Consider me a satellite, forever orbiting…

Acho que nunca vou encontrar um personagem que me capte tanto quanto Christopher McCandless. É quase uma obsessão. Já perdi a conta das madrugadas não dormidas às quais se fez necessária mais uma vista ao filme sobre sua história, enquanto o coração morria dentro do peito por pensar que eu deveria saber pelo menos esse livro de cor. E não sei. Não sei quantas noites passei chorando por ele ou pelo que ele desperta em mim ou por tudo que eu sinto, sonho e reflito a cada vez que lembro que um dia o universo foi habitado por um ser humano de tamanha magnetude. É uma saudade imbatível de algo que eu nunca vi ou vivi e nunca verei ou viverei. Uma dor absurda ao olhar ao redor e perceber que, infelizmente, o mundo não é feito desse tipo de loucos maníacos, dispostos a abandonar a sociedade e viver sua própria vida. A história de McCandless pra mim é  impossível de ser descrita ou explicada. E eu decidi que vou passar minha vida inteira procurando alguém com quem eu ache que deva compartilhar a felicidade. Porque eu decidi que ia tentar entender o Chris e eu decidi isso quando eu tinha catorze anos e nunca tinha lido sequer “O chamado da floresta” e não fazia ideia de quem era Thoreau. E acho que estou conseguindo.

Todas as vezes que acabo em algum canto repleto de natureza, pedras e pouco sinal de civilização, não resisto em subir nas pedras, abrir os braços e sentir o infinito que a Sam, lá no livro do Charlie (que eu sempre esqueço o nome) vivia se referindo a. E eu descobri que não tem a menor graça se sentir infinito sozinho. Não porque seja impossível aproveitar uma felicidade instantânea enquanto estamos solitários, mas porque não é tão infinito se não há alguém do seu lado, sentindo a mesma coisa e rindo da mesma coisa com você. E as vezes a pessoa em si não é significante, o importante é ter alguém. E é por isso que a gente abraça o primeiro estranho que está ao nosso lado quando estamos no meio de uma praça e descobrimos que passamos no vestibular, por exemplo, porque a gente precisa compartilhar. Fomos ensinados que é assim que se vive. E por mais que Mc Candless tenha lutado arduamente para tentar romper com a construção cultural que o cercou, ele modificou a frase do Tolstoi e decidiu que a felicidade só seria real quando compartilhada.

Enquanto Tolstoi propõe que a gente só é feliz quando vive pra outrem, Chris propõe que a gente é feliz e ponto. Que a gente consegue atingir um nível de introspecção benéfica e auto conhecimento que se tornam mais imprescindíveis para nossa existência do que a existência de qualquer outra pessoa. Não que a gente deva virar narcisista e passar o dia inteiro se achando o máximo, mas Chris enxerga que há um ponto de “máximo” em todo mundo e que a gente nunca percebe, porque estamos sempre atordoados com mil e uma preocupações, pressões e problemas inventados para suprir nossa ociosidade e é justamente isso que causa nossa sensação terrível de solidão e de falta de afeto e de laços duradouros, porque a gente passa tanto tempo sendo levado a crer que precisa achar um “outrem” para mirar nossa felicidade em que acaba por esquecer de nós mesmos. E o Chris nunca soube quem ele era e ele precisou de uma epopeia tenebrosa pra descobrir isso e mostrar pra mim que eu posso e que eu consigo. Mesmo que meus pais a vida inteira tenham dito que não, que eu jamais conseguiria andar muito ou ir muito longe e que eu tinha que aprender a dirigir logo, pros meus pés não doerem e que shoppings eram muito melhores que parques, porque eu não me sentiria tentada a andar de bicicleta ou pular corda ou fazer qualquer uma das outras coisas que eu “não posso”.

Se um cara aleatório encheu uma mochila com livros, um saco de arroz, uma troca de roupa, um sapato de chuva e uma arma de caça e foi pro meio do nada, absolutamente sozinho e ainda assim sobreviveu por um bom tempo, escreveu um diário incrível e conheceu pessoas tão maravilhosas que fizeram com que o ato de sair de casa, largar os pais sem dar notícia, queimar todo o dinheiro e abandonar o carro valessem a pena, quem é que disse que eu não posso? Por que eu não poderia? Se há limites na vida, é para serem explorados. Se há perigos, é para serem desafiados e se há desafios é para serem enfrentados. Mesmo que a gente perca. Mesmo que a gente nunca encontre alguém para compartilhar a nossa felicidade. Mesmo que a gente tenha que se contentar com nós mesmos e nossa magnetude eternamente invisível perante os nossos olhos. Mesmo que a gente chore no fim da noite se sentindo um fracasso. Porque viver é sobre tentar. Viver é sobre se sentir infinito. Viver é sobre compartilhar. Viver é sobre estar absurdamente cansado e não conseguir dormir por não conseguir parar de pensar e de chorar pelo simples fato de se… viver.

