim, uma carta hilária que prova que eu sou absolutamente péssima com previsões. Quanto à minha família, as pretensões basicamente se realizaram e quanto aos amigos da universidade também, tendo em vista que estou muito satisfeita com eles e não poderia ter imaginaro amigos melhores. O dinheiro economizado da escola foi gasto com a reforma da casa, agora meu quarto é branco, tenho uma estante de livros, uma sala bonita com um sofá que deita e o quarto dos meus pais tem móveis novos. Não faço nenhum curso extra-curricular, além da academia que meu médico me obrigou a começar e que vou morrendo quase todos os dias. Não comecei a trabalhar, mas confesso que tentei, o negócio é que, aparentemente, não sou apta a emprego nenhum, somente a bolsas universitárias, que consegui duas e tive que optar por apenas uma, é uma espécie de emprego, mas não garante que eu me aposente antes dos cinquenta anos. Quanto aos outros planos que eu poderia ter, como ler todos os livros que comprei, vai quase todo realizado, faltam uns 8 ainda, não vou conseguir até o fim do ano, mas bem que posso tentar. Lembro que também planejei não comprar nenhum esmalte até usar todos os que eu tinha e essa, meus caros, foi a minha maior realização! Consegui fazer isso e sou extremamente orgulhosa da minha pessoa por tal fato. No mais, continuo igual e os planos continuam intocados, se é que foram feitos, anotados ou lembrados por mim em algum momento.

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Quanto ao ano que virá, estou completamente sem expectativas. Tirando o Rock in Rio de Setembro, acho que nada de útil está por vir, pelo menos nada que possa ser planejado e, assim sendo, não vejo como posso me preparar para o imprevisível então não há nada que eu possa fazer para que ele chegue a mim sem um baque muito grande em meu pobre coraçãozinho! Só espero que ele seja tão legal quanto 2012, embora isso seja difícil, pois os anos pares são os melhores do mundo, afinal, foi em um deles que eu nasci!

Bem, até domingo que vem com a segunda parte do meu diário de bordo de 2012!

Grão de Areia

(Daqueles textos que ninguém deveria perder tempo lendo)

Pela primeira vez eu realmente pensei em apagar este espaço. Não consigo. No momento é a única coisa da minha vida virtual que eu não me desvencilharia de maneira alguma. A questão é que não é por eu achá-lo espetacular, por acreditar ser ele capaz de mudar algo em alguém, por gostar das minhas palavras ou sequer pela necessidade de continuar em escrevê-las, é simplesmente pelo fato de que foi a única coisa por mim feita capaz de me causar algum tipo de orgulho em algum momento.

Estamos em época de Olimpíadas e eu sempre digo para os meus pais que tenho sorte de ter nascido brasileira, pois se eu fosse chinesa já teria me matado. Simplesmente pelo fato de que eu não suportaria tanta pressão. Pressão para ser o melhor, sempre, em todos os quesitos e em todos os âmbitos. Não que eu não saiba lidar com a pressão, é que eu não preciso dela. Sou uma pessoa que naturalmente se cobra muito em relação a tudo, daquelas que tudo que faz acha que poderia ter sido melhor e que nunca fez o suficiente, que sempre pode melhorar, se eu fosse criada na China seria insuportável, não que eu brasileira seja muito melhor que isso, pelo menos tenho aprendido a me controlar… Tenho tentado mudar muitas coisas na minha pessoa, mudar para melhor, melhorar.  a principal delas é a dependência à internet.  Achava que seria um esforço enfadonho ficar menos tempo online, mas estou me saindo bem… A internet tem perdido a graça para mim, nunca achei que chegaria a esse ponto da minha vida, mas acho que cheguei. Pensei em apagar o espaço principalmente pelo fato de ele ser online e de eu ter preguiça de ligar o computador e ficar loucamente correndo meus dedos por teclas e mais teclas para dizer palavras repetidas e sem sentido. De fato, se eu fosse uma exímia escritora não haveria o menor problema, mas nem isso tenho conseguido ser. Na verdade, creio jamais ter sido, apenas sonhei que fui, como sempre.

