Se o Telefone Tocar…

Eu não vou atender. É contra as minhas regras. Não digo que fugi dos telefones durante minha vida inteira, porque até os cinco anos eu saía correndo para atendar e bradar o meu “princesinha do papai, boa noite”, na esperança de que fosse meu tio para cantar “sozinho”, do Caetano, junto comigo. Depois que a gente se mudou e que minha primeira ligação para minha melhor amiga foi surpreendente a ponto de ela estar mudando de casa e sua mãe estar grávida, desisti dessa vida.

Telefone sempre foi aquela coisa que estava lá, que eu falava quando obrigada, ou seja, nos aniversários das pessoas ou nos finais de semana porque os avós moravam longe. Nos outros dias ele ficava no lugar dele e eu no meu, que sempre era longe. Quando tocava sempre era pra minha mãe e ela sempre gostou da coisa, então nunca tive razões para me incomodar. Com o passar dos anos, meu irmão também passou a amar aquele apetrecho e era a única coisa que eu não tinha inveja por ele ter em seu quarto. A única utilidade do telefone era fazer a internet funcionar, para que eu pudesse entrar no site da Barbie.

Com o passar do tempo veio o celular e eu descobri um universo chamado mensagem de texto. Esse universo maravilhoso fazia com que as chances de eu receber ligações chatas diminuíssem ainda mais e como junto com ele foi se desenvolvendo a internet e as maneiras de conversar online, telefonar caiu em um desuso total. As últimas amigas que eu soube os números da casa foi porque conheci aos treze anos, época em que minha mãe ainda se dava o trabalho de ligar para confirmar se eu estava mesmo indo dormir com fulana. Como minha memória numérica é muito boa, lembro-me de vários destes telefones, mesmo que muitos deles tenham mudado. De todas as outras pessoas eu só soube o celular. E o e-mail. E o orkut. E o facebook. E o MSN. E o Skype. E nada do telefone. E ninguém liga pro celular de ninguém, a não ser que vocês tenham combinado de se encontrar hora x e a pessoa não apareça ou qualquer coisa assim. Ninguém cogita a hipótese de ligar pro celular de outro alguém pra ficar conversando por horas afins. A não ser que sejam aqueles casais de namorados irritantes que demoram 50min só pra decidir qual dos dois vai desligar.

Na época dos treze anos eu tentei me aventurar nos telefonemas, mas realmente não é a minha praia. Depois que uma menina muito esquisita que era amiga das minhas amigas, mas eu detestava e tratei de fazer ser minha arqui-inimiga logo de cara ficava me ligando todos os dias existentes, bem na hora que eu queria jantar, ou tomar banho, ou fazer qualquer coisa menos ficar ouvindo uma pessoa falar um monte de coisas inúteis seguidas por xingamentos à mim mesma, desisti de vez. Lembro de falar pra minha mãe que eu não ia atender mais nada e que se fosse pra mim a ordem é que eu nunca estaria disponível. A sorte é que meu pai também abomina telefone, então minha mãe está acostumada com essas mentirinhas.

Considero-me no pico da montanha do odeio telefone. Eu não sei mais ser simpática com gente de telemarketing, não sei mais receber recado quando ninguém está em casa e sou obrigada a atender, não sei marcar consultas ou encomendar pizzas, não sei fazer nada quando envolve telefone. É claro que em alguns casos eu realmente sou obrigada a resolver as coisas via telefone, porque burocracias ainda usam essa coisa nada a ver, mas antes disso tenho todo um processo de busca pela coragem e simpatia interiores e sempre conto com a minha mãe olhando com cara feia e dizendo pra eu parar de frescura e tomar jeito na vida. Então, ok, relutantemente algumas vezes eu faço ligações. Só em extrema necessidade e quando nenhuma outra opção mostra-se disponível, mas faço.

Atender são outros quinhentos. Só aceito falar ao telefone quando sei que é alguém que quer perguntar algo bastante objetivo, geralmente a minha prima, ou quando é para confirmar algum compromisso. Se a pessoa resolve ficar falando por mais de cinco minutos eu já começo a ficar irritada, ser grossa e encaminhar a coisa pro final antes que eu desligue na cara e xingando, mesmo que seja a pessoa que eu mais ame no universo. No celular eu simplesmente não atendo. A vantagem mor do celular é que podemos ver quem está nos ligando, dada essa chance, para que atender? Só em casos de extrema necessidade que, como meu pai sempre diz, é só para o que o telefone deveria servir. Nunca eu passei mais de 8min em uma ligação no celular e essa de 8min foi com a minha mãe, porque estávamos morando separadas e com mil e um problemas a serem discutidos e minha mãe é a única pessoa no universo que eu prefiro conversar pelo telefone do que ter que escrever algo.

