AVON, doze anos depois.

Quando eu tinha 11 anos, mãe e eu resolvemos que venderíamos AVON. A ideia era baseada no fato de que eu gostava muito de vender coisas e parecia prático. Na época, além de AVON eu fabricava e vendia minhas próprias bijuterias. E não eram coisas “mal feitas”, “de criança”. Eu fiz três níveis de curso e sabia fabricar as mais diversas formas de bijoux. Tinha clientes fixas, tanto para elas, quanto para a AVON. Na época, aprendi bastante sobre maquiagem e perfumaria, o que era muito divertido para mim. Não lembro o que motivou o término dessas produções e vendas, mas culpo o fato de eu ter mudado para uma escola mais difícil, que demandava mais tempo de estudo. A farra das vendas durou, provavelmente, pouco mais de um ano. Mas foi muito importante para eu aprender sobre lucros, organização, investimentos, planilhas e afins. Era algo que me fazia bem.

Há algumas semanas eu decidi que iria voltar a vender AVON. A ideia veio espontaneamente. Vendo os cortes do governo, comecei a ficar com medo de ter minha bolsa cortada. Como minha atual meta é ser doutora, não posso assumir compromisso de um emprego com horário fixo e, como sou bolsista, não posso ter carteira assinada. Assim, a AVON surgiu como boa forma de atender às minhas necessidades, trazendo uma coisa que me fazia falta: a leveza e a diversão.

Ocorre que, apesar de eu ser extremamente privilegiada e estar em duas pós-graduações públicas, recebendo bolsa do governo federal – algo que não é comum em nenhum outro país do mundo, o valor recebido não é suficiente para arcar com contas e, principalmente, com as demandas do próprio universo acadêmico. Neste ano, por exemplo, fui aprovada para participar em dois grandes eventos internacionais, muito importantes para a minha carreira. Porém, a inscrição de um deles custou quase R$300 e do outro R$500. Isso sem contar que não são eventos na minha cidade, então preciso arcar com transporte, estadia, comida e afins. Para piorar, grande parte dos valores não são parcelados. Ou seja: apesar de todo o suposto investimento que o governo federal faz em mim, ele não é baseado em fatos reais e, de modo algum, suficiente para que um estudante consiga arcar com custos de pesquisa e de vida pessoal. Se as agências de fomento querem exigir dedicação exclusiva dos pesquisadores, precisam proporcionar um ressarcimento monetário à altura. Como isso não ocorre, o que temos são cientistas movidos pela paixão por suas próprias pesquisas e carreiras, mas que precisam se virar nos trinta pra conseguir orçamento para sobreviver.

(in)Felizmente, não nasci e fui criada para ter uma profissão fácil e fixa, que me proporcione estabilidade financeira e uma rotina pré-determinada. Eu tenho o anseio de ser cientista, de pesquisar coisas que transformem a nossa forma de ver o mundo e que impulsionem a humanidade para fazeres melhores do que os atuais. E isso não é fácil, tanto pela estrutura governamental, quanto pela falta de apoio dos civis e pela pressão das agências de fomento, mesmo quando o fomento delas não é assim tão bom. Estamos em uma fase em que é melhor aceitar e agradecer o pouco fomento que temos do que tentar pedir por mais. Visto que até este pouco está ameaçado.

Em um mundo que valorizasse a ciência, eu obviamente não precisaria pensar em outras formas de conseguir dinheiro. Eu poderia me inscrever para todos os congressos que quisesse e realmente me dedicar exclusivamente às minhas pesquisas. Eu poderia conciliar as minhas pesquisas com a minha vida pessoal de forma equilibrada. Conseguiria manter minha sanidade mental sem precisar recorrer a diversos tipos de auxílios diferentes. Teria paz de espírito ao dormir de noite, pensando: “hoje consegui adiantar minha pesquisa, oba!”. No mundo real, preciso me justificar para família, amigos e conhecidos, pelo fato de ter 23 anos e não ter carteira assinada. Pelo fato de acreditar na ciência independente de financiamento privado e por acreditar que “cientista” é uma profissão tão fantástica quanto qualquer outra. Preciso passar por julgamentos e reafirmações constantes, visto que é mais valorizado eu dizer que vendo AVON do que dizer que faço dois mestrados. E, preciso começar a pensar em outras formas de ganhar dinheiro, porque fazer dois mestrados não é suficiente para isso. Porque ter um currículo Lattes muito melhor do que a maior parte das pessoas da minha idade, não me garante um futuro estável financeiramente. Porque, por eu não querer seguir os padrões tradicionais brasileiros, que veem “estabilidade” como sinônimo de concurso público, preciso, desde cedo, começar a me acostumar com os perrengues de ter uma vida independente, supostamente empreendedora e totalmente iludida com a crença de que posso fazer algo pelo mundo em que vivo.

É aí que a AVON surge como diversão e possibilidade de relaxamento, frente aos milhares de estresses que a vida acadêmica me provoca. Enquanto apresento maquiagens, perfumes, cremes e produtos capilares, dou vasão para aquela parte de mim que é suprimida enquanto ajo como cientista. Posso falar sobre coisas consideradas “banais” para o mundo acadêmico e, mesmo que por razões monetárias, consigo criar tempo para manter laços sociais, até então enfraquecidos. Então, vender AVON não é uma coisa “ruim”, de alguém que está “desistindo do que acredita”, pelo contrário. É uma forma alternativa de conseguir me mantendo no meu foco de vida. Porque com isso, consigo conciliar minha vida de cientista e uma nova forma de adquirir dinheiro e relações. Ambas as coisas que, atualmente, a vida acadêmica e de cientista tem dificuldade em proporcionar.

Para além das razões pessoais, a AVON me atrai pela história da empresa. Surgida em uma época onde a divisão de gênero da sociedade era muito forte e estabelecia que o homem era o provedor da casa, que trabalhava fora, enquanto a mulher deveria ser mãe e cuidadora, a marca foi um dos pontapés iniciais para o êxodo doméstico das mulheres, inicialmente nos Estados Unidos. As mulheres passavam a se reunir para vender e comprar produtos cosméticos, podendo aproveitar o tempo em que seus filhos estavam na escola e podendo, pela primeira vez, ter seu próprio dinheiro, que poderia ser gasto com aquilo que elas quisessem. Mesmo sem a consciência de conceitos como “feminismo” ou “empoderamento”, a marca foi essencial para iniciar essa transformação empírica na vida das mulheres, que atualmente são, em grande maioria, no Brasil, as principais provedoras da casa.

Além disso, a marca foi uma das primeiras a extinguir os testes em animais, tendo-os substituído pelos testes in vitro e em voluntários humanos desde 1989. Nos produtos fabricados e vendidos no Brasil atualmente, portanto, não há a utilização de animais. Entretanto, a AVON permanece em todas as listas que falam sobre as marcas que testam em animais. A razão foi a expansão da marca para o mercado chinês, que exige que todos os produtos cosméticos vendidos no país passem por testes em animais. Dessa forma, todas as marcas que vendem na China precisam realizar estes testes. Entretanto, grande parte delas afirma que os testes são realizados apenas pela obrigatoriedade legal e que afetam menos de 1% do total de sua produção. É claro que a marca poderia ter escolhido não pertencer ao mercado chinês, mas considerando que estamos em um mundo capitalista e que a marca é estados-unidense e, com isso, intrinsecamente imperialista, seria bastante inocente acreditar que a consciência ambiental pesaria mais do que o aumento de capital. Acredito, porém, que isso não é uma culpa que deva contar negativamente para a marca, mas sim para o sistema em que vivemos – que afeta muitas outras marcas e, com isso, prejudica diversos animais inocentes.

