Onde foi parar?

Cresci com um pai ouvindo Raul Seixas 24h por dia enquanto minha mãe ligava o som na cozinha com Martinho da Vila para tentar competir. Meu irmão foi um interminável apaixonado por Metal e eu sempre jurei a mim mesma que seria a diferentosa da família, a Ovelha Negra. Sempre jurei que seria aquela que ia gostar das coisas da moda e ponto final. Então eu descobri que Ovelha Negra na verdade era uma música de uma senhora que canta desde que tinha cerca de dezenove anos e que é conhecida como a “Rainha do Rock Nacional”. Descobri que de Negra eu não tinha nada, ovelha talvez quem sabe, mas certamente sou da mesma laia que o resto da família. Foi assim que eu me apaixonei por Foo Fighters, CPM22, The Strokes e vários outros logo depois que Sandy&Junior resolveram se separar. Depois de Sandy&Junior acabei rendendo-me por inteiro a esse ritmo maravilhoso.

Os anos foram passando e eu descobri que as minhas bandas realmente favoritas ou não existiam mais porque tinham brigado ou porque algum membro fundamental fatalmente havia falecido e assim sendo eu sempre fui órfã de bandas preferidas vivas. Eu escuto coisas de trinta, vinte, dez anos atrás, mas infelizmente, tenho uma dificuldade incrível de gostar de bandas de hoje em dia, que estão criando ainda, que são novas, vivas e vibrantes o suficientes para lotarem um Maracanã inteiro de fãs alucinados. Não consigo ser fã alucinada de algo vivo. Isso me estressa. Muito. Porém, caros colegas, percebi que a dificuldade não está somente na minha pessoa. Ultimamente os shows lotadores de Maracanã são estrelados por alguém de outro país, os grande shows são de gente de outro país. Os festivais de música do Brasil são recheados por gente de outros países. Porque o Brasil basicamente só sabe fazer sertanejo, pagode, mpb (porque nem bossa nova sai mais), aquela coisa que restart faz e diz ser rock, está evoluindo no pop, o axé só funciona no carnaval, o funk só no Rio de Janeiro e o rock, bem… O rock nem existe.

Não estou desmerecendo as bandas atuais, não mesmo. A questão é que se a gente parar para ouvir algo atual deparamo-nos com coisas mais emotivas, lentas, com poucas guitarras, solos e gritaria, com pouca revolução na letra, com pouca essência roqueira, se é que isso existe. Nem Rita Lee faz mais rock. Outro dia, inclusive, surpreendi-me ao saber que Roberto Carlos ficou famoso por fazer rock, se o que ele faz atualmente ainda é considerado rock o povo daqui tem SÉRIOS problemas de identificação musical. Há uma exceção no ramo, que se perde diversas vezes e me irrita em inúmeras ocasiões, mas que as vezes ainda faz eu lembrar que talvez haja uma chance pro rock nacional, essa “esperança” é a Pitty. Pra mim é a única ainda roqueira aqui. Os caras do Fresno até tentaram, eu realmente gosto de algumas músicas deles, mas não acho que aquilo seja rock, pode ser qualquer outra coisa menos rock, assim como Nx0 e todas essas outras bandas que eu sequer sei o nome.

O que me irrita, porém, é que as pessoas que se dizem roqueiras na maioria das vezes nem parou pra pensar que existe um rock daqui, do nosso país. Que as terras verde-e-amarelas, mesmo que falhem nisso atualmente, um dia já souberam fazer rock’n roll e dos bons. Eu prefiro proclamar para o mundo que adoro bandas mortas e que choro por nunca poder ir a um show dos meus queridos do que viver sem sequer saber que eles existiram. O Brasil foi muito bom em rock e é isso que quero provar aqui. Fiz uma mixtape com 14 bandas e músicas que eu acho que representam o nosso rock. Faltaram VÁRIAS bandas/cantores e eu peço perdão por isso, porém se eu fosse colocar todos acabaria eternizando a lista. Vale ressaltar que eu fui a um show do Ultraje a Rigor ano passado e foi tão emocionante que eu nem sou capaz de descrever, ainda pretendo ver Pitty e Sepultura ao vivo e a cores e sempre chorarei por Cazuza, Legião, Mamonas, Raimundos e Raul.

Eu já pensei em ter uma dupla de bossa nova, pra ser o novo “Toquinho e Vinícius” porque acho que o Brasil realmente precisa reavivar a bossa nova, não dá pra inventar uma coisa TÃO legal e simplesmente jogá-la fora assim e também já pensei em arranjar uns amigos espertos e fazer uma banda de rock. O problema para os dois empreendimentos consiste no fato de que eu não tenho nenhum talento musical, mas se alguém algum dia fizer decentemente alguma dessas coisas, por favor me passe o trabalho que eu com certeza apreciarei. Quanto ao rock, eu acompanho o Trama Virtual que sempre expõe novas bandas e músicas e não desisti da minha busca infindável por um roquenrow brasileiro decente.

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Engenheiros do Havaí (eu sei que o certo é Havaii, mas gosto do acento) é de 1984 representa o rock gaúcho que sempre foi muito importante e decente e sempre desponta novos talentos fantásticos, como o Lucas do Fresno, por exemplo. A música escolhida trata de um tema interessante, tem uma batida agradável e é interessante pelo fato de criticar o pop e as pessoas pops em uma banda que é popular. Eles usam de críticas e ironias fantásticas, são maravilhosos.

Ultraje a Rigor é de 1981 e foi a primeira banda a obter um disco de platina para o rock nacional e o álbum “Nós Vamos Invadir sua Praia” foi considerado pela MTV em 2008 como o melhor álbum de Rock do país. “Inútil” não é minha música preferida da banda, mas eu gosto tanto do cd citado que não consigo eleger a preferida, acabou sendo esta porque a melodia me agrada bastante e a letra é de uma ironia incrível. Eles são capazes de nos fazer gritar em voz alta cada coisa… Roger é um gênio.