Eu abomino ligações telefônicas por elas serem muito invasivas. Muito diretas. Por imporem que você tem que falar com fulano naquele momento sobre aquela coisa. Não importa se você não está afim, se você tinha outra coisa pra fazer ou se você simplesmente não quer falar sobre aquele assunto. A coisa está ali, não tem como fugir. Telefonemas são como estar fugindo da polícia e parar em uma rua sem saída, plenamente rodeada por viaturas. Eu jamais me sentiria à vontade para ligar para alguém supondo que a pessoa terá meia hora do seu dia para ser gasto simplesmente falando comigo e é por isso que acho absurda a ideia de que tem pessoas que conseguem imaginar isso. Falar por mensagens de texto, e-mails ou quaisquer outros tipos de chat é muito mais tranquilo. A gente pode escolher em que momento responderemos, podemos responder um simples “ok” ao término daquele e-mail desabafatório que foi um porre, podemos esconder nossas reações perante a determinadas coisas que foram ditas e, o mais legal, podemos apagar o que escrevemos antes de enviar. No telefone eu desligaria na cara, após infinitos xingamentos. Nos outros artifícios a gente tem tempo pra pensar, esfriar a cabeça, refletir e só então falar o que está com vontade. Não sei como seria a minha vida se todas as mensagens que apaguei antes de serem enviadas tivessem simplesmente sido enviadas ou se todos os e-mails que demorei horas pensando antes de escrever fossem tentativas falhas de conversas que eu jamais conseguiria ter. Telefone é uma coisa que me assusta tanto que eu nem sei qual é o toque do meu celular, ele sempre fica no silencioso para eu ter uma desculpa conveniente para quando não atender algo.

Quando eu digo que pode me ligar, mas eu não vou atender não é nada pessoal. Eu juro que não é. Falo isso pras minhas amigas, pros meus parentes, pra todos. Inclusive, na maioria das vezes que pedem meu número eu já vou logo avisando só não me ligue, que não vou atender. E não é nada pessoal. Como eu disse, a pessoa pode ser a mais importante da minha vida, eu vou ficar ainda mais nervosa por isso e aí é que não vou atender mesmo. Se for extremamente importante e a pessoa realmente quiser falar comigo, ela vai se reder a uma mensagem de texto dizendo “me liga, por favor” aí eu vou avaliar a situação e ou vou ligar ou vou responder “não posso, fala por aqui”. E não vai ser nada pessoal. Nada mal educado. Apenas o meu jeitinho. Agora, se algum dia eu cometer o ato desesperado de ligar para alguém e a pessoa não atender e for importante e eu disser pra ela que é importante e ainda assim ela não atender, bem, até eu tenho limites.

Botões

Sempre fui adepta aos botões, a nível de não conseguir entender como as pessoas conseguiam sobreviver sem eles em seus celulares touch screen. Sempre prezei pela existência dos botões e meu maior medo tecnológico é chegar um dia em que o controle remoto não necessite de botões. Porque poucas coisas são tão relaxantes quanto apertar botões. Porque é completamente diferente apertar com toda a força o botão “desligar” do telefone quando você quer desligar na cara de alguém do que simplesmente tocar em “encerrar” quando quer terminar uma chamada.

Após um período de resitência incrível para pessoas como eu, que sempre querem estar seguindo o fluxo de desenvolvimento tecnológico existente – ok, eu uso meu diskman as vezes e nunca tive um iPod, mas é porque não ligo muito pra música – no últmo mês entrei em contato com meu primeiro apetrecho touch screen, um celular android. Os primeiros dias foram de uma bizarra relação de estranhamento, na qual eu ficava chateada ao escrever uma palavra e ela sair errado e queria insistentemente voltar aos meus botões e rogava praga aos desenvolvedores de tecnologia por não terem inventado androids com botões.

Aí passou. Aí eu me acostumei a ficar deslizando meus dedos por um teclado swype o dia inteiro e a ficar completamente vesga de tanto olhar pra uma coisa minúscula. Acostumei-me a tweetar, facebookiar, enviar e-mails, ouvir músicas e até moderar os comentários do meu blog através daquele apetrecho. Usei-o para ligações pela primeira vez nesta semana, porque até então elas haviam sido completamente inúteis. Assim como as sms’s, que foram drasticamente reduzidas. A média pré android era de 100 sms’s diárias, pós android não consigo passar de dez.

Livrei-me do meu apego aos botões e apeguei-me a aplicativos que antes eu julgava inúteis e retardados. Passei a ser uma usuária ativa do instagram e encontro-me altamente viciada no tal “whatsapp”, porque ele é como um msn e pessoas velhas de verdade gostam é de velharias. Whatsapp é a versão tecnológica do msn e me emputece saber que só quem tem determinados tipos de telefone pode ter acesso àquilo, porque é tranquilizador poder comunicar-se com quem lhe é quisto sem estar atrelado a uma rede social repleta de outras distrações e funcionalidades.

Agora, por mais que eu goste de ficar conversando o tempo todo com quem eu gosto, consigo ter um controle maior sobre a coisa. Consigo filtrar melhor com quem eu falo. Consigo movimentar meus dedos com mais leveza e sem exigir muito dos meus tendões e articulações. Consigo relaxar utilizando os botões do teclado do meu computador, que continuam a ser pressionados com uma força abrupta e velocidade irreparável e, claro, continuo a comprar inúmeras roupas que possuam botões, dos mais diversos tipos e a passar vários minutos da minha vida mudando o canal da televisão até ficar bem zen.

É assim que se faz na vida moderna.