Possíveis futuros filhxs…

Gostaria de pedir-lhes desculpas. Desculpas por não ser o tipo comum de mãe. Por não ser uma pessoa “certinha” e que fica insistindo para que você sempre carregue um casaco. Eu sei que não foi assim que minha mãe me criou, mas é assim que cuido de vocês. Peço desculpas por não ter passado a minha vida inteira pensando no exemplo que viria a lhes dar e por tê-la vivido da maneira que eu considerei correta. Mentira. Não peço desculpas por nada. Eu é que sou a mãe aqui, afinal de contas.

E não, eu não fui às mais bombadas passeatas existentes no país por causa de vocês. Eu não fui pensando na maravilhosa história que isso seria para vocês no futuro ou no quanto vocês se orgulhariam da minha pessoa. Eu fui por minha causa. Fui porque acho o ônibus tão caro que prefiro ir a pé aos lugares. Fui pela mesma razão que fui a todas as outras passeatas que eu sempre fui, porque eu acreditava que era necessário. E sim, eu sei todos os hinos nacionais e sim eu gosto muito do meu país e sim, eu cantei algumas vezes, mas caí na real, porque, bem, eu não acho que nacionalismo exagerado dê bons frutos, se não deu até hoje não vejo razão para ser diferente. Não, queridxs filhxs, eu não acho errado invasões aos Palácios de Governo, mas sim, eu fico fula da vida quando vejo trabalhadores sendo prejudicados por manifestantes. Não, filhinhx queridx, eu não saí por aí gritando que acordei ou que saí do facebook, não sou boba, eu adoro dormir e sempre estarei dormindo para algo e eu não pretendo sair do facebook tão cedo. Não, mxx queridx e amadx filhx, eu não usei de uma manifestação com um fim específico – diminuir o preço do meu sagrado ônibus de cada dia, que eu nem uso, mas ainda assim acho caro pra caramba – pra pedir a paz mundial, o fim da corrupção ou o impeachment da presidente do meu país. Ok, confesso que eu xinguei o governador do meu estado e alguns jornalistas que desprezo. Confesso também que em diversos momentos eu tive vontade de entoar frases feministas porque não aguentava tanta besteira sendo dita. Confesso que tive vontade de matar Marcos Feliciano. Mais de uma vez. Mas sabe filhx, eu não matei. Eu participei de um protesto contra ele. E não deu em nada. E eu participei de protestos contra a corrupção. E não aconteceu nada. E eu fui a inúmeras marchas feministas. E ainda sou oprimida por ser mulher diariamente. Mas eu nunca deixei de ir, carx filhx. Porque pra mim é isso que importa: lutar pelo que a gente acredita independente do resultado. Esforçar-nos pelo que a gente acha necessário, mesmo que não adiante. Porque por mais que eu tente me desvencilhar, nunca vou conseguir abstrair a utopia de um mundo justo, bom e respeitável. Mesmo sabendo que é uma utopia. Talvez seja a utopia que me mova. E, bem, você nunca teve nada a ver com isso.

Eu não espero que vocês saiam pela escola felizes e orgulhosos da mãe que têm. Tão pouco espero que vocês morram de vergonha. A essa altura do campeonato vocês já sabem que eu não espero nada, porque é assim que eu sou. Não crio expectativas sobre nada além de gosto de chocolate. E eu não me importo com como vocês se sentem com o fato de eu ter tido cabelos coloridos, ter sempre feito o que achei que devia ser feito, ter sempre pensado em mim, gostado muito mais de mim do que da maioria das pessoas e não tido vergonha disso. Eu não quero saber se vocês concordam ou não com o meu passado, com a minha forma de encarar relacionamentos, ideias ou quaisquer outras coisas. Mas não, filhinhxs amadxs, eu não escondo nada disso de vocês. Porque vocês tem que saber exatamente a mãe que têm. E se um dia vocês vierem dizer a mim que preferem a mãe do coleguinha, porque ela mudou o país, casou virgem, nunca pintou o cabelo e nem ouviu punk eu vou apenas sorrir e dizer que, por mais que a gente queira às vezes, não dá pra mudar de mãe e que vocês vão ter que me engolir enquanto viverem. Mas eu espero que vocês tenham aprendido a lição: nunca deixem de acreditar no que vocês acreditam e nunca deixem de lutar por essas coisas. Não importa o que isso xs leve a fazer. Enquanto vocês forem autênticxs, eu terei orgulho de dizer que xs pari.