O primeiro disco do Houdini é de 2003, não sei de que ano é a banda pois não há quase nada sobre ela na internet. Não sei como a ouvi pela primeira vez, o fato é que era tão viciada em CPM que quando conheci Houdini não teve como não me apaixonar. O cd “Dia de Sorte” só tem músicas legais, nas letras não há apelo político, apenas histórias sendo cantadas mesmo.

Não sei o que comentar sobre Mamonas. Eu lembro de quando eles morreram, foi horrível. Eu tinha cerca de dois anos, mas lembro da imagem do mato com o avião no meio e a notícia de que eles haviam morrido. A gente tinha o cd em casa e sempre ouvia e cantava, eu e meu irmão. Absurdamente divertido. Só há poucos anos foi que entendi o que significava o nome da banda e achei fantástico. Eles eram ótimos porque sabiam fazer piada em forma de música e música legal, divertida mesmo. Não faziam só rock, mas vários ritmos, melodias e estilos e os shows deles deviam ser épicos. Sempre serei triste por não ter podido ver. Escolhi Robocop Gay porque acho ela irônica e hilária demais e os acho corajosos por terem feito uma música dessas – e todas as outras – sem a menor vergonha. Eles eram fantásticos. O legal é que a banda é de 1995 e eles moreram em 1996, durou apenas SETE MESES e todo mundo conhece, todo mundo já ouviu alguma música e enfim, eles venderam mais de TRÊS MILHÕES de cds em sete meses de banda! Ah gente, nem tem o que dizer. Basta.

falei sobre Raul por isso nem me alongarei muito na coisa, só comentarei a música. É uma mistura de uma música de Elvis Presley que ele ouvia e cantava quando era criança, enquanto dançava com “Asa Branca”, que é o hino do Nordeste. Essa música é muito legal porque mostra a capacidade incrível dele de misturar todas as coisas possíveis e ainda fazer músicas geniais, essencialmente rockeiras e divertidas. Raul foi um gênio. Ele era baiano e tocou de 1968 a 1989.

Sobre Cazuza eu confesso não saber muito. Assisti ao filme dele, mas fora o Daniel Oliveira não lembro de mais nada. Comecei a prestar atenção nele depois de ter visto uma peça teatral em que haviam acoplado várias músicas dele para uma espécie de homenagem. Eu não sei nada sobre ele como pessoa, nem sobre ele músico. Só que ele fazia parte do Barão Vermelho e depois começou na carreira solo. Todas as músicas que conheço dele são as famosas, não por desmerecimento, por preguiça mesmo. Se alguém fizesse uma mixtape chamada Cazuza com músicas importantes dele eu certamente me renderia. Carioca e cantor na década de 80/90. “Ideologia” é minha música preferida dele porque a letra é fantástica e o ritmo é muito legal, tem solos de guitarra incríveis e enfim, daquelas que a gente ouve gritando e “entrando na pira”.

CPM22 é de São Paulo e surgiu em 1995 eles cantam hardcore e suas músicas são inspiradas em sentimentos, mas não são emotivas como as do emocore. Eles mantêm a guitarra/bateria/baixo muito vivos e continuam cantando animadamente gritando. As letras contam histórias de vida e a “Tarde de Outubro” era minha preferida na minha infância, acho linda e maravilhosa e sempre recorro a ela quando sinto que estou entrando na fossa, mesmo com Adele e emocore no mundo, porque nada espanta uma fossa melhor que CPM.

Skank é mineiro e surgiu em 1991 cantando rock e depois mudando para diversas coisas. Não gosto muito da banda, mas há várias exceções, logicamente. “É proibido Fumar” foi escrita e cantada pela primeira vez por Roberto Carlos, só que eu não consigo gostar da voz dele, nem de quando ele era novo. Então optei pela versão do Skank mesmo. Essa música é importante pro rock nacional por ter sido uma das primeiras, mas nessa versão tem uns instrumentos esquisitos, acho que falta guitarra, enfim.

Hardneja Sertacore é gaúcha e canta clássicos do sertanejo em ritmo de hard core, acho ela maravilhosa porque eu adoro clássicos do sertanejo, as letras são lindas, só o ritmo que é meloso demais, só que quando todas as metáforas são misturadas com guitarra/bateria/baixo e tom de hard core tudo fica melhor! Acho fantástico. Tenho todo o cd no computador e volta e meia estou escutando que o fio de cabelo comprido ficou grudado no suor e que o moço dormiu no bando da praça etc e tal.

Ira! é paulista também, de 1981 e viveu os tempos de ouro do rock nacional emplacando vários sucessos. “Teorema” é uma música linda que foi gravada por Legião, mas que eu tenho quase certeza que foi escrita pela galera do Ira! mesmo. As letras deles são maravilhosas, o vocal também e o ritmo é aquela coisa gostosinha.

Meninos e Meninas é uma música com temática gay em pleno ano de 1989. Legião Urbana é assim, adora sambar na cara da sociedade, fez isso de 1982 a 1996, parando somente porque Renato Russo morreu. É a minha banda brasileira preferida, não consigo escrever muito sobre porque eu vou logo me inflando de sentimentos e suspiros e inevitavelmente choro. É sentimento demais por aqui, meu povo. Escolhi essa música por ser lá do começo, dum dos meus discos preferidos, ter uma melodia maravilhosa e a letra ser absolutamente divina. O mundo precisava que Legião fosse eterna. Se tem uma morte que eu nunca vou entender é a do Renato, se tem uma doença que eu nunca vou entender é a do Renato. E eu morro de orgulho de dizer que sou Brasiliense por causa deles, porque eles se juntaram lá, porque eles falam da cidade em várias músicas e ah. Legião.