Apesar destes testes, entendidos como “obrigatórios”, a empresa possui grande responsabilidade social. O Instituto AVON atua contra o câncer de mama, destinando parte da renda da empresa para a causa, que também proporciona diversas campanhas conscientizadoras, disseminadas nos catálogos da empresa. A questão ambiental também aparece nos papéis utilizados, que passam por um processo de reciclagem. É claro que há muito a melhorar, visto que a área de cosméticos é ainda uma das maiores produtoras de poluentes. Entretanto, saber que a empresa se importa minimamente com isso já é um bom passo.

Outro fator positivo é o fato de a marca, mesmo sendo internacional, realizar campanhas exclusivas com celebridades brasileiras, inclusive aquelas que estão em crescimento de popularidade. A marca visa atingir a maior quantidade possível de mulheres, sendo esse o seu público alvo principal. Mas há também uma crescente linha de produtos de beleza masculinos. Além dos cosméticos, a AVON oferece produtos para casa, além de acessórios, roupas e calçados, de marcas reconhecidas – como Havaianas, Moleca e Olimpikus. As compras realizadas no catálogo seguem os direitos do consumidor brasileiro, podendo ser trocadas e retornadas. Além disso, todos os produtos são validados pela ANVISA e possuem data de validade, fabricação e lote incluídos em todas as suas embalagens. Além de tudo isso, a marca consegue manter preços mais baixos do que o de suas concorrentes, com qualidade paralela a elas. A parceria com a marca grega Korres têm trazido produtos de qualidade internacional, com preços em real. O mesmo tem ocorrido com os investimentos na renovação da linha de perfumaria.

Ou seja: estar de volta à AVON é benéfico para a minha vida pessoal por N razões. Além do fator monetário, a empresa me desperta coisas positivas e o anseio de fazer algo para além do universo extremamente racional e estressante da academia, me é relaxante.

Temos que pegar: Pokemón GO

Minha experiência com Pokemón

      Nascida em 1994, tinha apenas dois anos quando o desenho animado de Pokemón foi ao ar. Assisti a poucos episódios e meu acesso à franquia se encerrou no ano de 2000. Meu irmão, cinco anos mais velho do que eu, pôde aproveitar mais as “outra realidades” do desenho, que nunca se contentou com apenas passar na televisão. Logo de início, Pokemón tinha tazos, jogos de carta, bichos de pelúcia, diversos outros tipos de brinquedo, em 2000 foi lançado o primeiro filme da franquia e a coisa foi crescendo. Foram jogos de videogame, computador, gameboy e demais videogames portáteis. Novas temporadas, novas gerações. Quadrinhos, novos filmes, novos Pokemóns e a franquia nunca deixou de se expandir, explorando as mais diversas mídias.

      Durante a adolescência voltei a assistir os primeiros episódios do desenho animado. Ele me trazia grandes recordações sobre a infância. Ver Ash com seu Pikachu, sempre fugindo da Equipe Rocket e tentando ganhar várias batalhas eram coisas que moveram meus dias na infância e, entrar em contato novamente durante a adolescência, foi bem bacana. Mas não me identifiquei com as outras gerações e, para mim, o desenho é apenas a parte do Ash, Misty, Pikachu, Jesse, James e Miau. Quando entram outros treinadores para substituir o Ash eu já não consigo prosseguir na história.

      Não lembro exatamente as razões, mas consegui acompanhar Digimon por mais tempo durante a infância. Esse desenho eu consegui ver até o final da segunda geração. Talvez fosse alguma coisa na própria narrativa, que me chamava mais atenção do que a do Pokemón. O fato é que, enquanto ainda me lembro o nome de vários Pokemóns e de várias coisas que vivi por causa deles, não me recordo com exatidão sobre os Digimons. Exceto a música inicial, nada passa pela minha cabeça.

      Eu nem lembrava que Pokemón ia completar vinte anos esse ano. Nem imaginava que surgiria algo para reviver a série e repopularizá-la. Os últimos desenhos animados que tentei acompanhar não me agradaram – com exceção de Phineas e Ferb. Aparentemente as coisas que chamam atenção da geração atual são muito diferentes das que chamavam atenção na minha época. Não consigo entender como alguns dos desenhos atuais fazem sucesso e isso acaba gerando um extenso saudosismo em minha pessoa.

Qual minha reação ao saber sobre Pokemón GO

       Ao saber da existência de Pokemón GO, fiquei imediatamente empolgada. Porém, não imaginei que chegaria ao Brasil tão cedo. É claro que o mês de ansiedade, ao vermos que o jogo já estava disponível em outros locais e aqui ainda não, fez com que eu tivesse uma fagulha de esperança. Acredito que as Olimpíadas tenham sido uma grande razão para que o jogo tenha chegado aqui já e fiquei bastante contente com o fato.

Porque gostei do jogo:

     Ao contrário das pessoas que acreditam que os games são antissociais, eles geram inúmeras amizades e relações. Um jogo como Pokemón GO, porém, leva tudo para um novo nível. A “antissocialidade” dos videogames era justificada pelo fato de que os jogadores passavam muito tempo em suas próprias casas, parados. Além de antissociais, videogames eram sinônimos de sedentarismo. Isso começou a mudar um pouco com o Nintendo WII e o X-Box 360, que só eram possíveis de ser jogados com movimentação do corpo. Mas eles não eram tão acessíveis. Consoles caros, com jogos igualmente caros e que demandavam um preparo para instalação e foco exclusivo. 

      Os consoles portáteis não são novidades. Tivemos o famoso GameBoy e também o DS, 3DS e o PSP. As pessoas estão acostumadas a andar por aí jogando. Mas a interatividade com os jogos portáteis era menor do que aquela exercida em consoles como o WII. A existência do Smarphone ampliou os horizontes do universo de games. As pessoas deixaram de “utilizar” a tecnologia e passaram a conviver e compartilhar sua existência com ela. Se antes existia um ritual para conectar-se à internet discada e era necessário ficar parado, em frente a um computador fixo, por um determinado número de horas, para realizar as atividades online, atualmente as pessoas podem dormir e acordar conectadas em seus celulares. Podem utilizar a internet em qualquer local, a qualquer momento e sem precisar se preocupar com a linha de telefone, que antes ficava ocupada. A internet passou a ser um “sexto sentido” e a conectividade instantânea deixou de ser um sonho distante, de forma que alguns aparelhos eletrônicos se tornaram extensões de nós mesmos.