Sofri muito na escola, principalmente no Ensino Médio, o velho bullying de todo dia nem era o pior, o pior era a tortura psicológica que eu fazia em mim mesma, dia após dia, até que, sabe-se lá porque, a tortura esvaiu-se de meu ser e virei a retardada que vos fala. A principal conclusão dos últimos dias foi essa: sou retardada e quanto a isso recuso discussões. Enfim. Em minha retardadice sempre fui mestre em fazer as pessoas me odiarem, creio que além dos que considero amigos – que são poucos – todos os outros com os quais estudei não gostam de mim. Não os culpo, logicamente, mas enfim. Meu principal desafeto ensinomediano certa vez olhou aos meus olhos no ápice de uma discussão e me acusou de ser uma “retardada que não vai ser ninguém na vida porque vive no mundo dos sonhos e não se preocupa com a realidade”, após ouvir essas palavras meus olhos se encheram de lágrimas e eu corri para chorar no banheiro. Foi a única vez na minha vida que fiz isso e fiquei tão brava comigo mesma por ter deixado as palavras daquele ser me atingirem que não sei se chorei pelas palavras ou por minha braveza mesmo. Não esqueci a frase e sempre que estou revoltada com algo me lembro da cena e começo a matutar em cima do que me foi dito. Porque quando verdades são ditas elas doem e a gente nem percebe a razão, simplesmente sente. Não me conformo com o fato de ter deixado as coisas chegarem a esse ponto. Sim eu sempre sonhei. Sim eu sempre vi vários filmes. Sim eu sempre me imaginei vivendo todos, mas eu também sempre estudei e batalhei para conseguir resultados reais capazes de fazer com que pessoas reais se orgulhassem de mim, não consigo lembrar onde foi que eu desisti dessa segunda parte.

Voltei pra fisioterapia recentemente depois de dois anos e meio de abstinência, eu estava indo bem, mas viciei-me no maldito computador e ele danificou os tendões do meu braço mais do que o lápis previamente havia feito. Mais uma razão para tentar me afastar. Com a volta da fisioterapia obriguei-me a relembrar minha primeira tendinite: catorze anos, overdose de escrita. Eu tinha seis cadernos com textos, mais uma carta quilométrica em processo de criação, meu diário e as redações da escola feitas dez vezes antes da versão definitiva para ter certeza de que tudo ia bem. Ai que saudades das redações escolares, acho que eram a única maneira de me fazer escrever algo útil. Hoje eu pego um lápis para tentar escrever uma carta e só sai futilidade atrás de futilidade acrescida de uma terrível letra que a cada ano piora um pouco mais – enquanto, obviamente, a velocidade de digitação aumenta. Eu penso em todos os blogs que eu tive, em todos que eu tenho, penso no fato de ter conseguido fazer um sobreviver por mais de dois anos sem grandes espaços de tempo ausente de atualizações e isso me é de muito orgulho, só por isso ainda não desisti.

Porque eu sou uma desistente. Sou aquela que começou curso de todas as coisas legais possíveis, entrou em todos os projetos legais possíveis, prometeu todas as coisas que conseguiu mas sempre absolutamente sempre sentiu-se sufocada e pediu para sair. Nunca concluí algo na minha vida, aliás, o teatro vem sido a minha mais forte esperança – falta só um ano! Eu desisti da natação quando tinha oito anos, resolvi mudar pra hidroterapia, desisti da hidroterapia com dez e voltei pra natação, desisti dela de novo e voltei pra hidro, então voltei pra natação e desisti de vez aos treze anos. Desisti do inglês, desisti da guitarra, desisti do espanhol, da Avon, das… Quantas mesmo? Ah sim! SETE escolas, desisti dos meus amigos, dos meus amores, dos meus pretendentes, de odiar e de amar, de experimentar coisas novas, de comer coisas diferentes, de abandonar o chocolate e enfim de fazer absolutamente tudo que tive vontade, não por duvidar da vontade, mas sim por não ter certeza de que seria o correto. Porque eu não quero desperdiçar tempo e energia fazendo algo para  só depois de terminar descobrir que não era para mim. Hoje além de desistente sou indecisa, pois além de tudo e pior que tudo, não faço ideia de quem sou como estou ou para onde pretendo ir. Não tenho mais meta ou sequer uma direção. Não sei se vou ser cantora ou prostituta, esposa ou amante, delegada ou parteira, não tenho sabido mais de nada. Tenho andado mais insuportável do que música de político, a ponto de nem eu me aguentar mais, tenho falhado em absolutamente tudo e deixado de ter vontade de fazer absolutamente tudo, tenho simplesmente existido e nada mais. Estamos em época de Olimpíadas e ao invés de eu sentar e curtir calmamente sento e curto morrendo de inveja de cada uma daquelas pessoas por terem tido força para lutar por seus objetivos e antes disso, sapiência para saber quais eram eles.

Eu sou apenas um reles mortal, uma metamorfose ambulante, uma das que queria ser heroína, mas não faz ideia de qual é o problema ou como consertá-lo. Sou apenas um grão de areia, daqueles que sozinho não serve pra nada, que é igual a todos os outros e que a multidão nem se dá conta da existência. Sou apenas mais uma sonhadora sem espaço nesse mundo de realidades infames. Ou não.