Aí está a outra brasiliense da história, porque a terra do sertanejo um dia foi a terra do rock. Raimundos é de 1987 e misturou rock com todas as coisas possíveis, fez músicas épicas que ficaram na boca do povo por muito tempo e que são famosas inclusive hoje em dia. Eles ainda se apresentam, mas Rodolfo – divo – saiu da banda pra virar protestante e agora canta música gospel e isso é tão cômico que eu não tenho saco pra formação atual da banda e as pessoas que foram no show disseram que nem vale apena porque não é a mesma coisa e tal. “Me Lambe” é aquela música que eu sei de cor desde que me entendo por gente sabe-se lá como, que eu adoro ouvir enquanto estou tomando banho pra fingir que o shampoo é o microfone e cantar endoidecidamente. Fantástico.

Pitty é mais uma prova de que Bahia não é só axé, ela entrou no mundo do rock em 2003 e se tornou sucesso nacional desde seu início, creio eu. Já me decepcionei horrores com ela, mas acho que o último disco voltou um pouco pra essência, gosto bastante. Essa música acho legal porque o título lembra meu livro preferido “Admirável Mundo Novo” e a letra é muito muito muito legal, daquelas rock de verdade. Adoro quando mulheres resolvem abalar as estruturas rockeiras do mundo, porque a gente também consegue. Joan Jett e Janis Joplim são mais que provas disso.

Sepultura surgiu em 1984 e sobrevive até hoje, com uma formação completamente diferente, mas mesmo assim. Eles são a prova de que é possível fazer heavy metal sendo brasileiro, minha crítica consiste no fato de eles não cantarem em português, já dizia Renato Russo que se a gente mora no Brasil e fala português é importante levar isso pra música também, mesmo que eles sejam ótimos em cantorias em inglês e tal. Acho muito legal o álbum em que eles misturam heavy metal com músicas indígenas e adorei a apresentação deles no Rock in Rio do ano passado. Essa música aí pode ser considerada o “bonus track” da história, porque não queria que tivesse algo inteiramente em inglês aqui, mas achei que seria ridículo fingir que Sepultura simplesmente não existe, porque eles existem e são fantásticos. A banda foi formada em Minas Gerais, mas hoje em dia não tem nenhum de seus criadores no elenco e não sei de onde eles dizem ser, mas o cantor nem é brasileiro mais… Absurdo.

Eu sei que o dia do Rock foi semana passada, mas meu calendário é outro. Finjamos que hoje é dia de São Róqui e festejemos!

por mais guitarras e menos pandeiros!

What’s Your Favorite Scary Movie?

Não sou do tipo que cresceu vendo filmes de terror, meu irmão sempre tinha medo de eu me impressionar demais e assim sendo nunca assisti. O primeiro que vi eu tinha doze anos e estava de férias na casa da minha avó, era uma tarde encalorada do Maranhão e fomos na casa de uma prima assistir “Anaconda”, eu quase morri. Mais madura, com quase 14 anos aventurei-me nesse ramo novamente, o alvo da vez chamava-se “Os Mensageiros“, tinha a Kristen Stweart no elenco e um menino que apelidamos de “Menino Aranha” e sempre o usávamos para assustar nossa amiga hater oficial de filmes de terror/suspense. Não me assustei com ele. O primeiro a me colocar medo foi um que tinha uns brinquedos esquisitos, mas não era o filme do Chucky, esse eu nunca vi. Acho que o cerne é esse: Eu nunca vi as grandes franquias de filmes de terror. A única exceção é “Atividade Paranormal”, que eu achava muito sem graça, até estrear o último filme, capaz de me fazer mudar de opinião.

“O Chamado” eu assisti na televisão e ao invés de me assustar, chorei de tristeza morrendo de pena da coitada da Samara, ela é muito incompreendida e sofredora, tadinha. “A Órfã” vi no cinema e foi o melhor filme de terror para mim até eu conhecer Pânico. “Rec” eu só vi o segundo filme e embora seja legal, tem muitas falhas. “O Orfanato” é assustador e tenso, porque envolve crianças e sempre que envolve crianças tudo fica pior. “Sem Vestígios” é intrigante e fantástico. “O Exorcismo de Emily Rose” eu achei super interessante, já “O Exorcista” achei pacato. É enorme e a parte de suspense, que era pra ser assustadora, além de ser mínima, por ser velho o filme torna-se engraçada ao invés de assustadora. Assisti pedaços de “Premonição”, mas achei bobos, sempre quis ver “O grito” mas nunca lembro quando vou à locadora. Sobre o Chuck, Jogos Mortais e todas as outras grandes franquias eu sinceramente mal sei o nome e quando sei não faço ideia do que se  trata.

Então eu ganhei um livro chamado “1001 Filmes para Serem Vistos Antes de Morrer” e eu acho bobagem ter um livro desses se você não tiver o propósito de ver todos os filmes que lá constam, assim sendo, quando soube que dormiria na casa da minha amiga, fui logo preparando nossa lista de filmes, assim sendo pegamos “Pânico”, isso foi há cerca de dois meses e desde que vi o filme estávamos ansiosas para o reencontro, a segunda noite com o restante dos filmes. Assim sendo, na noite passada assisti a “Panico 2”, “Pânico 3” e “Panico 4” e só posso afirmar que mesmo não sendo A mestra dos filmes de terror, essa série é a minha preferida e ignorem o fato de que foi a única por mim vista.