      Pokemón GO veio no momento certo. Capaz de explorar todas as potencialidades desse momento de extrema conectividade e necessidade de compartilhamento, o jogo proporciona que as pessoas saiam de casa, se exercitem e interajam com outras pessoas a fim de realizar as atividades pertinentes. Em poucos dias no Brasil, já houveram inúmeros relatos de pessoas depressivas e com fobia social que saíram de suas casas após meses para procurar Pokemóns. Outras pessoas, que precisavam de uma motivação para se exercitar, acreditam que o jogo lhes proporciona isso. Para aqueles que gostam de viajar, o jogo é a desculpa perfeita – afinal, é uma nova forma de encontrar Pokemóns e participar de batalhas. Para as pessoas que gostam de ficar em casa, ele também funciona. Há maneiras de encontrar Pokemóns em sua própria casa, seja ela próxima a uma Pokestóp, ou ainda utilizando de um artifício do próprio jogo, chamado “incenso” e que serve como chamariz para os Pokemóns da proximidade.

Problemas que encontrei no jogo:

      É claro que a intuição não é tudo e, apesar de o jogo ser fácil de entender, temos algumas considerações a fazer, em se tratando do cenário brasileiro. Em primeiro lugar, é um jogo que demanda o uso de internet. Apesar de vivermos conectados, não moramos em um país que provê internet gratuita nas ruas e a velocidade da internet de alguns locais não é adequada. Além disso, não são todas as regiões do país que têm a mesma facilidade de conexão. A internet fornecida pelas operadores de celular não são lá essas maravilhas. Há vários “pontos cegos” de conectividade pelo país, há diversos fatores que enfraquecem o sinal e há o fato de essa ser uma internet cara, dificultando o acesso. Outro fator dificultador do acesso é que para o jogo ser instalado é necessário uma configuração específica do telefone. Não sei se é o mesmo para quem utiliza IOS, mas há vários celulares Android e Windows Phone que não são compatíveis com o jogo. Considerando que os aparelhos celulares têm um custo bastante elevado no Brasil, é de se esperar que a grande parte dos usuários de smartphone não possua telefones compatíveis com o jogo. O terceiro fator complicador é o fato de que a interface do jogo ainda é disponível apenas em língua inglesa. 

      Dessa forma, para que a pessoa more no Brasil e seja bem colocada no jogo, necessita ter conexão boa, acessível e ilimitada à internet, precisa ter um celular dos modelos mais recentes (e caros) e ainda precisa entender inglês. Segundo diversos dados estatísticos, sabemos que mais de metade da população brasileira não cumpre esses três requisitos. Então, a diversão acaba restrita a determinadas classes sociais e os espaços que elas ocupam – apesar do jogo mapear e utilizar todo o espaço urbano.

        Enquanto os desenhos de Pokemón passavam na TV aberta, sua história era acessível a todas as crianças daquela geração. Quando os produtos começaram a ser comercializados, a quantidade de pessoas capaz de adquirir e se manter no hype foi diminuindo. Em 2016, acredito que grande parte das atuais crianças e adolescentes não tenham tanto contato assim com a franquia e muito provavelmente o jogo é um fator nostálgico para as crianças dos anos 90/2000, mais do que um fator de apreciação das novas crianças e jovens. Por outro lado, a geração atual nasceu na era de conectividade e vai se dar muito bem com o jogo. Como ele teve um lançamento popular e apareceu em praticamente todos os meios de notícias que existem, os mais novos também irão se interessar por ele. Mas, de novo, não é todo mundo que vai ter acesso – apesar de ser um jogo gratuito.

      Além dos fatores básicos de dificuldade de acesso ao jogo, temos outros pontos contextuais brasileiros, como o fato de ser bastante perigoso andar nas ruas com um celular de primeira linha nas mãos. A coisa piora quando para pegar Pokemóns você precisa se expor em locais as vezes desertos e mal frequentados. Especialmente as meninas, que andam na rua com medo todas as vezes que saem sozinhas de casa, já estão tentando criar formas alternativas de jogar, optando por marcar encontros com outros jogadores, a fim de caçarem coletivamente. É necessário ficar atento aos locais que o jogo leva e, pelo fato de demandar andar pelas ruas, não é recomendável que seja um jogo para crianças desacompanhadas.

Veredito do momento:

        Desde o lançamento, há várias polêmicas em torno de Pokemón GO, devido a acidentes, roubos e outras atividades ilícitas relacionadas com o jogo. Há também o fato de que ele utiliza GPS e câmera, de forma que alguém com acesso às informações do seu celular consegue outros níveis de rastreamento.

       Eu, que não tenho coragem de sair de casa com o celular na mão e nem dinheiro para utilizar a internet da operadora, limitar-me-ei a jogar em locais com WiFi, mas com bastante cuidado e atenção. Inclusive, atenção é uma das coisas que precisa existir, pois é a única coisa capaz de evitar acidentes possivelmente graves. É um jogo muito legal, muito novo, muito diverso e bastante inovador, diferente de todos os jogos que já existiram e um pontapé bem real para a futura experiência de games de realidade virtual. Mas é necessário ter cuidado e consciência de que, apesar de disponível em quase todo o mundo e gratuito, não é um jogo para todos. E excluir as pessoas que não têm acesso ou interesse é a pior coisa que pode acontecer no momento. Assim como achar que, por ter acesso, você é melhor que alguém.

      Acredito ser bastante necessário prestar atenção nas crianças e adolescentes com a chegada desse jogo. Ele pode trazer problemas, por causa do espaço, do dinheiro que eventualmente seja gastado e, principalmente, problemas de convivência. Crianças e adolescentes podem ser excluídas de seus grupos sociais por não gostarem ou terem acesso ao jogo e isso tem que ser revertido, exemplo: se eu filho tem acesso e gosta do jogo, mas conhece alguém que não, ensine-o a compartilhar o jogo com o coleguinha (desde que seja alguém de confiança). Ou seja, apareceu o Pokemón, cada um tenta x vezes acertar a pokebola ou então fazem um revezamento, primeiro Pokemón fulano pega, o segundo é do ciclano. Outra opção, caso a pessoa não tenha interesse/goste do jogo é ensinar as crianças e adolescentes a não excluí-la ou diminuí-la por isso, é uma boa oportunidade de ensinar respeito, por exemplo.

           Por fim, a todos que estão jogando e se divertindo: que assim seja! Deixo vocês com um pouco de nostalgia.

O Brasil antes dos brasileiros: A pré-história do nosso país – André Prous

Quem escreveu o livro?

           André Prous nasceu na França, é arqueólogo e professor do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Fez doutorado na Sorbonne e sua tese foi sobre a pré-história do litoral brasileiro. Já ministrou a disciplina Pré-História, para o curso de História da USP. Participou da missão de arqueologia que descobriu o esqueleto mais tarde batizado como Luzia. É especialista em povos caçadores e coletores e também já desenvolveu pesquisas sobre arte rupestre. Publicou cerca de cinco obras sobre o Brasil.

      O livro foi publicado no Brasil pela editora Jorge Zahar, em 2006. Tem 144 páginas, com algumas figuras e um glossário no final. É possível adquiri-lo em versão física ou e-book. 

O que é interessante saber antes de ler?

       Uma coisa bem importante de se ter noção antes de começar a leitura, é sobre o que é o Brasil. Da forma como conhecemos hoje, o Brasil começou a existir a partir de 1500, com a colonização europeia. Porém, antes disso já existiam habitantes nessas terras, os povos indígenas. Como esses indígenas chegaram aqui, quando, como se desenvolveram e porque foram dominados pelos europeus, são algumas das questões básicas abordadas por essa obra.