Sempre esteve ali, mas eu não via.

Meu nome é Mayra, tenho dezoito anos e moro em Curitiba –  duas quadras da Rua XV de Novembro – há sete. Apesar da proximidade geográfica e das necessidades da vida urbana que me fizeram caminhar pelas quadras lotadas do calçadão diversas vezes durante todo este tempo, somente hoje, dia três de junho de dois mil e treze, eu realmente conheci aquele lugar. Não é que eu não saiba exatamente onde fica cada uma das lojas, a história da rua, as razões para ter um bondinho de leitura, prédios antigos e a chamada “boca maldita”. Não é que eu não saiba que a fila do sorvete do Mc Donalds vai estar lotada mesmo quando estiver zero grau e que sempre haverá um grupo de punks bebendo perto da fonte, em seguida um grupo de hippies fazendo artesanatos de arame e tentando vendê-los, estátuas vivas, o Plá, barracas de diversos movimentos sociais, caricaturistas e desenhistas, músicos, deficientes, bêbados, drogados, artistas de rua com performances incríveis, o Sombra, às vezes o Oil Man, a Emília e um grupo de velhinhos discutindo sobre política. Eu sei de tudo isso. Consigo dizer os lugares em que cada uma dessas coisas fica, mas eu nunca as tinha observado, visto ou experienciado da maneira como fiz hoje. Sempre fui mais uma na multidão. Mais uma das que tem uma vida para seguir em frente e que não apreciam a rua, simplesmente passam por ela. Sempre tentando bater meus próprios recordes – por enquanto o máximo que consegui foi 10min da Praça Osório até a Santos Andrade. Sempre fui mais uma das pessoas atarefadas que aproveitam o fato de ali não haver carros para andar mais rápido e também daquelas que recorre à honorável rua para qualquer tipo de compra emergencial. Eu nunca vivi a XV. Até hoje.

Hoje eu resolvi flanar. Fracassei. É impossível para mim cogitar a hipótese de simplesmente andar por uma rua sem um objetivo em mente, sem saber para onde estou indo e porquê. Eu não sei flanar, mesmo quando me esforço. E sabendo que seria impossível ficar tentando, impus um objetivo: experimentar. Então eu resolvi que dessa vez ia atravessar a rua em, no mínimo, meia hora. Decidi que ia prestar atenção em cada um dos prédios e, principalmente, em cada uma das pessoas. Que ia parar para responder qualquer um que viesse falar comigo, inclusive correndo o risco de ter que gastar meu dinheiro para cumprir essa promessa. O objetivo, claro, era conseguir fazer um bom relato depois. Tentar mensurar em palavras uma realidade complexa, algo que é sempre muito questionado e que tem poucas chances de ser feito com sucesso. Tentarei.

