Caraminholas

Rotina é aquela coisa chata com a qual somos acostumados a lidar desde que nos entendemos por gente. A primeira coisa que nos faz seguir uma rotina é a escola, porque é um compromisso fixo ao qual nossa vida gira em torno de. E a escola acaba por durar – no meu caso – de um ano de idade até vinte e dois, se eu resolver não fazer mestrado, doutorado e afins. Então, a vida pode ser repleta de incertezas, mas nós sempre teremos uma rotina a seguir.

E daí inventam as férias. Aquele período mágico em que o espaço tempo dá uma trégua e o universo diz “você pode ser livre!” e você acredita nisso, mas não consegue e acaba criando sua própria rotina de férias. A minha consiste em ficar acordada a noite inteira assistindo seriados, filme sou lendo algum livro, acordar no meio da tarde para comer alguma coisa, ficar no computador até a hora que cansar e resolver assistir os seriados, filme sou livro. E fazer isso por um mês seguido. Ou dois, ou quatro, no caso da greve do ano passado.

Querendo ou não, sempre acabamos por nos prender a alguma coisa, porque mesmo que meu elemento seja a água, eu gosto de certa estabilidade e acho que todos gostam. Acho que não existe uma pessoa sequer que consiga lidar bem de verdade com a fluidez da vida, ou seja, com “deixar acontecer naturalmente”. A gente tenta, a gente se esforça, a gente testa a tese estruturada pelo Exaltassamba em todos os âmbitos possíveis da vida e a gente vê ela falhar na maioria das vezes. Porque a gente busca pelo controle e nem é só pelo da televisão.

Nossa cabeça sempre acaba repleta de caraminholas e mesmo quando pensamos que não vamos mais planejar o futuro, antes de dormir estamos fazendo uma lista mental das tarefas que deveremos cumprir no dia seguinte e nós não cumprimos as tarefas no dia seguinte, ainda mais quando estamos de férias. Mas isso não nos impede de planejá-las. Saber que algo não vai dar certo, que não é assim, que é inatingível, que é errado e que a gente simplesmente deveria desencanar e viver sem caraminholas na cabeça por pelo menos um dia na vida, porque: “por favor, pensar cansa!”, não nos faz simplesmente desistir de pensar. A gente não consegue.

E  se uma vez meu professor de literatura disse que para escrever um poema surreal a gente precisava esvaziar a mente, segurar um lápis sobre o papel e depois ver o que tinha saído e que na maioria das vezes seriam rabiscos ou nós simplesmente dormiríamos, eu digo que, mesmo tendo conseguido rabiscos sem sentido uma vez, eu não nasci pro surrealismo. Dali e seu bigode que me perdoem, mas as caraminholas regem minha existência. E a rotina. E a rotina de férias que eu tento aplicar mesmo nos dias letivos e só me ferro.

Stand up Comedy

Dizem que com quinze anos viramos mocinhas. Eu nunca parei pra pensar se acreditava nisso antes de completar quinze anos, mas uma vez me disseram que quando a gente tinha 12 era adolescente e eu, mesmo me considerando criança, me fingi de adolescente só pra poder fazer mechas no cabelo. Com 15 anos resolvi que era mocinha e fiz isso porque eu queria muito viajar sozinha nas férias de Julho.

O destino escolhido foi a cidade em que passei minha infância, Cachoeira Paulista, mas na verdade era só uma desculpa para que, quando eu estivesse lá, conseguisse convencer minha mãe a passar um final de semana em São Paulo. Consegui, baseando-me em argumentos como “vou visitar minha tia” e “eu tenho amigos lá!”. E eu realmente tinha. Amigos que conheci pela internet e com os quais conversei arduamente por muito tempo da minha vida e sempre quis conhecer. Uma delas eu já conhecia, porque o pai mora em Curitiba e a gente se encontrou aqui várias vezes, ela foi até na minha festa de aniversário! Mas o meu amigo, que era a pessoa que eu mais queria conhecer na história do mundo, eu só veria se fosse a São Paulo. E eu fui.