       Pré-história é tudo que acontece antes de haver registros históricos. Considerando que a história do Brasil começou a ser escrita, construída e divulgada a partir de 1500 e da colonização, tudo que ocorreu antes desse marco é considerado prévio à história, portanto, faz parte da pré-história. Assim sendo, falar sobre a pré-história do Brasil não é necessariamente discutir sobre a existência de neandertais ou homens da caverna, mas pode passar também por isso. O intuito principal é desvendar um pouco sobre a origem do povoamento nessas terras, para além da colonização. 

     Apesar de não aprendermos sobre isso na escola e de ser um estudo basante específico e um conhecimento que acaba pairando apenas sobre os estudantes de ciências humanas, não há amadorismo nas pesquisas arqueológicas realizadas no Brasil. Todos os dados apresentados em livros como esse foram extensamente pesquisados, por pessoas de diversos países e tradições teóricas. Não é possível ter certeza quando se trata de arqueologia, visto que não é uma ciência exata e depende de subjetividades e interpretações, porém, as hipóteses levantadas pela pesquisa arqueológica não surgem aleatoriamente. Dessa forma, a arqueologia é um campo de estudos sério e deve ser tão respeitado quanto os outros.

Esqueleto e reconstrução facial de Luzia, considerada a primeira brasileira. Pertence ao sítio de Lagoa Santa.

 

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

      O livro conta sobre as descobertas da arqueologia em relação à pré-história brasileira. É um livro com bastante informação técnica, mas escrito de forma branda e possível de ser compreendido por pessoas leigas. A introdução ambienta muito o leitor no campo de estudos da arqueologia e na discussão sobre a pré-história brasileira. A partir daí, o livro é dividido em 7 capítulos, que vão se aprofundando em cada uma das grandes Tradições arqueológicas encontradas no país. São discussões acerca de sítios arqueológicos encontrados em cada uma das regiões do país, com vestígios que datam de 10mil anos atrás. 

     Arte rupestre, desenvolvimento de agricultura, ferramentas, tipos de sepultamento, moradias e outras construções importantes, como os sambaquis, são apresentados. A ideia de natureza é desconstruída, apontando que nem a Amazônia é natural, visto que há muitos séculos pessoas são responsáveis por realocar e trazer novas espécies de vegetação.

Exemplo de ponta de flecha lascada, encontrada no Brasil.

     O livro termina de forma crítica, apontando a necessidade de uma consolidação dos estudos arqueológicos no Brasil. Diversos sítios ainda necessitam ser melhor explorados, principalmente os da Amazônia. Há escassez de formação universitária de arqueólogos, o que diminui a quantidade de pesquisadores e faz com que as grandes pesquisas sejam realizadas por pesquisadores de outros países, o que prejudica o desenvolvimento científico do Brasil.

E o que você achou do livro?

     Primeiramente, é um livro bastante interessante. Por ser um assunto não abordado no ensino básico, torna-se exótico e importante para a consolidação de um pensamento brasileiro. Saber um pouco mais sobre o povoamento e as origens de algumas manifestações culturais que persistem até hoje foi bastante interessante. 

        O viés apresentado pelo autor é muito bacana, porque tenta se limitar aos vestígios encontrados e deixa sempre muito claro o que é hipótese e de onde essas hipóteses surgiram. Dessa forma, o livro consegue dar um bom panorama sobre a área de arqueologia e sobre a origem dos povos indígenas ameríndios. Acompanhar a leitura é ter a oportunidade de mergulhar em um passado mais profundo do que nos é esperado, visto que é possível imaginar como, de fato, as coisas aconteciam por aqui antes da chegada dos portugueses. 

         Mitos como os de que apenas as costas brasileiras eram habitadas ou que os indígenas eram bárbaros, preguiçosos ou simplesmente bonzinhos, vão se tornando cada vez mais irreais. O leitor passa a ter clareza de um percurso histórico e cultural muito importante para entender um pouco mais da atualidade e todas essas coisas, a meu ver, deveriam ser obrigatórias para todos os estudantes. Afinal, já está mais do que na hora de ser um conhecimento comum o de que já existia um Brasil antes de Portugal chegar aqui e uma América antes de Colombo. A colonização acabou sendo extremamente importante para o aumento populacional e inserção de tecnologias mais avançadas, mas não é por isso que devemos ignorar o que veio antes. E esse livro é uma ótima oportunidade de conhecer mais sobre.

Análise do PL que propõe a “Escola sem Partido”

       O “Programa Escola sem Partido” surgiu enquanto projeto de lei federal em 1996 e recentemente tornou-se popular através de um site, que tinha a intenção de promover conteúdo educacional não-doutrinário. A justificativa para tal ação é baseada na ideia de que nos últimos 30 anos a educação brasileira tem sido “enviesada” por pensamentos político-ideológicos direcionados aos alunos de forma inconsciente e obrigatória. Toda essa ideia é basicamente uma expressão longa para dizer que a escola brasileira doutrinava os alunos para terem um pensamento de esquerda. Por “pensamento de esquerda” é entendido que as crianças eram ensinadas a ser contra o Estado, não terem religião, moral ou bons costumes e a desafiar os padrões estabelecidos pela sociedade, incluindo as relações amorosas. Basicamente, os criadores desse projeto acreditam que a escola brasileira forma cidadãos propensos a achar ações afirmativas, respeito, igualdade e liberdade coisas boas. Mas, é claro que o meu texto não pode ser levado a sério, afinal, eu vim de uma escola doutrinada.

[Diga-se de passagem que até o ensino médio estudei em escola católica, cuja doutrinação era ser cristã – comecei a escola cristã, terminei não-cristã. Fiz faculdade de humanas, em uma universidade pública – completamente o oposto do que a escola católica esperava de mim. Não acredito que doutrinação funcione, basta eu me olhar no espelho.]

                Enquanto o “Escola sem Partido” funcionava como um site, o projeto de lei foi despertado e começou a ser levado a sério pelos senadores federais – e também por parte significativa da população. Atualmente, o projeto, criado pelo senador Magno Malta, do PR da Bahia, está sendo analisado por uma relatoria que tem como cabeça o senador Cristovam Buarque. O projeto se baseia na lei  Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, o “Programa Escola sem Partido“. Está aberta uma consulta pública sobre o Projeto, onde todos os cidadãos podem dar sua opinião, após a realização de um rápido cadastro. O texto integral da lei e sua justificativa podem ser encontrados na mesma página, clicando no link “ler texto completo“.