A questão é que não se trata de uma história de serial killer qualquer, no primeiro filme temos apenas o assassinato da mãe de uma garota e um surto de gente louca matando mais gente na mesma cidade, no segundo filme nos deparamos com outro cenário, desta vez a faculdade e lá os mesmos personagens se deparam com uma situação parecida, mais uma série de assassinatos. No terceiro filme – meu preferido – acontece a filmagem da história do massacre do primeiro filme, em uma franquia fictícia chamada “Stab” e acontece um massacre dentro da filmagem, Sidney – a mocinha desde o primeiro filme – acaba tendo que voltar à história, depois de ter se mudado pro meio do mato para evitar que mais gente que ela conhece morresse. No quarto filme, feito 10 anos depois do terceiro, a história se passa 10 anos após a história do terceiro e trata-se da volta de Sidney a sua cidade para o lançamento de seu primeiro livro, o problema é que ela volta na época do aniversário do massacre e nada melhor do que um aniversário para fazer um “remake” da história. Explicando basicamente não se pode compreender a essência do filme, além do fato de ocorrer uma sequência interminável de assassinatos a punhalada, mas eu garanto que vale apena.

É uma franquia incrível que não te deixa morrendo de medo, mas te dá alguns sustos e causa uma tensão horrível em certas partes, que tem a capacidade impressionante de sempre te surpreender, mesmo quando você acha que não há mais o que inventarem, conta com um elenco incrível e a cada filme surgem mais e mais atores conhecidos que você jamais imaginaria em um filme de terror (Emma Roberts, Drew Barrymore e até a Lily de Gossip Girl), faz você realmente gritar em alguns momentos e o que deixa tudo ainda mais divertido é o fato de que eles sabem zoar a eles próprios. O segundo filme começa com uma discussão sobre como sequências tendem a ser piores que o original e elencam um hall de características para as sequências, no terceiro há o clima de “como ocorre o fim de uma trilogia” e então surge o cinéfilo da história que vai contar as possibilidades, o quarto começa com vários finais de “Stab” que depois do terceiro filme virou palhaçada e também encontra o cinéfilo da história. A franquia brinca bastante com as “regras” dos filmes de terror, sempre tentando inová-las, com o intuito de realmente surpreender e pelo menos a mim eles conseguiram. Há uma crítica à frase da Modernidade de que “Filmes e Jogos induzem as pessoas a serem violentas” e você é capaz de sempre rir e se surpreender com a burrice das pessoas que INSISTEM a fazer as coisas mais inusitadas, como entrar num teatro deserto porque ouviu uma música tocar, abrir a porta para consertar um treco de vento sabendo que há um assassino a solta e inúmeras outras milhões de coisas. É aquele filme que é trash e bom ao mesmo tempo, daqueles divertidos e emocionantes de se ver. Daqueles “terror” que valem apena.  E para os fãs de Friends vale dizer que a Mônica é uma das protagonistas!

Enfim, tudo que eu posso dizer é que “My favorite scary movie is Scream 3” e que eu ainda vou ligar pra alguém no meio da madrugada, com um aplicativo de “ghost” instalado no telefone e perguntar para a pessoa isso, só pra ver se ela se assusta.

Gente como a Gente

Logo no início do semestre a turma foi informada de que participaria de uma aula em campo, eu fiquei empolgada com a ideia, pois acredito ser muito importante ver na prática tudo que estudamos em teoria. No início imaginei que visitaríamos uma indústria, que é o foco principal dos trabalhos de Marx, mas fiquei satisfeita quando fomos informados de que iríamos a um assentamento. Meu irmão já tinha ido até lá e me disse que eu iria gostar. Esperava encontrar um lugar pequeno e mal organizado, repleto de gente que não estudou por acreditar que a vida camponesa é que é a correta. Acreditava que eles moravam em barracões e que os banheiros seriam sujos. Hoje vejo que tudo que eu achava previamente sobre o movimento, todos os meus pré-julgamentos e pré-conceitos eram condizentes com a imagem que nos é passada pela mídia a respeito daquelas pessoas tão amáveis e queridas.

A viagem foi demorada, mas não o suficiente para que eu pegasse no sono e foi tanto tempo na estrada de terra que não conseguia parar de pensar em como é que alguém era capaz de viver tão “longe da civilização”. Imaginava que para irem à escola teriam que andar tudo aquilo, se quisessem algo do mercado a mesma coisa e fiquei triste em pensar que provavelmente eles não conseguiam ir ao cinema ou ao teatro, coisas que eu tanto amo e não sou capaz de me imaginar sem. Acho que só pelo fato de termos tido a oportunidade de entrar em contato com algo tão diferente da nossa realidade a visita já teria valido apena. Mas valeu apena por muito mais. Ao descermos do ônibus eu já sabia que estávamos onde realmente ocorreu a Guerra do Contestado, esse fato por si só já era incrível. Quando fomos encaminhados para um grande salão e soubemos que aquele lugar existe desde a época da guerra, para mim foi um momento histórico. Eu gosto dessa coisa de pisar onde grandes fatos ocorreram, é emocionante. Mais emocionante ainda foi a palestra nos dada pelo Capitânio Antônio, Seu José e Dona Maria.

Logo de começo o rapaz do setor de comunicação foi animar o ambiente. Tudo que eu pensava a respeito do movimento já começou a mudar ali: eles tinham um setor de comunicação com músicas de animação de palestras! Participei das danças e fiquei com uma das músicas na cabeça por semanas depois da visita. Ela é assim “Só só sai, só sai reforma agrária com a aliança camponesa e operária” e se a música deles já era legal, a palestra então nem tenho como comentar. Sobre o movimento eu aprendi que surgiu em 1984, atrelado à Teoria da Libertação e à Pastoral da terra, da Igreja Católica, baseando-se no Estatuto da Terra de 1964 que afirma “Se a terra não cumpre a função social torna-se passível de reforma agrária”. No século XXI afastaram-se da Igreja elegendo a laicidade do movimento. Atualmente, porém, a terra deve não cumprir seu papel social e o fazendeiro deve ser indenizado, ou seja, o governo deve comprar a fazenda do fazendeiro pelo valor de mercado. Assim sendo quando eles sabem de uma terra que se encaixa nos termos necessários, acampam nela até que a situação se resolva e eles possam a vir a ser assentados. A terra não é dada às famílias, elas recebem apenas um direito de uso, passível de troca, mas não de arrendamento ou venda.