Fiquei na casa da minha tia e passeei com ela por dois dias, até que chegou o dia em que eu iria ao shopping com meus amigos paulistanos. O shopping ficava longe e minha tia nem sabia como chegar lá, mas Lola – minha amiga – me buscou na estação do metrô e fomos ao shopping juntas. Lá chegando eu fui apresentada a todos os amigos dela e, entre eles estava Jay. Foi aquela efusão maravilhosa de sentimentos e a gente riu e se divertiu horrores. Assisti Harry Potter pela primeira vez na vida e chorei com a morte do Dumbledore porque ele me lembrava o Gandalf e depois tomamos Starbucks, algo que eu nunca tinha visto. Rimos e conversamos e anoiteceu e a gente tinha que ir embora e ninguém ia embora de metrô e eu não sabia voltar da estação de metrô para a casa da minha tia e morria de medo de andar sozinha em São Paulo no escuro. Minha tia estava trabalhando e eu estava sem celular, logo a única coisa plausível a fazer foi pegar o ônibus com eles e parar na rua perto da minha casa.

Só que a gente se empolgou conversando e passamos pela rua que eu supostamente deveria descer. E a partir disso eu não sabia o que fazer, porque eu não tinha o endereço anotado, não tinha pra quem ligar, não tinha nada. Estava perdida em São Paulo em um ônibus com as amigas da Lola, porque ela morava perto do shopping e foi a pé e Jay já havia descido do ônibus. A única coisa que me restou foi ir até a casa de uma das meninas, a Karina. A casa dela ficava num bairro muito longe do da minha tia e a gente demorou um tempão no ônibus até chegar lá e acho que depois do ônibus ainda pegamos outro meio de transporte.

Chegando na casa dela comemos um macarrão muito gostoso que sua avó havia feito e meu plano era dormir ali e esperar amanhecer para falar com a minha tia e ir pra casa dela. Só que, para não preocupá-la, resolvi ligar dizendo onde estava, que ia dormir fora e passando um telefone para contato. Eis que minutos depois minha tia liga altamente desesperada, brigando horrores comigo e querendo saber todas as explicações possíveis e eu sem saber direito o que dizer, disse a verdade e ela ficou assustadíssima, porque supostamente o bairro era perigoso e era a casa de desconhecidos. Então ela ligou para os meus pais, contou o que estava acontecendo e fez com que eles ligassem para a casa da menina, eu, no auge da vergonha, atendi o telefone e ouvi mamãe dizer que eu poderia dormir lá sem problemas, enquanto papai estava esbaforido ao seu lado dizendo que eu deveria era morrer porque isso não se faz. Liguei pra minha tia, falei o que minha mãe disse, mas ela disse que não se sentia segura com isso e que iria me buscar.

E ela foi. Demorou um bom tempo até que ela chegasse e quando chegou nos contou que a estação de metrô estava quase fechando e que de lá até a casa ela foi de carona com um desconhecido. Agradeceu à família da Karina e eu também, enquanto morria de vergonha, pedia desculpas pelo transtorno e dizia que a comida estava muito boa. Então voltamos pra casa e combinamos de deixar os detalhes sórdidos da história desta parte da aventura guardados no nosso subconsciente para que jamais fossem compartilhados com alguém.

Voltei pra casa no outro dia, mamãe e Mário me buscaram na rodoviária. A viagem foi tranquila, a companheira de poltrona de ônibus era legal e passamos o tempo todo conversando sobre livros. Mamãe disse que eu não poderia usar internet por um bom tempo e meu irmão concordou. Papai nunca tocou no assunto. Eu conversei por cartas com meus amigos por mais algumas vezes e depois que voltei a usar a internet pedi desculpas a eles pelo que tinha feito. Vi e conversei com a Lola várias vezes depois, mas com os outros nunca mais.

E eu aprendi que a gente não vira algo automaticamente, só porque chega a certa idade.

Eu não era adolescente com doze anos. Não era mocinha com quinze e não era adulta com dezoito (embora tenha voltado a mais uma aventura com amigos de internet em São Paulo e me dado bem). Nós não somos obrigados a agir de acordo com um determinado fluxo de pensamentos, sentimentos e ideias que dizem ser apropriadas para o momento da vida em que estamos. Não me sinto inferior a ninguém por ter brincado de barbies alucinadamente até os treze anos ou por ter feito e continuar fazendo inúmeras merdas juvenis. Não é porque a gente atinge determinada idade ou passa por outros processos de socialização, como a faculdade ou um primeiro emprego, que devemos automaticamente nos sentir aptos a nos portar como adultos amadurecidos. A gente pensa que não, mas nem nossos pais foram assim. Eles também eram irresponsáveis, imaturos e imprevisíveis, porque ninguém aprende a lidar com as responsabilidades da “vida real” repentinamente. Porque esquecem disso na hora que nos contam sobre o decorrer da vida, mas o amadurecimento demanda tempo.  E é aí que a gente entende Peter Pan, mas no nosso mundo não há Neverland. E por mais que a gente queira retardar esse processo e ficar velho em idade, mas jovem em pensamentos por toda a eternidade, não podemos. Não é uma escolha plausível. Em algum momento a gente cresce e, do mesmo jeito que simplesmente paramos de brincar de bonecas sem saber porquê, seremos tão adultos quanto nossos pais.