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Entrei na rua pela esquina com a Muricy e fui imediatamente tentando perceber as pessoas. Imitei o modo de caminhar de algumas, mas elas não perceberam. Deparei-me com três anões que não estavam juntos e muito provavelmente nem se conheciam, mas andavam perto um do outro. Vi duas senhorinhas de mãos dadas escolhendo coisas em uma loja e uma moça reclamando que o namorado ainda não fazia ideia do que lhe dar de presente. Vi três pessoas falando no celular, sendo que uma delas o fazia por bluetooth e assim parecia estar falando sozinha, e ela estava irritada. Havia um par de gentes estranha, ou seja, gente que eu imaginaria em qualquer lugar, menos na XV. Vi gente esnobe se assustando com a estátua viva e um entregador de água derrubando um galão cheio. Vi todas as pessoas da rua pararem o que estavam fazendo para encarar o menino que derrubou o galão, como se aquilo fosse um absurdo, um acidente urbano. Vi polícia e vi redes de televisão entrevistando pessoas. Vi um perfomista que estava se preparando para iniciar um espetáculo e tinha acabado de largar uma mão no chão e falar um monte de coisas incompreensíveis para ela. Uma punk veio até mim, entregar-me um zine e pedir uma contribuição para que ela vá a Porto Alegre fazer alguma coisa da qual não me recordo e eu dei algumas moedinhas. Em troca ganhei um lindo poema. Mais adiante conheci o Doende do Asfalto, um rapaz simpático que se ofereceu para fazer o meu nome em arames. Não me aguentei e comecei a conversar com ele, descobri que ele mora em um hotel e que o que ganha é suficiente para se manter. Ele viaja pela América Latina expondo sua arte e também para dentro do país. Ele era meio arredio, a cada frase que falava já ia logo dizendo algo como “relaxa, não aprendi isso na cadeia” ou “pode encostar em mim, eu não mordo” e eu tinha apenas perguntado onde ele havia aprendido sua arte e dado um aperto de mão. Mas ele era legal, disse para eu voltar lá porque ele quer fazer dreads no meu cabelo e falou coisas bonitas para mim, além de explicar o significado de cada uma das partes da arte que estava fazendo.

Vi mãe dando cigarro para uma filha criança. Gari limpando a calçada e sendo empurrado porque ele estava “atrapalhando a passagem”. Pai discutir com filha sobre que tipo de corte era aquele presente na roupa recém-comprada. Óticas entregando folhetos de propaganda. Leão Brasil gritando. Vi gente das mais diversas tribos urbanas, todos ali, convivendo no mesmo lugar. Vi apressados, desajeitados, elegantes, cafonas, gordos, magros, enfim, todo tipo de gente. Vi que mesmo vivendo em uma sociedade individualista, em que cada um conversa com gente que mora do outro lado do mundo, mas não conhece o próprio vizinho, que a alta tecnologia roubou o espaço da maior parte das relações afetivas e que o ar condicionado roubou o cheiro do ar puro na maior parte dos ambientes, ainda é possível saborear a rua. Ainda é possível sentir cheiros diferentes em cada passo, olhar coisas inesperadas e aprender o infinito com algo que sempre esteve ali.

No fim, concluí que mesmo sendo apenas mais uma na multidão, ao invés de eu apenas cumprir meu papel social posso sorrir e aproveitar o que a cidade tem a me oferecer. Posso pensar e sentir. Posso flanar mesmo não sendo desocupada. Posso causar estranhamento e estranhar-me com uma simples caminhada por uma rua próxima à minha casa. Eu posso tanta coisa. A gente pode tanta coisa. E mesmo assim desperdiçamos grande parte da nossa finita vida com atitudes mecanizadas que nos fazem ser quase meros autômatos.

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E foi assim, andando por um lugar que sempre esteve ali em um dia qualquer, que eu mudei a minha vida.

Hoje

Ah… O oito de Março… Aquele dia lindo em que todas as mulheres acordam, recebem flores, são respeitadas e parabenizadas por serem mulheres, para que todas as ofensas dos outros 364 dias do ano sejam explicáveis porque “ah, vocês tem um dia só de vocês”.