O Movimento surgiu simultaneamente nos três estados da região Sul, sendo no PR criado graças à inundação do Rio Iguaçu, devido à construção da usina de Itaipu, que acabou com a terra de muita gente, deixando-os desabrigados. Para se reerguerem decidiram organizar-se em Movimento Social.

O Movimento vê a luta pela Reforma Agrária como uma luta contra a burguesia e acredita que não se trata apenas de terra, mas sim da manutenção da agricultura familiar e da cultura camponesa vivas, mesmo na era tecnológica em que vivemos. Sua organização hierárquica consiste em uma pirâmide. Na base encontra-se o núcleo ou brigada com os representantes de cada assentamento, no meio encontra-se a brigada de representantes estatais e no topo os representantes nacionais. Em todos os cargos há paridade de gênero. Atualmente há cerca de vinte mil famílias assentadas e seis mil acampadas.

Fiquei impressionada ao saber que lá mesmo no assentamento há uma escola para as crianças e ainda uma universidade! Eles nfrentam o latifúndio do conhecimento, reerguendo a educação camponesa, assim surge a pedagogia do movimento, com uma escola libertária que visa emancipar o conhecimento humano através de uma pedagogia revolucionária, baseada na de outros países já revolucionados por camponeses. Constituem uma rede nacional de escolas autônomas e vinculadas ao estado. O sistema trabalha desde os bebês a pós-graduação chegando até ao doutorado.

Criticam a Revolução Verde decidindo-se pela agroecologia, não reproduzindo o padrão tecnológico usado pela primeira. Com o ensino formularam uma prática de resposta, a Escola Latino Americana de Agroecologia. Até 2000 não havia escolas de agroecologia. As primeiras foram criadas no Paraná. Duas escolas vinculadas ao Movimento de Reforma Agrária, sendo uma lá (a primeira de agroecologia do país) e outra na Venezuela, ambas com caráter de ensino superior, sendo o daqui tecnólogo. A carga horária é integral com aulas teóricas, práticas e ensino da cultura camponesa. O curso dura três anos e meio e os alunos estudam por setenta e cinco dias e trabalha por noventa enquanto realiza pesquisas. O IFPR é o responsável pelo reconhecimento formal da graduação. A Escola Latino Americana de Agroecologia é exclusiva para membros dos movimentos camponeses de toda a Via Campesina (junção de todos os movimentos camponeses da América Latina). Os professores são voluntários. Além da faculdade há a Circunda infantil, a Brigada Chico Mendes dentre outros cursos informais.

O jornal faz parecer que aquelas pessoas são tão bobas e loucas por terra que não sabem nada, que quando eu soube de todo o valor que eles dão para a educação, tive vontade de gravar o que falavam e obrigar o jornal a mostrar. Eles valorizam o aprendizado mais do que a nossa sociedade, a meu ver. Antônio, por exemplo, disse uma frase que me marcou muito e que muitas pessoas da cidade não percebem com a clareza que ele percebe, a frase é a seguinte: “O estudo liberta o ser humano e o país, com estudo o povo consegue a mudança.”.

É incrível como há tanto conhecimento escondido em coisas tão simples, em pessoas tão simples. Eles são tão lindos por dentro, têm tanta coisa para ensinar para a gente que desde o dia 14/05 eu não consigo parar de pensar na injustiça que a televisão faz para com eles. E eles têm noção disso, falaram para a gente várias vezes sobre o poder da mídia. Inclusive a compararam com aquela viseira que se colocam em cavalos, para os impedirem de olhar ao redor, falaram que a mídia é como essa viseira, impede as pessoas de enxergarem o que ela não mostra ou pelo menos de terem outros pontos de vista sobre o que ela mostra.

Depois da palestra fomos conhecer a escola do assentamento, que está sendo expandida. Ela tem cerca de quatro salas e não foi construída para ser uma escola, era uma casa que eles transformaram em escola. Ela começou a funcionar como sendo exclusiva dos assentados, com professores voluntários dali mesmo, mas conseguiu reconhecimento do estado e agora funciona como uma escola estadual rural, com professores da rede estadual de ensino e alguns do movimento. Além das matérias tradicionais são ensinados os valores do movimento e sua história, para que desde sempre os membros saibam do que fazem parte e se motivem a continuar ali. Visitamos também a obra de expansão da escola, que está sendo construída com apoio do governo do estado e vai ter mais salas com melhores condições de ensino e a possibilidade de abranger mais assentados.

Então chegou a hora do almoço e todos foram encaminhados ao refeitório. Lá pagamos a quantia requerida para almoçar (R$10) e fomos nos servir. Tudo que eles comem é fruto de suas hortas, livre de agrotóxicos e qualquer outro tipo de química, por isso tem um gosto diferente dos alimentos comprados no mercado, mas diferente para melhor. Tinha bastante salada, arroz, feijão, carne e suco. O feijão era delicioso e a cuia para servi-lo era curiosamente grande. Depois de comer cada um deveria lavar seu prato em uma das pias disponíveis e isso foi interessantíssimo, pois muitos dos alunos nunca haviam lavado um prato ou pelo menos não tem costume de fazê-lo, mas ali fizeram. Em seguida as turmas foram divididas e cada uma foi conhecer um pedaço do local. Minha turma foi para a casa de uma família, conhecer a horta. Tivemos que ir de ônibus porque era longe, o que prova que o terreno é grande e isso é muito bom, pois quanto maior mais famílias, mais comida boa e mais qualidade de vida e gente contente em ser camponês. Dona Maria foi quem nos guiou e explicou que há uma horta para cada três famílias, todas elas em forma de mandala, ou seja, são circulares e alinhadas com os planetas e com os ventos. Isso ajuda num maior crescimento e qualidade das hortaliças. A irrigação é feita por mangueiras ligadas a um pequeno açude em que são criados peixes. Eles também criam outros animais como porcos, vacas e galinhas, porém não podem vendê-los por não possuírem um abatedouro equipado conforme a regulamentação da ANVISA, no entanto eles podem vender as hortaliças e o fazem. Eles participam do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) em que cada família vende R$4500 por ano para o governo que distribui os alimentos para instituições sociais. Já chegaram a ajudar catorze instituições em um único mês, pois produzem além do que necessitam para subsistir e com isso veem-se na obrigação de fornecer seu alimento puro para a maior quantidade de pessoas possível. Está para ser aprovado também o PNA em que pelo menos 30% da merenda escolar deverá vir da agricultura familiar.