Jamais conseguirei agradecer meu Supertramp à altura e já me conformei com o fato de essa ser a maior frustração da minha vida, junto com minha maior paixão não realizada e a maior decepção por um abraço que jamais poderá ser dado. E eu nunca vou cansar de falar sobre ele, de lembrar dele e de aprender com ele. Mais uma vez, obrigada Chris.

…I knew all the rules, but the rules did not know me… Guaranteed.

Não Nasci pra V1d4l0k1ss3

Essa é a conclusão chegada pela minha pessoa, que, após muitas tentativas, descobriu ser uma amante devota de sua cama, seus chocolates, livros e seriados. E conversas madrugueiras com os amigos através de bate-papos. Ou um cineminha, dormir na casa da pessoa, ir a um café ou restaurante ou sorveteria e, nos dias empolgantes, uma festa muito emocionante – porque precisa ser muito emocionante pra me fazer ter vontade de ir.

Sempre fui uma pessoa comportada, só sabem que estou em casa porque as vezes vou ao banheiro. Nunca fui dessas que falta aula no ensino médio pra beber e fumar, pelo contrário, eu era a chata que brigava com os amigos que faziam isso. E que quando faltava aula era pra dormir, ou pra conversar no MSN, enquanto eles bebiam e fumavam e dançavam nas máquinas de shoppings.

Quando a gente é criado sossegadamente, em uma casa na qual seus pais ficam o dia inteiro em e sua única saída é brincar de barbie sozinha no seu quarto ou assistir desenho, dormir ou ir conversar com sua avó, qualquer coisa é vida lokisse. Tirar foto em máquina com filme sem avisar os pais é um risco tremendo, se esconder embaixo da cama pra ver quanto tempo demora até sentirem sua falta, uma tremenda aventura. Sair de casa para ir à escola e parar no bar para comprar bala, é eletrizante. Fugir para a casa de algum conhecido, só pra assustar os pais, é a coisa mais divertida do mundo. E não adianta achar que conforme você vai crescendo as coisas vão mudar, porque elas não mudam.

Aos treze anos eu comecei a ler “O Diário da Princesa” e presenciei Mia Thermopolis tentando (e conseguindo) se descobrir como pessoa, passando por um intenso processo de auto-atualização e conseguindo ser alguém na vida. Resolvi tentar fazer o mesmo. Faz seis anos que tento desconstruir e reconstruir o meu ser todos os dias, viver em um constante processo dialético, esperando que algum dia eu faça sentido e, quando olho para os treze anos, ainda sou igual. É claro que há uma série de novas experiências que me construíram e que hoje eu consigo manter uma discussão antropológica por um tempo bem maior do que nos treze anos, onde eu sequer sabia o que era antropologia. Mas ainda sou a pessoa que espera que a vida ocorra como a da Mia e que de repente tudo se encaixe e faça sentido. E talvez eu vire a Cassie, que na sexta temporada de Skins já é adulta e ainda está esperando algo acontecer na vida dela pra dar uma guinada.

Aos dezenove anos muitas coisas mudaram, mas as vida lokisses continuam banais. Continuo a estranhar os que conseguem passar o dia inteiro em um bar e no dia seguinte ir para a aula, os que usam mil e um tipos de drogas e ficam alucinados e divertidíssimos, os que saem todas as noites para lugares diferentes e legais, os que estão sempre rodeados de pessoas e sorriem e parecem felizes. Porque nada disso faz sentido na minha cabeça, parece desperdício de tempo e se é pra desperdiçar, que seja com bons sonhos. Minha vida é ir pra aula e voltar pra casa, pra dormir, pra conversar com as amigas que moram longe, pra planejar invasões à casa das que moram perto e nunca falam com a gente, ou simplesmente pra ver o episódio novo de uma das vinte séries que me vejo acompanhando no presente momento, e eu amo a minha vida! Sou uma pessoa chata. Uma velha ranzinza que a idade ainda cabe no dedo. Ainda vejo o mundo como quando eu tinha treze anos, ainda corro pra cama da mamãe quando a noite está difícil e não me vejo em posição de trabalhar ou fazer algo responsável. E não é porque sou triste, eu sou tão feliz, sorridente, empolgada, contente, mas não nasci pra ser vida loka. É tão mais fácil viver aqui, nessa posição de pessoa metida que acha que sabe muito sobre o funcionamento do mundo e prefere não se meter para não se contaminar e que acaba tão contaminada quanto qualquer outro.