Só que não. Hoje não é um dia para remediar os outros 364, hoje é um dia para fazermos os outros 364 serem dias melhores. Mais igualitários e, acima de tudo, mais justos. Oito de Março não é pra gente ficar comendo bombom e sendo paparicada, mas sim para lembrarmos que por milênios às mulheres foram atribuídos somente os trabalhos domésticos, enquanto os homens iam “caçar” e depois “trabalhar”. É para lembrarmos que para uma divorciada conseguir respeito e emprego foram décadas de lutas, que as artes sempre foram vistas como “mar de orgia” porque toda artista é “um pouco puta”. É para lembrarmos que houve uma época em que as mulheres não podiam usar calças e muito menos se movimentar durante uma relação sexual, na verdade, elas não podiam sequer tirar suas roupas. É para que a gente lembre que diariamente milhões de mulheres são espancadas, estupradas e mortas, simplesmente por andarem na rua com a roupa que quiserem ou fazerem o que quiserem quando quiserem. É pra gente lembrar que graças ao domínio da sociedade patriarcal fomos deixadas de lado por MUITOS anos, até que finalmente conseguíssemos um pouquinho mais de dignidade.

Este foi o primeiro ano da minha vida que eu vi um grande número de pessoas compartilhando nas redes sociais frases como “não dê bombons, dê respeito” e fiquei feliz com isso. Acreditei que as pessoas estavam começando a perceber que as injustiças ainda existem. Então eu percebi que o número de gente que não entende ou concorda com a frase em questão ou com qualquer outra do tipo ainda é muito maior. Que a maioria das pessoas não ficou indignada com o fato do HC daqui oferecer um “curso de etiqueta” no dia da mulher, para trabalhadoras que recebem menos que os homens, são assediadas e mereciam ao menos uma conversa à respeito disso. Percebi que a maioria das mulheres ainda quer bombom, que são poucas as que não sofreram algum tipo de abuso e lutam pelas que sofreram e que são menos ainda as que percebem que foram abusadas. Eu percebi que eu não vivo no mundo que eu sonho em viver algum dia e eu me revoltei com isso. Eu me revolto com isso na maior parte dos dias da minha vida, claro, mas o dia de hoje me revolta mais enfaticamente. Porque eu não admito ver alguém  chamando uma mulher  de “vadia” pelo simples fato de ela estar com calor e estar usando um shorts. “Ah, ninguém manda usar shorts apertado”, na verdade a gente não tem culpa de o padrão da moda ser esse e temos menos culpa ainda com o fato de as pessoas acharem que isso é “pedir para ser violentada” ou qualquer coisa do tipo.

Eu fiquei revoltada e fui à luta. Levantei a bunda do chão da minha casa, larguei a argumentação internetesca e fui ao Ato do Dia Internacional da Mulher, que todos os anos ocorre aqui em Curitiba. Havia participado ano passado e foi lindo, mulheres trabalhadoras rurais vieram participar e tinha tanta gente, tantos cartazes, tanto barulho que eu fiquei com orgulho por morar aqui. Esse ano fui de novo, não pude ficar o tempo todo, mas eu fui. E foi lindo. Havia muita imprensa, muita gente de vários coletivos, de vários cursos universitários e gente que não participa de movimento nenhum. Havia gente de todos os gêneros, idades e estaturas. De todas as vontades, ideologias ou religiões. Todos com um único objetivo: a igualdade.

Igualdade. Uma palavra tão simples, mas que gera tantas lutas. Tantas. Basta relembrarmos a luta que foi para tentar conseguir a igualdade entre as  “raças” humanas, algo que até hoje não foi inteiramente conquistado, a luta tremenda que todos os lgbt’s enfrentam em sua vida corriqueira, a igualdade social, econômica e, claro, a igualdade de gênero. Não, a luta não é para o fim da diferenciação de gênero. Não é para que as mulheres mandem no mundo. Não. A gente só quer poder andar na rua com a roupa que bem entender sem ter que ouvir coisas absurdas. Quer ter o direito de dizer “não” e ser correspondida todas as vezes que alguém chega tentando nos agarrar em uma balada ou quando não estamos afim de fazer algo sexual. A gente quer ser vista como gente e não como mercadoria, como algo que tem que estar lindo, como um objeto em uma vitrine e prontas para ser usadas quando quisermos. A gente não luta pela força física das mulheres, a gente não acha que elas sejam frágeis. Mulher não é frágil. Mulher é mulher. Simples assim.