Quando Dona Maria foi questionada sobre a aquisição de medicamentos, respondeu que eles plantam os medicamentos, ou pelo menos grande parte das plantas que dão origem aos medicamentos e que como a comida deles é orgânica e natural, a quantidade de doenças adquiridas é menor, tendo em vista que grande parte das doenças atuais deriva da ingestão dos agrotóxicos.

Segundo ela as mesmas empresas de agrotóxicos são as que produzem os medicamentos para curar as doenças que eles causam. Fomos também à outra casa em que havia um quintal repleto de árvores frutíferas, o que fez com que os alunos comessem mimosas direto do pé, algo inédito para a maioria. Ao invés de voltarmos ao local de partida, fomos ao encontro da outra turma que estava na Cooperativa do Assentamento. É para lá que as famílias enviam os alimentos que ultrapassam sua subsistência e é onde eles são selecionados e enviados para o PAA. Voltamos então para o refeitório, onde alguns moradores estavam expondo seus feitios, desde bandejas de morango a doce de leite e pães. As mulheres estão até tentando construir uma padaria para aperfeiçoarem seus feitos. Os doces, pães e queijos também não são regulamentados pela ANVISA, mas são muito mais gostosos do que os que compramos no mercado. Eles vendem super barato e ao lado da banca de alimentos havia ainda uma mini livraria que além de livros sobre o movimento, também vendia livros sobre a reforma agrária em si, alguns da autoria de Marx e outros sobre a Revolução Cubana. Havia também produtos do movimento, como bolsas e afins. Para terminar a visita fizemos um grande círculo em que cada um deu sua palavra final, sendo a mais triste feita pelo professor que nos informou que aquela provavelmente seria nossa última aula em campo devido ao fato de os outros professores não considerarem eficazes coisas do tipo. Infelizmente.

Dentre as coisas que me chamaram atenção, vale citar o fato de que eles buscam minimizar ao máximo a diferença social entre homem e mulher, fazendo com que os dois tenham em média a mesma carga-horária de trabalho. O fato de ninguém ter férias, nem os estudantes que quando tem uma pausa escolar devem colocar seus estudos em prática trabalhando na terra. O fato de eles serem realmente ligados a terra, podendo se dizer inclusive que eles são a terra, o que produzem ali. O fato de eles respeitarem a diversidade religiosa, possuindo várias Igrejas e de considerarem a Bíblia como um livro histórico, não simplesmente algo a ser seguido. Achei curioso o fato de eles terem tolerância zero para com drogas tanto legais quanto ilegais, sendo chamada atenção de quem ingere bebidas alcoólicas ou faz uso de algum cigarro. Eles preferem manter a polícia longe e por isso tentam resolver tudo dialogando, o que é bastante interessante e mais inteligente do que a repressão. Interessante também foi saber que, ao contrário do que muita gente pensa, o movimento não é ligado a nenhum partido político, tendo gente que vota em todos os partidos e a predominância dos votos para os candidatos que prometem favorecer mais seus interesses. A consciência deles perante a tudo foi o que mais me impressionou. Dona Maria afirmou que “Jornal só dá o que não presta” e que “O posto de saúde não dá nada, tudo é pago pelo imposto”, o que mostra que eles realmente buscam viver de acordo com o que pensam e creem. A ideia de “latifúndio do conhecimento” e de que “os ricos só o são porque escravizam os pobres, não porque trabalham” são coisas que a maioria das pessoas da cidade jamais teria a capacidade de pensar por si só.

Como Dona Maria disse, eles são gente e não monstro. Fiquei feliz em ter descoberto isso, ao mesmo tempo em que triste por saber que a maior parte da população ainda os vê como monstros. No fim é isso. Ciências Sociais é isso.

Há mil fotos lindas desse dia, mas essa sempre vai ser minha preferida

P.S.: Escrevi esse texto há um mês, mas estava TÃO desanimada com toda essa história de greve que acabei protelando a postagem, porém hoje com a notícia de que o governo finalmente se tocou que há um milhão de pessoas em greve, resolvi postá-lo como forma de comemoração. Há mais fotos a respeito aqui.As fotos publicadas neste texto não foram tiradas por mim, mas não sei quem tirou.

Dilúvio de uma gota d’água.

Não sei se vocês sabem, mas eu sou daquelas pessoas que se debulha e se tortura por pura falta de auto estima. Daquelas que deita às 22h e fica chorando até 4h da manhã, jurando a Deus e ao mundo inteiro que não passará dessa noite simplesmente porque não é digna de pisar em chão algum.  Sou dramática mesmo, desde que me entendo por gente. Sempre. Daquelas que transforma qualquer coisa numa calamidade e que ao invés de “cagar e andar” como sabe que deveria fazer, se importa mais do que tudo, com tudo e por isso sofre. Acho que tenho mania de sofrer e sinto como se a vida não fizesse sentido quando eu simplesmente estou leve e sorridente por aí. Sei lá. Tudo que sei sobre a minha pessoa é que eu choro, berro, me machuco interna e externamente, abro a janela do quarto e fico caçando motivos para me jogar e quando acho que tudo isso está passando, logo arranjo um meio de sentir tudo de novo. Como se dependesse disso. Eu sou uma sofredora nata, que tem como profissão e modo de vida o ato de sofrer. Brinco que serei daquelas pessoas contratadas para chorar em velórios, unicamente porque gosto de chorar, mas na verdade é porque gosto de sofrer. Digo que terei uma prateleira só com as cinzas de todos os mortos da minha família, só para me lembrar de sempre sofrer. É esquisito, mas eu me sinto culpada quando estou feliz, culpada porque acho que não tenho esse direito enquanto há milhares de pessoas a beira da morte no mundo todo. Acho que minha sede por justiça e paz é apenas uma maneira de tentar aliviar meu sofrimento, embora eu saiba que quando ele passar, tratarei de sofrer por outra coisa.