              Aqui eu farei uma análise de cada um dos parágrafos do texto, mostrando as razões para que eu o refute. Como todo Projeto de Lei, há coisas que se salvam e que fariam das escolas um ambiente melhor. Começamos pelo próprio nome, visto que uma “escola sem partido” promoveria o pensamento crítico e a formação de opinião próprias de uma população, que teria um pensamento mais auto-suficiente e formado através de sínteses e não a partir de lados ou pontos de vistas específicos. Porém, claramente o intuito do projeto não é o de incluir a visão indígena e negra no ensino da história e da geografia, por exemplo. Não é inserir a história da china no currículo obrigatório ou ensinar em detalhes teorias matemáticas diferentes daquelas que são consideradas a corrente principal. Certamente, não é o intuito do projeto mostrar teorias de físicos que não obtiveram o mesmo sucesso que Newton ou Einstein e o mesmo em todas as disciplinas. A ideia é, basicamente, impedir que conteúdos relacionados a diversidade religiosa, étnica e de gênero façam parte do currículo obrigatório. O intuito é impedir que o ensino fuja do padrão e ensine apenas coisas que possam ser reproduzidas ao pé da letra. Para mim, pelo menos, não é esse o intuito da existência das escolas e acho criminoso que essa ideia esteja sendo levada a séria pelo senado federal. Ou seja, esse texto é um texto extremamente contrário à proposta e não falo como leiga, mas como cientista social, especializanda em mídias digitais e mestranda em informática. Porque apesar de eu detestar carteiradas acadêmicas, nesse caso ela é válida. Vamos lá:

O Congresso Nacional decreta:

Art.1º. Esta lei dispõe sobre a inclusão entre as diretrizes e bases da educação nacional, de que trata a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, do “Programa Escola sem Partido”.

Art. 2º. A educação nacional atenderá aos seguintes princípios:

I – neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado;

II – pluralismo de ideias no ambiente acadêmico;

III – liberdade de aprender e de ensinar;

IV – liberdade de consciência e de crença;

V – reconhecimento da vulnerabilidade do educando como parte mais fraca na relação de aprendizado;

VI – educação e informação do estudante quanto aos direitos compreendidos em sua liberdade de consciência e de crença;

VII – direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções.

Parágrafo único. O Poder Público não se imiscuirá na opção sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero.

          O primeiro artigo, como vemos, não carece de análise. O segundo, por sua vez, carece de várias.

             Ponto I – Uma escola neutra perante as questões sociais não é ideal. A escola é o ambiente em que os problemas sociais devem ser apresentados e as crianças e adolescentes devem ser estimulados a pensar sobre eles e procurar soluções para eles. É assim que se muda o mundo e se sai da estagnação problemática. É claro que os professores não podem fazer campanha política em sala de aula, mas nas aulas de história, filosofia e sociologia, é essencial tratar das teorias, filosofias e ordenações políticas dos atuais e antigos dirigentes do país. Afinal de contas, é a escola que forma os eleitores e está mais do que na hora de os eleitores serem conscientes de seu poder.

          Ponto II – Justamente por ser impossível uma escola neutra, que o pluralismo de ideias é louvável. Mas não é possível ter um pluralismo acadêmico e manter a neutralidade, porque todas as correntes de pensamento são ideologias e ao apresentá-las para os alunos, eles estão suscetíveis a acatar as ideias que consideram mais aprazíveis com suas concepções pessoais. A escola não tem que “ter medo” de abordar um assunto porque ele pode vir a ofender um aluno e sua família. Se o assunto existe, tem fundamentação acadêmica, está no mundo empírico e o aluno pode passar por aquela situação em algum momento da vida, ele precisa aprender sobre ela na escola. O que ele faz com o que ele aprendeu, não é e não deve ser responsabilidade da escola. O pluralismo é louvável se for realmente plural, com viéses negros e indígenas da história, com apresentação de todas as religiões sem preconceito por parte dos professores, com apresentação da existência e necessidade de respeito perante a diversidade sexual etc etc etc.

            Ponto III – A liberdade de ensinar deve ser mantida. O professor tem que decidir o método que quer utilizar no ensino e tem que poder usar o método que considera melhor. O aluno, porém, não tem liberdade para aprender ou deixar de aprender. A escola ensina as coisas e os alunos tentam aprendê-las. Saber e aprender sobre as coisas é diferente de praticar elas no dia-a-dia. O aluno tem que ser ensinado a saber discernir entre o que ele aprendeu na escola e o que ele quer aplicar na vida dele. Essas coisas podem ser dissonantes as vezes e não tem problema nisso.

           Ponto IV – O que é uma liberdade de consciência? É garantir que o aluno seja livre para se conscientizar apenas dos assuntos que considera relevantes? É claro que não tem como obrigar alguém a se conscientizar de algo, mas a escola tem sim que prover os meios para tal, principalmente no que diz respeito à conscientização perante o respeito às diferenças. A liberdade de crença deve sim ser mantida, óbvio. As escolas não podem obrigar alunos ou professores a serem de determinada doutrina religiosa, mas também não podem direcionar todo seu sistema de ensino para ser de acordo a determinada religião. O ensino tem que ser acessível a todas as pessoas, independente de sua religião. Por isso, não deve seguir padrões religiosos, a religião tem sim que ser abordada, mas enquanto conjunto de ideias e de crenças, não como imposição.

             Ponto V – Para quem já leu o Código do Consumidor, pode pensar que esse ponto foi tirado de lá e ao invés de “consumidor” usou-se “educando”. Segundo o CDC, o vendedor tem que sempre se remeter ao consumidor, porque ele é vulnerável à propaganda e outros fatores no decorrer da compra e é dele os direitos. Eu acredito que, nesse caso, os direitos devam ser assegurados aos alunos, mas também aos professores. Nem sempre os alunos são mais vulneráveis. No quesito de aprendizado, provavelmente, visto que eles vão à escola para aprender. Porém, há diversos casos em que os alunos são agressivos com os professores e em que o aluno pertence a uma família rica, fazendo com que o professor seja submetido a chantagens e uma série de problemas. Estabelecer que o aluno é sempre vulnerável na relação ensino-aprendizado é problemático, por não ser um assunto apto a generalizações.

           Ponto VI – Concordo. Os alunos e os pais têm que ter ciência de seus direitos e deveres no que diz respeito ao sistema educacional e no que ele abrange ou não. Não podemos correr o risco de famílias acharem que é responsabilidade da escola coisas que não são. A clareza é a única forma de isso se realizar.

        Ponto VII – Os pais não podem obrigar a escola a ensinar os seus filhos de acordo com sistemas morais e religiosos que ele aprendeu em casa. A escola não tem condições de conhecer cada família dos alunos e saber exatamente o que agrada ou desagrada aquela família. Não tem como uma escola pública ensinar coisas específicas de uma religião x, porque a escola pública é parte do Estado e ele é laico. O que pode ser feito é as escolas ensinarem todos os sistemas morais e religiosos como matéria obrigatória e os pais ensinarem em casa o que querem que os filhos sigam ou não. Outra opção é a escola oferecer cursos separados para cada religião e os alunos escolherem se e quais querem participar. Mas a melhor solução para isso é que os pais procurem uma escola que esteja de acordo com suas próprias concepções morais e religiosas. Se o seu filho é muçulmano e você vai colocar em uma escola particular, não escolha uma escola católica, por exemplo. Ou escolha, mas já sabendo que você terá que desconstruir uma série de ideias dele em casa. Além disso, se o Ponto VI for cumprido, os pais saberão, no momento da matrícula, quais as posições morais e religiosas da escola e não terão como reclamar de qualquer coisa depois, pois terão assinado um termo de consentimento. Por fim, quem quer ensinar valor moral e religioso é a família, então a família que ensine.