Hoje eu lutei, eu ouvi coisas ruins e coisas boas, eu tive a oportunidade de perceber que ainda existe gente que compartilha destas opiniões comigo e tive mais esperança de que um dia de fato possamos dizer que somos iguais. Hoje eu ganhei mais forças para batalhar por um mundo em que eu receba o mesmo tanto que um homem na mesma posição, que eu saia de shorts na rua sem passar por algum constrangimento. Que ao andar na rua e ser congratulada pelo dia da mulher eu receba coragem para seguir em frente e não um cartão de lavanderia. Que as mulheres tenham coragem de reportar todos os abusos que passam, que o número de espancamentos, estupros e mortes por motivos toscos como fim de relacionamento ou suposição de traição sejam quase zero, ou quiçá zero. Um mundo em que quando eu contar que “minha tia foi assassinada por seu marido, porque ele achou que ela estava o traindo” pareça apenas uma história fictícia. Hoje eu não ganhei flores, nem bombons e, infelizmente, não ganhei respeito. Mas espero que um dia a gente ganhe.

Para quem não acredita, aí estão algumas manifestações que ocorreram hoje ao redor do mundo.

Sujos

Eu sempre fui uma crítica nata de cinema brasileiro, daquelas que acha um absurdo o fato de o país ser capaz de produzir novelas decentemente e ser uma lástima na produção de filmes. A que acha ridículo o fato de não existirem grandes produtoras no país e tudo depender da Globo, da Ancine, de patrocinadores externos e da boa vontade do governo. E eu sei que os filmes alternativos são maravilhosos, sei que o festival de Gramado é cheio de preciosidades, mas sei também que os filmes que chegam em cartaz à grande massa de cinemas sempre são com atores globais famosos e um roteiro plenamente tosco, uma comédia idiota que envolva traição e sexo, de preferência. E eu sempre achei isso um absurdo.

Meu filme brasileiro preferido de todos os tempos é Olga. Porque eu adoro coisas relacionadas com a segunda guerra e gosto de ver as repercussões dela no Brasil. Moram em um bom lugar em meu coração os já clássicos “Auto da Compadecida”, “Lisbela e o Prisioneiro”, “Tropa de Elite” e o recém queridinho “Xingu”. Eu adoro quando o Brasil resolve fazer filmes sobre sua cultura ou para criticar algo que existe e não deveria. Adoro quando o Brasil mostra a sua raça na indústria cinematográfica e morro de vergonha quando lançam algo horroroso, como “As aventuras de Agamenon: O repórter”, por exemplo, que é, sem dúvidas, o pior filme que eu já vi na minha vida. E eu já vi muitos filmes. Já vi muitos filmes ruins.

Mas acima de tudo, o que mais me irrita é o fato de o Brasil e o brasileiro não glorificar seu cinema simplesmente porque os filmes famosos e populares em suma maioria são terríveis. Há diretores fantásticos que nasceram no Brasil e foram trabalhar nos EUA como o Fernando Meirelles e o Walter Salles, por exemplo. Eles podem até fazer filmes por aqui, mas trabalham lá fora e eles são fantásticos. Provas disso são os filmes “A Cegueira” e “Na Estrada” – que tem um roteiro péssimo, mas a direção do filme é fantástica.

Eu não entendo como é que o Brasil é capaz de ter bons atores, boa infra estrutura, bons diretores, boa equipe e ainda assim fazerem péssimos filmes! Ou os roteiristas são terríveis ou os produtores realmente creem que a população gosta de assistir porcaria. Eu sempre tive muito preconceito com filme brasileiro a ponto de prometer a mim mesma que jamais pagaria para assistir um no cinema, mas só nesse ano já fui quatro vezes e esse texto é sobre a última.