Enquanto isso, resta-nos aproveitar as viagens loucas, encruzilhadas, e cicatrizes, medos, tristezas, dificuldades, irresponsabilidades e insanidades, pois elas nos farão crescer, mesmo que não pareça. Porque é assim que a vida é, uma peça teatral completamente improvisada.

Help me to retard this process, dear friend.

E a minha é um stand up comedy.

P.S.: Foi proposta para esta semana a brincadeira de escrever uma crônica por dia e eu aceitei, mas não sei diferir gêneros literários, então preparem-se para uma semana de tentativas de crônicas que nunca serão crônicas!

Abrindo o Fecho

Eu sempre fui péssima em abrir fechos de sutiãs. Sempre fui péssima em tudo que envolve sutiãs, diga-se de passagem.

Eu tinha sete anos e ia na casa das minhas amigas ouvir Britney Spears escondida enquanto tentávamos dançar como ela. Uma das meninas sempre pegava os sutiãs da mãe, colocava e distribuia pras outras, porque “a Britney tem peitos, também temos que ter!” e eu nunca colocava o sutiã. E dizia “eu não quero ter peitos” e elas diziam “mas toda menina tem que querer ter peitos!” e eu ficava emburrada e ia pra casa desolada imaginando que um dia talvez eu tivesse peitos.

A minha relação com os peitos foi muito proveitosa, não há como negar. Mamãe tinha muito leite e eu mamei abundantemente até dois anos de idade, então enjoei e comecei a fazer birra e ela parou de me dar leite e começou a doar pro resto do mundo. Depois disso, perdi o contato com aquele punhado de pele da mamãe, tendo-o visto nela e em todas as outras mulheres da família inúmeras vezes porque eu detestava tomar banho sozinha. Não tinha a noção de que um dia aquilo faria parte de mim e quando eu descobri isso, fiquei chocada.

Lembro de me olhar no espelho, me imaginar com peitos e começar a chorar. Pensando que se algum dia aquilo acontecesse comigo, seria terrível. Não é que eu ache feio qualquer pessoa ter peito, eu não me importo com os peitos alheios, só não os queria em mim. A simples ideia de que isso pudesse ocorrer me atormentava horrores e quando eu cheguei na puberdade tudo que conseguia pensar era “por favor, que eu não tenha peitos” e, bem, meu desejo foi realizado e eu sou absurdamente feliz com isso.

Só que não ter peitos não faz com que você se liberte do fecho do sutiã. Porque usar sutiã não tem nada a ver com ter peitos, pelo menos não na cultura brasileira a qual estou inserida. Aqui as pessoas usam sutiã para disfarçar o mamilo, porque mamilo aparecendo é tão chocante quanto andar de saia sem calcinha. É absurdamente deplorável, julgável e reprovável. Então, a partir do momento em que os mamilos das meninas começam a se desenvolver, elas são coagidas a usar sutiã.

“Vamos comprar sutiã, filha!” “Pra que, mãe?” “Todas as meninas da sua idade usam… é pra não aparecer os peitinhos no uniforme”

E todas nós caímos nessa conversa. E ganhamos sutiãs bonitinhos, fofinhos, aparentemente confortáveis e podemos ir pra escola nos sentindo mais mulheres, porque sutiã é coisa de mulher de verdade e a partir disso é como se a gente de fato tivesse crescido. E nunca mais paramos de usar sutiã. Os seios crescem um pouquinho e lá vamos nós comprar de um número maior, uma cor diferente, estampa mais bonitinha e acabamos gostando da coisa, ela se torna tão natural quanto usar calcinha e ninguém nunca pensa em qual sua funcionalidade, simplesmente compra e usa.