         Paragrafo Único – A parte mais problemática do artigo. Basicamente, ele proíbe que a escola mencione a existência de pessoas trans, queer e não binárias em geral. A escola é obrigada a ensinar que existem apenas homens e mulheres e que o gênero corresponde à biologia em todos os casos, sempre, sem exceção. A escola é obrigada a excluir uma parcela da população, que já é excluída diariamente e, com isso, obrigada a formar pessoas que desconhecem essas condições e tratam essas pessoas como aberração. Não é à toa que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans. Além disso, a escola é obrigada a fazer com que alunos que não sintam que seu gênero seja o mesmo que seu sexo, se sintam aberrações. Essa é a pior coisa que qualquer escola pode fazer. É completamente absurdo que isso passe pela cabeça de alguém. Todas as pessoas são pessoas e merecem ser respeitadas enquanto tal. Mais uma vez: se algo existe no munto teórico e no mundo empírico e pode impactar a vida do aluno, ele PRECISA saber da existência.  A escola não vai obrigar ninguém a ser LGBTQ, mas ensinando que essas pessoas existem, talvez um dia sejamos um país mais igualitário e menos preconceituoso. Não existe um “amadurecimento natural da personalidade”. Existem pessoas de 60 anos que descobriram agora que são gays e tem pessoas que sabem isso desde os 5. Alguma delas não é natural? Ou elas são apenas tão diferentes quanto todas as pessoas do mundo, porque ninguém é igual a ninguém? Esse parágrafo é o tipo de coisa que a gente lê e chora por saber que em 2016 esse tipo de ideia ainda surge como certa.

Art. 3º. As instituições de educação básica afixarão nas salas de aula e nas salas dos professores cartazes com o conteúdo previsto no anexo desta Lei, com, no mínimo, 90 centímetros de altura por 70 centímetros de largura, e fonte com tamanho compatível com as dimensões adotadas.

Parágrafo único. Nas instituições de educação infantil, os cartazes referidos no caput deste artigo serão afixados somente nas salas dos professores.

           Esse artigo é bem tranquilo. Corresponde com o ponto VI do artigo anterior. Além dos pais saberem sobre os direitos e deveres do sistema educacional, os alunos também sabem e são lembrados disso e podem se sentir mais seguros a partir disso. Mas, vale lembrar: a própria existência desses direitos e deveres é uma doutrinação e uma ideologia.

Art. 4º. As escolas confessionais e também as particulares cujas práticas educativas sejam orientadas por concepções, princípios e valores morais, religiosos ou ideológicos, deverão obter dos pais ou responsáveis pelos estudantes, no ato da matrícula, autorização expressa para a veiculação de conteúdos identificados com os referidos princípios, valores e concepções.

Parágrafo único. Para os fins do disposto no caput deste artigo, as escolas deverão apresentar e entregar aos pais ou responsáveis pelos estudantes material informativo que possibilite o pleno conhecimento dos temas ministrados e dos enfoques adotados.

               Essa é, na verdade, uma ideia bem legal. Além dos pais saberem que a escola é confessional e vai abordar a religião x, da maneira x, eles têm que assinar que estão cientes e deixam que a escola divulgue esses conteúdos para os alunos.  E, não só isso, eles recebem em casa esses conteúdos. Isso é bem bacana, principalmente nos casos em que os alunos não são da mesma religião que a escola professa, porque aí os pais sabem exatamente que tipo de conteúdo eles estão aprendendo e sabem melhor como lidar com isso.  Mas, de novo, sigo achando que o ideal é ensinar sobre todas as religiões por igual e deixar que o aluno exerça sua liberdade para escolher qual crença quer seguir. Mas, no mundo real não é assim que funciona e são os pais que decidem a religião das crianças, pelo menos até elas virarem adultos. Então, que pelo menos eles saibam o que estão fazendo.

Art. 5º. No exercício de suas funções, o professor:

I – não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, para promover os seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias;

II – não favorecerá nem prejudicará ou constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas;

III – não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas;

IV – ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito;

V – respeitará o direito dos pais dos alunos a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções;

VI – não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de estudantes ou terceiros, dentro da sala de aula.

         Agora vamos ao que o PL estipula como “regras” para o professor.

       Ponto I – É plenamente impossível que um professor ministre uma aula sem dar sua opinião pessoal ou sem transmitir algum viés ideológico. A interpretação do professor por sobre um texto, necessariamente, será ideológica e quando um professor ensina um aluno não é apenas a partir de uma leitura rigorosa de teóricos, mas de sua interpretação deles. Tendo isso em mente, concordo que os professores não devam utilizar a escola para promover questões pessoais.

      Ponto II – Outro ponto bastante importante. Da mesma forma que o professor é livre para acreditar no que quiser, mas não para doutrinar o aluno a acreditar na mesma coisa, o aluno o é. E, em se tratando de pessoas em formação, as vezes elas não sabem separar o que é moral religiosa e ideologia e o que é “coisa de escola”, então cabe ao professor prover esse discernimento, sem humilhar ou tirar vantagem dos alunos que, nesse aspecto, podem ser mais vulneráveis.

     Ponto III – Conheço muitas pessoas que, na primeira eleição que votaram, aos 16 anos, escolheram os candidatos que os professores indicaram. Isso é bastante absurdo. Os professores têm que ensinar como pesquisar sobre os candidatos e como votar por convicção e não dizer “votem no fulano, porque o ciclano é um otário”. 

         Ponto IV – Talvez o melhor ponto de todo o Projeto. Mostrar os conteúdos de formas diversas, plurais, sujeitas a críticas e não como verdades absolutas e intocáveis é o caminho para construir uma escola colaborativa e que forme alunos críticos e que pensem por conta própria. Mas para que isso ocorra, são necessários livros didáticos que forneçam esse tipo de conteúdo. É necessário que a formação dos professores siga esse trajeto múltiplo. É necessário que o aluno entenda, desde o começo, que tudo que aprende na escola são hipóteses e que é ele quem constrói, ou não,  sua própria verdade. O professor é um mediador, não a encarnação de deus. 

       Ponto V – Não tem como o professor saber a religião de cada aluno e o que cada um aprende em casa. É claro que ele tem que entender que um aluno adventista não possa comparecer a aula no sábado. Ou que um aluno muçulmano não participe do piquenique no mês do Ramadam. Mas ele não pode deixar de dar a sua aula e apresentar o conteúdo de forma plural e diversa porque possivelmente o ensinamento vai ser contrário ao que a moral da religião x prega. O professor forma alunos para o mundo, não para religião x. É responsabilidade dos pais manter seus filhos nas morais da religião, não o contrário. Eu, por exemplo, levei um susto quando aprendi sobre o Big Bang, porque até então acreditava em Adão e Eva. A escola deveria ter deixado de me ensinar o Big Bang, porque ele feria a convicção da minha religião? Eu acho que não.

          Ponto VI – Não tenho o que comentar.

Art. 6º. Os alunos matriculados no ensino fundamental e no ensino médio serão informados e educados sobre os direitos que decorrem da liberdade de consciência e de crença assegurada pela Constituição Federal, especialmente sobre o disposto no art. 5º desta Lei.

Art. 7º. Os professores, os estudantes e os pais ou responsáveis serão informados e educados sobre os limites éticos e jurídicos da atividade docente, especialmente no que tange aos princípios referidos no art. 1º desta Lei.

Art. 8º. O ministério e as secretarias de educação contarão com um canal de comunicação destinado ao recebimento de reclamações relacionadas ao descumprimento desta Lei, assegurado o anonimato.