Porque hoje eu vi um filme fantástico, denso, muito bem feito, com filmagens maravilhosas, efeitos de câmera que eu nunca tinha visto, atuação e direção maravilhosas e, principalmente, um roteiro impecável. Assisti a “Corações Sujos”, um filme brasileiro com elenco japonês que, por isso, é legendado. Ele é dirigido por brasileiro, baseado em um livro brasileiro, mas basicamente inteiro falado em japonês e isso é muito bonito e interessante. É um filme denso e sincero que conta sobre guerras que costumavam ocorrer nas colônias japonesas de São Paulo logo depois do fim da segunda guerra, pois as famílias não queriam crer que o Japão havia perdido. O filme explora a honra do povo, questiona os costumes, nos conta uma história esplêndida sobre uma época e uma colônia que muito sofreu e que muito tem a nos contar. Foi um filme maravilhoso que me prendeu em todos os segundos e não me deixou com vontade de ir embora nunca, pelo contrário, me fez querer entrar lá e ajudar os personagens e me fez querer ajudar a bater em alguns também.

Achei incrível porque na minha cabeça filme brasileiro era em português e esse não foi e mesmo assim foi tão belo e sucinto que me deixou plenamente orgulhosa por ter nascido e crescido num país que pode sim cometer suas burradas, suas muitas burradas, mas mesmo com o déficit de valor para a cultura, mesmo com a falta de uma super produtora nacional além-globo, é capaz de fazer algo digno, não marketeiro e plenamente interessante. Hoje eu tenho o orgulho de dizer que dos 4 filmes brasileiros que vi no cinema este ano, somente um foi de meu desagrado. Tenho o orgulho de dizer que estamos evoluindo, que em breve conseguiremos manter um ator bom como o Rodrigo Santoro aqui para sempre, pois ele não precisará ir para outro país para ter sucesso. Em breve teremos filmes participando de grandes festivais e em breve, caros senhores, as pequenas produções serão tão reconhecidas e valorizadas quanto as grandes.

Em breve, nosso cinema será plenamente limpo e eu não morrerei até que esse meu sonho se realize.

 

 

 

O Amor em Forma Redonda

Não sei quando foi a primeira vez que experimentei, mas garanto que devo ter gostado logo de início. É a especialidade culinária da minha mãe que mesmo sendo Nordestina deixava minha avó mineira pra lá de satisfeita. Lembro-me de ter  menos de cinco anos e sair com meu cofre de hello kitty na mão acompanhada do meu irmão que andava com uma bacia repleta de sacos lotados deles rumo a todos os vizinhos do prédio, porque era nossa forma de obter uma renda extra. A gente vendia pão de queijo porta a porta e todos compravam porque nos achavam fofos e porque era bom demais.

Eu ao lado da minha mãe, com uma fralda para não cair cabelo na massa, aprendendo o passo a passo e comendo um pedaço de cada etapa. Porque pão de queijo é capaz de ser bom na parte que é só polvilho escaldado, na parte que mistura o queijo e os ovos e está a ponto de ser enrolado e depois de enrolado também, quando assa então. Nem se fala. Enrolar pão de queijo era uma das coisas mais divertidas da minha infância. Tentar achar o tamanho ideal e colocá-los na forma de maneira que tivessem espaço para crescer sem esmagar os outros. E quando o tamanho não estava bom, eu fazia igual ao brigadeiro e comia rapidinho antes de pular pra próxima bolinha! Porque não há nada mais divertido do que fazer pão de queijo ao lado da minha mãe.