O fato é que vivemos em um mundo feliz. Superficial e feliz. Em que as pessoas simplesmente impõem sua felicidade e a mostram com tanta vontade que realmente nos faz crer que elas estão felizes. Sei, no entanto, que não passa de uma grande mentira. Porque ninguém é feliz o tempo inteiro. É impossível. Mas a necessidade de se mostrar bem, o medo de tornar as outras pessoas magoadas e tristes acaba por obrigar a todos, inclusive a mim mesma, a fingir-se feliz. Não há nada pior do que isso. Eu me irrito com as pessoas que andam por aí sob um óculos de sol cor-de-rosa que faz com que o mundo inteiro passe de cinza, para rosa, de triste para feliz e assim levam a vida, falando besteiras e futilidades simplesmente para manter tudo na boa. Porque a verdade é que todo mundo sabe que se forem conversar sinceramente com alguém, acabarão por demonstrar que são fracos e sofredores. Impossível que seja só eu.

A verdade é que eu sou mais trouxa do que todas as outras pessoas, porque eu sei que estou sendo trouxa e mesmo assim continuo sendo. Não há como ser pior. Sou trouxa porque sei que a gente precisa é de complexidade, de profundidade, mas mesmo assim insisto em zilhões de relacionamentos superficiais. Eu sou capaz de sofrer e sorrir por tanto tempo que quando simplesmente canso, acabo por magoar mais gente do que teria magoado se tivesse sido sincera desde o começo. E olha que meio mundo diz que eu sou uma das pessoas mais sinceras que existem. Se sendo sincera continuo sendo trouxa, imagino como seria se eu fosse tão omissa quanto o resto do mundo. Eu não sei conversar sobre a minha pessoa, com ninguém, nunca. Por diversas vezes escrevo o que sinto, seja aqui ou em um diário, ou em um e-mail ou em uma conversa de um chat qualquer, mas absolutamente nunca eu converso olhos nos olhos com alguém sobre a minha pessoa, muito menos sobre a pessoa do outro. Porque ninguém tem essa coragem. E isso é terrível.

Minha mãe me fez ir ao psicólogo por muitos anos e mesmo em um psicólogo eu dava meu jeito de falar trivialidades ao invés de simplesmente dizer tudo que sentia. Eu sofro, mas não gosto que os outros saibam nem do fato e nem das razões. Tem que ser tudo silencioso, exclusivo, meu. Mas eu não aguento mais toda essa babaquice na qual me meti. Não aguento mais ter zilhões de relacionamentos baseados em “legal o seu esmalte” ou “viu que o fulano pegou a beotrana?”, não. É chegado o momento de eu me centrar e de fato ser o que acho certo. De “cagar e andar” somente para o que merece e de dar devido valor a somente o que merece também. É chegado o momento de eu ser sincera quanto ao que sinto, com quem eu sinto. É chegado o momento de eu conseguir conversar com alguém, olhos nos olhos sem desabar a chorar, sem aumenter, sem fingir, sem sofrer. É chegado o momento de eu mostrar ao mundo tudo que se passa por baixo desse cabelo blurple. E eu sei que é triste e dolorido, mas o momento chegou e eu não posso deixar passar a oportunidade de ser o que creio que devo ser. É chegado o momento de uma gota d’água ser apenas uma gota e não algo digno de se chamar a Arca de Noé.

Eu sei que isso decepciona muita gente e de certa forma decepciona a mim mesma, mas é preciso.

Não sei mais o que vou escrever aqui, qual será a frequência, a importância ou o conteúdo. Mas esse lugar existirá para sempre, porque é o meu único refúgio restante e não pode morrer.

Estou velha demais para continuar a chorar por qualquer coisa simplesmente por medo de mostrar a verdade. Estou velha demais para desconfiar do mundo inteiro, inclusive de mim mesma. Estou velha demais para continuar a viver e pensar como criança. Velha demais. Só espero não estar tão louca.

Brilho Eterno de uma Mente com Lembranças

Just because I don’t say anything doesn’t mean I don’t like you
I open my mouth and I try and I try, but no words come out.
Nothing Came Out – The Moldy Peaches

Eu sei que você me apagaria se pudesse. Sei que o fato de agir bobamente comigo está intimamente relacionado com isso. A verdade é que por mais que você diga e queira crer que gosta de mim, daria tudo para poder me apagar de sua mente. Isso é até engraçado pois eu sempre achei que seria eu quem iria implorar por uma lobotomia, mas no fim acabou sendo você. A razão eu realmente não compreendo, errei sim, todos erram e eu faço parte desse imenso hall de “todos”. Impossível seria não errar, tendo em vista que até você erra. Todos erram. A questão é que as pessoas costumam entender os erros alheios, ou pelo menos fingem. Tentam seguir em frente e fingir que nada aconteceu para que assim possam seguir alegres e saltitantes por aí, mas você não. Você é sincero e por mais que eu tenha admirado este fato por tanto tempo, nunca abominei-o tanto quanto agora. Queria que você soubesse mentir.