Parágrafo único. As reclamações referidas no caput deste artigo deverão ser encaminhadas ao órgão do Ministério Público incumbido da defesa dos interesses da criança e do adolescente, sob pena de responsabilidade.

         Os três artigos garantem basicamente a mesma coisa, mas em âmbitos diferentes – os alunos, os professores e o Estado. Como se tratam de artigos referentes a regulação de divulgação e garantia dos direitos estabelecidos pelos outros artigos, que estou questionando, não tenho muito o que comentar. Acredito que eles cumprem bem o seu papel e devem ser cumpridos, mas não concordo com nenhum desses artigos exatamente do jeito que estão postos.

Art. 9º. O disposto nesta Lei aplica-se, no que couber:

I – às políticas e planos educacionais e aos conteúdos curriculares;

II – aos materiais didáticos e paradidáticos;

III – às avaliações para o ingresso no ensino superior;

IV – às provas de concurso para o ingresso na carreira docente;

V – às instituições de ensino superior, respeitado o disposto no art. 207 da Constituição Federal.

      Esse artigo é bem importante porque ele delimita as áreas de atuação da futura lei. Com as modificações que eu acredito serem extremamente necessárias e a garantia de que a “escola sem partido” não seria uma perseguição implícita às ideologias “de esquerda”, considero que esses âmbitos de aplicação da lei são válidos. Não é possível realizar uma mudança estrutural na educação, nesse nível, sem abranger algum desses âmbitos. Mas, caso a lei seja aprovada, acho importante deixar claro que até toda essa transição ocorrer de forma sensata e justa, ainda vai demorar alguns anos.

Art. 10. Esta Lei entra em vigor no prazo de sessenta dias, a partir da data de sua publicação.

      Como a lei ainda não foi assinada, não há uma data prevista para que entre em vigor. No entanto, eu espero fortemente que essa data demore a chegar, pois há inúmeras prioridades no quesito educação que estão acima de uma transição como essa, que certamente precisa ser repensada e analisada com cuidado. O texto disponível no site continua, apresentando justificativas para a criação da lei. Uma análise delas é também necessária, mas passo a bola para outra pessoa.

        Já que o criador do PL está tão afim de ter acesso a um conhecimento plural e diversificado, seria bastante interessante que ele parasse para ouvir as opiniões contrárias ao projeto e os pontos maiores de questionamento. Acredito que antes de pensar nessas coisas, no mínimo, as escolas públicas precisam de uma melhora na infra-estrutura e os professores precisam de salários melhores. Além disso, a discrepância de qualidade de ensino entre as escolas particulares e públicas deveria ser diminuída e a quantidade de jovens brasileiros com acesso à educação gratuita e de qualidade deveria ser superior a 90%. 

         Termino apresentando duas reportagens sobre o tema, que considero produtivas: A falácia da escola sem partido (ou do pensamento único), “Projeto escola sem partido é uma ode ao atraso”, diz professor. E essa reportagem sobre o caso da professora que foi suspensa após dar uma aula sobre Karl Marx – e o protesto que seus alunos fizeram por sua volta. Fica o questionamento: se a ideia é um ensino plural, porque punir quem ensina Karl Marx, que é um pensador extremamente importante para a história mundial, com influência nas áreas de filosofia, sociologia e economia? Um mundo onde ninguém leia Karl Marx por acaso será um mundo melhor?

          Não esqueçam da consulta pública!

Festas juninas e seus santos

          Nos meses de junho e julho é comum encontrar pelas cidades do Brasil festejos típicos. São as chamadas Festas Juninas (ou Julinas). Nelas, os festeiros se caracterizam com roupas caipiras e são servidas comidas típicas do sertão ou de cidades do interior. A culinária é parte essencial do festejo e diz respeito à tradição do local onde a festa é realizada. Por exemplo, no Paraná é comum encontrar pinhão sendo vendido nas festas juninas, já em Pernambuco, é mais comum encontrar mugunzá. Enquanto isso, Minas Gerais oferece bolos de milho e mandioca, além de pamonha e curau – que acabam sendo comidas típicas dessas festas, independente de onde ocorram. 

          Além das comidas, as festas são caracterizadas por músicas tipicamente caipiras. Isso pode significar forró, axé, viola, sertanejo e outros estilos musicais, também de acordo com a região em que a festa ocorra. Além das músicas, há as danças. Geralmente elas são coreografadas, havendo grupos específicos que as realizam. São as chamadas “quadrilhas“. Em alguns lugares há competições desses grupos durante a festa, para ver quem fez a melhor coreografia. As quadrilhas são típicas das festas juninas escolares. A dança mais popular é o forró.

          Há ainda a parte de jogos e brincadeiras, onde são realizadas gincanas. Corridas em saco, pescaria, boca do palhaço e correio elegante são algumas das brincadeiras mais típicas. Mas há também o pau de sebo, argola, derrubando latas e diversas outras, também dependendo do local de realização da festa.

          Em locais específicos, como no Maranhão, algumas festas celebram também o Bumba meu Boi, que faz parte do folclore local. Já no Amazonas, as festas podem celebrar o Boto cor-de-rosa, por exemplo.

Mas por que as festas juninas existem? Elas são exclusivamente brasileiras? Por que ocorrem nesses meses e dias?

          As festas juninas surgiram no período pré-gregoriano (ou seja, antes da hegemonia da Igreja Católica por sobre a Europa) e eram realizadas no continente europeu para celebrar a fertilidade da terra e as boas colheitas. Isso ocorria porque lá junho é o mês do início do Verão, onde a colheita está ocorrendo de vento em poupa. Aqui, como junho é inverno, o principal símbolo da festa é a fogueira.

          Após a hegemonia da Igreja Católica, as festas continuaram a ocorrer, mas receberam o nome de “Joaninas“, por serem realizadas no dia do nascimento de João Batista, santo católico. A partir disso, a Igreja começou a utilizar a festa para celebrar três santos importantes, que nasceram no mês de junho. São eles santo Antônio, são João e são Pedro

          Como vimos, essas festas não nasceram no Brasil. Porém, foram trazidas a nós pelos portugueses, na época da colonização. Os indígenas e negros, que habitavam o Brasil na época, acabaram incorporando alguns de seus costumes à festa, que acabou sendo como muitas outras coisas do Brasil: um retrato do sincretismo e da miscigenação

          Apesar de as festas ocorrerem em todos os estados brasileiros, no Nordeste sua presença é mais forte, sendo consideradas parte da cultura local. Para o povo nordestino as festas juninas são sempre um grande evento, visto que celebram a cultura sertaneja, que em grande maioria habita essa região do país. 

          Devido ao tamanho e à grande quantidade de festas, elas acabam ocorrendo durante todo o mês de junho e julho. Porém, há três dias específicos em que sua realização é preferida, e são os dias dos três santos já mencionados (13, 24 e 29 de junho, respectivamente). No entanto, as festas que ocorrem em outros dias desses meses são tão legítimas quanto.

Mas por que esses santos são tão importantes para a Igreja Católica?