Só que quando você não tem peitos, comprar sutiã é altamente torturante. Porque não existe um que seja do tamanho perfeito, sempre vai ficar faltando pano nas costas ou sobrando bojo e não importa o quão coloridos e versáteis eles pareçam, eles sempre vão te machucar. Usar sutiã, caros colegas, é uma tortura. É aquela coisa terrível de se sentir presa o dia inteiro por uma coisa que você não faz ideia do motivo para usar, porque pra quem tem peitos ele é super útil! Ele levanta, deixa no lugar e ajuda a distribuir o peso, fazendo com que as costas não doam, é altamente necessário! Pra quem não tem peitos, não serve pra nada. Não tem nada pra levantar, não tem peso nenhum. Por favor, deixem meus mamilos em paz.

E daí cá estou eu, dezenove anos na cara, mais de dez sutiãs na gaveta. Cada um com um modelo e cor e tamanho diferentes, nenhum sendo confortável o bastante para me fazer querer usar o dia inteiro. Sem saber como lavar aquela coisa de um jeito que não estrague e que limpe de verdade e sempre tendo que pedir ajuda pra mãe. Sem habilidade para abrir ou fechar o maldito fecho, sendo obrigada a colocar a coisa do mesmo jeito que a minha vó colocava, ou seja, abrindo e fechando com ele virado pra frente e tendo como única habilidade no quesito “sutiã” o ato de tirá-lo. Porque é a única coisa que eu faço. Porque eu chego em casa e antes de tirar as meias e o sapato vou logo tirando o sutiã daquele jeito que não precisa tirar a roupa primeiro, ou no máximo eu abro ele e deixo ali só pra constar. Porque machuca, dói, aperta, prende, é aquela coisa que eu nunca esqueço que estou usando, não é orgânica à minha pessoa e, AI. Cansei.

Cansei. É isso. Simples assim.

Eu conheço gente que não usa cueca pelos mesmos motivos que eu detesto usar sutiã, só que, por favor, não usar cueca é muito mais problemático, mas como os terceiros não percebem a falta da cueca, ninguém reclama. Só que todo mundo percebe a falta do sutiã, então todo mundo automaticamente julga, cochicha, reclama, intervém e eu decidi lutar contra isso. Romper esses grilhões, rasgar essas amarras e abrir esse fecho. Eternamente. Decidi que só vou usar sutiã quando eu me sentir altamente desconfortável em alguma roupa sem ele – o que acontece as vezes, porque há roupas com costuras no peito que coçam e nesses casos até sutiãs são mais confortáveis – e em todas as outras ocasiões ficarei sem.

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E se você for dizer “Ai, mas é sensual e você já não tem peitos, se não tiver sutiã ninguém vai querer você” eu vou responder que “se a pessoa me quiser ou não baseando-se nas roupas que eu uso ou não, é um babaca tão grande que prefiro manter distância”.

Eu escolhi esperar.

Quando envolve religião, a internet vira a coisa mais engraçada do universo.

É um tal de “Igreja opressora” pra cá “papa eu te amo” pra lá e gente que não tá nem aí com nada disso ali no meio, sem saber pra que lado olhar. Eu escolhi rir.

Rir porque sim, eu acho a Igreja opressora e concordo que ela atrasa o caminhar do mundo e que a gente poderia ter alcançado muito mais se não tivesse que ficar preso a dogmas e a uma moral que nunca foi reinventada e só dá dor de cabeça. Só que, ei, eu já fui católica. Por muito tempo. E eu com certeza teria ido pra JMJ se ainda fosse católica, porque eu gostava daquelas músicas e porque, como já diziam os Engenheiros do Havaí “o papa é pop”. Se eu paguei por um ingresso pro RIR pra um show que nem me interessa muito, nem faz sentido pensar que eu perderia um evento com o supra sumo da popularidade DE GRAÇA, no MEU PAÍS. Era muita gente, de muitos lugares. Era minha família ali, rindo, festejando e colocando mil e uma fotos na internet dizendo “por que você não veio?” e, bem, eu sei porque eu não fui. Eu tenho todos os meus motivos para isso. Mas passar um final de semana inteiro ouvindo um velhinho falar em uma língua arrastada na televisão da minha casa enquanto mamãe anotava cada palavra em seu caderninho e ficava gritando “tá vendo Mayra, o papa falou!” me fez lembrar de como era divertido ser católica. De como era legal essa coisa de nascer achando que a vida já tem um plano a ser seguida, que obrigatoriamente a gente vai casar e ter filhos e nunca mais vai fazer sexo, porque ele só serve pra procriação, quem é que ia querer fazer por outros motivos? É nojento. Essa coisa de nunca ver novela ou ouvir Britney Spears, porque não pode entrar em contato com coisas do “mundo”. Lembrei de como eu me arrependo horrores por ter queimado todos os meus brinquedos e filmes da Disney enquanto era criança, mas que na época eu me achei um máximo por ter me livrado do “demônio”. Lembrei-me também de como mais da metade do meu cérebro é ocupada por músicas de Igreja, que basta eu ouvir a primeira palavra que já sei a letra inteira e, na maioria das vezes, sei quem inventou a música e em quais momentos ela é geralmente utilizada. Eu gostava de ser católica. De ir à missa ao domingo e passar o dia inteiro fazendo tapete pra Corpus Christi. De chorar em toda sexta-feira santa e de passar 4h na missa de sábado, porque era divertido, porque era o certo, porque era assim que a vida devia ser.