Eu não sou perfeita, mas você também não é. Eu me lembro de todos os meus erros e de todos os meus acertos. Eu me lembro de tudo. Dos seus também. E não tenho vontade de apagá-los. Achava que teria, mas não tenho. Tenho orgulho do meu passado e de cada passo que eu tomei em minha vida, pois foi por fazer exatamente o que eu fiz que parei aqui onde estou hoje e eu adoro o lugar em que me encontro hoje, adoro a pessoa que me tornei. Mas não gosto da que você se tornou. Talvez nossa convivência realmente tenha acabado com a tua vida e isso é terrível porque em nenhum momento foi o que eu quis, eu só queria que você fosse feliz. E assim sendo sinto-me na obrigação de lembrar que te fiz feliz, muitas vezes, incontáveis vezes, pelas mais diversas razões e motivos.

Você fez com que eu me sentisse assim e eu fiz com que você se sentisse assim também. Fui sua Clementine mesmo tendo o cabelo castanho. Mesmo sendo sem graça. Só que você criou a absurda e enfadonha capacidade de me apagar da sua vida, mesmo em um mundo em que lobotomia não é acessível. Provavelmente você se cansou de mim, da mesma maneira que eu me cansei de você tantas vezes por tantos momentos antes, a questão é que mesmo cansada eu continuava ali, com meu sorriso armado escutando pacientemente você me dizer tudo que tinha vontade. É claro que as vezes eu explodia, claro que as vezes tinha crises de honestidade e desabava a falar tudo que sentia vontade, claro que nesses momentos você estava ali, talvez fingindo-se de presente, talvez realmente estando, o fato é que estava e que isso me fazia bem. Fez-me bem por tanto tempo que nem consigo contar.

E quando eu já não podia lembrar da minha vida sem a sua ao meu lado, quando já não conseguia passar um dia inteiro sem pensar em você, algo aconteceu. Algo que até hoje não sei o que foi mas foi fatídico e nos fez viver separadamente por tanto tempo e até hoje, porque a gente conversava tanto e o tempo todo, mas mesmo assim tínhamos uma capacidade incrível de sermos completos desconhecidos um para o outro, como se em meio a tantas palavras, nenhum conteúdo fosse realmente emanado.

Talvez você tenha percebido isso, ou talvez tenha sido eu. Talvez tenhamos sido nós. O fato é que a percepção não agregou uma conversa realmente conversada e sim um afastamento terrível que me martirizou por muito tempo e com certeza te martirizou também.

Em muitos momentos eu cheguei a pensar isso e eu realmente conheci uma pessoa nova, mas nem ela em sua exuberância estupenda foi capaz de me fazer esquecer da sua existência prévia. Hoje começo a pensar que talvez ninguém nunca o faça e eu esteja condenada a viver sob sua sombra para sempre, como se todos os futuros seres que possam despertar em mim algum tipo de sentimento fossem na hora encobertos pela sombra da sua perfeição. Sei muito bem que você dizia que a perfeita era eu, mas a verdade é que sempre foi o contrário e eu em meio a todo meu amor por mim mesma não fui capaz de perceber.

Não sei se é por conta do cabelo de Clementine ou pela idade avançada chegando, o fato é que estou cansada de toda essa coisa de destino. De toda essa coisa que sempre insiste em acontecer com a minha pessoa. Será que as coisas não poderiam dar certo uma vez pelo menos? Será que eu não poderia ser feliz pelo menos por uma semana inteira? Eu queria ter nascido desprovida da capacidade de pensar, assim muito sofrimento seria evitado pela minha parte. Queria ter nascido desprovida da capacidade de sentir, como Effy que precisa parar no meio de uma rua e gritar para ser atropelada porque quer sentir algo, eu queria ter nascido simplesmente com algum mecanismo que justificasse o fato de eu ser capaz de estragar todos os momentos, até os que eram para ser bons! É como se o Deus da Carnificina não parasse de rondar a minha pessoa nunca e quer saber? Isso cansa. Cansa demais.

Queria ter coragem e meio de fazer com que você não me apagasse da sua mente. Lembrasse de mim para sempre. Não que eu queira continuar de onde paramos, não que eu queira algo relacionado à sua pessoa. Não que eu não queira também. Minha vontade é unicamente de fazer com que você lembre-se de mim da mesma maneira que eu insisto em lembrar da sua pessoa. Que você sinta por mim a mesma coisa que eu sinto por você. A mesma vontade tremenda de fazer uma lobotomia ao mesmo tempo que prefere uma penseira e ao mesmo tempo que prefere nada, apenas a liberdade para poder continuar pensando no que quiser quando quiser, sabendo do que aconteceu e porque aconteceu. Hoje eu queria ter razões para acreditar no amor novamente. Porque eu acredito, com todas as minhas forças, em todos os momentos, mas hoje, particularmente hoje, está difícil. Hoje eu sonhei com você. Hoje eu reli nossas conversas. Hoje eu assisti a um dos meus filmes preferidos debulhando-me em lágrimas. Hoje eu soube que um dos amores que jurei serem eternos acabou. Hoje quis com todas as minhas forças incorporar a Clementine, entrar na sua cabeça e implorar para que continue a lembrar de tudo para sempre, como eu. Para que tenhamos pelo menos isso em comum. Creio que é só o que nos resta. Lembranças. Pode parecer ruim, mas não é. Não é a melhor coisa do mundo, isso é fato, mas também não é a pior. Seria pior se as lembranças não existissem, por isso a urgência em fazer com que você as mantenha vivas. Mesmo hoje eu ainda quero que você fique bem, que você esteja bem e que você seja absurdamente feliz. Enquanto rogo aos céus, ao destino e a sorte para que eu também siga pelo caminho da luz e possa sair emanando sorrisos belos mundo a fora.

É tudo que eu peço.

Seja meu Joel para que eu possa de fato ser sua Clementine. Quem quer que seja você.

P.S.: Esse texto faz parte de um meme em que eu deveria reciclar o título de outra blogueira. Quem será ela?