A gente mudava de cidade e a fábrica não parava, minha mãe chegou até a ensinar uma de nossas ex-empregadas a amassá-los no lugar dela, pois o braço dela estava adoecido devido a tanta massa produzida. E a moça fazia, não ficava aquela brastemp, mas dava pro gasto. E a gente nunca parou. Em uma de nossas cidades, além de ir pessoas basicamente desconhecidas em casa só pra comer pão de queijo, criaram até uma comunidade do orkut homenageando aquela coisa deliciosa. Então veio o forno elétrico e nunca mais mamãe conseguiu atingir o nível de perfeição, a não ser quando trazem o queijo de Minas e ela resolve assar no fogão. Enquanto isso fico sofrendo ao pensar que meu momento de ser a assadeira de pão de queijo da família está próximo e com a ciência de que eu necessito honrar o nome, afinal o que é bom precisa ser mantido e eternizado. E como esse tempo não chega, tenho que saciar minha vontade em outros meios.

Ou vocês pensam que após basicamente quinze anos ingerindo altas doses de pães de queijo dá pra sobreviver sem eles por muito tempo? Eu digo que não. É fato que muitas das minhas amigas vêm aqui em casa só porque quando tem visita tem pão de queijo e nessas ocasiões eu consigo desvincilhar-me de minha vontade, mas como ultimamente tem sido cada vez mais difícil vir alguém me visitar, resta-me comprar minha delícia em lugares aleatórios.

Na minha ex-escola a cantina era careira e o salgado mais barato era nada mais nada menos que o pão de queijo, o detalhe, porém, é que além de ser o mais barato era o mais gostoso. Eu não conseguia resistir a ele e só o deixava de lado quando tinha croissant de chocolate à minha espera, porque eu sou absurdamente viciada em pão de queijo, mas croissant de chocolate não é aquela coisa que a gente come todo dia. Quase todo dia eu comia pão de queijo. Aprendi que gosto dos pães que vendem na “casa do pão de queijo” e consigo suprir minha vontade com aquele pão de queijo congelado – meia boca.

Então surge a cantina do teatro e eu sou fresca pra comer e nunca experimentei um salgado além de coxinha e pão de queijo, mas vem muito frango na coxinha e pão de queijo não tem recheio, por isso é perfeito, então, resumindo, na cantina do teatro eu só peço pão de queijo. Exceto quando há croissant de chocolate, como já foi explicado. A coisa é tão automática que eu nem falo nada, basta chegar na frente da Mira pra ela já ir tirando um pão de queijo e me entregando. E olha que eu nem sou muito fã de queijo, só gosto em pão de queijo e em lasanha, queijo ralado no macarrão ou pastel de queijo e afins me dão arrepio, porque fica uma camada muito espessa de gordura e tal. Bolinha de queijo eu té engulo, mas eu sempre formo fios de queijo e faço meleca, então prefiro o bom e velho pão de queijo. Sempre preferirei.

Eu sempre quis ir pra Minas, porque minha vó nasceu lá e minha vó era fantástica, mas depois que a tia do meu pai veio nos visitar e trouxe um pouco dos pães de queijo deles a vontade apertou ainda mais. Porque pão de queijo é a comida mais brasileira que existe, quiçá até mais brasileira que arroz com feijão preto. Porque eu nunca ouvi falar de outro país que tenha. É uma iguaria nossa. Só nossa. E eu fico tão feliz quando sei que há algo tão bom que foi inventado bem aqui! Sei que o Brasil é enorme e eu não conheço grande parte, mas recentemente concluí que Minas é a Itália do Brasil. Porque a Itália até é bonita e tal, mas o que me dá vontade de conhecer não é o Vaticano, a Capela Sistina e a Fontana di Trevi, mas sim os deliciosos restaurantes e quer saber? Com Minas é a mesma coisa. Porque lá pode ser a terra do doce de leite e sei lá o que, mas acima de toda e qualquer coisa, lá é a terra do pão de queijo e não há amor mais redondo e delicioso que este!

E que explodam essas casas chinesas de Curitiba que fazem pão de queijo no liquidificador, colocam em formas de empada e assam a massa depois de a terem pré-fritado. Se querem estragar alguma coisa, estraguem algo que já é ruim, pois fazer isso com o ouro em forma de comida deve ser pecado e dos mais graves!

Aaaaahhh Pão de Queijo!