Eu queria conseguir explicar pra minha mãe o que aconteceu pra que eu parasse de pensar assim. Recentemente resolvi colocar a culpa na quinta série, porque foi lá que eu aprendi pela primeira vez que a bíblia estava errada e que o mundo tinha surgido a partir de uma explosão e não da vontade de Deus e que se a bíblia podia estar errada nisso, também poderia estar errada no resto. Mas eu acho que o que me fez perder a “pira” na coisa foi a preguiça mesmo. Essa coisa de ter que acordar de manhã no domingo pra ouvir um velho falar um monte de coisa magistralmente escrita, mas pessimamente explicada e em seguida um monte de gente repetindo tudo, como se fosse um bando de robô que não precisa pensar porque tá tudo ali e ai. Era tudo tão chato e cansativo. Os mesmos argumentos sendo repetidos o tempo inteiro. A mesma coisa, sempre. E quando eu conseguia ficar acordada e prestar atenção no que o padre falava eu me irritava tanto com a quantidade de coisas sem sentido ou puramente desinteressantes que achava mais estressante ir até aquele lugar do que ficar em casa.

De repente eu parei de acreditar, parei de achar que aquele pedaço de pão era Jesus e passei a questionar a existência de Jesus. Ressignifiquei o livro chamado bíblia e decidi que eu não precisava de nada daquilo pra entender o mundo de um jeito produtivo, porque, no fim das contas, aquelas coisas eram apenas parte de uma cultura tão intrínseca à mim que eu jamais cheguei a questionar. Um dia eu sentei no meu quarto, peguei minha bíblia e toda a minha história e fui questionar cada parte que me lembrava e não encontrei sentido nenhum, em nada. Então eu desisti. Passei a ficar longe de todas as coisas que envolvam Igreja e religião porque sei o quanto machuca a minha família o fato de eu não ser nem um pouco interessada nessa coisa toda, nunca os questionei e me esforço ao máximo para não falar nada que os irrite, tentando respeitá-los, porque sei que não posso exigir isso deles.

Eis que hoje resolvi ser tolerante e passei dez minutos vendo o papa falando para os jovens e, enquanto mamãe concordava com a cabeça, minha tia dizia que ele era lindo e que estava certíssimo e minha prima de 12 anos concordava com tudo, sofri para conseguir prender meu riso. Porque nós, os humanos, chegamos ao cúmulo de um papa (que é chamado de “santo padre” desde que vira papa, mas depois que morre precisa passar pelo processo de santificação como qualquer outro, caso venha a de fato ser santo) ter que olhar pra cara dos jovens e dizer “eu acredito em vocês. Vocês precisam mostrar pro mundo que o amor ainda existe e que o casamento não está fora de moda. Vocês precisam mostrar ao mundo que ainda dá pra amar de verdade.”

É isso? Nos tornamos criancinhas o suficiente pra ter que ouvir de um papa – um velhinho extremamente ocupado com coisas mais importantes, como ser contra o uso de contraceptivos e o aborto – que somos capazes de amar? Só porque resolvemos aproveitar nossa solteirice e juventude antes de planejar casar, ter filhos e viver a vida chata que toda criança católica nasce se imaginando em? Por favor, senhor papa, isso não tem nada a ver com não saber amar. Pelo contrário, tem a ver a saber amar TANTO que escolhemos esperar estar maduros e independentes o suficiente pra conseguir levar isso adiante. Significa que amamos tanto a nós mesmos que não precisamos ficar procurando a outra metade da laranja para dividir a vida pra ver se ela faz sentido, porque ela faz sentido pelo simples fato de existir. Desculpe-me, eu sei que você é um velho fofinho que fala “xófens” de um jeito encantador, mas eu escolhi esperar – por um momento que, com fé, não vai chegar –  e enquanto isso aproveito a vida sem medo de ser feliz.