          Santo Antônio nasceu em Lisboa em  15 de agosto de 1191 e faleceu em Pádua, no dia 13 de junho de 1231, com 39 anos. Ele foi frade e passou por diversas congregações ao longo da vida, terminando sua trajetória como franciscano (congregação que segue os preceitos de são Francisco de Assis). O santo foi um grande orador, taumaturgo, místico e asceta. Escreveu muitas coisas e tinha sermões muito populares, que atraíam multidões. Como ele era familiarizado tanto com a literatura religiosa quanto com a profana, conseguia se comunicar com o grande público como poucos em sua época. Ele foi professor universitário e o primeiro franciscano a se tornar um Doutor da Igreja (título dado pelo papa vigente para pessoas de grande relevância nos estudos teológicos).

          Sua enorme popularidade entre os fiéis, principalmente de Portugal, são responsáveis pela fama e as festividades, que costumam ocorrer no dia de sua morte. O famoso “pão de Santo Antônio“, que é um pão bento geralmente oferecido à população no dia 13 de junho, é um símbolo que remonta a caridade do santo, que distribuía pães a quem precisava. O mistiscismo popular também é responsável pelas “torturas à imagem” do santo, como a famosa situação de deixar sua imagem de ponta cabeça até encontrar um marido. Pelo fato de ele ter realizado muitos casamentos, acredita-se que ele ajude nesta causa. Ele também é considerado padroeiro dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos idosos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros, dos pobres e dos oprimidos. Além disso, é invocado para achar coisas perdidas, conceber filhos e evitar naufrágios.

          No sincretismo religioso, ele pode ser conhecido como uma das manifestações de Exu (por causa da boa comunicação) ou Ogum (por abrir caminhos).

          São João Batista, por sua vez, nasceu na Galiléia, fruto de um milagre realizado por um anjo. Sua mãe, Izabel e seu pai, Zacarias, eram idosos, inférteis e nunca tinham tido filhos, mas queriam muito ter. Um anjo apareceu a Zacarias e disse que ele seria pai, mas o idoso não acreditou. Por essa razão, o anjo decretou que ele ficaria sem falar até o nascimento do filho, foi o que ocorreu. Izabel era prima de Maria, a que viria a ser mãe de Jesus, e recebeu a prima assim que o filho milagroso nasceu. João é considerado pelos cristãos o último profeta, que veio para preparar os caminhos do mundo para receber o filho legítimo de Deus, Jesus. Ele nasceu no ano 2 antes de Cristo, e faleceu no ano 27, decapitado. Sua cabeça fora pedida pelo rei Herodes, a ser entregue em uma bandeja de prata pela jovem e bela Salomé

          No decorrer de sua vida, João agarinhou seguidores, por causa de seus sermões que previam a chegada de um Messias, que posteriormente ele afirmou ser seu primo, Jesus. Por essa razão, João batizou-o, nas águas do rio Jordão. Após a morte de João, a maior parte de seus seguidores passou a seguir Jesus. A intenção do batismo não era criar uma nova religião, mas sim instituir esse sacramento na Igreja Judaica. A adaptação do batismo pela Igreja Católica ocorreu anos depois, por causa dos escritos sobre esse fato. 

          Tanto o dia de seu nascimento (24 de junho) quanto o de sua morte (29 de agosto) são comemorados pelos fiéis católicos das mais diferentes localidades e João é considerado um dos principais santos da fé católica. No sincretismo, João é considerado o maior profeta pelos protestantes batistas. Para o espiritismo, João Batista é a reencarnação de Elias (personagem do Antigo Testamento da Bíblia e da Torá). O Mandeísmo, por sua vez, cultua João como Messias. Já na Umbanda, o santo pode ser entendido como uma das manifestações do orixá Xangô ou ainda como uma entidade do Povo do Oriente. Os muçulmanos sunitas também consideram João como um de seus profetas e a Francomaçonaria o considera um de seus padroeiros.

          Por fim, São Pedro nasceu no ano 1 antes de Cristo, na Palestina e faleceu em Roma, no ano 67, quando tinha 38 anos de idade. Pedro foi um dos doze apóstolos (melhores amigos e seguidores) de Jesus e se tornou o primeiro papa da Igreja Católica. Foi um dos mais velhos a se juntar a Cristo, era pescador e irmão de outro apóstolo, chamado André. Inicialmente se chamava Simão e era bastante medroso, característica que Jesus punha bastante à prova. Em um determinado momento, Jesus disse que o nome dele deveria ser Pedro e que seria sobre essa pedra que sua Igreja seria construída. Por essa razão, Pedro tomou para si, após a morte de Jesus, a missão de fundar uma Igreja que seguisse os seus ensinamentos. 

          São inúmeras as passagens bíblicas que versam a respeito de Pedro. As mais marcantes expressam contrastes sobre sua personalidade. Por exemplo, na última refeição dele com Jesus, ele foi questionado da seguinte forma: “Pedro, tu me amas?” por três vezes e nas três respondeu afirmativamente. Pouco depois, quando Jesus foi preso e estava passando pelo Calvário, encontraram Pedro e o acusaram de ser um dos Apóstolos, também por três vezes. E desta vez ele negou em todas elas, cumprindo o que Jesus havia afirmado após ele dizer que o amava: “antes que o galo cante você terá me negado três vezes“. 

          Pedro não criou a Igreja Católica sozinho, teve também a ajuda de Paulo (razão para que o dia 29 de junho seja considerado dia de são Pedro e são Paulo). Paulo era um oficial romano que perseguia cristãos, até que ficou cego, recebeu uma iluminação divina, converteu-se e se tornou conhecido como um dos maiores autores do novo testamento da bíblia, que não conheceu Jesus vivo. Pedro e Paulo foram os responsáveis pela institucionalização da Igreja Católica, em Roma e, dessa forma, foram os responsáveis pelos primórdios da evangelização e por conseguirem mais e mais fiéis. Os dois faleceram no mesmo dia, razão para que sua celebração seja conjunta.

          Como Jesus disse que Pedro teria a chave do céu, é crença popular que ele seja responsável por controlar o tempo. Por essa razão, as mudanças climáticas são comumente consideradas “culpa de são Pedro“. Pela mesma razão, é de crença popular que após a morte a pessoa tenha um encontro com Pedro, que decidirá se abre ou não a porta do céu para que o indivíduo adentre. No sincretismo, Pedro pode ser considerado uma das manifestações de Xangô, por sua relação com as rochas e pela coragem – que mesmo não sendo inata, acabou surgindo e surpreendendo.

Não sou católico, posso mesmo assim ir à festas juninas?

         É claro que você pode! As festas juninas não existem por causa do catolicismo, como já visto e elas não excluem pessoas de outras religiões. Se os próprios santos que são lembrados no decorrer da festa são importantes para diversas outras religiões também, por que a festa seria descriminatória de algum modo? Na-na-ni-na-não! Principalmente no Brasil, a festa junina está muito mais atrelada à cultura popular do que à religião. Em alguns locais a religião sequer é mencionada no decorrer das festividades. Elas acabam sendo uma expressão popular do enorme sincretismo que compõe o Brasil, onde tem espaço para a cultura branca, a negra e a indígena. Então não tem problema uma festa junina não religiosa ou religiosa demais e tem menos problema ainda você não ser religioso e querer frequentar o ambiente! O que importa é manter o respeito e a tolerância frente a outras religiões, perspectivas, vivências e culturas sempre em pé e seguir curtindo a vida!

          Bom fim de junho a vocês!