Minhas vida lokisses são andar sozinha à noite, voltar a pé de madrugada acompanhada por semi-conhecidos, ficar na faculdade o dia inteiro fazendo qualquer coisa menos estudar, passar a madrugada pré-prova acordada vendo seriados e nem encostar na matéria, gastar metade do salário em livros que nunca serão lidos e a outra metade em produtos capilares. Fazer experiências malucas com o próprio cabelo, conhecer os outros campus universitários, viajar para lugares novos e ficar na casa de gente que nunca vi ao vivo. Acordar de madrugada com vontade de tomar banho e tomar. Assistir True Blood na tv da sala com gente em casa e coisas do tipo. Aventurar-me nas vida lokisses comuns exige um preparo psicológico descomunal, ou um ataque impulsivo muito forte. Eu sou presa à mim mesma. Ao meu auto-controle (ou à tentativa de fazê-lo existir). Não consigo me imaginar descontrolada e insana por aí, porque mesmo quando fico insana, estou completamente ciente disso e, pra mim isso não é vida lokisse. Vida lokisse é entrar num bar às 14h e acordar no outro dia, pelada, na casa de um estranho que você nem sabe o nome. Não consigo me ver assim. De maneira nenhuma. E eu queria. Do mesmo jeito que sempre quis ficar em recuperação, sempre quis ser vida loka.

Esse ano resolvi tentar. Encarnei o Charlie que tinha em algum lugar do meu ser e decidi parar com essa frescura de ser um espectro que ronda a sociedade, resolvi que ia virar gente em alguns aspectos e permiti-me experimentar uma série de coisas que a Mayra dos treze anos morreria de preguiça só de imaginar. E não me arrependo. Mas a minha cama é tão mais legal, minhas músicas e danças sozinhas, os filmes no cinema que está sempre vazio, mas que a pipoca está sempre boa, os abraços inesperados dos amigos que continuam por perto mesmo sabendo que eu vou negar todos os convites porque vou preferir sentir a maciez do meu lençol…. não faz sentido acordar todos os dias, se arrumar lindamente e sair por aí pra cumprir roteiros sociais que não te apetecem, só porque você acha que tem que fazer os outros felizes. Eu só quero um chocolate quente e um livro, posso?

E não é que eu não goste de festas, shows ou simplesmente de conviver. Eu gosto de tudo isso. Eu sou gente. Eu adoro contato físico, compartilhamento de histórias e criação de novas histórias. Mas depois de, no máximo, quatro horas de convívio social, tudo que eu consigo pensar é no silêncio do meu quarto, no qual o barulho é o da rua e o do teclado incansável do computador. Quando a quarta hora chega, encarno a pessoa insuportável que fica repetindo incansavelmente “vamos embora?” até que alguém finalmente me leve embora, ou que eu simplesmente vá. Porque não tenho paciência. Porque já é demais. Porque quero ficar sozinha, refletir, dormir e ser eu! Porque eu só sei ser eu quando ninguém está vendo. Porque eu tenho vergonha do mundo inteiro. Porque as pessoas acabam por me irritar de algum modo e eu só preciso desesperadamente fugir.

Esse é um texto de contentamento. Decidi aceitar o jeito “Mayra” de ser, essa coisa mole, inconstante, instável, esquisita e ao mesmo tempo tão necessitada de se fazer normal e compreendida. É um processo demorado, difícil, lento, mas talvez seja assim que a gente consiga atingir a auto-atualização da qual Mia sempre falava. Talvez seja assim que a gente vire gente, quando a gente simplesmente se aceita. Bom, essa é a Mayra, ela gosta de experimentar as coisas, porque não quer passar pelo mundo com algo muito legal nunca feito, mas ela não permanece fazendo as coisas. Ela não permanece fazendo nada. E nada, nem chocolate ou episódios novos de séries, pode competir com sua cama. A vida lokisse da Mayra é ficar em casa dormindo a vida inteira, enquanto os outros fazem todas as loucuras que julgam necessário.