Desilusões

“Qual seu maior sonho?”

“Ficar em recuperação.”

“Sério? Eu fico todo bimestre desde a segunda série e não tem nada de legal nisso”

“Ah, eu nunca fiquei, parece divertido!”

“Então não estude e fique!”

“Mas eu não estudo e mesmo assim não fico.”

Acordar às 10h para ir à aula que começaria às 13h. Não, não era pra fazer tarefa de casa ou estudar para a prova, era pra ver os desenhos legais que passavam naquela hora. Almoçar, ir pra escola, prestar atenção nas aulas, conversar como se esse fosse o intuito principal do ato de “estudar”. Voltar pra casa, ler livros aleatórios, fazer a tarefa de inglês do meu irmão, brincar de barbie, tomar banho, arrumar as unhas, assistir novelas mexicanas, fazer as tarefas de casa e dormir.

Estudar de manhã. Tomar banho e café da manhã antes da aula, o que requeria acordar duas horas antes da mesma iniciar porque lerdeza matinal sempre foi um de meus nomes do meio. Ir pra escola e não entender nada porque não era mais uma escola católica e eu tinha que entender que o mundo foi o resultado de uma grande explosão e que eu na verdade fui um macaco. Mudar tudo que fui ensinada a acreditar com o intuito de ser capaz de passar de ano. Fazer péssimas amizades. Espancar pessoas. Manipular a diretora. Voltar pra casa e dormir a tarde inteira, acordar e assistir filmes ou conversar no MSN. Brincar de Barbie, escondida porque já não era mais criança.

Estudar de manhã, desistir do banho e ficar só com o café da manhã. Pegar ônibus com o irmão e frequentar a escola mais fácil da vida. Não prestar atenção em nada, ficar conversando e lendo coisas aleatórias. Ir bem sem fazer a menor ideia de como. Teatro, natação e aula de inglês. Novelas mexicanas, músicas e unhas pintadas cada dia com uma cor diferente.

Estudar de manhã em uma escola difícil, chegar atrasada quase todos os dias e conseguir ir bem contra tudo o que esperavam. Passar de ano com notas fenomenais sem nunca ter encostado em um livro, sabe-se lá como. Passar as tardes absurdamente encantada com o universo teatral e escrevendo mil e uma histórias, enquanto lia meus mais de cinquenta livros anuais e imaginava um mundo em que eu pudesse apenas fazer isso ao longo de todos os dias.

Estudar de manhã e ter preguiça de tomar café e de estudar e de prestar atenção. Dormir na aula pela primeira vez na vida e em seguida faltar aulas e mais aulas para ir a uma praça perto da escola acompanhar os “amigos errados”. Conseguir, finalmente, a primeira recuperação da vida, na matéria que sempre foi a mais odiada por não fazer nenhum sentido, afinal, qual a utilidade de saber de que uma célula é formada? Passar por essa recuperação e virar freguesa das mesmas, que me acompanharam por todos os bimestres ao longo do ensino médio inteiro. Pegar duas recuperações finais por causa de um décimo e ter vinte dias a menos de férias por isso, sendo motivo de piada do professor que jamais acreditou que era eu naquela situação. “Você desistiu de estudar?” “Não! Eu nunca estudei!”

Ter 14 anos e trocar e-mails com sua melhor amiga, no auge da revolta falar que “tô tão puta que nem vou estudar pra essa coisa de vestibular e aposto que mesmo assim eu passo!” e receber bronca e uma resposta “quero ver você falar isso daqui a três anos” e eu não falei. Mas também não estudei. Eram oitenta perguntas e eu precisava acertar trinta pra passar, era impossível que eu fosse tão burra assim. Não estudei e passei em uma boa posição, porque ENEM – essa prova linda – existe e porque eu escrevo mil e uma histórias e afins desde que tinha por volta de onze anos.

Faculdade. 120 páginas em textos para serem lidos em dois dias na primeira semana, sendo um dos textos de Focault, aquele filósofo que eu nunca entendi. Continuei sem entender e não entendo até hoje, diga-se de passagem. Li todos os textos e fiz todas as provas após estudar um monte. Greve. Quatro meses longe daquele universo. Quando voltei nada mais foi o mesmo. Nunca mais consegui ler um texto x para a aula de amanhã. Passei a acumular tudo para supostamente ler na véspera da prova e quando a véspera da prova chegava eu olhava pras quase mil páginas acumuladas, chorava, lia meu caderno e tentava encarnar alguma pessoa inteligente que saberia responder àquelas perguntas.

E eu passei. Em todas as matérias. Fiz vários trabalhos durante a madrugada porque tinha esquecido da existência, demorei meses a fazer outros porque queria que fossem perfeitos, esqueci de fazer alguns, fiz outros baseando-me em resumos dos textos que encontrei na internet. Tudo mal feito. Tudo nas coxas. Tudo vergonhoso. Tudo pra fazer a pessoa que fui aos treze anos morrer de vergonha.

Aí eu reprovei.

É isso.

Oi, eu tenho dezenove anos e acabo de reprovar em uma das matérias mais fáceis que já tive a oportunidade de fazer porque sou incompetente e ao invés de prestar atenção nas aulas eu dormi. Dormi, saí para passear, fui para o laboratório de informática, fiquei na cantina, no pátio, na biblioteca, em centros acadêmicos que nem eram do meu curso, em casa, ou lá mesmo, mas com a cabeça em qualquer outro lugar. Reprovei porque a primeira prova da matéria foi no mesmo dia que a prova da matéria que envolve matemática e, dado meu histórico de ensino médio nada confiável neste quesito, resolvi que iria estudar para esta. No fim, a prova que envolvia matemática era mais fácil que a outra porque a matéria teria 5 avaliações, enquanto que a outra teria apenas duas. E daí eu fui pessimamente mal na primeira prova e fiquei com preguiça de estudar para a segunda, porque minha procrastinação e preguiça são agudas o suficiente para eu surtar ao ler a primeira frase de um texto de uma matéria que eu sei que nada sei e que não vou passar mesmo que eu tente, então, bem, pra que tentar? E daí eu nào tentei. Não estudei. Fiz a prova de qualquer jeito. A matéria é importante demais para que eu passe sem saber nada, pensei, melhor fazer de qualquer jeito e refazê-la decentemente algum dia. Mamãe concordou com minha linha de raciocínio. Eu deveria estar aliviada. Tudo deu certo. Eu realizei meu sonho. Eu reprovei. Eu. A pessoa que tentou suicídio por ter tirado 6,8 numa prova que valia 7 porque isso faria com que eu não ficasse com 10 na média. Eu. Atingi o nível de desprendimento para com notas que sempre almejei e simplesmente reprovei. Porque eu quis. Porque eu não quis. Porque tive que. Reprovei. É isso. Pronto. Satisfeitos?

Podem rir da minha cara agora. Ou não.

Enquanto passa pela cabeça dos que me conhecem que eu devo estar absurdamente destruída e que “ah, agora ela vai levar a vida a sério”, não. Eu passei a tarde dormindo, depois de ter comido um monte de chocolate e estou prestes a ir comer de novo e a terminar de ler um livro legal para, quem sabe, durante a madrugada terminar algum dos mil e um trabalhos que tenho que entregar na semana que vem. Ok. Reprovei em uma matéria, não quero reprovar em todas, mas não preciso ser super nerd. Não preciso ler todos os textos, saber todas as coisas e ter notas impecáveis. Eu não preciso provar pra ninguém que sou capaz de alguma coisa, eu prefiro a ilusão de que talvez se eu me esforçasse eu seria a melhor aluna do mundo, mas como não me esforço devo contentar-me com o comum. Qual o problema no comum?

Sim. Estou chateadíssima por ter reprovado, porque eu sempre quis reprovar, mas tinha que ser numa matéria difícil pelo menos. Duvido que eu consiga me concentrar para fazer decentemente algum dos meus outros trabalhos porque isso vai ficar martelando na minha cabeça ad infinitum e eu vou me deprimir e vou chorar e me entupir de chocolate e agir como se nada tivesse acontecido enquanto dou risinhos nervosos.

Cadê os abraços e as palavras amigas?