Pressure

Recentemente entrei em contato com uma personagem genial que tinha como lema de vida o pensamento de que “tudo é mais feio quando visto de perto” e por alguns momentos acreditei nisso, mas logo a ideia se esvaiu em minha mente. Afinal, o que é “feio”? É ter algum defeito? Não cumprir aquele papel de perfeição que o mundo nos faz esperar de toda e qualquer coisa? É gerar alguma decepção e frustração? Se for assim é verdade. Tudo é feio quando visto de perto. De perto todas as nossas máscaras caem e a gente prova que não somos os super heróis ou super heroínas que demonstramos na maior parte do tempo. Eu sempre tive a filosofia de que não existe o “normal” porque ninguém realmente segue um padrão específico e semelhante, por mais que de longe todos nós possamos ser classificados pelas mais diversas categorias, quando vistos de perto somos apenas um reflexo de tudo aquilo que passamos em nossas vidas. Somos o que o mundo construiu, enquanto nós construíamos nosso próprio mundo.  Então sim. Todos nós somos feios vistos de perto. Todos somos anormais. E é por isso que somos tão belos e é por isso que ainda há algum sentido nessa coisa de “viver”.

Querendo ou não, a gente gosta de desvendar os universos alheios, de tentar entender como é que os outros enxergam o mundo. A gente vive julgando pessoas baseando-se em nossos próprios preceitos, mas com um pouquinho de esperteza que surge do além estamos nós percebendo que dentro da realidade daquela pessoa tudo que ela fez faz sentido pra ela e então a gente simplesmente perde os parâmetros para julgar e se vê obrigado a cuidar da própria vida, sem desmerecer a de ninguém, mesmo que não concordemos com muitas das coisas que os outros fazem. E isso nos torna mais lindos. Mesmo que sejamos feios quando visto de perto. Mesmo que sejamos feitos de papel.

Eu acredito que de fato temos uma imagem feita de papel, todos nós. A gente se constrói em uma via de mão dupla, sendo a primeira mão aquela que a gente mostra para toda e qualquer pessoa e a segunda aquela que a gente é no nosso íntimo e que só quem se aventura na arte de nos conhecer chega um pouco perto de desvendar, embora nem nós mesmos consigamos de fato perceber essa face da nossa própria construção.  A questão é saber aparar as arestas dessas duas vias e tentar interseccioná-las para que não viremos completos babacas duas caras que não são nada enquanto tentam ser absolutamente tudo.

A gente vive em um mundo onde o ethos social tem muito mais importância do que aquilo que realmente somos ou queremos ser. Vivemos em um universo em que ninguém se importa de fato com o que a gente pensa, ou poucas gentes o fazem. Lidamos diariamente com um punhado de gente que só está interessada em saber da nossa vida para que em seguida possa falar de sua própria, a fim de provar para si mesmo que sua vida não é assim tão ruim e ter a ilusão de estar sendo ouvida. Mal sabem as pessoas que pouquíssimos são os que de fato querem ouvi-las. Os outros só estão ali porque têm medo do silêncio. Porque não querem se sentir sozinhos. Porque acreditam na ilusão de que serem iludidos com verdades alheias que por muitas vezes são falsárias é melhor do que viver a própria vida. E nós ficamos aqui. Perdidos. Transformamo-nos em Manequins largados em vitrines de loja, prontos para sermos exibidos, mostrados, compartilhados e com barreiras infinitas para a arte de sermos ouvidos, compreendidos ou amados.

“We accept the love we think we deserve” disse Charlie em “The Perks of being a Wallflower” e depois de muito procurar por aí e de muito refletir eu finalmente descobri qual é o amor que eu acredito merecer. É aquele que não me super-estima ou sufoca, que entende minhas limitações físicas e psicológicas. Que sabe que reagirei abruptamente mal a elogios e coisas fofas porque me sinto inapta a ser amada, porque acredito que não sou uma boa pessoa, que não mereço tempo alheio desperdiçado comigo, que vou morrer logo e que deveria ser usada apenas para um par de risadas e nada mais. Eu acho que não mereço amor. E é por isso que me encanto por pessoas que não demonstram gostar de mim, mesmo eu sabendo que elas gostam. E é por isso que considero como incógnitas todas aquelas que eu gosto e vivem dizendo que por mim sentem apreço. E é por isso que eu surto. É por isso que eu nada sei.

Se sou tão papel assim, como é que consigo ter um pouco de senso de carne e osso de vez em quando? Como é que posso ser um objeto passível de receber sentimentos bons de terceiros se é sempre essa luta tão infernal para conseguir um pouco de apreço próprio?

tpobaw